A história de quando Hayao Miyazaki percebeu o problema de visão de um de seus animadores

Em um relato traduzido pelo Kotaku, o animador Masaaki Endo recontou o momento em que descobriu que seu problema de visão agravou quando Miyazaki percebeu que seu trabalho para Meu Amigo Totoro estava distorcido:

Endo recalled how after he submitted the key animation for Totoro, Miyazaki called him over, saying, “Hey the art is distorted. Your glasses prescription is wrong, isn’t it?”

“I don’t think it is,” Endo replied to Miyazaki, adding, “I’ll get it checked out anyway.”

Not exactly convinced by Miyazaki’s armchair diagnosis, Endo went to the eye doctor. He got his eye check out, and low and behold, Miyazaki was right: the vision in one of Endo’s eyes had gotten worse.

Eu adorei essa história, não só porque o poder de observação e o detalhismo de Miyazaki vai além do trabalho em si – ele poderia muito bem só dizer que a animação estava distorcida e Endo talvez não teria ido ao médico. Mas também porque ela me lembrou do meu antigo oftalmo, que cuidou da minha visão pelos primeiros 25 anos da minha vida, até ele se aposentar. Ele me contava que ele me diagnosticou por acaso. Ele tava, na verdade, cuidando da visão da minha irmã, e minha mãe me levou junto porque quando eu era muito novo eu chorava demais. Meu oftalmo disse pra minha mãe, sem nem me olhar, que esse choro era de dor, e pediu para dar uma olhada no que poderia ser. Minha visão era severamente atrofiada quando eu era bebê (eu sinto dores quando tiro os óculos até hoje).

Meu oftalmo era meio mágico. Ele nunca precisou fazer uma série de procedimentos em mim, geralmente só olhando para o meu olho ele conseguia observar se o grau dos meus óculos precisava mudar ou se alguma das minhas deficiências visuais tinha piorado. Uma vez eu fiquei meio cético pra essa habilidade dele de observação e decidi em ir em outro oftalmo, que fez uma série de testes nos meus olhos que me deixaram com os olhos estragados por dias. No fim das contas o resultado foi o mesmo, meu oftalmo tava certo. Eu sou eternamente agradecido ao Dr. Horta e essa magia que ele tinha de observar bem os meus olhos e o jeito que eu estava enxergando as coisas e saber exatamente o que estava acontecendo.

O trailer da terceira temporada de Succession

Todos saúdam o retorno do rei, agora que a nova temporada de Succession, a minha série favorita no ar atualmente, está de volta. O trailer parece indicar que o tom da série – uma tragédia shakespeareana com uma pitada de paródia, que torna a tragédia ainda mais trágica – tá afiada como nunca.

Succession volta na primavera na HBO, depois de mais de um ano de espera.

Forasteira Americana: os filmes de Kelly Reichardt

First Cow, um dos meus filmes favoritos do ano, está nos cinemas desde a semana passada, e essa sexta-feira ele vai ser lançado no MUBI junto com um bate-papo com Kelly Reichardt.

Para aproveitar a ocasião, o MUBI está fazendo uma retrospectiva da carreira da diretora com três obras-primas dirigidas por ela. Entitulado “Forasteira Americana”, a programação especial está exibindo Antiga Alegria e Wendy & Lucy, e semana que vem O Atalho vai entrar na programação também.

No início do isolamento social, no ano passado, eu escrevi sobre como os filmes da Kelly Reichardt estavam me ajudando a aguentar o dia-a-dia em isolamento. Isso ainda é verdade: embora tenha dirigido poucos filmes, eu gosto de sentar e rever os filmes dela em alguns sábados de manhã. Eles são estranhamente confortáveis, mesmo tristes.

Eu recomendo muito você dar uma olhada no cinema dela quando puder. Todos os filmes na programação do MUBI são curtinhos, mesmo que eles fiquem na sua cabeça por um bom tempo.

"Se a manifestação está vermelha demais para o seu gosto, junte uma turma e vá vestindo outra cor"

Celso Rocha de Barros, na sua coluna pra Folha:

O primeiro lado bom [da adesão gradual de partidos de centro e de direita às manifestações] é que o pessoal parece ter entendido que, se a manifestação está vermelha demais para o seu gosto, junte uma turma e vá vestindo outra cor. Não dá para esperar que a esquerda organize a manifestação e seja proibida de erguer sua bandeira.

A essa altura, já está claro que a turma do “meu partido é o Brasil” queria dizer que, para eles, o Brasil era só o partido deles. A direita democrática tem que ter partido, camisa, bandeira próprios, porque a bandeira do Brasil tem que ser de todo mundo. Aí os amigos de esquerda vão dizer: bom, com exceção dos caras do Acredito, esses “centristas” todos entraram na briga pelo impeachment só porque agora perceberam que é mais fácil tirar Bolsonaro do segundo turno de 2022 do que Lula.

É, né, companheiro? É por isso que a notícia saiu no caderno de política, onde, aliás, também sai esta coluna.

Nosso objetivo deve ser esse, alinhar o máximo de interesses possíveis contra o autoritarismo assassino de Bolsonaro. Se a turma liberal voltar a tentar vencer na política, nas alianças, disputando as ruas, sem impeachment mutreteiro ou apoio à extrema direita, maravilha. Que vença o melhor em 2022 e que o Jair volte a ser nanico.

Até porque não basta derrotar Bolsonaro, é preciso reorganizar uma democracia estável no Brasil. O democrata que vencer em 2022 tem que contar com uma oposição liderada por outros democratas.

Há algo que talvez ainda não tenha sido percebido por todos os militantes da esquerda brasileira. Em 2021, nós não somos o minúsculo PT de 1980, fazendo barulho enquanto o MDB conduz a transição. Se Lula suceder o desastre de Bolsonaro, terá que assumir papel parecido ao do PMDB nos anos 1980, Deus queira que com políticas econômicas melhores, mas com a mesma disposição de atrair aliados. Pode não ser o que a esquerda gostaria de fazer agora, mas ninguém escolhe sua tarefa histórica.

“Ninguém escolhe sua tarefa histórica”.

As séries que assisti na primeira metade de 2021

Em janeiro eu fiz uma lista com as séries que eu assisti em 2020. Eu gostei bastante do formato e acho que vou começar a usar ele semestralmente.

Aproveitando que estamos terminando essa primeira metade do ano, vou pôr em dia as séries que eu mais gostei de acompanhar no início de 2021. Não é uma lista de todas as séries que eu assisti porque, pra falar bem a verdade, algumas eu simplesmente esqueço. São as que me marcaram ou que me fizeram uma boa companhia nesses seis últimos meses, mais ou menos na ordem que eu assisti elas.

The Americans (Amazon). Eu comecei a rever essa quando ela voltou ao streaming no fim do ano passado. Como eu não maratono séries, The Americans me acompanhou por todo esse semestre, e é muito bom. Em pensar que a segunda metade dos anos 2010 esse nível de qualidade era um padrão para as séries de TV é de enlouquecer, porque a construção de Americans com o passar dos anos é um dos meus desenvolvimentos narrativos favoritos.

Ted Lasso (Apple). Como Betty no ano passado, eu não tenho ideia do porquê eu me apaixonei por Ted Lasso, uma série em que um treinador de futebol americano vai para a Inglaterra treinar um time de futebol de verdade. Acho que é bem humorado, mas também bem sincero no seu otimismo: nem tudo o que Ted tenta funciona, nem sempre o pessoal leva na boa o seu bom humor, mas Ted insiste e tenta, e todo o mundo quer ajudar ele a tentar. Eu amo séries em que as pessoas aprendem a trabalhar juntas, e Ted Lasso é uma dessas, sem um pingo de cinismo no coração.

Undone (Amazon). Me recomendaram essa série (que deve receber uma segunda temporada em breve) por muito tempo e eu fiquei postergando, por algum motivo que eu não sei e provavelmente era preguiça. Mas agora eu me arrependo, porque Undone é incrível. Ela usa a animação para igualar a realidade e a impressão da realidade da protagonista, e você não sabe direito o que é um e o que é outro.

Superstore (Amazon). Uma espécie de The Office com mais coração, ou uma Brooklyn 99 mais cínica? Superstore tá nesse meio, e arrasa muito entre ser um comentário pesado sobre as condições de trabalho nos EUA e a beleza de quando você consegue formar uma comunidade com aqueles que você passa seus dias. A última temporada, que aconteceu durante a pandemia, é sensacional.

For All Mankind (Apple). Eu gostei muito da primeira temporada da série de ficção científica da Apple, em que a União Soviética foi a primeira a chegar à lua, o que faz com que a Corrida Espacial não tenha acabado. Mas a série cresce tanto em sua segunda temporada, que ela automaticamente se tornou em uma das melhores séries que eu vi nos últimos anos, e eu não duvido nada que na terceira temporada ela alcance minhas outras favoritas, como Halt and Catch Fire e The Americans.

Barry (HBO). Eu não sei porque eu parei de assistir Barry na primeira temporada. Eu lembro de ter amado, mas eu lembro também de ter perdido uma semana e parei de acompanhar. Ainda bem que eu dei uma segunda chance, porque a primeira temporada é excelente, e a segunda é de tirar o chão e fazer ele de teto. Uma comédia sobre um assassino de aluguel que quer ser ator se transforma em um thriller e em um drama e em um filme de ação experimental e o que mais os criadores da série conseguem pensar. Tudo isso em meia hora. É bom demais.

Mare of Easttown (HBO). A HBO enganou geral com a primeira minissérie da Kate Winslet desde Mildred Pierce em 2011. Parece muito parte da onda de séries-prestígio de detetives em que uma estrela de Hollywood vai pra TV por uma temporada (ver também: The Night Of, Big Little Lies, Sharp Objects, True Detective, The Sinner), porque o crime e a investigação são só o gatilho do que eu chamaria de “Gilmore Girls e Twin Peaks mas bem triste”: como a vida de diferentes gerações de uma família em uma pequena cidade reage aos próprios traumas com o passar do tempo. É muito bonita, e tem tanta atuação boa que chega a tirar a minha atenção.

The Underground Railroad (Amazon). A minha série do ano por enquanto. The Underground Railroad é pesadíssima de se assistir de uma vez só, eu recomendo que você deixe no mínimo um dia de “repouso” entre os capítulos. São só dez, e são bem episódicos mesmo, ainda bem. Nada de ganchos ou surpresas, e sim a continuação natural de uma história das várias formas que a população negra nos EUA foi escravizada e explorada, e as várias formas que ela se libertou. É poético, é triste pra caramba, mas é também um retrato tão humanista do sofrimento e da sobrevivência. Barry Jenkins é um dos mestres do nosso tempo.

Calls (Apple). Uma temporada, episódios entre quinze e vinte minutos que são só ligações entre algumas pessoas, Calls faz aquele mesmo cafuné de A Vastidão da Noite, um mistério feito em linhas telefônicas e em frequências interrompidas, que transforma a tecnologia em algo fantástico e misterioso novamente.

Sweet Tooth (Netflix). Eu não tenho ideia como essa série, adaptada dos quadrinhos da DC pela Warner, não tá na HBO. É um sinal de como a emissora tá com problemas, que deixou essa primeira temporada, fabulesca e muito simpática, ficar pra Netflix. Eu nunca li os gibis, e a série derrapa um pouco na metade quando os episódios parecem mais ser parte de um filme do que de uma série, mas é uma jornada muito bonita, e a trilha-sonora é gostosa demais.

Betty (HBO). A segunda temporada dessa joia de série acabou de começar, e eu já estou apaixonado por Betty de novo. O grupo de skatistas precisa lidar com o fechamento de Nova York por causa da pandemia, e a perda do seu espaço para praticar o esporte enquanto também precisam lidar com as pequenas escolhas que fazem no dia-a-dia que guiam a vida delas. Continua linda, continua divertida, e continua estranhamente revolucionária na TV. Eu tava precisando reencontrar esse pessoal logo, e ainda bem que a segunda temporada chegou na hora certa.

A história da web

Eu sou apaixonado por histórias daqueles dez, quinze primeiros anos da internet, quando comunidades se formavam ao redor do brilho dos monitores para desbravar tudo o que a internet poderia fazer. Essas comunidades eventualmente criaram as tecnologias fundadoras da web, e serviços que até hoje sustentam a mega-infraestrutura que existe para manter a internet o mais livre e independente possível.

Como The Soul of the New Machine e Halt and Catch Fire, a série de artigos Web History, de Jay Hoffmann, narra em um tom poético mas nada romântico como essa fundação da web aconteceu – das brigas internas dos times de pesquisadores da ARPANET à introdução de CMS como o WordPress e o Blogger, que democratizaram a criação de sites. Alguns capítulos, como o dedicado ao CSS, podem ser cheios de termos muito técnicos para quem não trabalha com esse tipo de coisa, mas vale muito conferir. É uma documentação histórica da internet, e eu gosto que ela existe de uma bonita assim.

Além dos textos, os capítulos são oferecidos em formato de áudio em um podcast, que é o meu jeito preferido de acompanhar. Eu posso ouvir enquanto desenvolvo as coisas do trabalho. É em inglês, mas o narrador Jeremy Keith usa uma voz bem calma e espaçada, se você está arranhando um pouco na língua acho que é uma boa pedida.

Arquitetura infinita de Benjamin Sack

Detalhe do desenho de uma metrópole superpopulosa, em que uma catedral se destaca em meio aos prédios “Boxed In”

O artista desenhando uma metrópole superpopulosa circular “Roots of Being (Per Aspera ad Astra)”

Detalhes do desenho anterior, com prédios tão grandes que formam labirintos na metrópole Detalhe de “Roots of Being”

Detalhe de um desenho em que uma megalópole circula montanhas, que se confundem com os prédios colossais Detalhe de “Leitmotif”

Esses são alguns desenhos do artista Benjamin Sack, que imagina ambientes em que construções e estruturas em megalópoles podem até parecer labirintos imensos. Sua nova obra, a imensa Roots of Being (Per Aspera Ad Astra) vista acima, começou a ser feita no início do lockdown em março de 2020 e foi finalizada quando ele tomou a primeira dose da vacina, em abril desse ano. Ele descreve a tela para o [Colossal] como “um labirinto enorme, emblemático da época em que nós persistimos”.

Confira também esse vídeo que mostra um pouco do processo de Sack.