Socorro, eu não consigo sair de Pocket City

Eu acho que simulação é o meu gênero favorito de jogo. Eu já escrevi várias vezes aqui sobre The Sims e Spore e The Sims de novo. É um gênero que retribui o nível de atenção que eu estou disposto a dar. Se eu me sinto inspirado e me dedico, eu posso passar gerações inteiras com meus Sims no The Sims. Se eu quero só relaxar um pouco, basta colocar umas zonas residenciais e comerciais no meio de um terreno pra ver uma cidade tomar forma e se ajeitar no SimCity 4.

Simulação é um gênero gigante nos jogos. No final da década de 1980, em meio a uma crise criativa, Will Wright salvou os jogos de computador quase que sozinho com seu SimCity original e, no meio do caminho, fundou todo um gênero junto. Mas, pra uma figura tão grande na história dos jogos, é um gênero também bem pouco expressivo. Se você quer jogar um simulador de pessoas, não existe nada além de The Sims. Se quer simular uma cidade ou você joga o SimCity 4, de 2003, ou parte pra Cities: Skylines (se você gosta de sofrer, o SimCity de 2013 ainda existe, também).

Não ajuda que o gênero sofreu bastante na última década: o último SimCity foi um fracasso; Cities: Skylines é ótimo… como um construtor de cidades, mas não um simulador; e as centenas de joguinhos de celular que imitam os líderes do gênero são atulhados de temporizadores e microtransações, quebrando completamente o fluxo da jogatina. E é por isso que Pocket City me impressionou ainda mais.

Pocket City custa R$ 11,90 no Google Play e R$ 10,90 no na App Store, e é isso. Sem microtransações, sem “tempos de construção” que duram duas horas (ou 1 minuto se você pagar R$1,99!). Comprando o jogo você tem uma experiência completa que vale muito a pena.

Embora não seja um SimCity, Pocket City dá a impressão de ser um irmão mais novo. Ele traz os mesmos aspectos fundamentais, como as zonas residenciais, comerciais e industriais identificadas por cores (os clássicos verde, azul e amarelo); e os prédios que oferecem recursos (como usinas e caixas d’água) ou serviços (bombeiros, hospitais, etc.) com limites de alcance.

Pocket City usa essa familiaridade ao seu favor, porque é a primeira grande realização do gênero em uma interface de toque, e pouca explicação é dada através dela. Se SimCity e Cities: Skylines possuem caixas de texto explicando as complexidades do zoneamento e posicionamento de recursos, método de propagação de tráfego e poluição, Pocket City não tem o luxo de ocupar uma tela inteira com esse tipo de coisa, e prefere oferecer essas explicações conforme você for encontrando elas em pequenos “objetivos” que aparecem de tempos em tempos. Por exemplo, quando você atinge um certo número de população, o chefe dos bombeiros vai pedir pra você melhorar o tráfego de uma determinada região, e assim você vai aprender sobre como o sistema de tráfego do jogo funciona, em uma tentativa e erro que não é maçante justamente porque a interface é tão bem pensada e não pune o jogador com temporizadores.

Isso é puro design, e o que eu mais amei em Pocket City. Muitas das dores de crescimento que o gênero vem sofrendo nessa última década é pela dificuldade de incorporar os avanços tecnológicos da indústria, o que acaba afetando o balanceamento da jogabilidade (de retribuir a dedicação do jogador no mesmo nível), que era justamente o aspecto mais bacana desse tipo de jogo. Pocket City precisou remover muitos desses sistemas mais complexos do holofote porque sua interface não permite, já que o jogo precisa apresentar todas as informações que o jogador quer em poucos toques na tela.

Um tornado destroi uma cidade Eba, mais lugar pra construir!

E essa informação ainda está lá, só muito bem distribuída. Gráficos populacionais ainda existem, e você pode controlar impostos e importações e exportações como qualquer outro simulador de cidades. Mas Pocket City não faz isso ser uma rotina obrigatória do jogo, e volta àquela beleza que SimCity 4 acertou em cheio — e que faz dele o simulador de cidades definitivo até hoje — de que o jogador pode jogar com as ferramentas que quiser. É um jogo confiante o suficiente nos seus acertos que entende que o jogador vai querer se dedicar mais com o tempo, conforme se sente confortável com as ferramentas que já dominou.

Pocket City é um excelente jogo de simulação, e só é melhor porque é um excelente jogo de celular também. Essa leveza de jogabilidade se estende a tudo, da visão isométrica à SimCity 2000 aos carismáticos conselheiros da cidade, todos cheios de personalidade, ou as piadinhas dos habitantes da sua cidade conforme você vai dando zoom e vendo eles praticando yoga no meio da rua ou convidando o vizinho para participar de um esquema de pirâmide. É divertido viver na sua cidade!

No fim das contas, Pocket City encontra aquilo que é comum no gênero e na sua plataforma, em nivelar o interesse do jogador com um sistema que ele possa investir sua atenção. É o jogo perfeito para aquela ida no banheiro do trabalho, mas também é ideal para ficar naquelas duas horas deitado antes de dormir, porque os controles são satisfatórios o suficiente e porque fica com aquele gostinho de quero mais de SimCity, de que só mais uma zona, só mais um objetivo antes de encerrar a jogatina. Quando você vê já são 4h da madrugada e você tá esquentando o miojo porque um vulcão apareceu no meio da sua cidade — e você está feliz, porque é justamente aquela desculpa que você precisava pra ficar até às seis.

(Foi mais ou menos essa hora que eu descobri que existe uma versão para computador que sincroniza os jogos salvos com o celular, e daí eu só desisti de dormir pelo resto da minha vida).

Watchmen está de volta (e o fim do mundo também)

Eu tenho uma teoria de que todas as “grandes obras de arte” refletem um pouco sobre elas mesmas, como Cidadão Kane usa a linguagem cinematográfica para explorar como o cinema pode manipular a forma que aquela história podia ser contada, por exemplo. Ou como a potência da voz da Elis em Falso Brilhante chama a nossa atenção não para nos distrair, mas para tornar a melodia ainda mais profunda, pra provocar o nosso íntimo como um suspiro no nosso ouvido que abala a nossa alma.

É exatamente essa introspecção que Alan Moore e Dave Gibbons provocam em Watchmen, um dos maiores sucessos dos gibis de super-herói. Dividido em 12 volumes lançados entre os anos de 1986 e 1987, a obra procura explorar as raízes da fascinação americana pela imagem dos super-heróis, enquanto constrói uma grandiosa história sobre um grupo de pessoas desiludidas com o mundo ao redor delas, e como elas reagem à essa desilusão. É grandioso em ambição e em realização, com linhas temporais que são construídas em ritmos diferentes, não são necessariamente interligadas, mas que revelam várias histórias íntimas de super-heróis aposentados enquanto traça um panorama da queda do mito americano, e como os gibis ajudam a encobrir uma verdade desagradável da cultura que eles fazem parte.

Só que essa complexidade é construída aos poucos, e testemunhada pelo leitor. Quando começa, Watchmen parece uma típica história pulp: se passando em uma realidade alternativa onde os Estados Unidos venceram a Guerra do Vietnã e desde então Richard Nixon é reeleito como presidente (ele já está no sexto mandato durante os acontecimentos da história). Vigilantes mascarados existiam, mas devido à violência de seus métodos que resultavam em criminosos ainda mais violentos, eles foram “aposentados” e, depois, criminalizados. Esses vigilantes não têm poderes especiais, com a única exceção sendo Dr. Manhattan, um ex-físico que, depois de ser destruído por um reator molecular, retorna como um homem que consegue manipular o átomo — um deus, praticamente.

É com a morte de um desses vigilantes que Watchmen começa, aparentemente como um mistério pulp. O último vigilante ativo nos anos 1980, Rorschach passa a investigar a morte suspeita do ex-colega Comediante, passando a acreditar em uma conspiração para matar os Watchmen, o último grupo de vigilantes ativos antes de terem sido aposentados. É através de Rorschach que somos apresentados aos outros membros do grupo: o Coruja, antes praticamente um Batman que hoje se afunda em uma crise de meia-idade; a Espectral II, filha da primeira Espectral, que sempre achou sua herança um peso mais do que uma bênção, e está feliz com a aposentadoria; Ozymandias, considerado o homem mais inteligente do mundo, um visionário que se tornou em milionário ao comercializar o seu alter-ego vigilante com revistas, filmes e brinquedos; e o próprio Dr. Manhattan, que hoje trabalha para o governo americano para criar armas que intimidem a União Soviética e ponha todo o mundo à mercê de uma futura guerra nuclear.

Rorschach caminha pelas estradas imundas da Nova York de Watchmen Watchmen é lembrado pela desolação das suas imagens, mas há algo muito além escondido entre os quadros.

A partir desse mistério, Watchmen se expande para explorar a vida desses ex-vigilantes e explorar como a desilusão de mundo deles explicita a morte — ou até mesmo a inexistência — do sonho americano. Cada volume de Watchmen explora a vida de um desses personagens, ou a relação entre si ao mesmo tempo que leva o mistério central — a conspiração de Rorschach — um pouco mais para frente. Nós aprendemos que a crise de meia-idade do Coruja é em grande parte por perceber que seu grande feito foi propagar o fascismo velado do governo de Nixon; a desilusão de Espectral com sua vida vem muito por ter nascido em um mundo já destruído pela ideia de que existe uma bomba atômica ambulante só esperando para explodir; e o vazio existencial de Dr. Manhattan reflete seu crescente desinteresse pela humanidade — porque um deus precisaria se preocupar com as picuinhas de um mundo dizimado?

Watchmen consegue fazer tanta coisa porque aproveita seu meio ao máximo. A extensão de história escrita por Moore e a complexidade visual da arte de Gibbons trabalham juntas para preencher os fascículos da série. Cada volume é acompanhado de um material adicional riquíssimo, como capítulos de livros e matérias de jornais que são mencionadas na história, com cartas entre personagens e álbuns de fotos. A arte é riquíssima em motifs (como os smilies e os relógios do fim do mundo) e cria momentos simbólicos como se fosse fácil. Com tanto significado, Watchmen ensina o leitor a esperar de tudo, e se surpreender com o nada.

É claro que, quando a eventual adaptação para o cinema foi lançada, muito desse material precisou ser cortado.

É fácil perder a força de Watchmen de vista

Ao adaptar uma história de um meio para outro mudanças são necessárias. Para traduzir o poder de contar histórias para o cinema com Reparação, o diretor Joe Wright não podia usar os mesmos artifícios que Ian McEwan, o autor do livro original, usou. Por serem meios diferentes, seus métodos e formas também são — o que faz sentido na página pode perder força na imagem.

Embora a adaptação de Zack Snyder para o cinema seja fidelíssima nos visuais, Watchmen: O Filme cria atalhos narrativos e muda a ênfase da história para conseguir contá-la em suas quase três horas de duração. É um mal necessário, claro, mas o filme acaba interessado no fio condutor dos quadrinhos mais do que naquilo que o enriquece. Ao tornar o mistério do assassinato do Comediante no foco central do filme, e em Rorschach como o seu protagonista, Watchmen: O Filme remove a nuance que torna o original tão emblemático.

Nos quadrinhos, a tragédia do personagem de Rorschach é a de que esse homem, frustrado com o mundo, decide fazer o possível para por as coisas no lugar. Mas Rorschach é um vigilante egoísta: ele é movido pela vingança e pelo desprezo da sociedade que ele diz vigiar, de uma sociedade que falhou com ele e que deve pagar pelo que fez, e não para impedir que a violência e abuso que ele sofreu acometa outras pessoas.

Em um momento definitivo nos quadrinhos originais, por exemplo, Rorschach investiga o desaparecimento de uma menina. Ele descobre que um pedófilo estuprou, matou e jogou o corpo da criança para os cachorros comerem. No quadrinho, o momento em que Rorschach enfrenta o criminoso e o mata violentamente sela o seu destino, de vítima de violência para agente dela — de parte de um ciclo de destruição social. No filme, esse momento é usado para justificar a violência do personagem com o mundo, para mostrá-lo como o herói que ele deve ser. Enquanto que no gibi a crueldade de Rorschach é um símbolo de como suas motivações são tão corrompidas quanto a sociedade que ele despreza em um ciclo perigoso, no filme é um momento de apreço pela vingança.

Os erros do filme são talvez o maior exemplo do legado complicado de Watchmen. Lançado no mesmo ano de O Cavaleiro das Trevas, em 1986, o gibi é hoje lembrado principalmente pela maturidade de seus temas: a desolação de um mundo no limite da aniquilação, o fim da desilusão do sonho americano e a crescente descrença na capacidade da humanidade. É amargo de se ler, e é fácil esquecer os momentos mais bonitos, como a crescente relação entre o dono de uma banca de jornal e o menino que fica lendo as revistas. Mas são esses momentos que dão à tragédia central de Watchmen o seu peso definitivo: de que as figuras que acreditamos e confiamos os nossos sonhos são justamente aquelas que acabaram destruindo ele. Watchmen parecia indicar que havia todo um universo de histórias para os quadrinhos explorarem o mundano, o belo da normalidade, e não o proto-fascismo do heroísmo americano.

Talvez isso seja pelo fato de que, em 2009, os Estados Unidos estavam muito mais satisfeitos como país sobre o seu lugar como superpotência do que os anos seguintes ao fim do fracasso da Guerra do Vietnã (ou simplesmente porque Zack Snyder não entende de modulação emocional). Só que agora, dez anos depois, talvez seja um bom momento para voltarmos e observarmos o legado de Watchmen.

A volta de Watchmen faz todo sentido

Quando a HBO anunciou que estava trabalhando em uma adaptação de Watchmen para a TV ninguém ficou surpreso: Game of Thrones estava na sua reta final e o canal precisava de uma nova super-produção, e com o catálogo da DC a sua disposição parecia a oportunidade perfeita de pegarem o gibi mais prestigiado e levá-lo para o canal mais prestigiado também.

É natural que a produção deixe os fãs céticos sobre o tratamento da história, mas quando o anúncio de que Damon Lindelof, o criador de The Leftovers, iria assumir a série me deu boas expectativas. De várias maneiras, The Leftovers usa uma forma semelhante à Watchmen para contar sua história, em que uma tragédia enorme, maior do que podemos imaginar, é vista através de vários momentos em pontos de vista diferentes — como a falta do filho que desapareceu volta a ser sentida quando uma mãe olha para o papel toalha na cozinha e lembra de como seu filho usava ele para limpar a boca.

Essa capacidade de tirar significado de tudo, e fazer o espectador encontrar significado mesmo nas coisas mais simples, é um traço forte nas obras de Lindelof (que também é um dos co-criadores de Lost, uma série que movimentou multidões atrás de pistas para resolver seus mistérios insolúveis). Na primeira temporada de Watchmen, que se passa mais de trinta anos depois dos acontecimentos do gibi, ele avança sua discussão mais um pouco — como nós temos que enfrentar esses símbolos que um dia já nos significaram tanto, e que agora parecem ser o motivo do mundo estar em ruínas. Observe como o trailer utiliza a frase icônica de Rorschach com um tom muito mais ameaçador do que o trailer do filme, por exemplo.

Se Watchmen, o gibi, apareceu para observar as vésperas de um fim do mundo causado pelo holocausto nuclear (o primeiro volume foi publicado cinco meses depois da catástrofe em Tchernóbil), a série parece vir nas vésperas de uma catástrofe ambiental. Se Watchmen, a série, conseguir lidar com o colapso da civilização como o quadrinho, e ainda assim mostrar porque vale a pena lutar pelo que há de melhor na humanidade, como The Leftovers fez, então nós teremos uma continuação à altura — e, quem sabe, o gibi finalmente ganhe o legado que quis construir.

Avenida Brasil está de volta

Ninguém tinha dúvidas que Avenida Brasil, a maior novela brasileira da história, ia voltar para a grade da Globo uma hora ou outra. Ela fez história em 2012 (em números, claro, mas como vou tentar argumentar mais pra frente, também em nível artístico), firmou Adriana Esteves no panteão das grandes atrizes brasileiras e causou um tsunami na grade de novelas da Globo depois que ela passou. Foi um dos primeiros grandes momentos do Brasil no Twitter (a hashtag #oioioi subia quase que diariamente nos assuntos mundiais).

Avenida Brasil voltou (e voltou com tudo), e é bom de lembrar porque a novela foi tão grande assim.

Fina Estampa, a novela das nove que precedeu Avenida Brasil, é um bom exemplo da fórmula clássica de uma novela da Globo: centrada em duas figuras fortes, a mocinha Griselda (Lília Cabral, sempre excelente) e a megera Tereza Cristina (Christiane Torloni, a deusa da televisão) eram a versão da vez das figuras fundamentais da teledramaturgia brasileira, a humilde de bom coração e a carrasca de nariz empinado, Ambas conectavam os dois principais núcleos da história, demarcados pelas suas classes sociais que dificilmente se misturam no decorrer da novela.

Quando Avenida Brasil (na Globo, de segunda à sexta, na faixa das 16h30) começou, a novela de João Manuel Carneiro desestruturou essa fórmula o suficiente para renovar o interesse da audiência sem desnorteá-la: a mocinha, Rita (Débora Falabella), é uma órfã que cresceu em um lixão e que nutre uma sede de vingança pela madrasta que destruiu sua vida: a Carminha (Adriana Esteves, numa atuação histórica), que roubou o dinheiro do pai de Rita e se casou com o homem que o matou, o ex-jogador do Flamengo Tufão (Murilo Benício, em um papel que dá a oportunidade de modular entre o drama e a comédia), e realiza o seu sonho de ficar rica.

Avenida Brasil usa de um fenômeno social da sua época, o aumento da classe média, para finalmente mudar a dinâmica dos personagens secundários. A novela não se estruturava mais em um núcleo principal em que seus personagens tinham ligações com núcleos secundários — como “os pobres”, amigos de Griselda; e “os ricos”, amigos de Tereza Cristina, em Fina Estampa. A estrutura desses núcleos muda drasticamente ao dar a mesma origem tanto a Rita quanto a Carminha, e centralizar a história em um mesmo bairro. Tanto Carminha e Rita compartilham suas origens no lixão (onde Vera Holtz e José de Abreu brilhavam); e o dia-a-dia era compartilhado no bairro do Divino, onde a grande parte das histórias paralelas aconteciam.

A relação de Tufão e Carminha com o Divino é, inclusive, algo que eu acho fascinante de assistir. A nova classe média que Avenida Brasil retrata é algo que Tufão se orgulha (ele enriquece e leva a família e os amigos para viver com ele) mas que dá desgosto à Carminha — ela enriquece, mas queria que os outros não tivessem melhorado de vida também para poder se sentir superior. A novela usa essa dinâmica principalmente para a comédia, mas é aí que ela esconde sua grande força: uma complexidade de caracterização dos personagens coadjuvantes que poucas novelas até ali tinha tanta atenção.

Tufão, o ex-jogador de futebol, é cercado de amigos do Divino que ainda batalham todos os dias: sua ex-namorada, Monalisa (Heloísa Périssé), era uma cabelereira que conseguiu ser dona de um salão de beleza com o tempo, mas o dinheiro ainda é difícil de sobrar; Suellen (Ísis Valverde), Adauto (Juliano Cazarré), Darkson (José Loreto) e Beverly (Luana Martau) ainda enfrentam os obstáculos do dia-a-dia para realizar seus sonhos na vida.

Esse cuidado narrativo ajudou Avenida Brasil a segurar a forma problemática da telenovela brasileira. Para uma história durar cerca de 200 episódios de uma hora por seis dias da semana ou a narrativa se atola em reviravoltas e situações impossíveis para aumentar a excitação dos espectadores (como é comum), ou abraça seu elenco de apoio para preencher e expandir o drama para além do confronto principal. Avenida Brasil encontrou seu sucesso exatamente aí, em acompanhar algo bastante particular do seu momento social com humor. Nenhum personagem do elenco de apoio era perfeito, mas nenhum era necessariamente mal-tratado pelo roteiro também, criando uma rica caracterização do brasileiro no dia-a-dia, cheio de simpatia e solidariedade, mas também sempre arredio e com medo de perder aquilo que conquistou. Avenida Brasil foi uma das únicas novelas, porém, que se importou em mostrar o trabalho duro dessa conquista.

Não se deixe enganar, Avenida Brasil ainda têm muito dos elementos de uma telenovela da Globo: as reviravoltas estão ali, geralmente nos episódios dos sábados (quem lembra quando a Carminha enterrou a Rita viva, em uma cena à Kill Bill?), a caricatura é frequente e episódios filler amordaçam a história na última parte da novela. Avenida Brasil também não tem a riqueza visual de Velho Chico, também, mas não é como se a Globo não investisse o suficiente na sua principal novela do ano para criar um Divino vivíssimo em história (a direção de arte das externas são belíssimas, enquanto as internas são… internas de novela). A força da novela está muito mais sobre seu elenco do que sobre suas imagens.

Só que esses momentos são bem pontuais, e mais realçam a força narrativa do que tentam extrapolar ela. Acertando em cheio ao retratar o grupo de personagens secundários com a mesma riqueza narrativa das suas protagonistas, Avenida Brasil ganha seus pontos de virada mais facilmente, porque eles não se destacam tanto assim. A novela ganhou seus espectadores não por causa da situação, o que seus personagens fazem, mas pela caracterização, quem seus personagens são. Um elenco de ponta, uma escrita atenta ao contexto, e uma seleção musical perfeita criaram um verdadeiro monstro televisivo. Avenida Brasil está longe de ser uma representação fiel do Brasil no início dos anos 2010, mas quer ver como o Brasil se enxergava naquela época? Cheio de bagunça e de humor, de cinismo e de artimanha, de beleza e de bom gosto musical? Não precisa ir mais longe: Avenida Brasil está aí, e ainda bem que ela está de volta.

Miojo Indie: É bom ler sobre o que a gente ama ouvir

Quando eu e o Fillipe decidimos criar o Pão com Mortadela, lá em 2012, a gente ficou matutando por um bom tempo sobre que nome dar. No fim das contas a gente buscou inspiração nos nossos blogs favoritos da época, e um deles era um blog de resenhas de discos chamado Miojo Indie. A gente seguiu o tema de comidas e escolheu um lanche que por sinal era o que a gente fazia quando se reunia na minha casa de tarde pra discutir nossos planos mirabolantes pro que seria o PCM.

Criado em 2010 e mantido até hoje por Cleber Facchi, o Miojo Indie publica quase que diariamente resenhas, compilações e especiais sobre álbuns, artistas e carreiras musicais. De críticas dos álbuns lançados na última semana à listas periódicas de melhores discos, o blog é há anos a minha referência do que ouvir e o que descobrir pra preencher os minutos de silêncio do meu dia-a-dia.

O Miojo Indie inspirou o futuro do PCM de várias formas. Não só no nome, mas no formato, de que textos ricos e exposições e investigações temáticas valem a pena para entendermos aquilo que gostamos e o que não gostamos, e nos fazem entender os porquês.m 2010 a gente se relacionava com música na Internet de uma forma bem diferente: nós precisávamos de blogs e sites como o MI e a Pitchfork para descobrir quais os melhores lançamentos e descobertas de sons diferentes e que promissores, e o Miojo Indie me ajudava a encontrar músicas que eu achava que ia gostar para então procurar links para download uns blogs desconfiados ou em comunidades do Orkut. Os textos do Cleber desbravavam o desconhecido da música pra mim, e foi ali que eu descobri álbuns como Wolfgang Amadeus Phoenix e For Emma, Forever Ago, por exemplo. Músicas que formaram anos da minha vida e que eu carrego comigo hoje.

O fato do Miojo Indie existir até hoje, quando muita gente descobre o que quer ouvir nas playlists automáticas do Spotify ou do Apple Music, ou no autoplay infinito do YouTube enquanto muitos outros blogs de música deixaram de existir, é sinal de que esse é um formato que deu certo: o de encontrar e recomendar, o de querer entender a arte que você ama e por que você ama e querer encontrar outras pessoas que compartilham do mesmo gosto — ou que vão te ajudar a expandir o seu.

Esse foi o espírito que levou à criação do PCM há alguns anos atrás, e é legal ver ele vivo aqui e acolá na internet, seja no blog do Cleber ou no rizzenhas da Taize ou aqui nesses lados do PCM. É bom ir ali no Miojo Indie e descobrir o que o Cleber recomenda de música boa porque se dependesse de mim eu ia escutar os mesmos álbuns de novo e de novo até o fim dos tempos, e ver que existe muita música boa por aí só esperando para você descobrir, e ter um espaço bacana que te guia nessas descobertas todos os dias junto com textos bem embasados sobre o que faz essa música ser tão boa e como ela faz alguém sentir algo novo é sempre uma experiência compartilhada.

Eu acho que uma das partes mais bacanas de ver os filmes, as séries, ler os livros e escutar as músicas que amamos é pararmos para entender o que amamos nela. E o que o Miojo Indie proporciona — um espaço onde uma pessoa que entende mais do que eu e você sobre algo e o explica para nós para que possamos colocar nossa interpretação em cima — é um bom ponto de partida para conhecermos esse lado mais instintivo da nossa vida, e uma das partes mais bacanas da Internet.

Aprendendo a perder com Pokémon Let's Go! Eevee

Eu não dei muita bola para Pokémon Let’s Go! Eevee na primeira vez que eu joguei, no ano passado. Focado nos novos jogadores que conheceram os monstrinhos através de Pokémon Go, Let’s Go! é um remake dos primeiros jogos da franquia (Pokémon Yellow, pra ser mais exato) com algumas diferenças no sistema de capturas, que se assemelha mais à mecânica do jogo de celular. Antes, você batalhava com um pokémon selvagem para você enfraquecê-lo e ficar mais fácil de capturá-lo, agora você só precisa acertar bem a mira da pokébola.

Eu não achei tudo isso quando eu joguei Let’s Go! Eevee pela primeira vez (eu já tinha jogado o outro remake, Pokémon FireRed e LeafGreen, e são uns dos meus favoritos). Eu adoro Kanto, o continente onde se passa essa geração, mas a jogabilidade simplificada (você controla tudo com apenas um joy-con — ou metade de um controle do Nintendo Switch) sempre pareceu me indicar que esse jogo não era para quem já tinha experimentado jornadas maiores, como Pokémon Diamond & Pearl ou Sun & Moon.

Mês passado minha cadelinha Vivi morreu enquanto se recuperava de uma cirurgia para remover os tumores de um câncer. Tá sendo um mês difícil. Nos últimos cinco anos a minha vida foi adaptada ao redor da rotina dela. Vivi, que sofreu um acidente e perdeu os movimentos das patas traseiras, pedia alguns cuidados especiais. Ela não exigia muito de mim, mas eu gostava de ficar perto dela, de ajudar ela a fazer algo. Ficar por perto da Vivi, como é normal para o bichinho de estimação que você tanto ama, era especial.

Ela era uma boa companheira e uma grande amiga. A ausência dela acabou me dando tempo livre (algo que me faltava nas semanas anteriores à morte dela, no período em que “cuidar da Vivi” era uma demanda pesada), mas eu lutei pra saber como preenchê-lo. Eu nunca achava que eu perdia tempo ou gastava meu tempo com a Vivi. Cuidar dela era parte do meu dia a dia, um dos prazeres da minha rotina. Sair do trabalho e ir brincar com ela na rua era o meu exercício físico e o meu tempo ao sol. Acordar cedo para levar ela no banheiro e tomarmos nosso café da manhã juntos era o melhor jeito que alguém poderia começar seu dia. Passar a madrugada de sexta-feira ao lado dela assistindo um filme de terror enquanto ela roncava me trazia paz.

Esse tempo livre se tornou um peso nesse último mês. Um que eu não sabia como preencher. Eu não sentia vontade de ver filmes (!) nem de rever Gilmore Girls (!!!!), porque eram coisas que eu fazia com ela. Eu ficava sentado no meu sofá sentindo falta da Vivi, e não sentindo saudade dela. Não lembrando dos momentos bons em que eu passei com ela, mas em como a ausência dela pesava em mim. Como não ter ela por perto me deixava triste, como não ver ela do meu lado quando eu acordava me fazia me sentir sozinho. Como não precisar sair e correr com ela pelo pátio me deixava cansado demais pra me levantar.

Eu não sei qual foi o meu raciocínio pra dar mais uma chance pra Pokémon Let’s Go! nesse último mês, mas ainda bem que eu tive ele, porque Let’s Go! Eevee (o melhor Pokémon) está me ajudando a transformar essa falta da Vivi em saudade.

vivi.jpeg A Vivi

Se você já jogou qualquer jogo RPG de Pokémon, principalmente os da primeira geração, então Let’s Go! não vai ser tão diferente assim. Você ainda é uma criança que ganha um Pokémon inicial do professor que mora na mesma pequena cidade que você, e você vai de cidade em cidade derrotando os líderes de ginásio Pokémon para ganhar insígnias e poder enfrentar a Liga Pokémon, onde os melhores treinadores de Pokémon se enfrentam para saber quem é o novo campeão.

Muito da jogatina dos jogos Pokémon têm a ver com as batalhas, com o treinamento dos monstrinhos. Enfrentar outros treinadores e batalhar com seu Pokémon sempre foi a mecânica central, e em Let’s Go! isso não é diferente. Treinadores ainda existem nas rotas entre uma cidade e outra puxando briga com todo o mundo, ginásios ainda são o centro das cidades, e a equipe Rocket ainda tem seus planos mirabolantes. Let’s Go! é uma viagem ao passado da franquia — o mapa é pequeno e as mecânicas são simples! —, mas também é uma lembrança que quase nada da franquia mudou fundamentalmente. Novas mecânicas e stats foram colocados um acima do outro com os jogos que vieram depois, mas o que faz Pokémon sempre é essa estrutura de jogabilidade básica.

O que muda em Let’s Go!, e que pra mim é o grande acerto do jogo, é a forma como você se relaciona com os pokémons. Desde o modo como você captura até o modo em que você “cuida” deles, Let’s Go! faz o treinador ser o cuidador dos monstrinhos que estão com ele. Não é mais necessário batalhar com as criaturas selvagens que te atacam do nada. Graças ao poder de processamento do Switch, você finalmente pode ver o Pokémon no seu habitat natural. Se você quiser capturar aquele Ratatá brincando no meio do arbusto, você só precisa ir até ele. Para capturá-lo você não precisa mais batalhar com ele até enfraquecê-lo, e sim mirar bem e esperar o momento certo para mandar a pokébola. O Pokémon pode se recusar a entrar ou dar um golpe que manda a pokébola para longe, e você pode tentar acalmá-lo com diferentes tipos de fruta.

Eevee e seu treinador brincando

A Vivi veio da rua. A minha vizinhança tem isso como característica: como moramos afastados da cidade, as pessoas da cidade vêm e largam seus cachorros que elas não querem mais aqui. Alguns cachorros sortudos sobrevivem seus dias na rua até que algum vizinho de coração mole decida deixar ele entrar (os menos sortudos morrem de frio ou atropelados, ou sufocados porque as pessoas mais cruéis jogam eles fora enrolados em um saco de lixo). Para atrair um cachorrinho que teve sua confiança abalada, que está sentindo dor e frio é um processo difícil, de criar confiança nele que você vai ser um dono melhor, que você não vai desapontá-lo.

A Vivi dormia embaixo de um caminhão quando fomos buscar ela (ela sempre gostou de dormir coberta, e o caminhão servia como uma casinha), e o processo foi semelhante. Sentar perto dela com um pote de comida, e esperar ela se sentir confortável o suficiente para vir comer. Eventualmente, ela começou a nos seguir e então entrou em nosso pátio. Na mesma noite ela encontrou um buraco na cerca e foi para o pátio do vizinho, onde os cachorros muito maiores pegaram ela e quebraram a coluna dela. Eu encontrei ela na manhã seguinte e peguei ela no colo, ela não se mexia mas não conseguia dormir de tanta dor. Nos meses seguintes, eu aprendi com o veterinário sobre terapia da dor, sobre como ser o fisioterapeuta do seu cachorrinho, e da atenção especial que a Vivi ia precisar. Foram meses difíceis, mas eventualmente a Vivi aprendeu a andar no carrinho de rodas, e nós estabelecemos uma rotina que era basicamente dormir, acordar, banheiro, comer, brincar, banheiro, comer, banheiro, dormir. Era estranho e era divertido, e era algo 100% nosso.

Eu não acho que Pokémon Let’s Go consegue substituir a Vivi na minha vida, e a relação que o personagem do jogo tem com a sua Eevee não é a mesma que eu tinha com a Vivi. A Vivi não era útil para mim, ela não me ajudava a alcançar algo. Ao menos não conscientemente.

Mas Let’s Go captura algo da nossa convivência juntos, que é uma parceria especial. Acho que é algo que você tem com aquele bichinho de estimação que você conquistou a confiança. Quando eu chegava da faculdade, a Vivi vinha correndo me dar oi. Ela sentia saudade de mim tanto quanto eu sentia dela. Eu me preocupava com ela quando eu não tava por perto, e o canto do meu olho acompanhava ela em todo o lugar quando ela estava por perto. Eu amava brincar com ela, eu amava cuidar dela e eu amava saber que ela estava comigo. Mesmo que dormindo, mesmo que me mijando enquanto eu corria com ela pela casa para irmos no banheiro.

Em Let’s Go, o seu Pokémon inicial (Eevee ou Pikachu, dependendo da versão que você escolheu) não existe dentro de uma pokébola e você vê ele quando precisa batalhar. Ele anda do seu lado na sua jornada, ele fica pendurado na sua cabeça quando você entra em cavernas ou no meio do mato. Ele está ali com você, e é bom sentir essa companhia, seja quando você está procurando aquele Pokémon raro no meio da floresta, seja simplesmente quando você está indo de casa em casa procurando aquela side quest e ouvindo as histórias dos NPCs.

Ajuda muito que Let’s Go é lindo de ver, e remete à uma geração que eu particularmente gosto muito. Ver a floresta de Floresta de Viridian com os feixes de luz do sol no meio das árvores e os Pidgeys voando é um deleite (é um dos poucos lugares que o framerate se engasga, também), e reencontrar personagens conhecidos como o Brock e a Misty sempre vai ser especial. Mas esse não é mais o maior atrativo do jogo para mim, é em acompanhar minha Eevee na jornada da vida dela, e agradecer por ela ter me escolhido para acompanhá-la.

Treinador Pokémon e Eevee observam um Slowpoke “Olha esse cuzão!”, disse Eevee.

Eu posso dizer com certeza que esse último mês sem a Vivi está sendo bem mais difícil do que os cinco anos que eu passei junto com ela. A ausência dela é muito mais complicada de lidar do que os curativos que eu aprendi a trocar, dos banheiros que eu aprendi a limpar depois de uma noite em que ela comeu a comida dos outros cachorros ou das brigas em que ela se meteu e eu tive que apartar (acredite ou não mas aquela noite em que os cachorros do vizinho pegaram ela não foi a última batalha que ela travou com eles). Eu sinto falta dela todos os dias, e qualquer coisa me lembra ela. Algumas semanas atrás isso me dava raiva, de mim por ter cometido o erro que eu cometi, dela por não estar perto de mim. Hoje eu tô aprendendo a sentir saudade. Ver o treinador conhecendo Kanto com a Eevee ao seu lado me ajuda a lembrar de como foi bom ter Vivi ao meu lado nas minhas próprias descobertas, como foi bom ter compartilhado elas com a Vivi, e como elas, de certa forma, a partir de agora vão ser parte da minha memória dela.

Eu tinha medo de ter perdido algo pra sempre quando eu enterrei a Vivi. Eu perdi, é óbvio. Enquanto ela parava de respirar eu fiquei fazendo um cafuné para que ela não se sentisse sozinha, mas também para tentar eternizar na minha memória como era sentir o pelo dela no meio dos meus dedos. Mas ver o carinho que eu tinha pela Vivi registrado na arte de outras pessoas — seja num jogo como Pokémon ou em filmes como Wendy & Lucy — me fazem lembrar que o que eu senti foi real.

É um processo, eu acho, e eu acho engraçado como um jogo de batalha como Pokémon, que aprecia e celebra a vitória, me ajuda a aceitar algo imbatível. A nossa existência tem um fim, mas o nosso amor transcende. Ele vive na arte que fazemos, nos lugares que habitamos e naqueles que amamos e que deixamos para trás. Eu nunca mais vou sentir o pelo da Vivi entre os meus dedos, mas eu tenho a lembrança de que, um dia, eu amei fazer um cafuné em alguém; que eu senti algo tão bom, tão grande, sobre algo tão pequeno e tão breve quanto um carinho, e que alguém sentiu algo assim também — porque está ali, eternizado nesse jogo que eu aprendi a gostar.

Para lembrar da Vivi eu tenho fotos e vídeos que enchem o meu celular, mas lembrar do que eu senti pela Vivi é algo mais difícil, e é algo que eu seguro com força porque é o que eu tenho no lugar dela agora. Não é tão bom quanto, nem nunca vai ser. Mas vai ter que ser o suficiente. Eu quero olhar para o canto do sofá que ela gostava de deitar e não lembrar da falta que ela me faz, e sim de como era bom ficar sentado com ela comendo pipoca no meio da madrugada. Eu não quero pensar que, por causa da Vivi, eu nunca mais vou amar um cachorro tanto quanto eu amei ela. Ao contrário, eu quero pensar que, por causa da Vivi, eu aprendi a amar mais.

Arthur à frente, caminhando com Vivi Nossa última foto juntos, aproveitando o sol do inverno.

Crazy Ex-Girlfriend terminou na sua melhor forma

Uma das forças fundamentais da “nova era do ouro da TV” é a ideia do anti-herói, como o Tony Soprano (Família Soprano), Don Draper (Mad Men) ou o Walter White (Breaking Bad): homens que têm o mundo nas mãos (ou, no caso do Walter, conquistam ele) mas que se deparam que o temo faz o mundo mudar, e o tempo é indiferente à eles. A jornada desses personagens geralmente é trágica: diferente dos heróis televisivos, que aprendem, mudam ou crescem, os anti-heróis preferem fazer o mundo ao redor deles mudar a serviço deles, e a indiferença do mundo quanto ao que eles querem (ou o poder deles de fazer o mundo deixar de ser indiferente) causa destruição — seja da alma do personagem ou daqueles ao redor dele.

Essa forma foi muito bem sucedida nos anos 2000, e até hoje séries consagradas usam ela. Game of Thrones ou Sucession são dois exemplos recentes. Mas esse tipo de pessoa começou a ganhar mais poder hoje em dia — eles são presidentes de novo, olha só —, e acompanhar séries sobre pessoas assim agora parece muito mais uma obrigação para entender o que está acontecendo mais do que entender como essas pessoas também são humanas, como Família Soprano e Mad Men fizeram tão bem lá atrás.

Nos últimos anos, então, começou a aparecer uma variação do anti-herói: a de pessoas falhas que querem que o mundo gire ao redor delas e que, ao se deparar com outras pessoas falhas como elas, descobrem que elas se sentem vazias ou quebradas por dentro — por algum motivo ou outro — e descobrem que juntas podem ter mais força de se reconstruírem, de criarem algo. Essa ideia não é exatamente nova (Friends já brincava com algo assim nos anos 1990), mas com The Office, United States of Tara e Community elas começaram a ser uma resposta ao anti-herói das séries prestigiadas. É algo que deu super certo nas comédias dramáticas (a HBO explorou isso bastante com Girls, Looking e Togetherness) porque essa jornada geralmente envolve um grupo, geralmente eles tem muitas recaídas e geralmente é sobre uma galera mais próxima do mundo real: um bando de perdido que não tem ideia do que fazer no mundo, e o mundo é indiferente a eles nisso.

Com Crazy Ex-Girlfriend (na Netflix), esse tipo de personagem dá mais um passo e cria uma das melhores séries da década.

Eu já comentei (brevemente) sobre a primeira temporada de CXGF aqui. Naquela época, a série ainda parecia “apenas” uma comédia sobre comédias românticas, que tentava pegar os clichês do gênero e desconstruí-los para mostrar como elas podiam nos dar ilusões sobre o amor. A primeira temporada de CXGF é divertidíssima, mas o que a série começou a fazer depois dela é genial.

Crazy Ex-Girlfriend conta a história da Rebecca Bunch, uma advogada de um poderosíssimo escritório de Novas York que decide se mudar para West Covina, na Califórnia, depois de ter visto uma propaganda de manteiga na TV (e de ter reencontrado o seu ex-namorado da época do ensino médio, Josh Chan). Lá, ela faz um bando de coisas questionáveis (a série demora para chamar essas ações de loucuras) para tentar atrair seu ex de volta.

É uma comédia romântica, em um primeiro momento, e Crazy Ex-Girlfriend sabe o que a gente espera desse tipo de história. E sabe também quando a gente espera uma reviravolta desse gênero. Essa é a série que homenageia Harry & Sally e (500) Dias com Ela no mesmo episódio, afinal de contas.

Mas CXGF também é um musical que se passa dentro da mente de Rebecca. Ela é uma mulher com emoções muito fortes, e a série revela essas emoções em números musicais que vão desde como ela se arruma para sair com um cara até como é horrível ser advogado.

Na primeira temporada, Rebecca vai até West Covina guiada por essas emoções fortes e números musicais imaginários. Ela quer reviver seu amor com Josh e, com sua nova melhor amiga Paula (a incrível Donna Lynne Champlin) ela não mede esforços para isso acontecer: desde influenciar o casamento da irmã do Josh até criar um namorado falso que se torna mais real do que deveria para causar ciúmes nele.

Se na primeira temporada da série nós somos apresentados à esse grupo de personagens e como eles agem entre si — como Paula ajuda Rebecca porque ela mesma queria viver uma “grande história de amor”; como Josh é o manda chuva dos seus amigos e está trancado nas memórias da adolescência; como Valencia prefere que Josh não tenha personalidade; ou como Greg, o melhor amigo de Josh, se apaixona por Rebecca porque ela não tá afim dele — a partir da segunda ela transforma em uma observação como nós procuramos em nossos amigos e amores alguém que valide também nossos vícios, não só nossas virtudes, e como elas podem ser prejudiciais quando juntamos esses piores lados.

É aí que Crazy Ex-Girlfriend não tenta só desconstruir a comédia romântica, mas também a comédia de amigos. Por mais bela que seja a amizade entre Rebecca e Paula, as duas acabam criando ilusões uma para a outra sobre suas ações. Paula acha que a busca de Rebecca pelo amor é um romance de vampiros ao vivo; Rebecca acha que o suporte de Paula é o que uma verdadeira mãe devia fazer. Greg vê no seu amor destrutivo com Rebecca a chance de validar seu pior lado; e Josh insiste em viver com Valencia porque ele não consegue acreditar que seus dias de glória já passaram.

É um grande arco, e Crazy Ex-Girlfriend navega nele com precisão. Embora a série se centre na busca de Rebecca por encontrar o seu final feliz — seja ele com um amor ou com amor próprio —, ela é inteligente o suficiente para saber que finais felizes são passageiros, que nós fazemos escolhas erradas e que nossos amigos nem sempre tem um grande conselho para nos dar. E pior: eles mesmos estão tão perdidos quanto nós.

Mas Crazy Ex-Girlfriend também valoriza que, mesmo se estamos perdidos, vai ser mais fácil encontrar um caminho melhor juntos.

Não é novidade o que CXGF faz. Community sempre foi fascinada pela ideia de que, por mais que o grupo de estudos seja algo necessário para a vida das pessoas, eles nem sempre fazem bem uns aos outros. Em Crazy Ex-Girlfriend, essa jornada é interna: a compreensão de que você faz parte de um todo e esse todo talvez não tenha mais tanta certeza quando você imaginava, e como isso pode desestabilizar ainda mais você. Rebecca não vê um futuro porque é infeliz, e CXGF não quer que ela descubra a felicidade em outra pessoa. A jornada de Rebecca é em descobrir o que a faz infeliz e insuficiente para si mesma, e como ela pode melhorar.

Isso cria uma terceira temporada difícil de assistir, em que Rebecca mergulha no seu pior lado, sua ansiedade aumenta e seu comportamento errático machuca os outros, inclusive seus amigos. Parece que CXGF vai abraçar o anti-herói que existe em Rebecca, mas na última (e genial) temporada, a série força seus personagens a enfrentarem esses medos e quererem buscar ajuda. Um nos outros e em si mesmos. É quando os musicais de Rebecca começam a fazer mais sentido. Até que, um dia, nós podemos esperar, sua vida e seus sonhos vão andar de mãos dadas, e não em conflito. É o que queremos para nós e para quem amamos.

É hora de pegarmos a internet de volta

Se a internet fosse uma biblioteca ela seria gigante, repleta com todo o tipo de livro, revista, jornal, diários, trabalhos acadêmicos e o que mais fosse possível enfiar dentro dela. Mas ela também não teria nenhum sistema de organização (nada de plaquinhas de “Estudos Sociais” e “Convergências entre Hipertexto e Política”), e você só teria uma lanterna para ajudar a encontrar aquilo que precisa.

Parando pra pensar, você percebe que ainda é difícil navegar na internet. Você precisa se certificar que seu navegador está atualizado para conseguir exibir o conteúdo corretamente; precisa digitar endereços cheios de pontuação e códigos e, principalmente, precisa ter cuidado com o que acessa — um link para aquele “Flash Player” malandro está sempre na espreita. É por isso que serviços que nos ajudam a navegar nesse mar de conteúdo e a encontrar exatamente aquilo que a gente precisava deram tanto certo — foi o grande acerto do Google, no início do serviço. Você só precisa procurar, e o Google vai varrer o seu índice gigante para encontrar aquilo que for mais próximo. É tão prático que a gente esquece a dor de cabeça que era ter que ficar favoritando todas as páginas que a gente precisava acessar nos anos 90.

Esse serviço de indexação e relação que o Google faz é gigante e custoso, e o fato de ele parecia ser “de graça” era algo que fazia a internet parecer ser a parte do mundo real, onde a gente precisava pagar para poder ter acesso a qualquer coisa — do jornal à enciclopédia. O problema é que, conforme fomos confiando mais e mais na capacidade do Google de nos entregar aquilo que precisávamos, mais o Google queria saber sobre nós e nossos gostos. E assim a web ficou “personalizada”. Mas não no sentido de colocar uma cor diferente na barra do seu navegador (sdds personas no Firefox), e sim no sentido que esses “organizadores da internet” começaram a cercar o nosso acesso naquilo que dava dinheiro pra eles — os anunciantes que pagavam bem. Ferramentas como o Google, e o Facebook e hoje em dia até mesmo o Twitter, começaram a observar (muitas vezes sem o nosso consentimento) aquilo que a gente tinha interesse, e começaram a manipular o acesso à essa informação de acordo com o que era mais interessante para seus anunciantes.

O problema

É como se a Internet fosse essa biblioteca gigante e misteriosa e as vezes perigosa, que a gente já se aventurou tanto alguns anos atrás mas que perdemos contato com ela quando nossos guias ficaram tão bons em indicar atalhos. Mas os nossos guias só nos dão acesso ao shopping center que eles construíram na entrada, logo após aquela fonte bonita, virando a primeira à direita.

Conforme a gente foi permanecendo nessas redomas da internet, como o Facebook, o Slack, e a primeira página de resultados do Google (que hoje é praticamente só conteúdo patrocinado?!), uma coisa perigosa foi acontecendo: a gente começou a misturar esses espaços da Internet e dar aos proprietários dessas empresas multimilionárias o conhecimento não só da nossa vida, mas também do que compramos, das notícias que lemos, daquilo que ouvimos e do que conversamos nos emails e chats da vida. Conforme essas plataformas foram ficando inteligentes, elas foram se “personalizando” através desses dados: começamos a ler notícias no Facebook e a receber dicas do que responder aos nossos colegas de trabalho no Gmail. Você conversa sobre o que dar de presente para a sua mãe e o Instagram está ali te oferecendo um brechó que vai vender aquela roupa “sustentável” e “orgânica” que basicamente significa que eles não pagaram a mão de obra.

A impressão que esses serviços integrados nos dão é que eles são mais pessoais, eles entendem aquilo que a gente quer e preveem uma solução. Não sabe responder aquele email do chefe? Têm essas sugestões aqui pra começar. O que você quer ouvir agora? Baseado no que você ouviu nas últimas semanas tem esse álbum novo que tá todo o mundo ouvindo também.

Nos últimos tempos eu comecei a duvidar muito do quão pessoal a internet realmente ficou. É como conversar com um daqueles bots, como o Robô Ed. Quanto mais você passa o tempo conversando, mais e mais você vai percebendo o quão falso ele é. Conversas no Facebook crescem a ponto de virarem notícias falsas, rumores se transformam em verdades e o algoritmo de timelines começam a servir para entregar informação, e não interação. Não interessa se é verdade ou não, se é o que te interessa é o que vai aparecer para você.

Uma web realmente pessoal

Não faz muito tempo que as coisas eram diferentes. No final da década passada a internet ainda era um nome próprio, e o nosso método de navegação era necessariamente diferente. Por dois motivos: um é técnico, a tecnologia que fundamenta a web evoluiu muito nos últimos anos, mas estava numa pré-adolescência complicada na segunda metade da década de 2000, e não comportava os sites imensos repletos de recursos dinâmicos que existem hoje. O segundo era comportamental: se a gente gostava de um tipo específico de música, não adiantava nada conversar com ela no meio da galera que tava comentando outro tipo — a gente procurava aquilo que era mais especificamente próximo do que a gente queria. Porque a tecnologia não era tão poderosa, os sites eram menores, mais específicos.

Hoje em dia é estranho, mas antes redes sociais só deixavam a gente conversar uns com os outros. A gente ia no Orkut para ver as fotos da festa que ficaram ótimas e mandar juras de amor por depoimento (não aceita!), mas o Orkut não era um bom espaço para você compartilhar aquele link de notícia que te chamou a atenção. Pra isso você postava no seu blog, que tinha um link para seu perfil no Orkut, que mostrava as comunidades que você participava. Você baixava o último álbum bacana no Discografias no Orkut, comentava sobre ele no seu blog, que tinha um link que levava para seu perfil no Last.FM. Uma coisa levava a outra, e nossa presença na web nunca era centralizada em uma identidade só (inclusive imagina se nossos pais usassem o Orkut naquela época, que perigo).

Isso era bom para o usuário, que estava sempre descobrindo coisas novas e tendo acesso a conteúdo interessante (ou bobo, nem tudo são flores); e para os negócios, já que mais sites menores e específicos conseguiam sobreviver porque formavam pequenas comunidades, e pessoas conseguiam ganhar uma grana criando esse conteúdo riquíssimo (o que tinha de blogueiro sendo “promovido” a redator e colunista, inclusive). Claro que nem tudo são flores: era caro manter um site, e muitas vezes eles desapareciam porque não tava mais para manter. As vezes eles não eram muito seguros (mas, em contrapartida, a gente não fornecia tantos detalhes da nossa vida também).

A solução é sair do Facebook e parar de acessar o Google, o YouTube e o que mais for? Acho que não. É como dizer para as pessoas pararem de usar carro: seria o ideal, mas enquanto cidades inteiras são pensadas e formadas partindo do princípio que carros existem, se mover nelas sem eles é muito mais difícil (e, para muitas pessoas, impraticável).

É hora de pegarmos a internet de volta

Uma coisa boa que aconteceu na internet nessa última década: a tecnologia que mantém ela amadureceu e ficou mais barata. A mesma tecnologia que mantém uma timeline no Twitter e no Facebook mantém um leitor RSS ativo, ou o seu player de podcasts. Uma tecnologia mais madura é mais fácil de confiar, porque tem menos chances de mudar de uma hora para a outra ou simplesmente parar de funcionar. Você pode ensinar seus pais a usar essa opção sem precisar ficar ensinando essa configuração ou aquela outra a cada três meses. É muito mais fácil do que piratear o Windows.

Nos últimos anos esse amadurecimento da internet começou a causar frutos interessantes:

  1. Os podcasts, que pareciam uma forma moribunda de comunicação, se transformou num gigante (muito dessa nova vida é graças ao já clássico Serial, inclusive). Jornais como o NYT, a Folha de São Paulo e o G1 passaram os últimos anos apostando muito em podcasts para transmitir notícias em pequenos podcasts diários ou grandes podcasts semanais.
  2. Os blogs, que pareciam mortos ali por 2013, tiveram um belo retorno no último ano: o UOL colocou todos os seus colunistas e colaboradores em blogs próprios (a Veja fez algo semelhante, mas eu não acompanho muito aquilo lá). O Tumblr, a ferramenta mais fácil para criar blogs no mundo, que estava caindo aos pedaços graças à bagunça que é o Yahoo!, acabou de ser comprada pela empresa responsável pelo WordPress.com, que é dedicada em criar ferramentas para blogs, e o futuro parece brilhante por aqueles lados hoje em dia.
  3. E o que parecia morto já nos anos 2000, as newsletters, hoje são o meio mais pessoal de se manter em contato com os autores que você gosta (o Daniel Galera tem uma esparsa, mas excelente). O Tinyletter se deu muito bem em se dedicar somente a isso nos últimos anos.

Esse retorno de blogs, newsletters e podcasts (e, por meio deles, do RSS como uma forma de distribuir e consumir conteúdo) está sendo bem interessante de acompanhar. Por um lado, é uma resposta dos provedores de conteúdos de tomarem o controle da forma de novo, depois de anos em que uma mudança no algoritmo do Facebook levassem todos à falência. Por outro, é um retorno da vontade do usuário de tomar o controle de como consumir esse conteúdo. Em 2001 a gente queria baixar só as faixas legais dos álbuns que a gente gostava. Em 2019 a gente escuta aquilo que o Spotify acha que a gente gosta.

Com as “mídias sociais” explodindo durante a última década, essas formas pareciam fadados ao esquecimento de uma pré-história da internet que nossos pais não presenciaram (ou não tinham interesse em acompanhar), vítimas de aplicativos difíceis de operar e da instabilidade tecnológica. Hoje, porém, esse retorno faz cada vez mais sentido. A onipresença do Facebook, do YouTube e do Google e a sua abordagem cada vez mais intrusiva em distribuir conteúdo para nós fica cada vez mais agressiva. Notificações do Facebook definem quando a gente deve ler uma notícia ou ouvir o nosso amigo reclamar do ônibus lotado em um áudio alto demais. Parece que temos cada vez menos controle sobre a nossa interação com a internet, o que é contra o propósito de estarmos nela — de termos o domínio sobre essa informação, ou sobre o acesso à ela.

Com os blogs, os podcasts, as newsletters, esse controle volta para nós. Por existirem em espaços diferentes, eles não se introduzem no nosso cotidiano sem serem chamados. O leitor RSS só vai ser aberto quando você quer ficar em dia com as suas notícias. O podcast está ali esperando o trem com você. Por não estarem confundidas com as mensagens pessoais ou uma conversa do trabalho, esses conteúdos oferecem um contexto adequado para serem consumidos: no leitor RSS não vai ter seu irmão perguntando quando é o aniversário da sua mãe. Esse contexto não requer que você esteja respondendo a algo. Ele requer a sua atenção: agora é hora de ler, então presto atenção. Depois é hora de ouvir, então fico quieto.

A confluência de conteúdo foi um grande salto da internet. Ter todo esse conteúdo acessível com tanta facilidade é uma dádiva que a tecnologia nos proporcionou. Isso não significa que precisamos dela o tempo todo, nem que ela pertence ao mesmo contexto do nosso dia a dia. Se tem uma coisa que a internet precisou amadurecer para perceber é que o ser humano é inteligente o suficiente para mudar de contexto facilmente. Com um app de distância eu posso ser o filho perfeito dos meus pais enquanto no do lado eu discuto a consistência do arroto depois de comer feijão. Está na hora de tomarmos esse poder de volta para nós, de decidirmos os nossos contextos através da nossa vontade.

Nessa última década nós experimentamos com máquinas definindo o que a gente via e quando a gente via. Nós experimentamos com anunciantes sabendo o que queríamos e quando queríamos. Os resultados foram desastrosos — dos menores, em que o Facebook e o Twitter criaram ambientes de discussão que não incentivavam uma conversa rica e elaborada, e nos acostumaram com gritos e faltas de contexto; aos maiores, em que democracias inteiras estão prestes a serem consumidas pelo ódio que essas discussões criaram. Nós confiamos o controle dessa tecnologia, que foi tão importante para nós, à grandes corporações, e elas traíram a confiança que foi dada na ambição de terem mais controle do que aquele que nós demos a elas. Nós experimentamos, e isso não deu certo.

Está na hora de tomarmos o controle desse espaço que nos definiu e nos fez avançar. Não é algo que vamos fazer da noite para o dia, mas é uma transformação que está começando e que podemos abraçar. Não significa pararmos de usar os serviços que eles nos oferecem (para muitas pessoas, a internet é o Facebook, e essa é uma percepção difícil de desfazer), mas está na hora de adaptá-los às nossas necessidades, e não ao contrário — ninguém parou de assistir TV quando o YouTube apareceu, nós começamos a ver YouTube pela TV, por exemplo. O Facebook já foi um ótimo lugar para ver como as fotos da festa ficaram ótimas. Mas o pronunciamento de um presidente não deveria ser o post logo abaixo de você vomitando na festa da semana passada — você já está passando raiva demais.

Há dez anos eu trocava o ícone do Google Chrome pro do Internet Explorer pro meu pai acessar a internet com um navegador mais rápido e seguro. É hora de fazermos isso de novo (coloque o Firefox no lugar do Chrome no Moto G do seu pai). Hoje em dia é muito mais fácil criar e ler blogs e newsletters do que era quando o Facebook e o Twitter apareceram. Acompanhar podcasts (e criá-los) finalmente é intuitivo, e eles nunca ofereceram conteúdos tão bons. Nunca foi tão fácil mostrarmos para nossos pais o excelente podcast da Piauí, por exemplo, e é uma boa hora de incentivarmos esse hábito.

Descentralizar o conteúdo dessas super-potências da internet significa tomarmos o poder dela de volta para nós, estilo web 2.0, de definirmos o contexto que queremos ler as notícias que nos interessam, e não deixarmos que algoritmos que fazem de tudo para nos rastrear façam essa decisão por nós. Lentamente, deixamos elas irrelevantes — ou no mínimo menos relevantes. Era comum a gente separar o que era importante ou não na internet. Há dez anos era uma decisão de comodidade, hoje é uma necessidade.

Eu estou apaixonado por Stop Making Sense

Umas semanas atrás eu parei pra assistir Homecoming, o filme-concerto do show da Beyoncé no Coachella 2018. Um filme grandioso, e faz a gente ter uma noção do porquê as performances foram chamadas de “históricas” no ano passado. É mais um passo de Beyoncé em se firmar como um mito contemporâneo. Além disso, é um filme muito bom. Eu nunca me interessei muito por “filmes-concerto” porque 1) eu sempre achava que era um show filmado; 2) eu sou desinformado. Daí eu amei Homecoming e pensei “puxa, agora eu tenho que ver mais filmes-concerto”, e decidi começar pelo que já tinham me recomendado várias vezes e eu não dei muita bola.

Desculpa pessoal, eu tava muito errado.

Eu acho muito incrível quando tu percebe que o filme que tu tá assistindo tá se transformando num dos teus filmes favoritos. Eu amo quando isso acontece, mas nos últimos anos aconteceu muito pouco. Não porque não se faz filme como antigamente e toda aquela baboseira, mas porque eu andei com muita dificuldade de sentir qualquer outra coisa que não fosse tristeza nesses últimos anos. Mas então eu assisti Stop Making Sense (no YouTube e no Spotify), e esse sentimento voltou. Foi instantâneo. Eu não conhecia os Talking Heads fora da trilha-sonora do filme Mulheres do Século 20, e quando acabou eu me transformei em um fã.

Stop Making Sense começa com David Byrne, o vocalista, fazendo uma performance solo, e em cada música seguinte um membro da banda se junta no palco: primeiro Tina Weymouth, depois Chris Frantz, e então Jerry Harrison. O som vai ficando mais rico a cada música, e o palco vai sendo montado gradualmente atrás deles. Depois se juntam a eles as cantoras Lynn Mabry, e Ednah Holt, e os músicos Bernie Worrell, Steve Scales e Alex Weir. É importante dar os nomes, porque o filme de Jonathan Demme faz questão em deixar claro o que cada uma das pessoas que sobe ao palco vai contribuir no som. Por parte do diretor, não tem essa de filmar a banda em um palco como deuses fazendo os mortais se mexerem, como Martin Scorsese gosta de fazer nos filmes-concerto do Rolling Stones, e sim nos fazer entender como a banda funciona no palco, como pode um momento assim ser possível — a confluência dos vocais com a guitarra, os cortes da bateria, a harmonia que existe no caos musical.

Jonathan Demme nunca fez um filme parecido com o outro. Ele é conhecido como o diretor de O Silêncio dos Inocentes, que assentou a figura do Hannibal Lecter, interpretado por Anthony Hopkins, na cultura popular. Mas antes de O Silêncio dos Inocentes ele fazia comédias, e depois ele fez filmes como Filadélfia, um drama sobre a tolerância e o preconceito, e o musical Ricki & The Flash: De Volta Para Casa. Toda a carreira do diretor vai de um lado para o outro, mas o espírito é o mesmo: o de uma confraternização das artes para criar um filme inesquecível. E Stop Making Sense faz exatamente isso.

Como outros filmes-concerto, Stop Making Sense conta uma história. Mas não a história dos bastidores da banda que levaram até aquele momento, nem uma história fictícia embalada pelas músicas do show. Não, é a história de como em uma série de noites frias uma banda se reune com seus fãs para ter algumas horas de emoção em comunidade, compartilhando epifanias existenciais em “Once in a Lifetime”, histórias de amor com uma lâmpada em “This Must Be The Place” e gritos de guerra em “Girlfriend is Better”. A preocupação de Demme é em manter a sua câmera nos músicos e em como cada um interaje com o outro. Stop Making Sense não tenta fazer o espectador se sentir parte daquele show porque sabe da grandeza daquele momento, então se preocupa em documentar ele para que o show possa criar outros momentos de comunidade com ele.

Quando Stop Making Sense finalmente exibe a plateia em seus momentos finais, cantando e dançando com a última música, parece que faz para confirmar o que a gente sente no filme: sim, esse show foi tudo isso de bom. E agora esse momento vive para sempre, tanto na mente daquelas pessoas que estavam lá naquela noite em Los Angeles, quanto para nós, mais de trinta anos depois, em nossas casas. O filme não quer que a gente se sinta parte da plateia, porque isso seria ma mentira que iria se desfazer no fim do filme. Por noventa minutos, Stop Making Sense nos faz criar boas lembranças assistindo aquele bom momento, porque essas sim vão sobreviver ao tempo, como uma boa música.