Posts marcados com músicas

Tudo o que eu voltei a sentir enquanto ouvia as músicas que eu esqueci

Eu enfrentei um dos piores momentos da minha vida entre 2015 até meados de 2019, vivendo com uma depressão que durou tanto tempo que eu achei que eu nunca ia conseguir sair dela. Com o tempo, ele deixou de ser uma constante na minha vida e se transformou em algo como o clima: as vezes fica calmo e bonito, as vezes fica agitado e confuso, e as vezes ele muda de uma hora para a outra.

Meu processo de recuperação foi, em parte, aceitar que eu precisava reaprender a sentir as coisas de novo, a buscar significados que eu perdi naqueles anos de novo. É uma via de mão dupla, porque eu fico feliz de reencontrar um velho sentimento ou de perceber algo ou de me inspirar com algo de novo; mas ao mesmo tempo eu percebo que esse sentimento está um pouco diferente, que existe um peso em algum lugar. É como se eu convivesse com um fantasma no canto do meu cérebro, que nem sempre quer me assombrar, mas que só por estar ali já me causa um desconforto.

Isso causou um efeito interessante aqui no Pão, que se tornou em uma espécie de documentação dessas redescobertas. Durante os anos em que eu estive doente, o blog caiu em desuso e era atualizado pouquíssimas vezes, então ele documenta muito a empolgação da época em que ele foi criado, entre 2013 e 2014, o silêncio dos anos seguintes até eu voltar a escrever em 2019. E, de 2019 pra cá, muitos desses posts são minha reação à pequenas percepções que eu tenho no meu dia a dia que em ajudaram a ficar melhor. A primeira vez que eu escrevi sobre isso foi em julho de 2019, mas vários posts desde então registram essas pequenas redescobertas do dia a dia.

A última veio nesse último fim de semana, enquanto eu fazia uma limpeza no meu computador antigo. Eu encontrei um backup das minhas playlists do serviço de streaming que eu usava antes do Spotify, o Rdio.

Captura de tela do reprodutor de músicas Rdio, exibindo a biblioteca de discos do usuário O Rdio era muito bonito.

O Rdio foi o primeiro dos streamings de música a fazer (um relativo) sucesso no Brasil, principalmente porque ele possuía um plano gratuito muito bacana, que te dava acesso a todos os recursos na versão web (você precisava pagar para usar no celular). Na época eu não tinha um smartphone, e usava o Rdio principalmente no meu primeiro trabalho, entre os anos 2011 e 2014. Foi a primeira vez que eu tive o acesso à muitas músicas sem precisar ficar baixando, e o Rdio tinha uma função de enviar dicas de música para os amigos de uma forma fácil, então eu e meus amigos ficávamos compartilhando músicas uns com os outros o dia inteiro.

Essa foi a mesma época que eu tenho algumas das minhas melhores memórias antes de adoecer. Eu era um estagiário em uma empresa bacana e recebia bem, o que me dava tempo e dinheiro — eu já tinha saído da casa dos meus pais, morava perto do trabalho e podia fazer o que bem entendesse. Eu tava saindo do ensino médio, e essa perspectiva de já ter um emprego sem nem ter se formado ainda me deu muita independência de uma hora pra outra. Eu não sabia, mas muito desse sentimento tinha sido guardado nas músicas que eu ouvia nessa época.

E muitos desses sentimentos vieram esse fim de semana, quando encontrei esse backup de playlists e músicas salvas daquela época e recuperei no meu Spotify. Discos e músicas que eu tinha esquecido completamente apareceram na minha biblioteca, e muitas memórias voltaram à tona. Memórias são bonitas, mas podem ser frias se não vêm acompanhadas de sentimentos muito específicos do momento que elas relembram. Eu armazeno muito dos meus sentimentos nas músicas que eu ouço, foi como abrir um velho baú de várias coisas que eu não sentia há muitos anos.

Se você quer dar uma olhadinha em algumas das músicas que eu acabei de redescobrir, eu tô juntando elas nessa playlist:

Isso me ajudou a perceber como eu escuto música de um jeito diferente do que naquele tempo. Por boa parte da última década, meu contato com músicas — principalmente músicas que eu não conheço — se deram por meio de playlists, geralmente criadas por algoritmos do Spotify. Isso parece que tirou muito a cara dessas músicas pra mim. Antes, músicas vinham de alguém ou de algum lugar: uma amiga me recomendou, ou eu vi em um filme que eu gostei muito, ou tocaram em uma festa e eu gostei tanto que tive que anotar o nome na palma da mão e torcer que eu não borrasse tudo quando chegasse em casa. Cada música era um achado, um momento perfeito porque traduzia o momento em som, e que deixava o momento mais perfeito por causa disso. Essas músicas então me levavam a artistas ou discos inteiros. Foi como eu conheci a minha banda favorita, por exemplo.

Tá sendo muito bacana voltar a reencontrar essas músicas, porque eu sinto que eu tô reencontrando velhos amigos depois de muito tempo. Eu tô muito diferente daquele tempo, e eu enxergo eles de um jeito muito diferente agora. Mas tem algo ali que não mudou. Falando objetivamente, são as ondas sonoras que continuam as mesmas. Mas parece que é algo mais. É como se fosse uma máquina do tempo.

Eu espero aprender essa lição, e voltar a descobrir músicas (e também filmes e livros e séries e jogos) através de pessoas e de momentos como esses que eu acabei de recuperar. De ficar curioso pelo que elas acham, e pelo que elas esperam que eu veja e escute e sinta. Eu não troco isso por nada, porque me mostra como é bom de sentir de novo, como é bom estar de volta.

As melodias dos metrôs ao redor do mundo

Meu tipo favorito de link é aquele sobre um assunto tão específico que é interessante tanto pelo assunto em si quanto pela curiosidade que levou até ele.

Esse texto do New York Times é uma volta ao mundo maravilhosa: como são os tons de embarque/desembarque dos metrôs em diferentes cidades. A de Paris é bem comum, acho que porque a gente ouve ela em vários filmes que se passam na cidade, mas eu acho tanto a de Toronto quanto a do Rio um charme. São pontuações bonitas pro nosso dia-a-dia.

O bacana do artigo (além da direção de arte) é a história de alguns desses sons.

In Paris, a simple “A” note plays as the doors shut. This is also a throwback, a sound that mimics the vibrations of a mechanical part that is no longer in use on any of the system’s trains. “But for a half century Parisians and visitors alike became used to that sound, so we decided to keep it, and recorded a synthesized version,” said Song Phanekham, a communications manager for the Paris transit system. “It’s a tribute to the heritage of the Paris Metro.”

In Tokyo, each station has its own custom jingle to signal departures. In Rio de Janeiro, the subway’s door chime pays homage to bossa nova. In Vancouver, the doors still close to a three-note sound that was recorded in the 1980s on a Yamaha DX7. (“The hallmark of any mid-80s pop song,” said Ian Fisher, manager of operations planning at British Columbia Rapid Transit Company.)

O artigo, que acompanha a “coleção de sons” de Ted Green, me lembrou da linda banalidade do dia-a-dia, algo que eu sinto falta agora que eu passo dias inteiros dentro de casa. Essa passagem me pegou:

“I think the appeal is the simplicity,” Green said. “You wonder, how can there be so many different variations of beeps? And then you listen, and they’re all so different.”

Quando eu ia a pé para o trabalho, eu gostava de não usar fones de ouvido porque tem algo no som da cidade naquela hora da manhã que me atraía. Ainda dava para ouvir o som dos pássaros enquanto os ônibus chiavam na João Pessoa.

Se você quer cair em um vórtice sobre esse assunto específico, esse canal do YouTube possui vários vídeos (alguns gravados pelo próprio Ted Green) com bipes e sons de vários trens ao redor do mundo.

O falante mais rápido do mundo canta “Bad” em 20 segundos

John Moschitta Jr. era considerado o homem que falava mais rápido no mundo, e para provar tem esse vídeo de 1987 em que ele recita “Bad”, de Michael Jackson, em vinte segundos. A música original tem mais de quatro minutos e meio.

Em contrapartida, esse vídeo acabou de reduzir a velocidade da minha fala porque meu queixo ainda não voltou pro lugar.

Nook: temas do Animal Crossing no Firefox e no Chrome

Se você já jogou Animal Crossing, você sabe que o jogo têm pequenos temas musicais para cada hora do dia. O das 9h é diferente do das 10h, que são diferentes do das 21h e das 22h. Alguns temas são mais “espaçosos”, outros são mais agitados, tudo depende do jogo e da hora do dia.

Esses temas são perfeitos pra quando eu estou jogando New Horizons, porque o jogo requer ao mesmo tempo um pouquinho de concentração e de criatividade. Por coincidência, o meu trabalho também requer um pouco de concentração e de criatividade ao mesmo tempo, então eu fiquei muito feliz quando encontrei o Nook, uma extensão para o Chrome e o Firefox que executa os pequenos loops musicais de vários Animal Crossing de acordo com a hora do dia.

Eu pessoalmente gosto de ouvir os temas de New Leaf de manhã, eles são mais melancólicos e bonitos. À tarde, geralmente o período mais movimentado do meu trabalho, eu gosto de ouvir as notas acústicas dos temas de New Horizons, que me acalmam. Eu acho um barato, porque a extensão tem algumas configurações muito úteis — eu posso diminuir o volume do tema sem precisar baixar o volume do resto do computador, então eu deixo ele baixinho durante as reuniões. Você também pode ativar a chuva (a música muda quando chove ou neva nos jogos). Você pode até mesmo ativar as músicas do K.K. Slider nas noites de sábado, pra quando você precisa fazer aquela hora extra.

Kentucky Route Zero: Memory Overflow

O compositor Ben Babbitt lançou no seu BandCamp um disco de “sobras” da trilha-sonora de Kentucky Route Zero. O disco inclui músicas ouvidas só nos trailers (como a belíssima The Flood) e músicas do jogo que não foram incluídas na trilha-sonora oficial, como ruídos de estações de rádio, sons distantes e sonhos.

Eu passei o fim de semana ouvindo esse disco, e me deu uma vontade imensa de jogar KRZ de novo. Essas “sobras” representam muito da minha experiência com o jogo: segundo Babbitt, esse é seu último envolvimento com o projeto que acabou ocupando toda uma década para o trio que compõe o Cardboard Computer, e de alguma forma eles ilustram o furor, o desespero e os sonhos dessa última década que não foram registrados como as faixas do disco oficial, mas que de alguma forma foram sentidos. Ouvir elas assim, fora do contexto do jogo, parecem justamente memórias. São músicas passageiras, que antes eu ouvia com os efeitos sonoros do jogo por cima. Elas soam diferentes agora, como uma memória parece ter um sentimento diferente daquele momento que foi vivido antes.

Lindo demais. Dá pra ouvir de graça no BandCamp, eu comprei pra manter comigo porque são músicas muito especiais.

Essa é a Shameika

Fetch the Bolt Cutters é uma obra-prima intimista e crua, composta por histórias que Fiona Apple não só conta como sente, porque são momentos e sentimentos da vida dela que a marcaram, de homens abusivos e da irmandade que ela encontrou em mulheres ao seu redor. Uma dessas é Shameika, em que Apple lembra da conversa que uma colega sua teve com ela na quarta-série sobre não dar ouvido para o bullying que ela estava sofrendo.

Uma das coisas lindas que Shameika captura é a imensidão de um pequeno momento. Na música, Apple conta que Shameika esteve em sua vida por pouco tempo — elas só foram colegas de escola na quarta-série —, e nunca teve a oportunidade de dizer para ela como o que Shameika disse foi importante para sua vida.

As pessoas se perguntaram onde estaria Shameika agora, e pelo visto a Pitchfork encontrou. Em novembro, Jenn Pelly publicou sua entrevista com Shameika Stepney, a colega de escola de Fiona Apple:

It was late April, deep in quarantine, when Shameika first found out about Fiona’s song, but not by hearing it. (She was always only vaguely aware of her former schoolmate’s music career.) The news came, instead, via an out-of-the-blue handwritten card sent in the mail by her and Fiona’s adored third grade teacher, Linda Kunhardt.

Shameika remembers venturing to her mailbox one day for a bit of fresh air and finding the curious note. Her disbelief is still palpable as she recalls the contents of the card: “Shameika, I hope this letter is finding you safe during quarantine, I had to write you because I don’t know if you remember this girl Fiona McAfee. You told her not to listen to bullies, and that she had potential. I just wanted to say thank you. And I wanted to let you know that your prophetic words have been turned into a beloved song titled your name…

A entrevista toda é bacana, e uma prova de que Shameika realmente é a pessoa incrível que Fiona Apple lembrava ser, e contextualiza seu desaparecimento na vida de Apple — Shameika foi expulsa da escola um ano depois, quando bateu em uma garota branca que a insultou. Shameika, que também é uma compositora, mostrou a música que fez com o seu lado da história, Shameika Said:

A trilha sonora de Ela

Pra mim, cada mudança de computador é um evento. Eu faço tudo no meu computador, então sempre que eu preciso trocar de um computador por outro, eu preciso tomar cuidado. Eu demoro meses considerando, eu preparo a mudança com semanas de antecedência, e faço tudo com calma, pra não perder nada. É engraçado, mas eu tomo muito mais cuidado com as coisas que estão no meu computador do que as que estão no meu celular. Eu acabo apagando mensagens, fotos e aplicativos sem muita consideração. Mas eu sei a localização de cada arquivo no meu computador, eu conheço de cor as minhas configurações preferidas dos programas que eu uso para trabalhar ou para escrever.

Eu mudo de computador a cada cinco anos1, e é um processo que eu me dedico à fundo porque é o aparelho central do meu dia-a-dia, mas também porque eu tenho coisas no meu computador que eu tenho muito medo de perder. Eu acho isso um tanto mágico: o digital nos permite armazenar qualquer coisa em pouco espaço de um jeito milagroso, mas também completamente efêmero. Um comando descuidado e puf, você perdeu algo importante para sempre.

Uma das coisas mais importantes para mim nesses momentos é a trilha-sonora de Ela, que sobreviveu três transferências de computador já. É um dos objetos mais raros, vindos de uma internet pré-streaming, mas pós-torrent: um álbum nunca lançado do Arcade Fire, levado para a internet em links suspeitos, no formato de um bootleg. A promessa da banda é de que o lançamento oficial do disco viria pouco tempo depois do lançamento do filme, em 2013, mas isso acabou só acontecendo na última sexta-feira.

Agora eu posso recomendar a trilha-sonora de Ela sem precisar mandar um link para a pessoa baixar — o disco tá disponível no Spotify, no Apple Music e no YouTube. Ela também mais suscetível à efemeridade digital — ele também foi lançado em vinil e em fita cassete. Ela está salva na minha biblioteca do Music, mas também tá salva no HD do meu computador. E no meu HD externo. E no Dropbox que eu tenho só pra ela. Essa trilha-sonora é especial demais para eu ter a chance de perdê-la.

Eu considero a trilha-sonora de Ela a minha “música ambiente perfeita”. Eu não sei se ela faz parte do gênero musical ambiente (eu acho que não?), mas eu penso nela nesses termos porque ela é, muito provavelmente, o disco que eu mais ouvi na minha vida. Eu escuto suas músicas quando estou triste, e quero me sentir menos sozinho na minha melancolia. Mas eu também gosto de ouvir quando estou feliz, porque suas notas são doces e sensíveis, e cada segundo em que elas me acompanham se torna um momento um pouquinho mais bonito, um pouquinho mais inesquecível. São músicas boas para trabalhar, porque suas notas são espaçadas na medida certa; e também são boas para relaxar e aproveitar o momento, porque elas parecem cercar ele com seus toques de piano.

Meu momento mais perfeito ouvindo esse disco foi em 2014. Eu me lembro como se fosse ontem. Naquele verão eu morava muito perto do trabalho — eu podia ir a pé até ele em menos de cinco minutos. Eu gostava de acordar bem cedo para poder ficar caminhando um pouco antes de chegar no escritório. Eu gostava de ir pelo meio da Santa Casa, porque no meio dela tem um café que eu gostava de pegar meu café com leite. Era uma manhã cinzenta e fria, logo depois de uma noite chuvosa. Eu caminhei pela Santa Casa ao som de Morning Talk. Ela começa lenta e triste e eu não lembro o porquê, mas eu tava meio triste também.

Eu tirei os fones de ouvido para pedir o meu café e agradecer a atendente, e quando coloquei eles de volta a música estava entrando em Supersymmetry, sua parte mais agitada e mais mágica. A música parecia guiar a movimentação da rua: os carros começavam a andar mais depressa, mais pessoas pareciam sair e andar na rua. O dia tava começando. Graças a esse momento, e à essa música, o meu estava começando um pouquinho melhor.

  1. Eu parei pra pensar sobre isso agora a pouco no banho e me deparei com esse padrão inesperado. Eu ganhei primeiro computador (um desktop Positivo) em 2005; depois substituí ele por um MacBook Pro em 2010, e por outro MacBook Pro em 2015. Em dezembro de 2020 eu troquei por um Mac mini. É uma periodicidade que eu nunca fiz questão de manter, mas eu começo a “sentir” meus computadores engasgando a cada cinco anos. 

O Daft Punk acabou

O Daft Punk anunciou que a banda se separou.

O dia de hoje ficou muito, muito triste. É um fim gigante pra mim, essa banda embalou alguns dos melhores momentos da minha vida, e imaginar que um dia eles lançariam um som novo para embalar um novo momento era uma boa esperança de se ter.

Muito obrigado por todos esses momentos e todas essas memórias, Daft Punk. Que jornada incrível vocês me ajudaram a ter.

Arcade Fire e Owen Pallett anunciam o lançamento da trilha-sonora de Ela

Luva, vinil e fita-cassete da trilha-sonora do filme Ela Detalhes da luva e vinil da trilha-sonora do filme Ela

Eu recebi tantas boas notícias na sexta-feira que eu ainda tô pondo elas em dia. Uma das que mais me deixou feliz foi o email do Arcade Fire anunciando o lançamento da trilha-sonora de Ela, o premiado filme de Spike Jonze lançado em 2013, e um dos meus filmes favoritos de todos.

A trilha de Ela existe na forma de um bootleg que vazou na internet na época em que o filme foi indicado ao Oscar de melhor trilha-sonora em 2014, e desde então ele vive protegido em meu computador. Eu troquei de computador duas vezes desde 2014, e em todas as vezes esse bootleg é uma das coisas que eu mais tomo cuidado para passar da máquina antiga para a nova. É um dos meus bens digitais mais preciosos: uma música etérea, que mistura um pouco de melancolia, saudade e felicidade com sintetizadores delicados e um piano profundo. Ele geralmente é a trilha-sonora das minhas melhores manhãs.

Embora o Arcade Fire tenha anunciado que ia trabalhar em um lançamento da trilha lá em 2014, isso não se materializou até agora. Sexta-feira, o anúncio veio do nada e foi uma surpresa tão boa que eu passei o dia procurando formas de encomendar o vinil. Eu ainda não consegui, mas vou na primeira oportunidade. A trilha também vai ser lançada em fita cassete, nas lojas de música digitais, e nos serviços de streaming como Spotify e Apple Music dia 19 de março.

Parando pra pensar agora, a trilha-sonora de Ela é como o ápice de tudo o que eu gosto. É composto pela minha banda favorita e acompanha um filme que eu amo tanto (e que, se você acompanha esse blog há tempos, provavelmente sabe que eu não consigo parar de falar sobre), dirigido por um dos meus diretores favoritos. Eu tô tão feliz que ela finalmente vai ser lançada mês que vem, mal dá pra acreditar que esse dia vai chegar.

Um vídeo de um show do Daft Punk em 2007 acabou de aparecer na web

Daft Punk não faz muitas apresentações ao vivo. Na verdade, elas são tão raras que hoje em dia elas alcançaram aquela fama quase mítica e quando imagens de uma apresentação deles aparece na internet, é como se alguém tivesse conseguido gravar um ovni aparecendo.

Esse show que Johnny Airbag divulgou no YouTube fez parte do Alive 2007, um disco com gravações da turnê do Daft Punk. O vídeo foi gravado em Chicago em 2007, no primeiro dia do Lollapalooza.

O último álbum do duo foi Random Access Memories, em 2013, e já passou da hora de aparecer um novo disco por aí.

Via Kottke.

Dua Lipa: NPR Tiny Desk (Home) Concert

Uma das minhas descobertas favoritas durante a pandemia foi o Tiny Desk Concert, pequenos shows realizados nos estúdios da rádio pública americana (NPR), em que uma banda ou um artista se apresentam por alguns minutinhos. É uma versão bem compacta e bem íntima de um show.

Durante a pandemia, as performances no estúdio da NPR estão suspensos, então o Tiny Desk Concert é filmado na própria casa dos artistas. Eu achei o ambiente perfeito para Dua Lipa, que se sente (literalmente) em casa cantando algumas músicas do seu novo álbum, o excelente Future Nostalgia.


Isso me faz lembrar: a rádio pública aqui no Rio Grande do Sul é a FM Cultura (107.7 FM em Porto Alegre) e a programação dela é incrível. Como tudo sob o governo do Bolsonaro (e graças ao panaca do Sartori), a FM Cultura está em perigo e precisa da nossa ajuda.

Yo La Tengo lançou a trilha-sonora do meu estado de espírito durante o isolamento

A banda Yo La Tengo lançou hoje o álbum We Hame Amnesia Sometimes, um álbum gravado à distância durante o período de isolamento social que a gente tá passando. A banda tava lançando prévias do trabalho nos últimos dias, mas largou o álbum completo no Bandcamp deles.

Assim como Fetch the Bolt Cutters no início do isolamento social, esse álbum do Yo La Tengo parece conseguir capturar direitinho o que eu ando sentindo nas últimas semanas. As faixas são as vezes calmas, as vezes dissonantes e confusas, mas são sempre bastante “introspectivas”, se isso é algo que eu posso usar como adjetivo de uma música. O álbum da Fiona Apple é íntimo e furioso, que é algo que eu sentia no início do isolamento. Esse álbum do Yo La Tengo é mais “calmo”, quase “cansado” mas não exaustivo. Difícil de explicar. Tá sendo bem emocionante de ouvir, porque faz sentir que a alma “sai” do corpo.

O álbum tá no Bandcamp, mas também no Spotify e no Apple Music.

Os 10 melhores de 2014

Agora que já revelamos nossos favoritos, vamos numerá-los, certo? Para finalizar essa leva de retrospectiva de 2014, nós juntamos tudo o que houve de melhor nos últimos 12 meses e os ordenamos para vocês. Siga abaixo com:

10. The Comeback volta tão bom quanto nos deixou (e talvez melhor)

A empreitada de Lisa Kudrow na sátira da HBO sobre a estrutura da TV voltou, depois de ser cancelada na sua primeira temporada. The Comeback, agora uma sátira sobre o próprio canal, o star system que se criou ao redor das séries de TV, e do mockumentary, retornou tão bom quanto era — ou, muito provavelmente, bem melhor do que era. Kudrow não confirma, mas há rumores que a série continue conosco por mais um ano. Que The Comeback volte mais um, dois, três, dez anos com seu humor único, que nos faz relembrar de clássicos como 30 Rock, Studio 60 e, claro, ela mesma.

9. Dragon Age: Inquisition é o grande AAA desse ano

Se os jogos não tiveram um bom ano (seja em lançamentos, seja em toda a polêmica do GamerGate), não podemos negar que não houve aqueles bons destaques. Com o fracasso de Watch Dogs em nos entregar aquilo que prometeu, e grandes lançamentos fadados a fracassos de infraestrutura, como Assassin’s Creed UnityDragon Age: Inquisition se revelou o grande lançamento de 2014 para os jogos. Um RPG imenso, inebriante e com a qualidade de história que apenas a BioWare consegue entregar. Não é o melhor jogo do mundo, está recheado de falhas, mas te prenderá em um universo fascinante por centenas de horas.

8. Amantes Eternos, o melhor filme que ninguém viu

O novo filme de Jim Jarmusch é um dos melhores filmes do ano. A história de Adam e Eve, um casal de vampiros com centenas de anos e que assistem a humanidade de hoje com um olhar cético, depois de presenciar maravilhas (e horrores) em outras eras, é narrada com melancolia, dissonâncias e beleza. Se os vampiros no cinema há muito perderam sua identidade, Amantes Eternos devolve-lhes a dignidade com um filme à altura de seus mitos, e transforma Adam e, principalmente, Eve em seres eternos nas telas.

7. A Balada de Adam Henry é um retorno ao método curto

Depois de grandes romances aclamados, como SolarSerena, Ian McEwan retorna às histórias menores, mas não menos empolgantes, com A Balada de Adam Henry, sobre uma juíza que se relaciona com réu. Com toda a destreza nos detalhes típicos do autor, A Balada… mostra um vigor que McEwan não apresentava desde sua estréia, com O Jardim de Cimento, mas empregando toda a magia de seus últimos romances (SábadoAmor sem fim, inclusive, se conectam lindamente com este último), o novo livro do britânico talvez seja uma das melhores peças narrativas literárias de 2014.

6. True Detective é a grande estréia televisiva de 2014

A HBO retorna à forma que a consagrou com A Sete PalmosFamília SopranoA Escuta com o surpreendente True Detective, em uma pequena temporada (antes pretendida como minissérie) intensa e completa. Embora muito de sua fama acabe indo para os mirabolantes planos sequência dos episódios, True Detective maestra para além, conseguindo trazer de volta grandes histórias para o canal, que há muito precisava se sustentar com a alarmante The Newsroom e seus acertos menores, GirlsLooking. E por falar em Looking

5. Looking surpreende com a melhor temporada de 2014

Estreando em janeiro, a temporada inicial de Looking prometia “algo real”. Nas mãos do incrível realizador Andrew Haigh, ela entregou mais. Ela entregou “algo de verdade”. E há diferenças nessas duas chamadas. Looking, por mais de nicho que seja, é uma série que finalmente consegue trazer honestidade nos diálogos e na estética de sua temporada. Em um ano que Mad Men começa o seu fim, Girls derrapa, American Horror Story pisa na bola (de novo), House of Cards perde o fôlego e True Detective vem para balançar, Looking é uma sólida, intensa e honesta história de seres humanos — seres em extinção nas séries de TV.

4. Crush Songs supera superproduções com sua intimidade

Karen O ganhou o mundo em 2013 com The Moon Song. Seguindo uma vertente semelhante, mas ainda mais íntima, Crush Songs embala recordações e exasperações de um relacionamento com uma honestidade  única nos lançamentos de 2014. Assemelhando-se em momentos com For Emma, Forever Ago, mas ainda mais sincero que este, a vocalista do Yeah Yeah Yeahs consegue superar em qualidade obras maiores, mais poderosas e mais abrangentes — incluindo aí o grande álbum do ano, o autoentitulado Beyoncé.

3. 1001 pessoas que conheci antes do fim do mundo é um sopro de vida na blogosfera brasileira

O blog da Aline Vieira traz humor honesto, histórias bem contadas e uma delicadeza visual há muito escondidas na blogosfera brasileira — terra de memes e YouPixes. Com prazer, 1001 pessoas talvez seja o site com os melhores textos que tive o prazer de ler em 2014. E só de saber que ainda temos mais de 900 pessoas pra conhecer com Aline pela frente, dá expectativa e animação ao já fiel leitor.

2. Boyhood é o grande filme de 2014 — e talvez de toda uma geração

Com sua poesia visual baseada nos pequenos e eternos momentos da vida, Boyhood traça uma narrativa simples, não universal, mas sempre honesta sobre um jovem e sua família no Texas. Repleto dos vários tipos de amor que uma vida possa entregar, dos momentos e das incertezas que a juventude nos lança, dos amigos que vem e que vão, dos mestres que nos moldam e nos largam ao vento, Boyhood é certamente o melhor filme de 2014. E talvez seja o coming-of-age definitivo de toda uma geração. De toda uma universalidade.

1. Kentucky Route Zero: Act III toma o palco central em seu teátrico terceiro ato

Depois de EquusPerception of Space, o terceiro ato de Kentucky Route Zero agora busca em Esperando Godot suas referências. Agora, mais que nunca, Kentucky Route Zero assume sua teatralidade e leva o jogador para o meio do palco e dá a ele, na pele, o sentimento de Conway. Com uma potência nunca antes vista em um videogame, a narrativa do jogo da Cardboard Computer agora torna-se não um outsider da indústria dos jogos, e sim uma referência central. Depois do terceiro ato, em que o jogo puxa o jogador pelo pé para que ele sinta as dores de seu personagem, vemos que estamos na mão de mestres em contar histórias. Mestres esse que finalmente conseguem mostrar que os jogos são a evolução natural no método de narrativa. E para traçar o futuro, _Kentucky Route Zero _pisa no passado.