O passado e o presente se confundem em The Suburbs

Eu escuto The Suburbs todo o verão desde seu lançamento, em 2010. Quando eu descobri o Arcade Fire, um pouco antes do lançamento do álbum, eu escutava Funeral e Neon Bible direto, no repeat, quase todos os dias. Foi a trilha-sonora do último ano do ensino fundamental e do meu primeiro ano do ensino médio. The Suburbs mudou tudo. Ele entendia a minha vontade de sair de casa e nunca mais voltar. Ele me acompanhou no meu primeiro emprego arrumando computadores de uma lan-house (!!). Ele soava como os meus dias de verão — gigantes, ensolarados, onde o dia durava uma eternidade de tédio, do bom e do ruim.

É interessante continuar ouvindo The Suburbs depois de todos esses anos. É um álbum feito tanto das memórias de uma juventude, quanto dos sonhos e frustrações que elas criaram. É um álbum sobre querer sair de casa, querer viver uma vida sem as amarras de nossos pais e das comunidades que crescemos. É um álbum que lembra de quando se descobre quem você é, daqueles dias com seus amigos onde você dá o primeiro beijo, descobre o primeiro amor, aprende a dirigir e a beber.

The Suburbs é um álbum conceitual com dois arcos narrativos bem definidos. O primeiro é a jornada de um jovem no seu último verão no subúrbio, louco para ir embora para a cidade grande e conseguindo; o segundo é o desses jovens, agora adultos, reconsiderando suas lembranças daquele lugar. Em “Ready to Start” e “Modern Man” aquele subúrbio descrito na faixa-título são insuportáveis — os empregos depois da escola são tediosos, os dias são longos, há uma guerra que os impedem de fazer qualquer coisa. Já em “Wasted Hours” e “We Used To Wait”, esse mesmo subúrbio foi o único lugar que os permitiram crescer livremente, descobrir quem eles eram através do ócio. Ele perderia esse tempo todo de novo, o protagonista diz.

A genialidade dessa estrutura de The Suburbs é que esses dois movimentos — o de viver e o de lembrar — acontecem ao mesmo tempo no álbum. Em certos momentos, eles se confrontam (“City With No Children”); em outros, a memória vence (“Half Light I”); enquanto em outros, não existe mais a memória, apenas todas aquelas lembranças ao redor dela (“Suburban War”). Já em outros, como “The Suburbs” e “Sprawl I (Flatland)”, as duas vivem em uma delicada harmonia.

The Suburbs modula esses dois movimentos tão bem ao sempre se reconsiderar. A faixa-título apresenta não só toda a temática do álbum, como oferece acordes que serão reutilizados e ressignificados nas faixas seguintes. É como se The Suburbs criasse memórias próprias e as lembrasse nos breves minutos entre uma música e outra. E talvez ele o faça: o Raul me escreveu no Twitter sobre isso, quando “City With No Children” recupera uma sonoridade de “Modern Man” ele o ressignifica não só por estar em uma música e uma letra diferente, mas também porque o álbum estabeleceu uma conexão entre essas músicas, que agora se somam e se confrontam em significados.

If it’s alright, then how come you can’t sleep at night?

O o Arcade Fire apareceu no início do século com o clássico instantâneo que foi Funeral e apresentando uma banda com uma capacidade singular de expressar grandes declarações nos menores sentimentos. Isso cria uma compreensão com o seu ouvinte que é quase íntima, uma percepção de que “eles entendem”, seja lá o que for. Em Funeral, onde a morte permeia todo o álbum, a banda modulava o luto e a finitude da vida com descrições singulares de uma carona de carro, de um abraço ou até mesmo de um choro. Com The Suburbs essa modulação vai além: a banda não se segura nos seus grandes temas — o medo da decepção e do fracasso que a vida causa ao nos permitir sonhar está todinha descrita junto com a última hora de luz do dia ao lado de seu primeiro amor da juventude em “Half Light I”; é uma música linda de se ouvir, não porque a decepção seja linda, mas porque sonhar é bom demais mesmo assim.

The Suburbs é formado por essas memórias desses momentos íntimos e com a distância que o tempo e a decepção do mundo nos trazem. Ouvir o álbum todos esses anos depois do seu lançamento me faz perceber como, desde a faixa-título, The Suburbs é sobre a frustração de que a promessa de vida que fazemos quando jovens, seja de quem queremos ser ou de como queremos mudar o mundo. Logo no início em “The Suburbs”, o protagonista vê a promessa do progresso, quando os muros e as casas que seus pais construíram nos anos 70 finalmente ruíram; e a decepção de não conseguir criar algo novo com essas ruínas.

É um balanço difícil esse, de lembrar de como era bom no passado e como as coisas não parecem certas no presente ao mesmo tempo que tenta não propagar ideais conservadores. O álbum alcança esse feito ao se questionar a todo o momento. Aquela vontade de ir embora em “The Suburbs” alcança um ponto de confronto com “City With No Children”, até se tornar em frustração e caos de “Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)”: o subúrbio que tinha tantas horas vazias foi substituído pelas montanhas e montanhas de prédios e propagandas de uma cidade infinita, de onde é impossível de fugir. The Suburbs soa desolador no final, mas esse final já é apontado através de sons e de versos já lá no início. Não é o presente que está certo, nada nunca esteve muito certo. Se “We Used To Wait” parece em um primeiro instante celebrar a paciência, a forma como as coisas eram manuais em um primeiro momento, dez anos depois ele parece mais um chamado. O “progresso”, a velocidade que aquelas crianças tanto queriam e lutaram para ter finalmente chegou.


Quando eu lembro da minha adolescência, eu lembro que era o final dos anos Lula, e a minha escola ainda tinha dinheiro. Estudar fora do país era um sonho possível, quase gerenciável, e tudo parecia ao nosso alcance. Meu, e dos meus amigos, que eu passava tardes sem fim e noites que duravam pouco demais. A gente saía da aula para tomar banho de piscina em um dos meus amigos, pegava a cerveja do pai do outro, ia pro parquinho desperdiçar nosso tempo. Algumas memórias são muito vívidas em minha mente, mas quão mais vívidas elas são, mais claro fica que eu não lembro de tudo. Eu não lembro dos meus pais. Quer dizer, eu sei que eles estavam por lá, mas quando eu paro para pensar nos meus quinze, dezesseis anos, eu não lembro deles, não lembro se a gente brigava ou se dava bem. Eu sei que foi quando a gente começou a se afastar definitivamente. Quanto mais eu sabia quem eu era e quem eu queria ser, menos meus pais sabiam quem era o filho deles. Olhando hoje, eu vejo sinais que apontavam para o ódio e a intolerância que a gente vive hoje. Eu estava ocupado demais fazendo nada naquela época, mas se eu não estivesse eu estaria aqui hoje, pensando justamente sobre como chegamos a este ponto, sobre o que pode ser feito?

Escutar The Suburbs hoje, quase dez anos depois, me faz viver um conflito semelhante ao do seu personagem. Lutando com minhas memórias e tentar entender como chegamos nesse futuro, que está cada vez mais distante daquele que sonhamos — nas pequenas coisas e nas maiores das coisas. O álbum termina com uma ode às memórias esquecidas, aquelas que talvez tenham as respostas pra tudo. “The Suburbs (continued)” soa como a faixa título, mas na verdade ela usa os versos de “Wasted Hours”.

Em “Wasted Hours”, porém, a gente celebra as horas vazias, o ócio da juventude, e como ele é bom. Como ele tem uma sensação boa. Talvez seja a coisa mais importante daqueles anos, o exemplo perfeito que é possível viver como o sonho daqueles jovens, de que uma vida sem o estresse constante dos nossos pais, e do ódio e do rancor que se criam a partir dele, seja possível. Quem diria, a gente não viu ele lá, enquanto vivíamos. O futuro parece que escapa dos nossos dedos.

Você pode ouvir The Suburbs no Spotify.

Guia PCM pro Oscar

Ontem de manhã a AMPAS, a academia que organiza e celebra o Oscar, anunciou os indicados ao prêmio que define toda a temporada de premiações do ano. Em um ano que a celebração já está repleta de polêmicas, novas e velhas.

Dos novos problemas: a reação à escolha de Kevin Hart como o apresentador desse ano, um comediante que possui piadas homofóbicas em seu currículo, e a subsequente desistência dele do cargo (pela primeira vez em trinta anos, o Oscar será celebrado sem um apresentador); em 2018, a Academia anunciou um novo prêmio entitulado “Melhor Filme Popular”, uma tentativa falha de tentar celebrar os maiores blockbusters do ano — decisão que também repercurtiu mal entre membros da Academia e do público, e que eventualmente foi revogada dias depois do anúncio inicial.

Dos velhos? Bem, vendo os indicados ainda dá pra se ter uma ideia. A Academia ainda não consegue acreditar que dois diretores negros podem fazer grandes filmes num mesmo ano, deixando Ryan Coogler fora da corrida de direção, mesmo quando o seu Pantera Negra fez o feito inédito para um filme de super-herói de ser indicado à diversos prêmios, incluindo o Melhor Filme. E parece que nenhuma mulher dirigiu esse ano? O que é considerável quando novos filmes de diretoras como Mimi Leder, Karyn Kusama e Lynne Ramsay foram celebrados durante o ano. Fora algumas escolhas questionáveis em meio a seus próprios indicados, algo que a gente vai ver a seguir.

Como todo o ano, o Oscar é divertido de acompanhar porque ele traz um punhado de ótimos filmes para o cinema, e nesse pouco mais de um mês antes da cerimônia é um belo incentivo pra ir no cinema o máximo que puder e assistir tudo o que conseguir pra chegar gritando com os amigos na festinha que a gente faz na hora de ver o prêmio. O PCM organizou um guia de como ver os indicados as principais categorias, e uma previsão de quando aqueles que não estão disponíveis devem aparecer — se aparecerem de qualquer forma. Vamos ordenar pelo número de indicações, começando com os dois líderes.


Roma

Indicações: 10. Melhor Filme, Diretor (Alfonso Cuarón), Atriz (Yalitza Aparicio), Atriz Coadjuvante (Marina de Tavira), Direção de Fotografia, Filme em Língua Estrangeira, Design de Produção, Design de Som, Mixagem de Som, Roteiro Original.

Empatado com A Favorita, Roma é o grande líder de indicações no Oscar desse ano. É também um dos favoritos. Celebrado com o Leão de Ouro, o prêmio máximo do Festival de Veneza no ano passado; e ganhando a maioria dos prêmios dos círculos de crítica nos EUA e na Europa, Roma é a primeira grande aposta da Netflix ao prêmio. Alguns dizem que a empresa gastou 25 milhões de dólares na campanha para o filme ser indicado, e pelo visto deu certo. Não só os prêmios de melhor filme, diretor e atriz, que eram praticamente confirmados, Roma conquistou os prêmios técnicos (os de som são merecidíssimos) e, de surpresa, a indicação de Marina de Tavira como atriz coadjuvante. Fiquei muito feliz com essa indicação por sinal.

Roma pode ser visto no Netflix. Se você tiver a oportunidade, a Vitrine Filmes está fazendo sessões do filme em todo o país — Porto Alegre, Florianópilis, Niterói e Palmas são as próximas cidades a exibirem o filme nos cinemas. A experiência vale a pena.


A Favorita

Indicações: 10. Melhor Filme, Diretor (Yorgos Larithimos), Atriz (Olivia Colman), Atriz Coadjuvante (Emma Stone, Rachel Weisz), Direção de Fotografia, Figurino, Montagem, Design de Produção, Roteiro Original.

Causando barulho por onde passa, A Favorita é o primeiro filme de seu diretor à agradar a Academia nesse nível. Depois de conquistar festivais e crítica com Dente de Cachorro e público com O Lagosta e O Sacrifício do Cervo Sagrado, Larithimos faz um drama de época com o seu humor afiado e senso estético apurado. Celebrado pela crítica e adorado pelo público, A Favorita tem tudo para ganhar suas indicações técnicas e, quem sabe, surpreender levando os prêmios principais. Já é o favorito para a categoria de melhor atriz e as suas duas indicações para atriz coadjuvante o deixam a frente, mesmo com Regina King sendo a favorita ao prêmio.

A Favorita foi lançado nos cinemas hoje, 24/01.


Nasce uma Estrela

Indicações: 8. Melhor Filme, Melhor Ator (Bradley Cooper), Melhor Atriz (Lady Gaga), Ator Coadjuvante (Sam Elliott), Direção de Fotografia, Canção Original (“Shallow”), Mixagem de Som, Roteiro Adaptado.

Quando lançou nos cinemas, no final do ano passado, Nasce uma Estrela despontou como o primeiro tiro certeiro às indicações, e o provável favorito do ano. Alguns meses depois, o filme acabou perdendo forças para Green Book: O Guia e Bohemian Rapsody, e perdeu algumas indicações essenciais para se tornar o favorito na premiação — como diretor para Cooper, em sua estreia; e montagem, considerada um requisito para ser um favorito. O filme ainda é favorito na categoria de Canção Original, mas qualquer outro prêmio será uma surpresa.

Nasce uma Estrela será lançado em blu-ray, DVD, no iTunes e no Google Play em 21/02.


Vice

Indicações: 8. Melhor Filme, Direção (Adam McKay), Ator (Christian Bale), Atriz Coadjuvante (Amy Adams), Montagem, Maquiagem e Penteado, Roteiro Original.

Durante a produção, Vice foi apontado bem cedo como um possível candidato aos prêmios principais. E conseguiu, mesmo com a reação mediana de público e crítica. Vice conseguiu indicação para diretor, montagem e duas atuações, o que garante força como indicado. Mas há pouca fumaça pra tanto fogo: a indicação de McKay é uma surpresa mais porque não é tão boa assim; e Bale não é mais o favorito ao premio de ator, agora que Rami Malek papou todos os principais termômetros.

Vice será lançado nos cinemas dia 31/01.


Pantera Negra

Indicações: 7. Melhor Filme, Figurino, Trilha-Sonora Original, Canção Original (“All the Stars”), Design de Produção, Edição de Som, Mixagem de Som.

O primeiro grande blockbuster a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme desde Avatar, em 2009, Pantera Negra é também o primeiro grande filme de super-herói que conseguiu sair dos prêmios técnicos e alcançar a principal categoria da noite. Há chances de ele dominar como melhor filme, visto a popularidade que ele abocanhou pelo ano inteiro, e é o grande favorito aos prêmios de som e de design de produção, com sua magnífica representação do afro-futurismo em um filme de alto orçamento. É uma indicação merecida que fica para a história.

Pantera Negra pode ser visto no Telecine Play e já está à venda em blu-ray, DVD e no iTunes e Google Play.


Infiltrado na Klan

Indicações: 6. Melhor Filme, Direção (Spike Lee), Ator Coadjuvante (Adam Driver), Montagem, Trilha-Sonora Original, Roteiro Adaptado.

Lançado em Cannes em maio do ano passado e fazendo barulho desde então, Infiltrado na Klan deu a primeira indicação, bastante atrasada, ao mestre Spike Lee, que é um dos favoritos da categoria. O filme, que narra a história real de um policial negro que se infiltra na Ku Klux Klan, é poderoso e tem a voz de Spike Lee que há anos ele não mostrava, cheia de fúria e de paixão. É um grande filme que possui o melhor epílogo do ano.

Infiltrado na Klan foi lançado em novembro nos cinemas, e ainda está em cartaz em algumas cidades. Com as várias indicações, deve aumentar um pouco seu circuito antes de sair completamente no próximo mês.


Bohemian Rhapsody

Indicações: 5. Melhor Filme, Ator (Rami Malek), Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som.

Por alguma coincidência do destino, os dois filmes mais polêmicos indicados esse ano dividem o número de indicações. Bohemian Rhapsody, a cinebiografia de Freddy Mercury sobre a tragetória do Queen até a mítica performance no Live Aid, está tomado de polêmica desde o seu anúncio. Originalmente dirigido por Bryan Singer, acusado de abuso sexual a menores, o filme passou por uma produção turbulenta quando o diretor foi demitido por má conduta no set e substituído no meio das filmagens. Alguns problemas do filme vão além disso, porém: o retrato da sexualidade de Mercury é questionável, quando não preconceituosa. Malek continua sendo o grande favorito ao prêmio de melhor ator, e o filme tem chances saudáveis em suas outras indicações.

Bohemian Rapsody está nos cinemas, e vai bem, obrigado. Um sucesso de público que só deve aumentar agora que se confirmou como um dos favoritos do Oscar. Não deve sair tão cedo (tô prevendo que vai ficar até abril no cinema que eu costumo ir).


Green Book: O Guia

Indicações: 5. Melhor Filme, Ator (Viggo Mortensen), Ator Coadjuvante (Mahershala Ali), Montagem, Roteiro Adaptado.

O outro polêmico da lista, Green Book: O Guia foi rechaçado pela crítica pela sua total insensibilidade e pelo seu racismo velado (além de alguns posicionamentos políticos problemáticos por parte de seus produtores). Mas Green Book é, hoje, o favorito disparado ao prêmio de melhor filme, tendo vencido todos os termômetros até aqui e ganhando cada vez mais fôlego na disputa dos próximos. A menos que alguma coisa surja nessas próximas semanas que desbanque Green Book ou que comprove as suspeitas de seus produtores, esse é provavelmente o tiro certeiro pra se apostar no dia 24.

Green Book: O Guia foi lançado nos cinemas hoje, 24/01.


O Primeiro Homem

Indicações: 4. Design de Produção, Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais.

Como Nasce uma Estrela, O Primeiro Homem era visto como um dos favoritos a todos os prêmios principais da noite. É um lindo, íntimo retrato de Neil Armstrong e sua jornada entre o luto pela sua filha e a lua, o destino que o escreveria na História. O diretor Damien Chenzelle, dos queridinhos do Oscar Whiplash e La La Land, apostou em uma estética e abordagem arriscadas, um intimismo extremo que agradou a crítica mas afastou o público, e o seu burburinho apagou cedo. Uma pena, é um belo filme que só cresceu com o tempo, e que eu espero rever antes da premiação.

O Primeiro Homem será lançado em blu-ray, DVD e no iTunes e Google Play em 6/02.


O Retorno de Mary Poppins

Indicações: 4. Design de Produção, Figurino, Trilha-Sonora Original, Canção Original (“The Place Where Lost Things Go”).

A Disney apostou alto em O Retorno de Mary Poppins para concorrer ao maior número de prêmios possível, mas a aposta não deu muito certo. Embora fazendo sucesso com o público e recebendo críticas positivas, O Retorno de Mary Poppins não fez barulho suficiente para dar à Rob Marshall, indicado anteriormente pela direção de Chicago (prêmio de melhor filme, 2003), uma segunda indicação ou à Emily Blunt a chance de uma indicação à melhor atriz. Blunt, por sua vez, pode ter tido seus votos divididos em dois entre esse e Um Lugar Silencioso (como Amy Adams teve em 2016, não concorrendo nem por A Chegada nem por Animais Noturnos, tendo sido a favorita na temporada inteira). O filme de época tem chances nos prêmios do departamento de arte, mas canção original é quase que certeiro para Nasce Uma Estrela, e eu me recuso a acreditar que outro filme ganhe trilha-sonora que não seja Se A Rua Beale Falasse.

O Retorno de Mary Poppins está nos cinemas.


A Balada de Buster Scruggs

Indicações: 3. Figurino, Canção Original (“When a Cowboy Trades His Spurs for Wings”), Roteiro Adaptado.

Uma das surpresas dos anúncios foi o carinho da Academia pelo novo filme dos Irmãos Coen, vencedores do Oscar por Onde os Fracos Não Têm Vez. (prêmios de melhor filme e diretor em 2008). Buster Scruggs, a antologia de contos de faroeste que vão desde musical e comédia, passando pelo terror e o experimental, está longe de ser um dos filmes mais premiados da dupla de roteiristas e diretores, mas isso fala mais sobre o quão premiados os Coen são.

A Balada de Buster Scruggs já está disponível no Netflix.


Poderia Me Perdoar?

Indicações: 3. Atriz (Melissa McCarthy), Ator Coadjuvante (Richard E. Grant), Roteiro Adaptado.

É daquelas decepções ver que Melissa McCarthy precisou de uma atuação dramática pra poder ser indicada a um Oscar de melhor atriz (ela já havia concorrido à atriz coadjuvante pelo excelente Missão Madrinha de Casamento). Poderia Me Perdoar?, condando a história real da jornalista Lee Israel que forjou cartas de pessoas famosas na década de 1990, era um dos favoritos a ser indicado à categoria de roteiro e atriz desde que lançou nos cinemas dos EUA ano passado. A categoria de melhor atriz esse ano está acirrada, com Glenn Close como grande favorita, mas a estreante Yalitza Aparicio e a veterana Olivia Colman logo atrás, então esse provavelmente não vai ser o ano de McCarthy.

Poderia Me Perdoar será lançado nos cinemas em 7/02.


Guerra Fria

Indicações: 3. Diretor, Direção de Fotografia, Filme em Língua Estrangeira.

O lindo, devastador Guerra Fria, do mesmo diretor do vencedor do Oscar Ida (prêmio de filme em língua estrangeira, 2015), é a grande pedra no sapato entre Roma e a total dominância nas três categorias que ambos compartilham. A tristíssima história de amor do novo filme de Paweł Pawlikowski também conta com uma fotografia em preto-e-branco maravilhosa, uma direção firme de seu mestre e é um dos filmes mais agraciados do ano por festivais no mundo afora. É merecidíssimo todo esse amor, também.

Guerra Fria será lançado nos cinemas em 7/02.


Se A Rua Beale Falasse

Indicações: Atriz Coadjuvante (Regina King), Trilha-Sonora Original, Roteiro Adaptado.

Deixa eu abrir meu coração aqui. Olhem o trailer de Se a Rua Beale Falasse e me digam que não é a coisa mais linda que vocês já viram. Do mesmo diretor de Moonlight: Sob a Luz do Luar (prêmios de melhor filme, ator coadjuvante e roteiro adaptado em 2017), Se A Rua Beale Falasse é a tão esperada adaptação do essencial romance de James Baldwin, e o novo filme de uma das vozes mais talentosas do cinema americano contemporâneo. Adorado pela crítica, o filme não conseguiu impressionar a academia, que pelo visto ainda se depara com a quota de minorias anual, já tendo dado indicações para Infiltrado na Klan, Pantera Negra e Roma. É uma pena. É um filme que merecia muito mais, mas ao menos merece ganhar tudo o que foi indicado (é o favorito para atriz coadjuvante, e eu realmente espero que leve trilha-sonora e roteiro).

Se A Rua Beale Falasse será lançado nos cinemas em 7/02 (era hoje e foi adiado!).


Outros indicados

Os grandes indicados à todas as categorias principais já estão aí em cima, mas não custa dar uma visão geral nos outros filmes indicados e que podem ser mais difíceis de encontrar.

Duas indicações:

  • Ilha de Cachorros (animação, trilha-sonora): já disponível em DVD, blu-ray e no iTunes e Google Play.
  • Duas Rainhas (figurino, maquiagem e cabelo): será lançado nos cinemas em 4/04 (?!).
  • Nunca Deixe de Lembrar (direção de fotografia, filme estrangeiro): ainda sem previsão de lançamento.
  • RGB (documentário, canção original): ainda sem previsão de lançamento.

Animação:

Esses são relativamente fáceis de encontrar. Incríveis 2 já está disponível em blu-ray e DVD e no NET NOW. WiFi Ralph e Homem-Aranha no Aranhaverso estão nos cinemas, e Mirai ainda não tem previsão de lançamento por aqui.

Filme de Língua Estrangeira:

Todos os filmes já tem data de lançamento. Além dos que já mencionamos, Cafarnaum e Assunto de Família já estão nos cinemas. Essa é uma categoria que gosta de surpreender pela sua especificidade (todos os votos precisam confirmar que viram os filmes), e como Assunto de Família levou a Palma de Ouro no ano passado eu não duvido nada que ele surpreenda aqui também.

Documentário e Curta-Metragem (Documentário):

Essas duas categorias são difíceis. Nenhum dos documentários indicados possuem previsão de lançamento no Brasil, mas o fato de serem indicados ao Oscar significa que eles tem chances de serem comprados por canais de TV ou pelo Netflix, como aconteceu nos anos anteriores. Quero manter esse espaço atualizado conforme for recebendo mais informações.

Já os curtas de documentário são mais fáceis de encontrar. A Partida Final está disponível no Netflix; A Night at the Garden pode ser visto no Vimeo, e Black Sheep está no YouTube. Lifeboat e Period. End of Sentence. ainda não estão disponíveis online.

Curtas-Metragem (Ficção e Animação):

Eu não consegui encontrar nenhum dos curtas de ficção online, mas vou atualizar o post quando eles começarem a ser disponibilizados (alguns ganham uma carreira em festivais que só acabam alguns meses depois do Oscar, o que os deixam indisponíveis online). O único disponível online, Marguerite está com trava de região.

Dois curtas de animação estão disponíveis pra público: Bao foi lançado junto a Incríveis 2, e pode ser conferito no blu-ray e DVD como um extra. O bonitinho One Small Step está disponível no Vimeo.

Extras!

Filmes com uma indicação, rapidão:

A Esposa, o favorito na categoria de Atriz (para Glenn Close), já está nos cinemas.

Na categoria de efeitos visuais: Os Vingadores: Guerra Infinita, Jogador Nº 1, Christopher Robin: Um Reencontro Inesquecível e Han Solo: Uma História Star Wars já estão todos disponíveis em DVD, blu-ray e no Telecine Play.

Mamilos, um exercício contínuo de empatia

Eu não consigo precisar exatamente o dia que o Mamilos entrou na minha vida, mas eu com certeza consigo dizer que eu não lembro como era ouvir podcasts antes disso. Mamilos veio na minha segunda tentativa de ouvir podcasts, porque a primeira falhou miseravelmente. Veio quando eu estava a procura de conteúdo de qualidade e feito por mulheres. Conteúdo que fugisse do mundo da TI, que fosse sobre o mundo, o universo e tudo mais. Que fosse com profundidade, que fosse educativo e que me deixasse com uma sensação de “hoje eu aprendi algo novo”.

Bom, tem vezes que eu termino um episódio me sentindo bem indignada. Muitas, muitas vezes em lágrimas. Mamilos é aquele amigo sábio que te pega pela mão, te mostra as verdades sem nem perguntar se você está pronto pra isso, vira as costas e te deixa lá refletindo sobre tudo que acabou de acontecer.

Uma das coisas mais incríveis do Mamilos é que ele poderia ter sido feito por mim, por você, por seus amigos. Porque ele é feito por pessoas como eu e você. Por duas mulheres, mães (às vezes de merda, mas sempre divas), trabalhadoras, brasileiras, da área de comunicação sim, que não são formadas em jornalismo, mas que decidiram fazer jornalismo de peito aberto. Elas ainda contam com convidados excelentes e com uma equipe de primeira - que deixaria muito jornal com inveja, quiçá já não deixa.

O resultado?

Programas sobre temas polêmicos discutidos com embasamento onde os dois lados da história tem vez. Onde a sua verdade, caro leitor, é levada à prova. Onde seu mundo seguro e cheio de si se abala. Porque pra criar empatia e ser uma pessoa melhor a gente precisa ouvir o que o outro pensa.

Existem alguns episódios de retrospectiva que enumeram os episódios mais ouvidos de todos os tempos, você pode conferir: 2018, Especial 3 anos, 2016 e Edição de Aniversário.

Mas eu sugiro começar por:

Alguns episódios são mais difíceis, seja pelo conteúdo ou pelo momento que o país vive ou você como pessoa, mas não deixe de ouvi-los. Todos são de grande aprendizado. Para mim, são eles:

A lista pode parecer grande, mas são apenas algumas dicas no total de 185 programas (alguns re-lançamentos). E a verdade é que depois que você começa a ouvir o Mamilos, poderiam ter mil episódios e pareceria pouco.

Se você nunca ouviu podcasts ou se está em dúvidas quanto a esse programa, dê uma chance. Dê uma chance a você mesmo de aprender a ser alguém (ainda) melhor, o mundo e as pessoas ao seu redor só têm a ganhar.

Quando a gente aprende que muitas vezes é melhor construir uma ponte do que provar um ponto o mundo agradece.

Você pode ouvir o Mamilos direto no site ou através do seu agregador de podcasts favorito. Caso esteja a procura de algum, aqui no PCM a gente recomenda o PocketCasts.


Emanuele Spies é queer, fã incondicional de Carol, (2015 dir. Todd Haynes), e Cate Blanchett. Ouvinte assídua de Podcasts e apaixonada por tecnologia.

As cinco melhores dicas de 2018

Uma empregada doméstica no meio de uma crise política que definiria o seu país; um cantor em busca da paz de espírito; pessoas enfrentando o fim do mundo. 2018 parece ter sido feito de histórias íntimas contadas como se fossem épicos e de sentimentos imensos detalhados com intimidade. É uma luta de opostos. Mas talvez assim a gente vai conseguir entender o outro em tempos cada vez mais sombrios.

Nossas cinco melhores dicas desse ano são repletas de amor, dúvida e um pouco de desespero. Todas, porém, são buscas por algum tipo de paz, algum tipo de entendimento de nosso lugar no mundo. Com 2019 começando do jeito que começou, tomara que essas histórias nos ajudem a ver onde nós estamos, hoje.


O melhor de 2018: Serial (terceira temporada)

Eu tava com saudades de Serial. O podcast fenômeno sabe contar histórias — seja o misterioso assassinato de uma jovem no fim dos anos 90, ou o desaparecimento de um soldado no meio do deserto. Mas Serial conta histórias pra investigar algo maior, como os sistemas sociais nos quais a gente vive definem muito mais do que deveriam aquilo que somos, o que fazemos, e até mesmo as histórias que contam de nós.

Essa nova temporada não tem um personagem principal. Não é uma história que percorre todos os episódios. Dessa vez, Serial olha para um tribunal para contar as várias histórias pequenas, que ninguém se interessa, mas que revelam como o sistema judicial americano não é só falho, mas contra a sua própria população.

A terceira temporada de Serial é exatamente o que precisávamos em 2018: um olhar ambicioso em um problema gigante, maior do que qualquer um que tenha uma solução que não seja “desfaz tudo e tenta de novo”, e faz isso com histórias pequenas: da mulher que apanha num bar, vai presa, é absolvida, perde o emprego e não consegue pagar as taxas do tribunal; ou do homem que perdeu a filha e sabe quem a matou, mas não a dedura para a polícia porque esse é o pior erro que você pode cometer; ou do policial que, sabendo desse caso, comenta que “essas pessoas se resolverão se matando”. Serial parece conseguir o impossível: observar um problema grande demais através das menores histórias possíveis, e nos fazer entender o que essas pessoas — os acusados, as testemunhas, e até mesmo os promotores e advogados — pensam, e sentem, e o quanto elas são parecidas com nós, mesmo com tanto de diferente. Se tem algo que precisamos nesse momento é um tanto de empatia, e Serial a encontra mesmo no mais sombrio dos momentos.

Você pode escutar todas as temporadas de Serial no site oficial.

Outros links que amamos: Unravel #1: Solving the Zelda Timeline in 15 Minutes (Polygon); Habitual User (Lauren Oyler)


O jogo do ano: Un Pueblo de Nada

Un Pueblo de Nada Un Pueblo de Nada — Cardboard Computer.

Se teve um sentimento que perdurou durante 2018, com suas notícias ruins que se acumulavam dia após dia, foi o de estarmos muito próximos ao fim do mundo. Nada nesse ano conseguiu capturar tanto esse sentimento quanto Un Pueblo de Nada — o último interlúdio antes do quinto (e derradeiro) ato de Kentucky Route Zero.

Cada interlúdio de KRZ explora um meio de expressão artística diferente. Limits & Demonstrations era um tour em uma pequena exposição em um museu; The Entertainment era uma peça de teatro (com excelentes instruções de como experimentar em “VR”); e Here & There Along The Echo era uma espécie de aventura de texto todo jogado por um telefone — virtual ou real. Un Pueblo de Nada finalmente trata de vídeo e TV, algo que se anuncia desde os momentos iniciais do primeiro ato de KRZ. Mas aqui tudo é um anúncio de fim: você está presenciando uma das últimas transmissões de um programa de um canal de TV comunitário, também às vésperas de ser engolido por uma mega corporação devido às dívidas. Fora do estúdio, uma tempestade furiosa avassala tudo, mas dentro dele as pessoas continuam ali, segurando as pontas, esperando as luzes se desligarem de vez.

Esse é um sentimento comum por todo o Kentucky Route Zero, mas talvez Un Pueblo de Nada seja onde ele se expresse com a maior força. Tudo nesse universo parece ser colado com cola bastão e durex, amarrado com cadarços para que evitar que a ruína se instaure, mas a ruína está logo ali, dá pra sentir ela: o fim de uma comunidade porque uma sociedade faminta pelo capitalismo rege a dívida e o desespero. Parece progresso, mas na verdade é uma tempestade que vai levar tudo. Em Un Pueblo de Nada, a gente vê as pessoas que seguram as pontas dessa casa feita de papelão e fita adesiva até o fim.

Você pode jogar Un Pueblo de Nada de graça no Windows, macOS e Linux.

Outros jogos que amamos: GRIS (Switch); Donut County (iOS, Android, Switch, PC); Return of the Obra Dinn (PC); Florence (iOS, Android).


O álbum do ano: Ye (Kanye West)

Victor Silva:

Tudo começa na quebra das expectativas. Pessoalmente, eu nunca imaginei um disco do Kanye com menos de 14 faixas e uns 4 features grandes (a exemplo dos trabalhos anteriores dele). Divisor de águas e opiniões, o disco do rapper e produtor Kanye West contém 7 faixas que, na data do lançamento, ficaram EM ORDEM no top 10 - tanto do Spotify, quanto do Apple Music.

7 musicas, 21 minutos — música em tom de sobriedade e da autoreflexão advinda do “periodo tranquilo” entre as fases de mania da bipolaridade. Em termos de produção, um disco simples, direto e até “pequeno”. O disco sets the tone pros outros lançamentos que viriam durante o ano, assinados por ele. Produções “pequenas”, “minimalistas” e de um bom gosto quase inacreditável.

Você pode ouvir Ye no Spotify.

Outros álbuns que amamos: Isolation (Kali Uchis); KIDS SEE GHOSTS (KIDS SEE GHOSTS).


A série do ano: The Deuce (segunda temporada)

The Deuce The Deuce, segunda temporada – HBO

A coragem das séries de David Simon está na ambição de tentar entender cidades inteiras: a Baltimore no meio de uma guerra contra as drogas em The Wire; a Nova Orleans que se recupera do Katrina em Treme; e a Nova York que é palco do boom da indústria pornográfica em The Deuce. São séries que olham pra tantos personagens ao mesmo tempo, e parece que conta tanta pouca história, que as vezes dão a sensação que nada acontece.

Mas The Deuce, como as outras séries do roteirista, funciona de um jeito diferente: ao andar por aí atrás de seus personagens enquanto eles tentam “vencer” os desafios de Nova York — ou sucumbem à eles — é justamente a sua própria história. Já é difícil demais ser uma prostituta numa cidade violenta como a Nova York dos anos 70, e The Deuce não coloca mais drama onde não precisa. Ele apenas observa como essas mulheres lutam pra sobreviver e se reinventar num mundo que muda mais depressa do que qualquer um pode acompanhar, e que gosta especialmente de descartá-las no meio do caminho. É uma história de sobrevivência que, com a franqueza e a ambição do autor de The Wire, cresce pra ser um retrato de uma humanidade inteira.

Você pode assistir as duas temporadas de The Deuce na HBO Go

Outras séries que amamos: The Americans (6ª temporada, FX); Atlanta (2ª temporada, FX); The Good Place (3ª temporada, Netflix); Minha Amiga Genial (1ª temporada, HBO).


O filme do ano: Roma

Uma mulher e um menino deitados sobre a marquize de uma casa Roma – Alfonso Cuarón

Nos segundos iniciais, com um avião cruzando o reflexo da água na calçada, eu me apaixonei por Roma. Um filme imenso (mesmo, filmado no grandíssimo 70mm) e emocionante, que olha pros momentos mais íntimos da vida de Cléo, uma empregada doméstica que vive com uma família de classe média-alta na Cidade do México nos anos 70.

Roma enxerga a vida quieta de Cléo como um verdadeiro épico de proporções de filmes como Lawrence da Arábia e Era uma vez no Oeste. Tentando capturar a sensação de uma viagem no tempo, o diretor Alfonso Cuarón filma Cleo em ambientes gigantes, e o olhar dela guia o espectador tanto quanto monta o mundo ao redor (em um dos meus momentos favoritos, ela parece guiar um bando de cabras no descer de uma colina só com o olhar).

É um filme que parece que “foge” do espectador tanto quanto uma memória. Atuando diretamente nas nossas sensações para criar sentimentos fortes. Roma é poderoso pelo que sugere — uma conexão profunda entre a vida íntima de uma babá e a situação política que se forma num país — e astuto pelo que observa. Como todo o filme de Cuarón, é uma obra que busca a humanidade em tudo aquilo que vê. Através de Cleo, é como se Roma tivesse me ensinado a enxergar de novo. É um dos maiores filmes que eu já vi.

Você pode assistir Roma no Netflix.

Outros filmes que amamos: A Rota Selvagem (Andrew Haigh); As Boas Maneiras (Juliana Rojas e Marco Dutra); Projeto Flórida (Sean Baker); Western (Valeska Grisebach).

Thimbleweed Park me lembrou de quando eu costumava estragar os jogos do meu pai

Sábado foi um dia bem ruim, então eu queria me distrair um pouco e eu vi um tuíte da Alexandra Moraes (a criadora do Pintinho) falando bem de um jogo, o tal do Thimbleweed Park, que tava com pela metade do preço na eShop do Switch — aproveitei e resolvi comprar.

Thimbleweed Park é um jogo de aventura de apontar-e-clicar sobre dois agentes do FBI que vão visitar uma cidade bem pequena onde um crime aconteceu, mas o crime é só um dos acontecimentos estranhos em uma cidade onde coisas estranhas existem. Se lembrou de Twin Peaks, que bom! É bem parecido, o jogo é mais temporada 1 que temporada 3, mas temporada 1 é a melhor.

Eu ainda não terminei Thimbleweed Park porque domingo foi corrido e eu tive que dormir pra ficar bonito no outro dia, mas eu tô adorando e recomendo muito. O jogo tem aquele visual charmoso dos jogos de aventura entre os anos 80 e 90 (mas os efeitos de luz são bem melhores) e uma atuação de voz sensacional. Eu acho que o humor do jogo tá muito mais em como os personagens falam do que necessariamente o que eles falam. Thimbleweed Park usa aquela mecânica dos jogos de apontar-e-clicar que herdou dos jogos de aventura de texto: tem uma série de verbos (abrir, fechar, pegar, olhar, etc.) que você usa pra interagir com os objetos em um ambiente (pessoas também são objetos, um detalhe que eu acho fantástico em como game design funciona, tipo The Sims). Você precisa usar esses verbos nos objetos pra solucionar alguns desafios, mas principalmente pra encontrar pistas e levar a história pra frente. É uma simplicidade que é uma delícia de jogar hoje em dia.

Na verdade o que acabou me atraindo mais pra Thimbleweed Park é justamente como essa mecânica me lembra de como eu aprendi a usar computador. Quando meu pai comprou o primeiro computador, com aquele Windows 95 que nem sabia da existência da internet e em que a palavra “atualização” ainda era muito grande pra ser escrita em um monitor com aquela resolução, ele começou a ensinar eu e minha irmã a usarmos o mouse e o teclado com joguinhos. Ele tinha uns CDs da Sierra como A Mente Perdida do Dr. Brain em que a gente aprendia a arrastar e soltar ou a clicar em mais de duas teclas no teclado de cada vez (eu ainda digito com no máximo três dedos, uma loucura).

Meu pai deixava os jogos mais sérios, como King’s Quest e The Course of Monkey Island, pra ele. The Course of Monkey Island talvez seja o jogo mais marcante pra mim daquela época (e, não por acaso pra esse post, é dos mesmos designers de Thimbleweed Park). Eu, como aquela criança boba que eu era, achava que meu pai nunca ia suspeitar que o filho dele esperava ele ir trabalhar pra jogar esses jogos “mais adultos”. Eles eram em inglês, e eu não faço ideia, hoje, como eu resolvia o mistério que era entrar nos menus do jogo e carregar o save do meu pai, mas eu lembro a tristeza que meu pai abria o King’s Quest dele e descobria que o filho querido dele tinha mandado um personagem pra uma outra cena ou simplesmente ignorado alguma pista de The Course of Monkey Island, trancando uma cena que ele teria que refazer e tal.

Jogos de aventura de apontar-e-clicar, bem como os jogos de aventura de texto que vieram antes deles, são bem lineares e dependem muito do teu envolvimento com a história e do ritmo em que tu vai desvendando as cenas e os enigmas que elas oferecem. Eu sou um jogador bem lento, e demoro semanas jogando esses jogos, mas eu lembro que meu pai jogava eles com rapidez e completava tudo — alguns jogos de aventura tinham pontos em que menos ações mais certeiras te davam mais pontos — então devia ser um saco quando ele via que ele tinha perdido muitos pontos porque eu ficava clicando em tudo porque não fazia ideia do que eu tava fazendo. Dependendo de como tu joga um jogo como King’s Quest tu tem ou um jogo de aventura tático sobre guerra, ou uma trama demorada e intrincada de traição. É a mesma história, mas o modo como tu joga define como tu experimenta essa história.

King’s Quest e The Course of Monkey Island são os expoentes do alvorecer desse tipo de jogo, mas jogos como Kentucky Route Zero, Firewatch e Thimbleweed Park são não só o retorno do gênero, mas também o ápice dele. Firewatch é mais linear e narrativo, nunca referenciando as mecânicas, mas Thimbleweed Park e Kentucky Route Zero são bem cientes de que são um jogo e que herdam esse relacionamento do jogador. Em uma cena de Thimbleweed a gente precisa interagir com três computadores espertalhões que remetem diretamente a Colossal Cave Adventure (um jogo que KRZ se coloca como parte da realidade), por exemplo. O jogo sabe o que é, o que veio antes dele e como o jogador quer reagir a isso.

Em Monkey Island os personagens pretendiam ser um avatar do jogador, mas em Thimbleweed Park os protagonistas nunca são um avatar nosso. São personagens com suas próprias personalidades e métodos. A gente escolhe como eles vão explorar as coisas estranhas que tão acontecendo, mas sempre dentro dos limites de quem eles são. É um jogo menos linear do que The Last of Us ou Mass Effect, por exemplo, porque ele tá funcionando entre eu e os dois detetives que eu controlo — é uma mesma história, são as mesmas opções, mas eu experimento ela de um jeito diferente, porque minha impressão sobre os personagens são diferentes das do meu pai, por exemplo. (Kentucky Route Zero subverte isso de um jeito tão genial que eu quero escrever sobre isso um dia, mas vou demorar porque é muita coisa).

Jogos de aventura usam uma base tão fundamental do game design (jogador interage sobre um objeto pra solucionar quebra-cabeça e liberar o próximo quebra-cabeça) que é ótimo de usar com uma criança pra ensinar uma progressão que o computador usa sempre (usuário clica em botão pra realizar operação). Thimbleweed Park brinca com isso de um jeito tão divertido — e com uma história tão boa de desvendar — que eu fico empolgado em ver como essa subversão pode indicar que esse comeback dos jogos de aventura talvez queiram indicar, como Monkey Island fez quando foi lançado, que eles proponham algo diferente, jogos que não são ~experiências cinemáticas~ nem ~serviços vivos~, mas um modo de experimentarmos um mundo através da visão de outras pessoas, e entender como elas pensam e agem e porque a gente concorda ou discorda com elas. As vezes fazer uma escolha em Thimbleweed é difícil — mesmo sabendo que o resultado é provavelmente o mesmo no final das contas — porque a gente se preocupa com quem eles são e o que essa decisão revela sobre eles. É a arte da inabilidade de ser perfeito que Firewatch também usa.

Meu pai jogava de um jeito e eu jogo de outro. São os mesmos jogos mas as experiências são diferentes. É a beleza de um bom game design. É simples, dá pra variar de várias formas e me faz querer explorar todas essas formas porque elas revelam minhas impressões sobre aquilo também. Eu era um panaca de atrapalhar meu pai nessa experiência e aprendizado. Thimbleweed Park me fez perceber isso. Além de divertido e engraçado, esse jogo é revelador.

Mal posso esperar pra ensinar meu pai a jogar no Switch com Thimbleweed Park. Eu só não posso esquecer de criar um usuário pra ele antes.

Dá pra jogar Thimbleweed Park no computador, no celular e no videogame.

Em sua última temporada, The Leftovers não responde nada.

Eu queria que todos estivéssemos prontos.

No que você acredita? Essa parece ser a pergunta que The Leftovers continua perguntando, de novo e de novo, durante suas três temporadas. E, de novo e de novo, continua te dando mais para acreditar, e mais para duvidar.

Acreditar e duvidar no quê, exatamente? Bem, aí já é totalmente da sua conta. Seja em um deus, em um propósito ou em uma explicação. Naquilo que você quer, ou não quer, acreditar. The Leftovers foi, desde o seu início, uma série sobre pessoas que ou querem acreditar em algo, ou em comprovar mentiras; sempre foi sobre pessoas que tiveram suas verdades roubadas delas mesmas em um acontecimento horrível, e a jornada delas em tentar encontrar uma verdade que os complete de novo.

O que aconteceu, então, no dia 14 de outubro de 2011, quando dois porcento da população mundial simplesmente desapareceu? No que você acredita? The Leftovers estará longe de te dar uma resposta pro mistério que iniciou a série, mas não vai te deixar na mão se precisar de uma possibilidade. Em sua última temporada, ele se propõe a não responder nada — mas ao menos nos dá o conforto nesse caos.

Kevin, Nora, Matt, Laurie e John estão todos se preparando para esse caos quando a terceira temporada começa. Às vésperas do sétimo aniversário d’A Partida, o mundo parece ter enlouquecido ainda mais, e agora acredita que estão próximos do fim: ameaças nucleares, o suposto “retorno” dos que partiram, um grande cometa ou — pior de tudo —, nada. Ninguém sabe exatamente o que vai acontecer no sétimo aniversário, mas todos têm a certeza de que vai acontecer algo. Na premiere da temporada, todos estão felizes, juntos. É quase como um final per se.

Imagem de The Leftovers SOS

A última temporada de The Leftovers é menor, com oito episódios, e todos servem como finales. Embora cada episódio seja focado em um personagem específico (muito como a segunda temporada e os melhores episódios da primeira foram), o arco de todos sempre anda para frente. O segredo é que estamos sempre ouvindo histórias, agora, inclusive daqueles que não vemos mais. Para cada um, um de cada vez, The Leftovers traz algum conforto. E então acaba.

É o fim do mundo que assola todos os episódios da série. O fim está próximo, literalmente, pra todos. É o que acontece, a série acredita, quando suas verdades e seus significados são tirados de você: caos. Um caos incontrolável, que rumará ou para o fim, ou em busca de um novo conforto. Quando um mundo acaba — como acabou n’A Partida, sete anos atrás —, alguns entregam-se ao fim e outros buscam um novo. A jornada dos personagens de The Leftovers é tortuosa, mas não é trágica — ainda bem que a série, logo no seu segundo ano, abraçou o cômico para aliviar o seu pesado drama existencial. O mundo está sempre acabando, de novo e de novo, e estamos sempre descobrindo um novo.

E no que você acredita, no final das contas? Esses novos mundos servem pra algo, ou estamos fadados a repetir nossos ciclos destrutivos, de novo e de novo? Você acredita nas explicações que nos dão para as coisas estarem assim? Você se permite acreditar em algo? Embora se passe entre apocalipses, The Leftovers ressoa o nosso próprio mundo. Se a vida é mantida por atos aleatórios e incontroláveis, como os nossos maiores medos acreditam, então estamos fadados a essa incerteza total e destrutiva. Mas nós ao menos temos nossas histórias.

São as histórias, The Leftovers acredita, no final das contas, que salvam um mundo, ou criam um novo. Quando Grace conta o que aconteceu com seus filhos; quando Laurie escuta a história de Jill ao telefone, prestes a pular no mar; quando Nora olha diretamente para Kevin, e conta o que aconteceu. Nossas vidas estão nas histórias que contamos, e as vezes tudo o que nos resta é acreditar nelas. Lutar contra a falta de sentido do mundo é importante, porque nos torna um indivíduo. Mas quando contamos histórias, e ouvimos histórias, nós construímos um mundo entre nós, juntos. The Leftovers, no final das contas, nunca esteve preocupado com como acabamos com nossos mundos — mas como salvamos aqueles que amamos com os nossos pequenos paraísos. Nós temos esse infinito, mortal e frio, ao redor de nós. Mas nós temos um ao outro e, ainda bem, nós estamos aqui.

Com o passar do tempo, Peter Pan fica ainda mais trágico

Peter Pan, o personagem mágico fruto do carinho que o escrito J. M. Barrie tinha pelos garotos Llewyn Davies, já tem mais de cem anos, é de domínio público e já ganha diversas revisões. O motivo? Como personagem, ele só ganha força — e profundidade — com o tempo.

Peter é um personagem trágico desde sua origem. No conto original, o menino descobre que quando pula a janela para brincar no parque ele não envelhece e, acreditando que sua mãe sempre deixará a janela aberta, fica por lá. Quando decide voltar, descobre que a janela está fechada e sua mãe tem outro bebê no colo. Peter, agora uma criança para sempre, é fadado à solidão.

Nas histórias seguintes (principalmente Peter & Wendy, que foi adaptada para o clássico filme da Disney) Peter ganha um parquinho imenso, a Terra-do-Nunca; e outras pessoas com quem brincar, as crianças Darlin, os meninos perdidos. Seus fins trágicos continuam: Peter Pan eventualmente descobre que Wendy também irá crescer, e não poderá brincar de mamãe com ele pra sempre.

A tragédia de Peter Pan também assolou o mundo real. O personagem, baseado nos meninos Llewyn Davis, é fruto de um misterioso carinho do autor pelas crianças. O mais novo dos irmãos negou qualquer suspeita de assédio sexual e deu motivos. “Barrie era a única pessoa que poderia escrever Peter Pan. Ele era um inocente”. Enquanto Pan era fadado a viver para sempre como uma criança, suas inspirações morreram rápido. George, o mais velho, morreu nas trincheiras da Primeira Guerra, com 21 anos; Michael morreu em um misterioso afogamento pouco antes de completar 21 anos; John, com 60, morreu de uma doença nos pulmões; Peter, o “verdadeiro Peter Pan” se suicidou em 1960. Nicholas, o único a morrer de causas naturais, viveu até os 77.

Quando, após a morte dos dois Llewyn Davis mais velhos, Berrie entrou em uma profunda tristeza ele escreveu: “É como se muito tempo depois de escrever P. Pan seu verdadeiro significado veio a mim. Uma tentativa desesperada de crescer e não conseguir”. É como se Peter Pan, que hoje pode ser lido muito mais como um vilão do que um herói, só ganhasse significado com o tempo. Peter Llewyn Davis diria melhor: “Essa trágica obra-prima”.

Everything Now pede para encararmos o abismo juntos

Quando eu terminei de ouvir Everything Now, eu fiquei desesperado.

O Arcade Fire sempre foi adepto de grandes declarações. Desde Funeral, uma ode à morte e ao luto, até Reflektor, sua elegia ao amor, eles estão acostumados em usarem suas músicas para tocar em temas maiores do que seus braços podem abraçar. Com Everything Now eles fazem justamente isso, e somente isso. Mas nunca antes na carreira da banda as coisas estiveram tanto em jogo quanto agora.

Everything Now começa com a festiva faixa-título e, duas músicas depois, discutir o aborto com os pesados versos “God make me famous/If you can’t just make it painless”. O suicídio volta em jogo mais pro final, mas a banda tem outras coisas pra falar no meio do caminho.

O maior tropeço do Arcade Fire veio no segundo álbum, Neon Bible, quando trocaram eles trocaram o tom que tanto faz a banda soar como uma comunidade para se tornar quase uma instituição. O moralismo de Neon Bible era mais forte do que o coração do Arcade Fire, mas é justamente o coração imenso da banda que faz os ótimos The Suburbs e Reflektor serem tão diferentes e tão únicos. Everything Now quase comete o mesmo erro, da primeira vez que eu ouvi. Por que tantos estilos diferentes? Por que comentar tanto sobre streaming? Valeria mesmo fazer um álbum inteiro sobre isso?

Mas foi o álbum começar de novo para eu perceber que o coração da banda está ali nas faixas, mesmo. Não é o streaming o foco real do álbum, que bobo eu. Everything Now comenta tanto sobre como e com o que gastamos o nosso dinheiro, pra coisas tão perenes de valor, enquanto que desafiamos a nossa própria vida quando não encontramos valor pra ela. Nós temos o controle sobre tudo agora, menos sobre o nosso tempo.

Esse jogo de controle é essencial em Everything Now. O mundo não parece ser muito receptivo para muitos de nós hoje em dia, e o álbum usa de suas referências a ABBA, Talking Heads e Bee Gees para soar um pouco como o todo. As coisas não estão boas, por mais que a gente tente assumir o controle sobre elas. Nós não conseguimos assumir o controle de nós mesmos, do nosso tempo, da nossa vida.

É em uma grande incerteza que vive Everything Now, tanto em temas quanto em estilos. O álbum brinca com homenagens aos álbuns passados (“Everything Now” soa como uma nova “Wake Up”, “Electric Blue” soa muito como “Sprawl II”), com coisas totalmente novas (“Peter Pan” parece a coisa mais diferente já posta em um álbum do Arcade Fire, e ao mesmo tempo cabe como uma luva). Parece estranho, mas é familiar ao mesmo tempo.

E então o desespero passou. Quando Everything Now acabou de novo, me tirando o prazer de ouvir o poslúdio por inteiro, ele me lembra que essa ilusão que eu criei de ter o controle sobre meus filmes, minhas músicas e, pior ainda, sobre minha vida, é um reflexo de um mundo que nos encaminha pra um abismo. Mas é nesse momento que Everything Now parece estender a mão pro ouvinte. Se for pular, pulamos todos juntos.