As relações complicadas entre pais e filhos em Peanuts

A tira do dia1 de Peanuts é essa (via Comics.com):

Charlie Brown comenta com Linus que seu pai precisa de encorajamento

Eu sempre achei fascinante como a relação entre pais e filhos em Peanuts são complicadas, e geralmente melancólicas. A gente sempre vê apenas a interpretação das crianças sobre essas relações (nenhum adulto jamais foi visto nas tirinhas), mas Peanuts é bastante autobiográfico, e sua evolução por meio século acompanhando a turma do Charlie Brown dá tempo e espaço para Charles Schulz desenvolver elas com muita complexidade.

Pensando isso me lembrei desse excelente tópico do Twitter, que vou republicar aqui porque vai suma da timeline do autor. Luke Epplin observa como as relações com as mães em Peanuts geralmente são tristes — muito porque Schulz nunca pôde ver sua mãe, que morreu de câncer enquanto ele servia na Segunda Guerra:

Let’s do a mini-Mother’s Day thread: When Charles Schulz got drafted in WWII, his mother was dying of cancer. He never saw her again. Mother’s Day in Peanuts is often a sad occasion, none more so than this autobiographical strip.

Snoopy e Charlie Brown escolhem um cartão de dia das mães

In the 70s and 80s, it was often Woodstock who was looking for his mother on this day. In keeping with the sadness of this day in Peanuts, he not only never found her, but often ended up heartbroken.

Woodstock chora no colo de Snoopy por não encontrar sua mãe

A recurring trope was for Woodstock to sit at the top of a hill with a flower in his hands in the hope that his mother would fly by. Much like how the Great Pumpkin never comes, his mother is nowhere to be found.

Woodstock espera pela mãe no topo de uma colina

Mothers are absent in Peanuts in general. Charlie Brown talks of his father but rarely his mother. Peppermint Patty’s mother died when she was a child and she’s raised by her father. Here’s a poignant strip of her on Mother’s Day.

Patty Pimentinha escolhe um cartão de dia das mães para seu pai

Snoopy, too, doesn’t know his mother but tries to find her at various points. Once, Schulz did a long series on Snoopy just wandering the country trying to locate her. She’s nowhere to be found.

Snoopy procura por sua mãe

There is humor in these strips–as in the last two panels–but at its core it’s about loss and wandering in the rain looking for a mother who will never return.

Snoopy se esconde da chuva enquanto busca por sua mãe

Of course, the Peanuts characters find family among themselves. Snoopy does seem like a parental figure for Woodstock, but as these strips make clear, he can’t replace the absence of a mother.

Snoopy conforta Woodstock, que sente saudades da sua mãe

What can you say? Just look at how deeply sad a strip like this one is.

Charlie Brown conta para Lucy que está preocupado com Snoopy saindo de casa para procurar sua mãe

The punchline, if you want to call it that, of the entire series where Snoopy wanders the country in search of his mother is just, “Mom?”

Charlie Brown se despede de Snoopy antes do cachorro sair para procurar sua mãe

OK, I’ll conclude here. I don’t think you can separate the absence of mothers in Peanuts from how Schulz lost his own mother, a loss that came just as he was shipping out to war. Mothers are searched for in Peanuts, but never found.

Woodstock procura sua família no ninho, mas o ninho está vazio

Eu gosto como as pessoas pesquisam sobre esses pequenos detalhes dessas tirinhas diárias. Peanuts foi publicada por muito tempo, e certamente acompanhou pessoas por grande parte de suas vidas. Se você quer ler mais sobre como essas tirinhas desenvolviam assuntos bastante complexos um pouquinho por dia, confira os excelentes artigos de Kevin Wong para o Kotaku.

  1. É uma republicação, claro. Nenhuma tira nova de Peanuts foi publicada desde o falecimento de Charles Schulz em 2000. 

Séries com minhas aberturas favoritas

Eu sou completamente contra o recurso de pular abertura de um episódio de série que o Netflix têm. Eu amo uma boa abertura, e acho especial quando uma série usa ela como um portal pro tom e pro ritmo da série. Seja a música fofinha e os fades nos dando boas-vindas à Stars Hollow de Gilmore Girls ou a música levemente perturbadora e as imagens vazias na abertura de Twin Peaks. Uma boa abertura, inclusive, pode até ajudar na cena inicial de um episódio, ressaltando o gancho que ele oferece.

Essas são as minhas aberturas favoritas:

United States of Tara

Essa série sobre uma mãe (Toni Collette) com perturbação de identidade dissociativa e sua família é uma das joias raras da TV da década passada. Em três temporadas (as três estão no Prime Video!) ela foi de comédia para drama familiar para terror sobre trauma com muita naturalidade, sempre repleta de atuações excelentes. A série representa as identidades de Tara com um pouco de caricatura, para ajudar o espectador a entender como cada uma delas afeta cada uma das pessoas ao redor de Tara — seu marido, seus filhos, vizinhos e amigos —, e a abertura usa a mesma abordagem em um tom certeiro: um pouco melancólico, um pouco aconchegante, um tanto estranho. Bem como a série em si.

Halt & Catch Fire

Eu já falei aqui sobre sobre como Halt & Catch Fire captura perfeitamente o sentimento de descoberta de um universo inteiro que norteou a corrida da microcomputação entre os anos 1970 e 1990. A sua abertura é uma tradução visual perfeita para esse sentimento de desbravamento de fronteiras que bits e interfaces proporcionaram esses pioneiros. E é viciante de assistir.

The Leftovers

Outra abertura perfeita, da minha série favorita. A abertura de The Leftovers mudou drasticamente na segunda temporada. A abertura da primeira era opressora e complexa. A nova abertura é bem mais simples: fotos com ausências estranhas ao som de Let the Mistery Be tornam a esperança que está às margens da segunda temporada muito mais visível. Ela fica ainda melhor na terceira, quando cada episódio usa uma música-tema que condiz com a história que o episódio vai contar.

Succession

Outra que usa fotos e uma música bacana. Eu nem sei como Succession consegue arrasar nesse quesito também, mas tem algo mágico no tema composto por Nicholas Britell que simplesmente nos transporta exatamente para onde a série nos quer: no coração do mundo dos super-ricos, onde picuinhas familiares podem destruir países e consumir vidas. Tudo isso ao mesmo tempo em que nos dá uma palhinha da relação dos irmãos com seu pai. Seu efeito na audiência é tão grande que ela está sendo estudada.

ER

A clássica abertura de Plantão Médico nunca vai sumir da minha mente. Eu lembro de acordar no meio da noite quando eu era muito pequeno e ver minha mãe sentada na frente da TV, e quando a música tema de ER começava, ela era absorvida para dentro do County General Hospital e o cotidiano dos plantonistas. A grande estrela aqui é a música fantástica, que une sintetizadores com batidas; mas fica aí o meu carinho pro trabalho visual também, ao mesmo tempo bem representativo das grandes séries dos anos 1990, e estranhamente ainda muito moderna. Bem como ER, que era muito a frente do seu tempo.

Hubble observa a Galáxia Olho Negro

Galáxia Olho Negro, com seu anel de poeira escura cobrindo o núcleo

O Hubble tá sempre trabalhando e registrando as maravilhas ao nosso redor. Na última sexta, o perfil da NASA Goddard no Flickr postou uma imagem que o telescópio capturou da Galáxia Olho Negro (NGC 4826 pros fãs). Segundo a NASA, essa galáxia é bem movimentada (fonte):

NGC 4826 is known by astronomers for its strange internal motion. The gas in the outer regions of this galaxy and the gas in its inner regions are rotating in opposite directions, which might be related to a recent merger. New stars are forming in the region where the counter-rotating gases collide.

A Galáxia Olho Negro foi vista pela primeira vez em 1779 por Edward Pigott.

Eu recomendo muito que vocês sigam a NASA Goddard no Flickr ou por RSS, é um dos meus feeds favoritos com imagens quase que diárias dessas maravilhas celestiais à nossa volta.

Os cartazes de René Magritte nos anos 1920

Antes de ir para a França e se tornar um dos nomes mais conhecidos do Surrealismo, René Magritte vivia em Bruxelas como um ilustrador, criando peças comerciais ao estilo Déco, via OpenCulture

Os dois cartazes abaixo são para anunciar duas peças da empresa de compra Norine, do casal Honorine “Norine” Deschrijver e Paul-Gustave Van Hecke. Van Hecke também tinha uma galeria de arte, e foi um dos primeiros defensores do Surrealismo — e um dos primeiros a pagar Magritte pelo sue trabalho surrealista.

Ilustração de uma mulher em trajes verdes com o texto “Arlequinade” Uma mulher em trajes pretos com o texto “Lord Lister”

Magritte também fez cartazes para performances musicais, como esses abaixo:

Um rosto abstrato com o texto “Arlita” Uma cantora usando um vestido verde, com o texto “Primevere”

Alguém criou um exercito de corvos (e eles salvaram uma vida)

Das coisas boas demais pra ser verdade: uma pessoa começou a dar comida para os corvos da vizinhança, e eles se tornaram “leais” à ela. O número de corvos cresceu e eles começaram a defender a casa da pessoa de “intrusos” (suas visitas). A história é genial:

A couple months ago, i was watching a nature program on our local station about crows. The program mentioned that if you feed and befriend them, crows will bring you small gifts. My emo phase came back full force and i figured that i was furloughed and had lots of time- so why not make some crow friends.

My plan worked a little too well and the resident 5 crows in my neighborhood have turned into an army 15 strong. At first my neighbors didnt mind and enjoyed it. They’re mostly elderly and most were in a bird watching club anyway. They thought the fact that i had crows following me around whenever i go outside was funny.

Lately, the crows have started defending me. My neighbor came over for a socially distanced chat (me on my porch her in my yard) and the crows started dive bombing her. They would not stop until she left my yard.

/u/crane contou essa história em um subreddit especializado em “aconselhamento jurídico”, questionando se ela seria responsabilizada caso os corvos atacassem alguém. O tópico é divertido por si só, e o conselho escolhido foi sobre como ensinar os corvos a se comportar:

They are resource guarding. To stop them from attacking people, ask guests to bring shiny objects or food scraps to the murder of crows as an offering. You could also supply your guests little baggies of treats for them to offer up. If they dive bomb someone don’t give them food for 24 hours. If they are nice to a guest, give them a high value treat to reinforce positive behavior. Advice from my partner, she was a field biologist that is published in biology/ornithology.

O tópico fez tanto sucesso que /u/crane postou uma atualização sobre como os corvos acabaram salvando a vida de um de seus vizinhos:

The plan worked and the crows are now a beloved part of the community. There have been no recent dive bombings.

Most amazingly, the crows may have legitimately saved my neighbor. Our city had a pretty big ice and snow event recently. Like i said in my last post, most of my neighbors are older. One of my neighbors was walking down his steep driveway, slipped, and couldnt get back up.

The crows started going ballistic and were making more noise than we have ever heard. A different neighbor went outside to see what was up and found the gentleman in his driveway. Neighbor is mostly ok! Just some serious bruises.

De vez em quando a internet consegue ser boa demais.

30 minutos de visuais relaxantes dos filmes de Hayao Miyazaki

Na verdade não são trinta minutos mesmo, são seis — mas as sequências são rearranjadas a cada repetição. Mesmo assim, é sempre bom sentar e acompanhar um pouquinho da beleza pastoral dos filmes do diretor japonês Hayao Miyazaki.

Eu lembro que eu assistia Meu Amigo Totoro sempre que eu ia visitar a minha avó, era o único VHS na casa dela, e eu não via problemas nisso. Eu sempre gostei de assistir um filme que não me agitava nem me dava medo. As coisas acontecem em Totoro, mas num rítimo próprio.

Todos os filmes do Studio Ghibli (com uma exceção) estão disponíveis na Netflix.

O Daft Punk acabou

O Daft Punk anunciou que a banda se separou.

O dia de hoje ficou muito, muito triste. É um fim gigante pra mim, essa banda embalou alguns dos melhores momentos da minha vida, e imaginar que um dia eles lançariam um som novo para embalar um novo momento era uma boa esperança de se ter.

Muito obrigado por todos esses momentos e todas essas memórias, Daft Punk. Que jornada incrível vocês me ajudaram a ter.