James Gray torna A Imigrante em um dos fundamentos da América.

James Gray é um diretor fenomenal. É um dos únicos diretores em atividade hoje em dia no cinema americano que consegue criar aquela sensação de estar assistindo o filme de uma vida — um sentimento que parece vindo diretamente da Era de Ouro de Hollywood, com aqueles grandes e intensos dramas que acompanhavam seus personagens de perto enquanto criavam uma parábola sobre a situação americana.

E, sem tirar nem pôr, é isso o que ele faz no excelente A Imigrante.

Lançado em 2014, depois de um bocado de dor de cabeça e de uma briga ferrenha entre o diretor e o produtor, A Imigrante é um intenso drama sobre Ewa, uma imigrante polonesa que chega aos Estados Unidos buscando oportunidades melhores de vida, como milhares de outras pessoas fizeram no início do século passado. Ewa precisa deixar a irmã Magda, que está doente, em quarentena em um sombrio hospital na Ilha Ellis, uma ilha simbólica para os EUA como o grande portal para o país.

A Imigrante é, como todo o grande filme, lindo. O desenho de produção é soberbo, e cada cenário e cada figurino vibra com vida. É nos detalhes que os anos 1920 ganham vida. Os confetes pregados nas roupas das apresentações. O sentimento de purgatório que assola a Ilha Ellis, o fetichismo das grandes roupas. Mas A Imigrante é grande mesmo em sua história. Ele é repleto de história, em cada uma das esquinas da cinzenta e implacável Nova York dos anos 1920. Ewa conhece Bruno, um homem que oferece a ela o emprego como dançarina em um vaudeville como pagamento para tirar Magda do hospital. Ewa eventualmente descobre que as intenções de Bruno são outras, e precisa fugir não só dele como do implacável sistema americano — que revela que o sonho de liberdade é repleto de poréns.

Ao dar o nome de A Imigrante ao seu filme, Gray soa definitivo. E o filme é. As excelentes atuações da Marion Cottilard (vencedora do Oscar por sua atuação em Piaf: Um Hino Ao Amor) e de Joaquin Phoenix (do excelente Ela) trazem uma delicadeza nos costumes da época, mas Gray tem seu maior sucesso em tornar A Imigrante, esse filme de uma época tão demarcada, em algo urgente.

Gray diz que A Imigrante é inspirado nas histórias da sua própria avó, uma imigrante polonesa que chegou nos EUA pela mesma época. E A Imigrante parece muito uma ode à essa memória, mas não consegue evitar em parecer mais do que isso: é a fundação da família americana. Não só de descendentes poloneses, mas a história de Ewa ecoa a de milhões de pessoas que ajudaram a fundar os Estados Unidos. James Gray quer garantir que essa história continue sendo importante, continue sendo ouvida. E A Imigrante parece ser, sim, o seu filme definitivo.

The Legend of Zelda: Breath of the Wild é um jogo monumental.

É gigante.

Você acorda, convocado por uma voz vinda do além. Ela diz para você sair da caverna onde você, pelo visto, dormiu por mais de um século. Quando você está quase na saída, se depara com um barranco. Você o escala e sai. Você corre para o mirante. O que espera por você é um reino a perder de vista. Montanhas, florestas, um templo. Rios e lagos, uma geleira lá longe, um vulcão.

Essa é a Hyrule de The Legend of Zelda: Breath of the Wild. É gigante.

Depois de décadas sendo a referência em game design sublime, The Legend of Zelda, uma das principais e mais influentes franquias dos jogos alcança o futuro. E ele é gigante.

Como é que eu vou te explicar o sentimento de jogar Breath of the Wild? Eu preciso começar dizendo que esse é o jogo mais bonito, ou que esse é o melhor jogo que a Nintendo já fez? Porque as duas afirmações são verdadeiras. Eu começo explicando que, para um jogo difícil como esse, é incrível como ele recompensa o jogador a qualquer momento; ou eu apenas falo como eu joguei as minhas primeiras horas de jogo? É, acho que é uma boa.

Quando The Legend of Zelda: Breath of the Wild saiu da caverna e me levou para o Grande Plateau de Hyrule, eu mal conseguia respirar. “Pra onde eu vou?”, eu pensei. Como todo o jogo da Nintendo, o game design é de cair o queixo e, quando eu saquei o que o jogo queria que eu fizesse, eu fui atrás. Eu conheci um velho misterioso, e ele me explicou o que aconteceu com Hyrule enquanto eu dormia. Eu peguei um pedaço de pau e sai a caminhar na Hyrule mais linda que eu já vi.

E eu fiquei assim por um bom tempo. A Nintendo tornou Hyrule em um ambiente vivo, realmente importante, e unicamente magnífico. Não há “zonas de vazio” como os jogos de mundo aberto normalmente têm, aqueles marasmos sem nada pra fazer enquanto você vai de um ponto A ao ponto B para completar uma missão. Em meio à floresta você encontra um acampamento de Boboklins. As vezes esses acampamentos já foram abandonados, e algumas frutas ficam pra trás. Tu pode pegar essas comidas e itens e fazer refeições. E cada um desses pequenos detalhes é apresentado em um dos jogos mais bonitos já feitos, onde cada efeito de luz e de sombra é bem pensado, onde as cores são vívidas e respondem ao jogador. O crafting, essas tarefas de pegar certos itens para criar outros, é uma das coisas que eu mais odeio nos jogos atuais. Mas, como em muitos outros aspectos, The Legend of Zelda: Breath of the Wild encontra uma mecânica que não torna esses elementos insuportáveis. Breath of the Wild, e a sua Hyrule, são impiedosos: eu morri um bocado, e continuo morrendo, mas poucos jogos são tão recompensadores quanto esse. Cada encontro com inimigo, cada novo ambiente, cada nova interação vai te ensinar algo novo. E, acredite, há muito o que descobrir em Hyrule.

Deve ser inútil falar isso, mas não existe lugares que você não pode alcançar em Breath of the Wild. Tudo o que você vê — e até mesmo um bocado do que você não vê — está acessível pra ser explorado. E tudo parece vivo, porque não são apenas áreas. A Nintendo é, talvez, a melhor desenvolvedora de jogos de sempre, e esse tributo é visível aqui: ao invés de criar um mundo vasto com muito marasmo, como acabou sendo frequente na medida que jogos de mundo aberto foram se tornando a regra nas superproduções. Não existe ambiente aqui que não pareça ter sido cuidadosamente desenhado para te oferecer algum desafio e alguma recompensa. Que você precise explorar e descubra que não existe só um modo para acessar e para desvendar esse segredo, mas sim quatro, cinco ou seis maneiras diferentes.

Foram décadas para The Legend of Zelda olhar para trás e decidir mudar a sua mecânica básica. Desde A Link to the Past, a série nos pede para descobrirmos um item que permitirá acessar uma área; nessa área, os enigmas devem ser solucionados com o item que você usou para desbloqueá-la, e assim descobrir um novo item para a área seguinte. Essa fórmula foi um sucesso tremendo, e definiu boa parte dos jogos da metade dos anos 1990 em diante. Mas agora foi a vez de Breath of the Wild olhar ao redor, absorver tudo aquilo que outras desenvolvedoras faziam, e ensinar elas a fazer melhor. Não quero desmerecer o trabalho e as revoluções que jogos como Grand Theft Auto e The Witcher trouxeram, mas ao jogarmos Breath of the Wild nos deparamos com algo gigante, realmente gigante. E é nossa tarefa entendê-lo.

Jogos de mundo aberto geralmente possuem aquele sentimento de que o ambiente está aos seus pés. Grand Theft Auto, inclusive, libera áreas novas de acordo com o quanto a sua dominância em uma outra área vai aumentando. É seu dever “domar” esse mundo e fazer dele o que quiser. Você pode queimar uma floresta inteira em Breath of the Wild, se quiser. Mas você quer? Hyrule não é um lugar qualquer: é um ambiente vivo, instigante e fascinante que te apresenta um mundo inteiro que não está ao seu dispôr, mas que reage as suas ações. É nosso dever conhecer e salvar Hyrule porque, ao conhecermos cada pico e cada vale, cada rio e cada habitante, nós nos sentimos pouco a pouco parte dela. Ao nos tornar parte de um mundo tão gigante e tão vivo, tão misterioso e tão fascinante quanto Hyrule, Breath of the Wild nos eleva.

The Legend of Zelda: Breath of the Wild é o maior jogo que eu já joguei. Ele é gigante, gigantesco. Mas mais do que isso: é uma obra de como precisamos fazer parte de algo maior, de alcançarmos um sentimento maior que aquele que vive no nosso íntimo. Breath of the Wild me pede para acordar e olhar para fora, para conhecer um pouco a gigantesca Hyrule, e entender aquilo que nos move para ela. Hyrule nos trata com respeito ao nos indicar que podemos fazer tudo da maneira que queremos; e pede esse respeito de volta ao responder a essas nossas ações à altura. É o jogo mais vital que eu joguei em anos. É diferente de todo o Zelda que veio antes. E é exatamente aquele Zelda que é respeitado na história dos jogos.

Hyrule é gigante, mesmo. Mas The Legend of Zelda: Breath of the Wild é monumental.

Legion é o futuro brilhante dos super-heróis.

E então, o que tu acha dessa onda de filmes e séries de super-heróis que explodiu nessa última década?

Na verdade, pouco importa o que a gente acha, porque essa onda é poderosa e parece que tá aí pra ficar, principalmente depois dos sucessos gigantescos de Mulher-Maravilha, Guardiões da Galáxia 2 e Homem-Aranha: De Volta Ao Lar. No meio desses universos cinemáticos da DC e da Marvel, onde a Liga da Justiça está se formando e os Vingadores originais estão quase se aposentando, aqueles primeiros filmes dos X-Men, lá no início dos anos 2000, parecem coisa de criança. Eles não moldavam franquias e franquias que compunham um universo altamente intrincado onde cada filme prosseguia com uma grande narrativa. Eles apontaram o futuro do blockbuster, quase sem querer, e daí não conseguiram sobreviver à pesada concorrência. Até agora.

Legion, a nova série da FX é a primeira série da franquia X-Men, e ela é diferente de todas as outras, e muito particular na própria TV.

Os X-Men sempre foram plurais. Existem muitos por aí, e todos muito diferentes — alguns são tão diferentes que ninguém sabe exatamente quais seus poderes. Demorou, mas a Fox encontrou nessa amplitude a forma perfeita para esses personagens. Logan apresentou o melhor filme de super-herói em anos e, na TV, Legion é um futuro brilhante.

Centrada em David Haller, o Legião, interpretado aqui pelo Dan Stevens (que está em aproximadamente 170% dos filmes esse ano), a série é tão única quanto seu personagem. Criada pelo mesmo showrunner da antologia Fargo, Noah Hawley, Legion usa das especificades de um dos X-Men mais legais pra fazer uma série igualmente cheia de especificidades.

Essa primeira temporada de Legion, pra ter uma ideia, se passa quase toda dentro da cabeça de David Haller. E a gente precisa ficar desvendando o que é realidade e o que é invenção das múltiplas mentes que habitam o cérebro do Legião. Acredite: a série é divertidíssima, e tem algumas das cenas mais legais do ano (em um ano com Twin Peaks cada vez mais… únicos… é algo a se considerar).

Legion parece apontar pra um futuro brilhante para os super-heróis, nem que seja só nessa série. Apostando demais na identidade do herói principal, Noah Hawley investe em uma estética particular pra série e se diverte um monte ao fazer a narrativa parecer estar sendo manipulada pelo próprio Haller. É uma loucura, é único e é divertidíssimo do início ao fim. E aponta pra um futuro ainda melhor. É a melhor temporada de estreia do ano.

Cuidado ao entrar em Welcome to Night Vale…

Você gosta de podcasts, né? Meus dois favoritos eu já escrevi aqui: Serial e Next Picture Show são minhas melhores companhias no trabalho. Mas a sugestão de hoje não é de se ouvir no trabalho. É pra sentar no meio da madrugada e escutar com cuidado.

Welcome to Night Vale é um dos mais criativos podcasts que surgiram nos últimos anos (esse precede muitos, inclusive, tendo surgido em 2012). Ele não é investigativo, como Serial. É uma longa e misteriosa história sobre uma cidade fictícia no sul dos Estados Unidos, Night Vale, e as coisas estranhas que acontecem por lá.

São dois episódios por mês, de fevereiro a dezembro. Welcome to Night Vale é apresentado como um programa de rádio dessa misteriosa cidade. Tem notícias, previsão do tempo e por aí vai. Se você gosta do clima de Stranger Things ou pelo realismo fantástico de Kentucky Route Zero e pelas estranhezas de Twin Peaks, vai encontrar umas boas horas na misteriosa Night Vale. Já são cem episódios (mais alguns bônus) e quarta-feira começa o sexto ano, então é uma boa hora pra fazer aquela maratona.

Orgulho e Preconceito ainda surpreende

O livro foi publicado pela primeira vez no início em 1813, mas continua sendo inusitado, divertido e moderno até hoje. Orgulho e Preconceito não precisa de defensores e sim de leitores.

A história já foi recontada de diversas formas em diversos meios nos últimos anos. Adaptações pro cinema e pra TV (a versão de 2005 dirigida por Joe Wright é a minha favorita); no teatro; revisões (oi, O Diário de Bridget Jones) e sátiras (ugh, Orgulho e Preconceito e Zumbis). Mas Orgulho e Preconceito é imortal. A história de como Elizabeth Bennet e o Sr. Darcy se conhecem, se odeiam mas na verdade se apaixonam. No caminho, Lizzy questiona a rigidez do comportamento social da Inglaterra na sua época; os preconceitos que lideram casamentos; e como é belo se conhecer de verdade.

Ler Orgulho e Preconceito é um ato de liberdade. É incrível como o livro voa durante a leitura. É tão bom, e tão empolgante, e tão divertido, e tão moderno. Sério. Parece que Austen tá conversando com a gente enquanto nós acompanhamos a história de Lizzy. Qualquer sucesso desse livro, um verdadeiro clássico da literatura mundial, é pouco. Ainda bem que as pessoas continuam lendo e discutindo Jane Austen. Seus livros precisam viver pra sempre.

Quais filmes indicados ao Oscar 2017 vale a pena assistir?

Os indicados ao Oscar, ou o Prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas pros chatos, foram anunciados nessa terça-feira. Muita gente diz que os Oscares não importam (spoiler: nunca importaram), mas eles ajudam filmes que de outra forma não teriam chance nenhuma de aparecer por aqui (como Moonlight esse ano, que veio com força total pro prêmio), e ainda é uma das épocas mais divertidas do ano pra fazer maratona de filmes. Esse ano a gente vai te ajudar com ela.

Uma coisa diferente aconteceu em 2017: os favoritos pro Oscar demoraram pra aparecer. Eles começam a fazer barulho em meados de outubro, mas em 2016, com Mad Max: Estrada da Fúria, o Oscar já tinha um favorito no meio do ano. O caso mais próximo de favoritismo veio com A Chegada, que não fez uma fração do barulho do filme do George Miller ano passado.

A gente vai organizar a maratona por seis categorias (filme, diretor, atriz, ator, ator coadjuvante, atriz coadjuvante e animação), mas não repetiremos filmes. Ou seja: os filmes indicados a melhor filme não vão ser repetidos nas outras categorias indicadas, capiche? Beleza. Semana que vem fazemos de outras categorias. Vamos lá.


Melhor Filme

A briga está entre dois: Moonlight: Sob a Luz do Luar e La La Land: Cantando Estações. Dificilmente vai sair pra outro lado, mas se sair vai pra Manchester à Beira-Mar ou Um Limite Entre Nós. Temos ainda Estrelas Além do Tempo e A Chegada, além dos com quase nenhuma chance: A Qualquer Custo, Até o Último Homem e Lion: Uma Jornada para Casa. Essa é a ordem de prioridade pra ver esses filmes, se não tiver tanto tempo. A categoria é a mais imprevisível teoricamente, mas o sindicato dos produtores costuma acertar bastante, vamos esperar pra ver.

  • Moonlight: Sob a Luz do Luar estreia nos cinemas em 23 de fevereiro. É o grande favorito e, para muita gente que já viu, o melhor filme de 2016. É sobre a busca da identidade de um garoto negro e gay na intolerante Miami.
  • La La Land: Cantando Estaçõesestá nos cinemas, e parece que vai ficar um tempo porque tá fazendo dinheiro. É a história de sucesso de 2016: o segundo filme do diretor de Whiplash: Em Busca da Perfeição que revitaliza um dos mais antigos, e mais mortos, gêneros do cinema. Já foi nossa dica por aqui, e a gente gostou um bocado.
  • Manchester à Beira-Mar também já está em cartaz. É um ótimo filme do diretor do fantástico Margaret, e eu recomendo muitíssimo. Existe muita controvérsia sobre o ator principal, Casey Affleck (o favorito na categoria), o que é realmente uma pena pra um filme tão bom. Vá pela Michelle Williams, que está fantástica.
  • Um Limite Entre Nós não tem previsão, mas a Paramount garante que estreará o filme dirigido e estrelado por Denzel Washington com Viola Davis no elenco ainda no mês de fevereiro. O filme é baseado em uma peça de August Wilson, e o tipo de filme que não leva os grandes prêmios fora das categorias de atuação (Davis é a favorita pra atriz coadjuvante). Parece ser ótimo.
  • Estrelas Além do Tempo estreia em 2 de fevereiro, é o único filme produzido por um grande estúdio nessa categoria (A Chegada foi comprado pela Paramount, mas produzido por um estúdio independente durante todo o processo anterior). É o baseado-em-fatos desse ano, mas parece ser muito melhor que os dos anos passado (se bem que Spotlight é um filme bem bacana). Não é o favorito em nada esse ano, mas filmes assim sempre acabam roubando um ou outro prêmio, então é pra ficar atento nesse aqui.
  • A Chegada está no limbo entre cinemas e home video. Ele chega no iTunes em 14 de fevereiro, e deve aparecer em DVD e Blu-ray em março, mas com as indicações pode arranjar um contrato em streaming mais rapidamente, então cuida a HBO (o filme é distribuído pela Sony no país, que tem contrato com a HBO). Esse é o “blockbuster” indicado ao melhor filme nesse ano. Entre aspas porque o filme não tem o preço nem a bilheteria de um arrasa-quarteirão como nos anos anteriores. É um ótimo filme que também já foi a dica aqui no :bread:.
  • A Qualquer Custo estreou nos cinemas em 5 de janeiro, mas em circuito muito restrito, que vai se expandir agora dia 2 de fevereiro. É um filme bastante surpreendente de um diretor que não fez nada de muito brilhante antes, mas que aqui faz um faroeste moderno bastante simbólico pós-crise financeira. Vale a pena ver.
  • Até o Último Homem estreia hoje nos cinemas. É o filme de guerra obrigatório em toda a categoria de melhor filme, mas dizem que tem o segundo papel de sucesso em que Andrew Garfield interpreta um cristão vivendo um conflito entre sua fé e as atrocidades ao seu redor (o outro é Silêncio, um dos esnobados esse ano). Não se empolgue muito.
  • Lion: Uma Jornada para Casa estreia em 16 de fevereiro nos cinemas. É o outro baseado-em-fatos desse ano, e dizem que é o mais caro anúncio do Google Maps da história. É um chamado “tearjerker”, ou aqueles filmes que manipulam o choro até quando não deveriam. Se tem um filme pra ignorar esse ano, provavelmente é esse. É o que vai ter defensores ferrenhos na semana do Oscar mas uma semana depois todo mundo vai ter se esquecido.

Melhor Diretor

Os cinco filmes indicados a melhor direção também estão indicados a melhor filme. O favorito aqui é Damien Chazelle, por La La Land: Cantando Estações, mas a força de Moonlight: Sob a Luz do Luar pode fazer Barry Jenkins levar esse prêmio também. Kenneth Lonergan merecia muito mais por Margaret, e sua indicação aqui é muito mais por repeito do que por Manchester à Beira-Mar, embora eu ache um ótimo filme. Mel Gibson está aqui por motivos incalculáveis pela mente humana com o seu Até o Último Homem. Denis Villeneuve faz um baita filme só com uma parede em A Chegada, mas o filme tem poucas chances nas categorias principais. Phew. Essa categoria fica mais certa quando o sindicato dos diretores anunciar seus prêmios.

Melhor Atriz

É a categoria mais acirrada da noite, diferente dos anos anteriores em que uma atriz claramente dominava a corrida. Isabelle Hupert levou o Globo de Ouro por Elle (não que isso importe muito), mas Emma Stone é a indicada pelo favorito La La Land: Cantando Estações. Ruth Negga surpreendeu com a única indicação pra Loving, que perdeu muito do fôlego que ganhou em Cannes no ano passado; assim como Natalie Portman em Jackie. E tem Meryl Streep, indicada esse ano quase que por obrigação pelo seu papel bem decente em um filme bem mais ou menos, Florence. Assim como as outras categorias de atuação, o favorito dessa corre na frente quando o sindicato dos atores anunciar sua premiação (atores são o maior número dos eleitores no Oscar).

  • Elle está em cartaz. Como foi lançado há um tempo, ele está em poucas salas mas deve ganhar mais algumas pros interessados em ver. Vale muito a pena, Huppert tá excelente em um filme que, embora desconfortável e divisivo, seja necessário.
  • Loving é um dos mistérios: ele não tem sequer previsão de lançamento ainda. A indicação de Ruth Negga deve espremer ele em algumas salas ainda esse mês, mas não dá pra garantir. Talvez ele apareça direto no Netflix, como outro sucesso de Cannes (Docinho da América) fez.
  • Jackie será lançado nos cinemas em 2 de fevereiro. Dirigido pelo chileno Pablo Larraín, segue Jacqueline Kennedy nos momentos após o assassinato do seu marido, John F. Kennedy. É uma das atuações mais aclamadas e um dos filmes mais divisivos do ano, então vale a pena ver.
  • Florence: Quem É Essa Mulher? já saiu dos cinemas e está em DVD e Blu-ray. É a indicação muito mais pelas manifestações de Streep contra Trump e pelo respeito que a Academia tem pela atriz do que qualquer outra coisa. É um filme bem mediano e esquecível, que tem seu humor e tudo o mais.

Melhor Ator

Uma das categorias mais certas da noite, deve ir para Casey Affleck pelo seu Manchester à Beira-Mar, mesmo coberto de polêmicas pela agressão que cometeu contra mulheres no set de Eu Ainda Estou Aqui. Como polêmica tirou Nate Parker da disputa com seu Nascimento de uma Nação, há alguma chance de ele perder aqui, mas a disputa tá pendendo muito pro seu lado. Fora ele tem Andrew Garfield pelo seu Até o Último Homem (embora todos sabem que deveria ser por Silêncio), Ryan Gosling por La La Land: Cantando Estações, Viggo Mortensen por Capitão Fantástico e Denzel Washington por Um Limite Entre Nós. Também, a corrida fica mais clara quando o sindicato dos atores anunciar seus prêmios, mas é quase certo que vai pra Affleck.

  • Capitão Fantástico está em cartaz. É um filme bem ruinzinho, e nem a atuação de Mortensen, que é um ótimo ator, se salva. Não sei como foi parar aqui, mas né. O cara merecia ser lembrado depois da sua fase com o Cronenberg acabar.

Melhor Ator Coadjuvante

Assim como a categoria de melhor atriz, essa aqui tá imprevisível por enquanto. O prêmio tá pra ir pra qualquer lado, e os menos prováveis são bem prováveis. O favorito, por pouca margem, é Mahershala Ali, por Moonlight: Sob a Luz do Luar; mas Dev Patel pode levar por ser um meio-protagonista-meio-coadjuvante no Lion: Uma Jornada para Casa. Tem o Jeff Bridges que a Academia adora no A Qualquer Custo; um inspirado Michael Shannon no péssimo Animais Noturnos; e o excelente Lucas Hedges no ótimo Manchester à Beira-Mar. A aposta é livre.

  • Animais Noturnos está em cartaz. É uma bosta, sério.

Melhor Atriz Coadjuvante

Como melhor ator, a favoritíssima aqui é Viola Davis em Um Limite Entre Nós, mas a categoria está bastante fraca esse ano. Naomie Harris é indicada por Moonlight: Sob a Luz do Luar, e é uma atriz que há anos vem fazendo uma carreira estelar e que parece uma das favoritas aqui. Fora isso, Nicole Kidman em Lion: Uma Jornada para Casa parece muito indicação da Academia avisando que ainda lembram de Kidman; Michelle Williams, que em três minutos em Manchester à Beira-Mar transforma o filme em algo fantástico; e Octavia Spencer por Estrelas Além do Tempo. Os cinco filmes foram indicados nas outras categorias que a gente já cobriu aqui.

Você nunca vai jogar nada como The Entertainment

Seja lá o que você acha que é, The Entertainment é fantástico.

Então, como é que eu vou falar de The Entertainment? É um jogo, eu acho. É desenvolvido pela Cardboard Computer (de um dos meus jogos favoritos, Kentucky Route Zero e do sensacional Neighbor). Você pode jogá-lo no Oculus Rift ou no computador.

Mas você também pode interpretá-lo.

“Como?”, você me pergunta, e eu te respondo: The Entertainment é, também, uma peça de teatro. Tem roteiro e tudo, e você pode lê-lo com informações de como montar o cenário e quais sons você vai precisar reproduzir. É como se fosse realidade virtual, só que real.

The Entertaiment é isso, basicamente. No jogo você interpreta um personagem que não tem nome, só é identificado como “Mosca de Bar”. Tem algo de misterioso rolando no The Lower Depths, o bar onde tudo se passa. The Entertaiment não dura mais do que uma hora. Mas quando acaba ele te leva junto no medo que ele criou devagarinho.

E eu não consigo sair dele.

Reflektor é diferente de tudo o que o Arcade Fire já fez.

O Arcade Fire lançou uma música nova semana passada. Considerando que The Suburbs é um dos meus álbuns favoritos — senão o meu álbum favorito —, me assustei de nunca ter falado sobre a banda aqui. A nova música me lembrou do porquê de eu amar o conjunto canadense, e voilá.

Mas eu não vou falar de “I Give You Power” (que eu gostei um bocado) ou de The Suburbs, eu vou falar do álbum mais recente deles até agora: Reflektor, que é diferente de tudo que esse pessoal já tocou, e que eu demorei pra gostar mas aprendi a amar.

Reflektor me soou muito estranho da primeira vez que eu ouvi. Depois de uma ode à juventude e à saudade com The Suburbs (e depois de ter estreado com o álbum mais importante da década passada, Funeral), o Arcade Fire decidiu fazer algo diferente: um álbum gigante que “adapta” a tragédia grega de Orfeu e Eurídice com a maestria do rock.

É estranho mesmo. Reflektor é ansioso e muitas vezes confuso, mas isso justamente porque ele está preocupado com muitas coisas ao mesmo tempo. O que outras bandas poderiam acabar se perdendo em um álbum prepotente ou sem nenhuma coesão, porém, o Arcade Fire consegue alcançar com maestria homenageando desde Bowie até Daft Punk.

A paranoia que parece viciar as músicas de Reflektor é a mesma que está entranhada em Ela (que a banda compôs a trilha-sonora junto com esse álbum, e que exibe a influência em faixas como “It’s Never Over (Hey, Orpheus)” e “Supersymmetry”). É a de perceber como experimentamos o mundo de uma forma muito diferente daquela de 2009, quando lançaram The Suburbs: agora estamos sempre sozinhos, juntos. Reflektor é um álbum que almeja grande, alcança sempre e nunca está satisfeito. O que só comprova, e promete, até onde o Arcade Fire consegue chegar.