Minha cena favorita de The Office

Essa é a minha cena favorita da versão americana the The Office:

Tem também aquela sequência maravilhosa do Dwight colocando todo mundo em uma simulação de incêndio e as pegadinhas do Jim. Mas essa, do protetor de tela do DVD, é a minha favorita.

The Office é uma daquelas séries que é bem clara desde o início: esse é um ambiente de trabalho meio bosta cheio de gente que não necessariamente gosta uns dos outros, mas em geral se suportam. Pra série funcionar, porém, ela precisa desvelar essa dinâmica como cotidiano. A versão americana de The Office é ótima nisso: embora tenha arrombos de humor absurdo e o humor-através-do-ódio que o Michael Scott interpretado pelo Steve Carell causa na gente; a série funciona, e só se manteve no ar por tanto tempo, porque com o passar dos episódios se descobriu ser uma série onde pequenos momentos de harmonia e de algo até parecido com felicidade podiam ocorrer.

A gente lembra do relacionamento do Jim e da Pam como um dos grandes eventos de The Office, mas é fácil de esquecer que ele só aconteceu na quarta temporada. São momentos como esse aí de cima que me tornaram fã da série, e que eu só reparei revendo ela nas últimas semanas. Tem o tom absurdo, tem o Michael Scott, mas The Office, no fundo, cria uma bela evolução de pessoas que convivem juntas por tempo suficiente na vida delas que acabam encontrando juntas breves momentos de beleza. Nem que seja no protetor de tela do DVD.

Uma imagem gigante da constelação de Órion

Constelação de Órion

Ontem eu tava comentando com uma amiga sobre como eu amo ler e ver sobre o universo. As vezes chega a ser um problema sair de um vórtice da Wikipédia, em que eu passo sábados inteiros lendo sobre alguma nebulosa ou o que acontece quando duas estrelas se chocam, por exemplo. Eu acho fascinante, e não é algo que eu falo muito sobre.

Enfim, Matt Harbison é um astrônomo amador que, pelos últimos cinco anos, vem capturando uma imagem detalhada da constelação de Órion. Ele completou a imagem, e o resultado é esse mosaico de 2.5 gigapixel composto por mais 12.816 fotos. É legal de vasculhar a imagem à procura de algo que você já leu sobre, é parecido com aquela curiosidade que você tem de ver os lugares que você conhece em um mapa.

Via Kottke.

O trailer de MANK, o novo filme de David Fincher

MANK, o novo filme de David Fincher depois de um hiato de seis anos desde Garota Exemplar, finalmente recebeu um novo trailer. E se eu já tava com saudade de ir no cinema ver um filminho nesse isolamento social, esse trailer simplesmente me matou.

A textura da imagem, a forma que Fincher transforma o enquadramento, a montagem precisa, o tratamento de som… que saudade de ver um filme desse cara.

Chega na Netflix em 4 de dezembro, e em novembro em “cinemas selecionados”, se é que vamos poder ir neles até lá.

Os contos de Raymond Carver

Um dos meus planos para 2020, lá no longínquo ano de 2019, era que eu ia voltar a ler mais. Eu fui uma criança que lia muito, mas quando eu entrei na faculdade eu magicamente parava de ler. É estranho, porque desde que eu me lembro eu estou sempre “lendo um livro”. Nos últimos anos, isso significava ler algumas páginas, ficar alguns meses sem ler, daí ler mais algumas páginas, e assim mais uns meses sem ler até terminá-lo. Mas eu sempre considerava que eu tava lendo um livro. Eu decidi parar com essa baboseira e ler de uma vez, e se o livro não me chama a atenção pra voltar no outro dia, simplesmente procurar outro pra ler. Desde que eu saí da faculdade eu acho que eu lia um livro por ano, e muito porque eu ocupei o que eu considerava meus horários de leitura com outras coisas (ver o Twitter, principalmente). Então eu mudei isso esse ano.

Demorou um bocado pra eu encontrar meu tempo pra ler como eu queria em 2020, mas se tem um plano pra esse ano que eu me dediquei (e que não se chama Animal Crossing), foi o de ler mais. Eu finalmente encontrei meu horário de leitura perfeito: depois do almoço e antes de voltar pro trabalho. Eu costumava usar esses trinta ou quarenta minutos pra ficar descansando na frente do computador, mas eu acho que eu nunca descanso na frente do computador. Então eu decidi usar esse tempo pra ler.

Eu já tô lendo muito mais do que eu li nos últimos anos. Eu decidi que ia ler todos os contos do Raymond Carver, que se espalham por sete livros publicados e duas coleções de “restos” no gigantíssimo 68 Contos de Raymond Carver. Eu comecei relendo Iniciantes, um livro com a versão “original” dos seus primeiros contos publicados. Eu já tinha lido esse livro em 2014 e gostado muito. Reli e continuei gostando muito, então decidi seguir em frente.

Raymond Carver escrevendo em sua máquina de escrever em seu escritório cercado por uma estante de livros

Raymond Carver foi considerado um dos grandes autores do minimalismo americano, uma abordagem à escrita que reduz a narrativa aos seus elementos mais básicos. Eu tenho a impressão que isso torna os contos do autor mais cinemáticos, também. Eles são bem diretos em termos do que está acontecendo, e torna o detalhismo bem mais eventual, e bem mais forte quando aparece. Em um dos meus contos favoritos, “Coreto”, Carver detalha a textura do lençol da cama de hotel que o casal está deitado. Mas ele o faz porque eles estão sobre aquele lençol por horas, e a textura começa a chamar a atenção de seus personagens.

Segundo a introdução de Iniciantes, esse minimalismo talvez não fosse um aspecto inicial do autor, mas sim do editor Gordon Lish, que reduziu os contos daquele livro em até 60% para publicação em Do que estamos falando quando falamos de amor. Lendo eles depois de ver suas versões maiores me causou uma estranheza, porque eu já achava Iniciantes bem direto ao ponto, e alguns contos de Do que estamos falando… parecem “capados” de fim ou de início como resultado.

Mas é algo que eu acabei me acostumando, e que parece que o escritor foi se adaptando conforme seus próximos contos, que parecem menos capados e mais como momentos eventuais nas vidas ordinárias que Carver se especializou em escrever. Todos os contos do autor são sobre o cotidiano de pessoas de classe média-baixa dos EUA, satisfeitas por não estarem na linha de pobreza, mas conscientes que se algo acontecer — se elas perderem o trabalho, sofrerem um acidente, ou a geladeira estragar — pode ser a catástrofe que vai levar todo o pouco de estabilidade que eles têm. É como a versão literária dos quadros de Edward Hopper, como o famoso Nighthawks: composições simples de pessoas em meio à imensidão americana. Distantes o suficiente pra gente saber o que elas estão sentindo de verdade — mas o rosto delas não nos engana.

Carver nunca escreveu dois personagens iguais (embora alguns livros possuam versões diferentes de contos de outros livros, o que eu acho bacana), mas todos os seus contos parecem ter aspectos autobiográficos. Carver também viveu de bicos e trabalhos temporários enquanto não conseguia publicar seu primeiro livro, e em todas as suas histórias a presença de bebidas alcoólicas (ou a ausência delas) é bastante demarcada, talvez um reflexo do alcoolismo que ele enfrentou até os quarenta anos.

Esses fatores comuns, e o minimalismo que guia a forma de todos os seus contos, fazem suas histórias serem simples de você sair lendo e acompanhando seus personagens; mas os sentimentos que elas provocam estão longe de serem fáceis de suportar. São famílias se desfazendo, amigos percebendo que estão se afastando, ou o medo de se perder tudo que os deixa imóveis. Em Você poderia ficar quieta, por favor?, seu primeiro livro de contos, os personagens estão todos silenciosamente desesperados, mesmo quando estão felizes. O tom se complexifica bastante durante a carreira do autor, até chegar nos magníficos Catedral e Fogos, seus dois últimos livros.

A coletânea Catedral é considerada a obra-prima do autor, e o seu conto-título talvez seja o mais marcante de todos os que eu li: nele, o marido precisa receber um amigo da esposa que não ama mais, de uma época bem antes dos dois terem se conhecido. O amigo é um homem velho e cego, e o conto acontece todo dentro da cabeça do marido, com seus preconceitos aflorando e então despencando, um após o outro. A história é bem direta: o amigo aparece, eles jantam, o marido tenta não falar bobagem, ele convida o amigo pra assistir TV enquanto a esposa arruma a cozinha, está dando um documentário sobre catedrais, o amigo pede pro amigo descrever o que como são as catedrais, já que ele nunca viu uma, e o marido percebe coisas que ele parece nunca ter visto dessa forma — e o leitor também.

Já é em Fogos que eu vi o autor explorando mais a sua abordagem. Os contos ainda são bastante minimalistas e centrados no que os personagens estão fazendo e pensando, mais do que o que acontece ao seu redor; mas Carver parece mais confortável em transformar sua forma e adaptá-la. Alguns contos têm mais de um narrador em primeira pessoa, e as vezes o que um fala contradiz o outro. Outras vezes o tempo da narrativa muda — começa com uma primeira pessoa no presente, e se transforma numa primeira pessoa no passado, como se o que está acontecendo do nada se transforme em uma memória. Nada que acabe nos tirando da história para observarmos a forma como ela está sendo contada, e essa é a magia dos contos de Carver pra mim: elas acontecem tão naturalmente, mesmo as mais tristes, as mais violentas, que você só percebe o que aconteceu quando elas acabam, quando elas mesmas se transformam em memória para o leitor.

São pequenos momentos na vida de pessoas comuns que eu acompanhei o ano inteiro, e fico muito feliz de ter escolhido esse autor como minha porta de entrada pra literatura de novo. Eu não sei se eu teria a mentalidade de ler um romance nos últimos meses, mas era bom sempre ter um pequeno momento na vida de alguém que eu podia mergulhar e observar, as vezes compartilhar um pensamento, ou as vezes só ver elas com a distância que o autor me deixou.

Episódio 7 – com Manuela Neri

Eu e Manu falamos sobre como é se virar morando sozinho, e como é impossível fugir de baratas voadoras.

Você pode encontrar a Manu no Twitter.

(Desculpem pela falta de voz nos créditos, eu tava um pouco doente!)

Esse episódio foi produzido por Arthur Freitas. A trilha-sonora é do Blue Dot Sessions. A ilustração do Pãodecast foi feita pelo Raul Fontoura.

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