Posts marcados com filmes

A morte de um cinema de rua

Rafael Aguinaga para a Piauí:

Por conta própria, ao longo de oito anos nós já tínhamos recebido cerca de 15 mil crianças vindas de escolas municipais. As sessões sempre aconteciam de manhã, fora do horário comercial, e a gente combinava tudo com as professoras dessas escolas. Funcionava muito bem. Nós juntamos os dois patinhos feios da indústria – o documentário e o cinema de rua – com propósito educativo. Isso deveria ser replicado por outros cinemas no Brasil. Há um monte de documentários espetaculares que são ignorados pelo circuito convencional. A gente passava filmes sobre o Rio São Francisco, sobre a Amazônia… Só filmes brasileiros. Nesses dias eu fazia questão de operar o projetor e receber os alunos pessoalmente no cinema.

E agora esse projeto tinha virado política pública. É o que sempre deveria ter sido. A gente começou a receber um subsídio de 10 mil reais por mês da prefeitura. Um dinheiro modesto, que servia para pagar o aluguel da sala, basicamente. Depois que assinamos essa parceria, a Secretaria de Direitos Humanos pediu que a gente também fizesse sessões para idosos e adolescentes que moram em abrigos. Foi muito legal. Nossa rotina passou a ser assim: crianças de manhã, idosos e adolescentes à tarde. À noite, muitas vezes fazíamos saraus e apresentações de música na sala de cinema.

Porto Alegre não tem cinema de bairro, mas só no centro da cidade tem três cinemas de rua. Um deles, o Vitória, já fechou no ano passado. As cinematecas do Capitólio e Paulo Amorim estão fechadas por conta da pandemia. São as salas que eu frequentava no meu dia-a-dia. Eu morei a algumas quadras da CCMQ e, naquele tempo, eu ia lá religiosamente depois do trabalho, de terça à sexta.

Esses espaços são muito especiais, como pequenos oásis onde a cultura pode agir por conta própria, e tem sido duro ver o descaso do governo em oferecer suporte à elas nesse momento — e, no caso do Joia, a facada nas costas que fechou a sala de vez.

O trailer de MANK, o novo filme de David Fincher

MANK, o novo filme de David Fincher depois de um hiato de seis anos desde Garota Exemplar, finalmente recebeu um novo trailer. E se eu já tava com saudade de ir no cinema ver um filminho nesse isolamento social, esse trailer simplesmente me matou.

A textura da imagem, a forma que Fincher transforma o enquadramento, a montagem precisa, o tratamento de som… que saudade de ver um filme desse cara.

Chega na Netflix em 4 de dezembro, e em novembro em “cinemas selecionados”, se é que vamos poder ir neles até lá.

O Coração É Um Inadimplente Sem Esperança

Meu amigão Leonardo Michelon lançou hoje um curta que ele fez nessa estação chuvosa que a gente tá tendo aqui no sul.

O Coração É Um Inadimplemte Sem Esperança é curtinho, um pouco mais de dez minutos, mas captura muito o que eu gosto no trabalho do Leo, que compreende muito bem o sentimento de cidades pequenas (ou do interior), onde as coisas acontecem em um outro ritmo, diferente daquele da cidade.

O Coração… é ainda mais especial porque é um trabalho que usa bastante da influência literária onde esse ritmo prevalece: os contos góticos de Carson McCullers e Flannely O’Connor, ou o minimalismo de Raymond Carver. São autores que prezavam pela atenção ao detalhe, que revelava uma realidade bem íntima dos seus personagens. O Coração… captura algo muito semelhante ao mesmo tempo que é bem específico aqui do Rio Grande do Sul, onde essa chuva que lava por semanas parece trazer o peso da existência consigo.

As Mortes de Dick Johnson estreia hoje na Netflix

O documentário anterior da diretora Kirsten Johnson, o belíssimo Cameraperson, era um filme ensaio sobre suas memórias enquanto observava sua mãe perder as dela. Era ao mesmo tempo um filme íntimo (um recorte da carreira da diretora como fotógrafa de outros documentários) e abrangente (as imagens dos outros documentários iam desde imagens da natureza até o nascimento de uma criança no meio de um hospital de campanha).

O novo documentário de Johnson que estreia hoje na Netflix, As Mortes de Dick Johnson, é sobre seu pai, e uma tentativa dela de tornar a morte inevitável dele em algo divertido ou até mesmo capaz de enganar o tempo à seu favor. Eu mal vejo a hora de sentar na frente da TV hoje de noite e assistir, Cameraperson é o tipo de filme poderosíssimo que me faz ficar interessado por tudo o que Johnson quer fazer — e As Mortes de Dick Johnson parece ser esse tipo de filme também.

O trailer de Duna é incrível

A Warner finalmente divulgou o trailer1 da nova versão de Duna, e caramba eu tô empolgado.

Essa versão é dirigida por Denis Villeneuve, do excelente Blade Runner 2049 e do magnífico A Chegada. Eu sou um fã do trabalho mais recente dele (não gosto muito dos pseudo-Nolan que ele fez no início da carreira, mas até lá tem um potencial), e quero muito ver pra onde ele vai levar o material.

Eu tô há tempos procurando um universo de ficção científica pra afundar minha cabeça. O cinema tem O Senhor dos Anéis pra fantasia, mas fora Star Wars não tem uma ópera espacial grande o suficiente pra me satisfazer. O Duna do David Lynch é instigante (mais instigante do que bom, vale dizer), quero ver o que o Villeneuve faz com o quádruplo do orçamento.

Agora, tá com uma carinha de que vai ser um outro fracasso de bilheteria como BR2049 foi (Villeneuve trabalha num ritmo lento demais porque gosta muito dos planos que encena), então nem vou me animar muito pra uma sequência que já foi meio que confirmada.

Esse é um filme que eu quero muito ver no cinema. Villeneuve trabalha numa proporção gigante, sempre, e vale a pena uma imagem maior que o natural. Eu realmente espero que a Warner atrase o lançamento (que, por enquanto, tá previsto pra dezembro). Não façam como fizeram com Tenet.

  1. Particularmente eu gostava mais de quando os trailers simplesmente surgiam na internet, sem muito aviso prévio. Criava aquela surpresa e excitação de ver o que um filme ia ser pela primeira vez. Há tempos já não é assim — esse trailer de Duna foi anunciado há umas semanas já e a Warner ficou criando “hype” pro seu “lançamento” como se ele fosse o filme em si. Pra mim é surreal que um trailer por si só não seja capaz de criar conversa sobre um filme mais. 

Tem um monte de filme bom disponível de graça no Kinoforum

Com um extenso catálogo de 212 filmes, o festival já começa a disponibilizar os filmes. A ideia é emular virtualmente as consagradas sessões de curtas-metragens do evento, disponibilizando-as a cada 24 horas do dia 20 ao dia 27 de agosto - do dia 27 ao dia 30 o catálogo deverá estar inteiramente disponível possibilitando o acesso e navegação entre todas as sessões.

O que caracteriza a escolha dos filmes deste ano, e a sua divisão temática através dos programas e mostras, é a ideia da busca de um olhar sobre o agora. A edição online de 2020 foi planejada para contemplar essas novas telas e novos públicos que o festival deve encontrar neste novo formato, seguindo com o compromisso de apresentar visões plurais sobre as realidades do mundo e reforçando a importância da cultura e do audiovisual neste momento.

Com filmes de 46 países e 5 continentes é possível termos um rico e interessante panorama das histórias curtas que querem ser contadas hoje no mundo. A programação está dividida em Mostra Limite, Mostra Internacional, Mostra Latino-Americana, Programas Brasileiros, Mostra Infantojuvenil, Programas Especiais e Atividades Paralelas.

Nos Programas Brasileiros temos a Mostra Competitiva, que reúne os 12 filmes de 5 estados brasileiros elegíveis às premiações do festival; e a Mostra Brasil, que conta com 29 títulos de 13 estados, divididos em 7 sessões: “Fabulações do Agora”, “O Céu da Terra”, “Relatos de Nós”, “A Corrida do Amor”, “Cronos e Kairós”, “Imagens do Mundo” e “Público e Privado”.

A Mostra Internacional deste ano conta com 41 curtas de 26 países diferentes, trabalhos estreantes e outros que já rodaram os principais festivais de cinema do mundo, entre os realizadores estão nomes consagrados como Jonathan Glazer e Yorgos Lanthimos, mas também estreantes - além da Mostra Internacional, outros filmes estrangeiros estão disponíveis em alguns programas especiais como a Mostra Limite, seleção concentrada em filmes que inovam na linguagem e abordagem; também nas sessões “Novas Áfricas”, que buscam uma ponte entre o Brasil e a África através do curta-metragem, com trabalhos realizados por cineastas pan-africanos; na sessão “Terror Na Tela”, que conta com alguns filmes brasileiros e internacionais do gênero de horror; além das Sessões Mercosul em Curtas e da Mostra Latino-Americana, que trazem uma seleção de trabalhos realizados no continente.


Festival Internacional de Curtas Metragens – 31º Curta Kinforum
de 20 a 30 de agosto
Edição Virtual
Programação pode ser acessada em: https://2020.kinoforum.org/programacao-completa

Acesso pelo endereço kinoforum.org.br, ou pelos aplicativos innsaei.tv (para celulares, tablets e smart TVs, disponíveis no Google Play e na Apple Store). Pra ver na TV, você pode usar o AirPlay ou o Chromecast. Mais informações na Associação Cultural Kinoforum.

Júlia, no MUBI

Eu assisti Julia há alguns anos e ele nunca saiu da minha cabeça porque Tilda Swinton entrega uma daquelas atuações em que tudo o que ela faz fica marcado na mente. A forma como ela abraça o a criança no meio do deserto, ou como ela olha ao redor… Eu não lembro muito bem do filme, então fiquei empolgado pela oportunidade de rever ele agora: ele entrou na programaçào do MUBI hoje e fica por lá por um mês.

Essa é uma bela vaca.

Retrato de uma vaca pequena

Ela se chama Evie, e essa é a foto que fez Kelly Reichardt escolher Evie pra ser o animal título do seu filme mais recente, First Cow.

Eu ainda não vi o filme (eu quero assistir ele hoje de noite, depois de gravar o nosso primeiro episódio do Pãodecast), mas eu tava lendo esse artigo na Polygon sobre como Evie foi escolhida por Reichardt, e me lembrei de outro filme que gostei muito, A Rota Selvagem, protagonizado por um cavalo e um menino.

O que me chama a atenção, tanto em cavalos quanto em vacas, é esse olhar profundo que eles têm. Eles são animais grandes e vivem com a gente por tanto tempo que a gente começa a assumir algumas suposições sobre esses olhares. Eu sempre achei o olhar de um cavalo mais que humano. São olhos grandes mas tào profundos. E essa foto da Evie me fez perceber que isso também vale para vacas.

Segundo A24, a distribuidora de First Cow nos EUA, Evie teve uma filha no início do ano.

Belas, belas vacas.

O trailer de Godzilla 2 é fantástico

Ontem eu assisti o trailer de Godzilla: King of the Monsters, a continuação do filme de 2014 que eu nunca assisti.

Esse trailer não sai da minha cabeça. Eu não sei se é o Clair de Lune que eles usaram (muito) bem, mas eles capturam aí justamente o que é fantástico em Jurassic Park e que ninguém encontrou desde então: aquele sentimento de fascínio de ver esses monstros gigantes com seus próprios olhos. Aquele plano do monstro abrindo as asas e brilhando é uma das coisas mais empolgantes que eu já vi.

Os Últimos Jedi de Harry Potter

Ontem de noite eu não tinha muita coisa pra pensar (ou melhor, eu devia estar pensando num post que eu tô escrevendo mas não tava conseguindo evoluir) e fiquei fazendo equivalentes entre Star Wars e Harry Potter.

Se a gente for parar pra pensar a atual franquia de Harry Potter, essa ridícula Animais Fantásticos & Onde Habitam sofre de vários problemas que acometeram a trilogia de prequels de Star Wars. Há uma tentativa muito errada de “conectar” as várias histórias que na série original nos davam aquela impressão de que esse era um mundo extenso e muito além da história do Potter, fazendo todas as histórias do passado que a gente ouvia serem muito mais próximas uma das outras, com umas conexões meio bobas. Também tem o uso de personagens que são só citados, e como eles geralmente são muito menos interessantes do que as histórias que nós imaginávamos deles. Tem uma troca de cenário (Estados Unidos não é nem um pouco tão interessante quanto a Inglaterra mágica). E tem uma autora tão afundada na própria cabeça que não consegue ver que ela está minando tudo o que havia de mais lindo na série — e assim excluindo uma parte de seus leitores no caminho.

Eu sou daqueles que acha que Os Últimos Jedi talvez seja o melhor Star Wars já feito, muito porque desvirtua tudo o que a série fazia até ali e realmente expande aquela galáxia, tornando ela muito maior e mais imprevisível do que todos os outros filmes antes fizeram (ok, talvez O Império Contra-Ataca tenha feito isso). É um novo fôlego pra uma fórmula batida, e se a Warner decidir dar novas mentes pra uma possível terceira série de filmes nesse mundo do Harry Potter, pode ser pra melhor. Eu mal posso esperar um Os Últimos Jedi no mundo de Harry Potter.

Os filmes de Cannes que eu quero ver, edição 2018

Todo ano eu fico meio assim com Cannes, porque lendo a lista dos selecionados nada parece muito empolgante. “Ah, um novo do Von Trier! Quanto será que ele vai me irritar agora?” foi a reação mais forte que eu tive ao conferir a lista no início do mês. Agora que o festival acabou, que o Notebook já viu de tudo e postou notas sobre eles, eu começo a ficar interessado nas coisas tudo e preciso correr atrás.

Pra me organizar e acompanhar esses filmes, aí vai a lista do que eu quero ver de Cannes esse ano:

Competição:

  • Everybody Knows: o novo do Asghar Farhadi com Pelenope Cruz. Abriu o festival com críticas mornas, mas eu não consigo não me empolgar pra um novo do Farhadi. Ou da Penelope Cruz. Parece uma delícia de assistir.

  • O Livro de Imagens: eu lembro quando fiquei sabendo que Filme Socialismo tinha sido selecionado pro Un Certain Regard e tinha me deixado completamente fascinado pelo trailer. Eu vi o filme com o João no laptop no meio de uma aula de programação. Mal posso esperar pra ver esse (que levou uma Palma especial???).

  • Sorry Angel: eu só li sobre esse filme hoje, mas é um conto gay do Cristophe Honoré que não fez muito barulho. Exatamente o meu tipo de filme.

  • Shoplifters: assistir o vencedor da Palma é sempre obrigatório. Esse ano que parece que eles finalmente deram a Palma pro merecedor (algo que não acontecia desde o quê, 2011?), finalmente é empolgante. Kore-eda é lindo sempre, vamo ver esse aqui.

  • Under the Silver Lake: foi bem mal recebido mas eu gosto muito do It Follows então ok.

  • BlacKkKlansman: puta merda se esse filme não parece tudo o que eu sempre quis ver do Spike Lee e que ele chegou muito perto com Chi-Raq.

  • Guerra Fria: o novo filme do diretor de Ida parece lindo e muito triste, bem o que eu gosto mais em Ida.

  • 3 Faces: Panahi homenageando Kiarostami? Muito minha cara.

  • Feliz como Lazzaro: o mais intrigante da competição e que parece lindo. Vai ser lançado por aqui pela Netflix e eu tô triste.

  • The Wild Pear Tree: o novo do Ceilan (que ganhou a Palma em 2015) fechou a competição e não fez muito barulho. Mas tem quase três horas e todo filme dele é como assistir uma homilia. Lindo, misterioso e que fica na tua cabeça por algum motivo indefinido.

Fora de competição e exibições especiais:

  • A Casa que Jack Construiu: eu não tenho interesse nenhum em um filme que o Von Trier parece embelezar sua própria misoginia, mas ao menos isso vai dar uma boa sessão + cerveja com o Erê.

  • O Grande Circo Místico: do Carlos Diegues. Parece lindo.

  • Dez Anos na Tailândia: novo do Joe & amigos, caralho.

  • Fahrenheit 451: vai vir pro HBO, é claro que eu vou ver.

Un Certain Regard:

  • Long Day’s Journey Into Night.

  • Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos: levou o prêmio do júri e foi o queridinho da crítica esse ano. Que orgulho.

  • Dunbass: o novo do Loznitsa (eu ainda quero assistir o Uma Criatura Gentil dele, esquecido na competição do ano passado) é simplesmente o filme que eu mais quero ver de Cannes esse ano.

Semana da Crítica:

  • Wildlife: esse filme do Paul Dano parece bom demais pra ser verdade.

Quinzena dos Realizadores:

  • Pássaros de Passagem: novo filme da equipe de O Abraço da Serpente, um dos meus filmez favoritos dos últimos anos. Um drama familiar no meio do conflito do narcotráfico colombiano. Parece lindo.

  • Climax: o novo do Gaspar Noé que tão dizendo ser o melhor dele!!!!

Bastante coisa esse ano. Queria ter visto um James Gray ou uma Claire Denis nessa lista também, mas ainda tem Veneza, né.

Os 10 melhores de 2014

Agora que já revelamos nossos favoritos, vamos numerá-los, certo? Para finalizar essa leva de retrospectiva de 2014, nós juntamos tudo o que houve de melhor nos últimos 12 meses e os ordenamos para vocês. Siga abaixo com:

10. The Comeback volta tão bom quanto nos deixou (e talvez melhor)

A empreitada de Lisa Kudrow na sátira da HBO sobre a estrutura da TV voltou, depois de ser cancelada na sua primeira temporada. The Comeback, agora uma sátira sobre o próprio canal, o star system que se criou ao redor das séries de TV, e do mockumentary, retornou tão bom quanto era — ou, muito provavelmente, bem melhor do que era. Kudrow não confirma, mas há rumores que a série continue conosco por mais um ano. Que The Comeback volte mais um, dois, três, dez anos com seu humor único, que nos faz relembrar de clássicos como 30 Rock, Studio 60 e, claro, ela mesma.

9. Dragon Age: Inquisition é o grande AAA desse ano

Se os jogos não tiveram um bom ano (seja em lançamentos, seja em toda a polêmica do GamerGate), não podemos negar que não houve aqueles bons destaques. Com o fracasso de Watch Dogs em nos entregar aquilo que prometeu, e grandes lançamentos fadados a fracassos de infraestrutura, como Assassin’s Creed UnityDragon Age: Inquisition se revelou o grande lançamento de 2014 para os jogos. Um RPG imenso, inebriante e com a qualidade de história que apenas a BioWare consegue entregar. Não é o melhor jogo do mundo, está recheado de falhas, mas te prenderá em um universo fascinante por centenas de horas.

8. Amantes Eternos, o melhor filme que ninguém viu

O novo filme de Jim Jarmusch é um dos melhores filmes do ano. A história de Adam e Eve, um casal de vampiros com centenas de anos e que assistem a humanidade de hoje com um olhar cético, depois de presenciar maravilhas (e horrores) em outras eras, é narrada com melancolia, dissonâncias e beleza. Se os vampiros no cinema há muito perderam sua identidade, Amantes Eternos devolve-lhes a dignidade com um filme à altura de seus mitos, e transforma Adam e, principalmente, Eve em seres eternos nas telas.

7. A Balada de Adam Henry é um retorno ao método curto

Depois de grandes romances aclamados, como SolarSerena, Ian McEwan retorna às histórias menores, mas não menos empolgantes, com A Balada de Adam Henry, sobre uma juíza que se relaciona com réu. Com toda a destreza nos detalhes típicos do autor, A Balada… mostra um vigor que McEwan não apresentava desde sua estréia, com O Jardim de Cimento, mas empregando toda a magia de seus últimos romances (SábadoAmor sem fim, inclusive, se conectam lindamente com este último), o novo livro do britânico talvez seja uma das melhores peças narrativas literárias de 2014.

6. True Detective é a grande estréia televisiva de 2014

A HBO retorna à forma que a consagrou com A Sete PalmosFamília SopranoA Escuta com o surpreendente True Detective, em uma pequena temporada (antes pretendida como minissérie) intensa e completa. Embora muito de sua fama acabe indo para os mirabolantes planos sequência dos episódios, True Detective maestra para além, conseguindo trazer de volta grandes histórias para o canal, que há muito precisava se sustentar com a alarmante The Newsroom e seus acertos menores, GirlsLooking. E por falar em Looking

5. Looking surpreende com a melhor temporada de 2014

Estreando em janeiro, a temporada inicial de Looking prometia “algo real”. Nas mãos do incrível realizador Andrew Haigh, ela entregou mais. Ela entregou “algo de verdade”. E há diferenças nessas duas chamadas. Looking, por mais de nicho que seja, é uma série que finalmente consegue trazer honestidade nos diálogos e na estética de sua temporada. Em um ano que Mad Men começa o seu fim, Girls derrapa, American Horror Story pisa na bola (de novo), House of Cards perde o fôlego e True Detective vem para balançar, Looking é uma sólida, intensa e honesta história de seres humanos — seres em extinção nas séries de TV.

4. Crush Songs supera superproduções com sua intimidade

Karen O ganhou o mundo em 2013 com The Moon Song. Seguindo uma vertente semelhante, mas ainda mais íntima, Crush Songs embala recordações e exasperações de um relacionamento com uma honestidade  única nos lançamentos de 2014. Assemelhando-se em momentos com For Emma, Forever Ago, mas ainda mais sincero que este, a vocalista do Yeah Yeah Yeahs consegue superar em qualidade obras maiores, mais poderosas e mais abrangentes — incluindo aí o grande álbum do ano, o autoentitulado Beyoncé.

3. 1001 pessoas que conheci antes do fim do mundo é um sopro de vida na blogosfera brasileira

O blog da Aline Vieira traz humor honesto, histórias bem contadas e uma delicadeza visual há muito escondidas na blogosfera brasileira — terra de memes e YouPixes. Com prazer, 1001 pessoas talvez seja o site com os melhores textos que tive o prazer de ler em 2014. E só de saber que ainda temos mais de 900 pessoas pra conhecer com Aline pela frente, dá expectativa e animação ao já fiel leitor.

2. Boyhood é o grande filme de 2014 — e talvez de toda uma geração

Com sua poesia visual baseada nos pequenos e eternos momentos da vida, Boyhood traça uma narrativa simples, não universal, mas sempre honesta sobre um jovem e sua família no Texas. Repleto dos vários tipos de amor que uma vida possa entregar, dos momentos e das incertezas que a juventude nos lança, dos amigos que vem e que vão, dos mestres que nos moldam e nos largam ao vento, Boyhood é certamente o melhor filme de 2014. E talvez seja o coming-of-age definitivo de toda uma geração. De toda uma universalidade.

1. Kentucky Route Zero: Act III toma o palco central em seu teátrico terceiro ato

Depois de EquusPerception of Space, o terceiro ato de Kentucky Route Zero agora busca em Esperando Godot suas referências. Agora, mais que nunca, Kentucky Route Zero assume sua teatralidade e leva o jogador para o meio do palco e dá a ele, na pele, o sentimento de Conway. Com uma potência nunca antes vista em um videogame, a narrativa do jogo da Cardboard Computer agora torna-se não um outsider da indústria dos jogos, e sim uma referência central. Depois do terceiro ato, em que o jogo puxa o jogador pelo pé para que ele sinta as dores de seu personagem, vemos que estamos na mão de mestres em contar histórias. Mestres esse que finalmente conseguem mostrar que os jogos são a evolução natural no método de narrativa. E para traçar o futuro, _Kentucky Route Zero _pisa no passado.