Community

Criar uma mitologia densa em uma série de TV é difícil, principalmente no circuito norte-americano. São muitos os requisitos dados pela emissora que os criadores devem seguir, e há sempre a incerteza da continuidade, uma vez que a autorreferência que uma mitologia complexa implica geralmente diminui seu público. Quando acontece, é aplaudido de pé, como no caso de Breaking Bad, Família Soprano e, em um caso mais recente, True Detective. Mas essas séries não trabalham com o elemento mais difícil de se lidar no entretenimento: o humor.

É aí que mora a genialidade de Community, uma série de comédia que, em episódios de vinte minutos na NBC (o SBT dos EUA), conseguiu criar um universo rico em elementos fantásticos, expandindo e reutilizando-o a cada novo episódio. E tudo em função do humor — o que torna as autorreferências da série ainda mais fascinantes.

Community começou em 2009 com uma temporada morna. Os primeiros cinco ou seis episódios ainda não tinham um humor dinâmico que caracterizaria a série depois, e justamente por precisar sedimentar um território, personagens e características para que seu humor funcionasse, acabou por tornar os primeiros episódios, vendo agora, em peças menores no quadro geral. Quando engrena, porém, Community se transforma em um monstro incontrolável que não perdoa nem mesmo sua emissora ou seus espectadores: todos estão sujeitos à entrar no enorme tabuleiro de referências da série.

Apenas mais uma série de humor normal onde seus personagens acabam se transformando em um jogo de 16 bits.

Conhecemos Jeff, um advogado que teve seu diploma cassado por ser falso; Britta, uma jovem idealista que, por trás de suas ideias, não tem muita coisa; Annie, uma nerd que acabou de sair de uma clínica de reabilitação; Shirley, uma dedicada e religiosa mãe com dois (e depois três) filhos; Troy, um ex-capitão do time de futebol; Pierce, um velho que está na faculdade há uns 40 anos; e Abed, um estudante de cinema que encontra na vida os padrões que fazem ele perceber que tudo é uma série de TV. Os sete de Greendale, como eles seriam chamados na terceira temporada, não passam de um grupo de fracassados e esquisitos, que acabam criando um grupo de estudos para estudar Espanhol e que, a partir daí, descobrem que o que há de mais normal em Greendale são eles.

É Greendale a personagem principal de Community. Ao decorrer das cinco temporadas (à exceção da quarta, uma desgraça), os roteiristas da série se interessam em desvendar os deliciosos segredos da faculdade comunitária que une esses sete personagens (que, em um episódio em específico, vê como tudo estava entrelaçado para acontecer). São aulas fantásticas (escadas, idioma dos bebês, dá para fritar?), eventos únicos (ocktoberfest em agosto, concurso da milionésima descarga, festa de halloween com zumbis de verdade) e setores fascinantes (o apêndice do ar-condicionado, o misterioso trampolim) que tornam a Greendale Community College num prato cheio para situações inusitadas, onde brincadeiras de criança são assunto sério, guerras de paintball geralmente levam à morte e, bem, até mesmo portais interdimensionais se abrem.

Imagem de Community Que melhor modo que expandir um universo do que criar seis timelines diferentes?

Ao todo, Community é o cotidiano de seus sete personagens (e do Dean Pelton e do Sr. Chang) nos corredores da Greendale. Mas a série funciona por seu humor genuinamente inteligente e sua noção de que, bem, eles nunca estão em solo firme. À exceção da segunda temporada, todas as outras estavam com o pé no cancelamento, o que é uma fonte para ótimas piadas (na première da terceira, por exemplo, o reitor vêm e diz que vai ser um ano como todos os outros, só que sem dinheiro), o que transforma a série em um lugar onde o criador, Dan Harmon, não precisa ter senso do perigo. Com o apoio de uma forte fanbase, Community chegou a definir sua longevidade, quando Abed tenta defender uma série que gosta e cria uma campanha no Twitter, #SixSeasonsAndAMovie. Agora, cinco anos depois, o anúncio da sexta temporada está próximo e, dizem os rumores, um filme está sendo discutido.

Imagem de Community Metacomentários a torto e a direito? SIM!!!

É esse o poder fascinante de Community: em meio às tramas mirabolantes, à falta do senso do ridículo, de um humor preciso e autorreferenciado, e de uma liberdade fascinante de criação, que vemos um dos grandes nomes da TV se erguer. Quando Abed olha para a câmera e comenta que “haverá sim uma sexta temporada, se não houver é porque um asteróide caiu na terra e a civilização foi extinta”, ele fala a serviço do humor da cena como um todo. Mas também fala sério.

Esse é o cânone da melhor série de humor no ar atualmente: ser precisa no que quer dizer, mas não perder o charme de como dizer.

Community teve sua quinta temporada no ar essa última semana. A sexta temporada ainda não foi anunciada, mas o criador diz que é provável que aconteça. Recomendamos vê-la por inteiro (talvez pulando a quarta temporada, que é desnecessária e considerada fora do cânone). Seu humor funciona justamente porque seus fãs são dedicados em perceber todas as nuances do seu humor.

Sherlock

A primeira lembrança que tenho de Sherlock Holmes, apesar de ter lido alguns dos livros de Sir Arthur Conan Doyle quando mais novo, é de uma série, não muito antiga, que passava no Hallmark Channel, canal que talvez já não exista há muito tempo. Era uma série nos moldes britânicos simples, sem muitos cacoetes visuais ou grandes mudanças na natureza da obra. Era uma boa adaptação e um ótimo programa, afinal, com todas as aventuras do detetive e seu fiel médico/militar/detetive/escritor/amigo/aliado multiuso prontas – e sendo incríveis como são -, não deve haver lá grande preocupação com o que diz respeito ao conteúdo apresentado. A genialidade da obra do escritor é incontestável, e só poderia ter sido elaborada por alguém com o mesmo dom intelectual que os personagens de suas histórias. A grande dificuldade que noto, entretanto, fica à cargo da representação dos personagens, principalmente de Sherlock. O que vemos são representações infantis, mal acabadas, um esboço de Sheldon Cooper, frente à uma trama que não apresenta mais a força e a profundidade das histórias de Arthur.

Como exemplo disso, temos a última adaptação cinematográfica das aventuras do detetive. Downey Jr. e Law fazem uso de todos os clichês de bromances em um fime de ação onde o suspense, a tensão, a busca que podemos fazer pelos detalhes, as suposições que podemos fazer pelo jeito como agem os personagens, pelas pistas, sempre bem estruturadas e propositalmente colocadas aqui ou ali, tudo é deixado de lado. O que salva o filme, e faz com que a maioria das pessoa acabe se afeiçoando a ele, é o carisma do Homem de Ferro, com seu jeitinho afetado no melhor estilo Johnny Depp possível, como já é comum hoje em dia. O mesmo repete-se em Elementary, a série da Universal que traz sua própria versão de Sherlock, e também aposta nos trejeitos e nas manias para encobrir a falta de profundidade da trama. Tanto é, que não é difícil encontrar pessoas que comparem a série com House ou Lie to Me, ambas com personagens ícones do jeito “inteligente arrogante cheio de cacoetes” de ser.

Frente a isso, então, só nos resta assistir reprises de séries antigas ou nos conformar com o que tem sido feito por aí? Não, meus amigos! Não vos desespereis! Sherlock está aqui.

Na série de 2010, Benedict Cumberbatch e Martin Freeman vivem os dois detetives mais famosos da história, em adaptações modernas das aventuras escritas por Arthur Conan Doyle. Com três temporadas até agora, cada uma com três episódios de maios ou menos uma hora e meia de duração, a série tem se destacado cada vez mais por sua fidelidade à essência obra e por sua qualidade. Cada episódio trata de um livro ou conto adaptado para o século XXI, e traz tanto elementos novos quanto antigos, como Mycroft, irmão de Sherlock, ou Moriarty, nêmesis de nosso herói, todos com atuação impecável.

O carisma dos dois protagonistas, com suas histórias bem trabalhadas e seu relacionamento menos babacão – diferente, por exemplo, de Supernatural, onde os dois irmãos estão sempre mais ocupados com seu relacionamento do que com os casos que enfrentam -, esses fatores fazem com que a série adquira uma solidez que as outras adaptações não tem, podendo, assim, aprofundar-se no núcleo de suspense em torno do qual gira a trama.

De todas as temporadas a minha favorita, sem dúvidas, é a segunda. As outras são tão incríveis quanto, e a primeira desempenha muito bem seu papel de plantar a sementinha da dúvida e da expectativa, mas a segunda é o ápice desses sentimentos. Saindo do apartment 221B Baker Street, os mistérios ganham proporções mundiais. Além disso, existe agora um inimigo, a aranha que tece toda a trama que envolve os crimes mais geniais do planeta: Jim Moriarty é a encarnação da inteligência e organização a favor do caos. Então começa uma corrida para decidir quem estará sempre um passo a frente, no controle da situação, decidindo o destino do mundo ou da sua própria vida.

Para quem gosta do trabalho de Sir Arthur Conan Doyle, a série é uma ótima pedida, inovando na medida certa, mantendo os elementos novos e antigos em harmonia e dando o toque que faltava para termos uma adaptação que faz jus à obra do escritor!

Sweet Tooth

Antes de começar a ler Sweet Tooth, a primeira coisa que me passou pela cabeça foi “será que existe lugar para mais historias pós-apocalípticas?“. Confesso que o tema, geralmente acompanhado por amplas doses de mortos-vivos, tem se tornado desgastante. À medida em que íamos nos aproximando, recentemente, do 21/12/12, o tema ficou cada vez mais em evidência, atingindo picos absurdos tanto antes como depois da data, o que nos deixou sequelas como Meu namorado é um zumbi, de 2013.

Sweet Tooth, entretanto, honra o gênero, criando uma narrativa que prende o leitor do início ao fim, com seus personagens cheios de vida – mas não necessariamente uma boa vida, veremos – e com seu apelo reflexivo.

Gus é um híbrido de humano com cervo, que nasceu depois que uma praga se espalhou pela Terra, matando grande parte da raça humana. Junto com a doença vieram todos os híbridos, filhos de mulheres que engravidaram depois da praga; metade crianças, metade animais. Eles são caçados e estudados por militares que buscam uma cura no que parece ser a última instalação militar/científica que restou no planeta. Gus, entretanto, não sabe de nada disso.

Dente Doce, como é apelidado pelo Homem Grande, vivia com seu pai, isolado em uma reserva, sob uma doutrina religiosa muito rígida. Seu pai escrevera uma bíblia e o ensinara que as pessoas estavam morrendo, aos poucos, pelos seus pecados. Assim, Gus devia ser leal à Deus e não desobedecer as regras de seu pai, principalmente a regra número um imposta por ele: jamais deixar a floresta. Até que um dia, o pai de Gus também é levado pela doença.

Assim começa a história de Dente Doce e do Homem Grande. Uma história de guerra, perda e sobrevivência, mas também de compaixão, amor e prosperidade. E talvez essas coisas não representem uma dicotomia tão grande quanto aparentam. Talvez façam parte do mesmo ciclo sobre o qual se formam as histórias – nossa própria história, por exemplo – e assumam significados diferentes para um mesmo significante; uma guerra que busca a liberdade; o amor que nos aprisiona a antigas promessas; a sobrevivência que pesa mais do que a aceitação da morte. E essa batalha constante que envolve os personagens, tanto subjetiva quanto objetivamente, não perde forças nas extremidades das páginas.

A história contada por Jeff Lemire exige uma sensibilidade maior do leitor. Os personagens são apresentados, assim como os argumentos, mas a viagem principal dessa história em quadrinhos não é a que é feita da interpretação instrumental ou poética da leitura, mas da leitura que é feita da história onde se encontra o leitor pelo próprio leitor. Ou seja, quando lemos a história, estamos lendo a nossa história. Quase uma reflexão forçada sobre o impacto da vida de cada pessoa sobre toda a raça humana e da raça humana no planeta.

Além disso, a hq traz traços bem fora do tradicional, além de uma estrutura filosófica, que apesar de não se aprofundar tanto quanto poderia, é uma ótima experiência para uma história em quadrinhos. São quarenta edições da Vertigo, divididas em cinco grandes capítulos, que proporcionam uma aventura maravilhosa!

Ela

Theodore escreve cartas de amor à mão. Claro, ele as dita ao computador e este escreve, simulando uma caligrafia humana. Ele então as imprime e lê, como se fosse o apaixonado que envia. Ela começa assim. Parece que Theodore está falando para seu suposto marido que está celebrando bodas de prata que ainda o ama. Em dois minutos, Theodore parece amar o marido tanto quanto a senhora que o contratou.

Theodore, assim como os outros protagonistas de Jonze, é um homem que prefere a solidão. Ele se encontra mais facilmente isolado, no silêncio. Ao menos nesse momento de sua vida, em que precisa enfrentar o divórcio com Catherine, sua ex-esposa com a qual cresceu.

Em uma era que as tecnologias se dizem “intuitivas” e “responsivas”, Ela é a história de amor da geração. Theodore compra o mais recente sistema operacional, OS1, e seleciona uma série de preferências que resultam em Samantha, sua inteligência virtual com configurações de privacidade desativadas. Por ser um reflexo dos medos e virtudes de Theodore, Samantha é uma personalidade somente de qualidades — afinal de contas, quem não se apaixona pelo que há de melhor em si mesmo? Sendo assim, não é possível culpar Theodore: amar Samantha é inevitável. Ele a ama. E nós também.

Baseado em um futuro não muito distante, mas sem data precisa, a humanidade vista em Ela parece ter resolvido os problemas de saúde, superpopulação e poluição. Mas parece que há uma síndrome de solidão que assola a todos, ao menos os personagens que vemos. Não por acaso que o sistema operacional precisaria ser uma companhia para essa solidão, e embora alguns não se deem muito bem com seus donos, Samantha parece cada vez se apaixonar mais pelas experiências que Theodore à proporciona. Um humano que usa do artificial como trabalho, para compor cartas realmente impregnadas de sentimento, é um prato cheio para um sistema operacional que está sempre aprendendo.

Pode ser estranho, mas Ela não é como Quero ser John Malkovich, onde o sétimo andar de um escritório leva à mente de John Malkovich. Por mais estranho que possa parecer um mundo onde um homem se apaixona por um ser que não possui corpo, o amor que sentimos por nossos gadgets, o fervor que temos ao atualizar o iPhone ou de receber uma resposta precisa da Siri é apenas um indício de que, bem, não estamos muito distantes dos melancólicos e solitários personagens que vemos na tela.

Mas não é a estranheza do relacionamento de Ela que interessa a Spike Jonze, e sim como esses personagens se amam. Theodore é um personagem egoísta, sim, mas seu amor por Samantha é incrivelmente verdadeiro. Para Samantha, Theodore é o resumo de todo um sentimento que, para ela, não há descrição. Ele é a porta de entrada dela para um mundo de informações que não a deixam parar de crescer.

Em determinado momento, Theodore diz à Samantha o que deu de errado no casamento com Catherine. A dificuldade de crescer sem assustar a outra pessoa, ver que ela está diferente daquela com a qual casou. Basicamente, é o que acontece à relação de Theodore e Samantha também. E com todos nós. Ao final, o motivo de uma briga é sempre porque algo não é o que costumava ser.

Finalmente sozinho no roteiro, Jonze se dá a liberdade de colocar muito de si mesmo na produção. Theodore é quase um reflexo de medos que o diretor já refletiu em Onde Vivem Os Monstros, I’m Here, e Scenes from The Suburbs. Jonze tem um toque mais suave que os roteiristas que escreveram seus filmes anteriores, e é essa suavidade que dá a Ela os meios-tons, o sabor agridoce das situações. Ele não pesa a mão na visão de nossa sociedade, alienada à conectividade. Não é uma preocupação ou um alarme, é apenas a verdade e, sobre ela, há pouco o que se fazer. Antes de um reflexo, Ela é um conto mágico sobre alguém que buscou em sua melhor imagem alguém para amar.

Ela reflete o quanto um relacionamento se baseia nas psiques dos integrantes. Quando Theodore pergunta à Samantha como ela está, não há a estranheza de perguntar a um computador o que sente. Há a importância da resposta: apenas com sua voz, Samantha se tornou um ser tão real para o espectador quanto para Theodore. Ela é feito desses momentos casuais que parecem banais, mas são quando os sentimentos são realmente expostos. Se os sentimentos podem transcender os corpos, é uma outra questão, e talvez o filme não busque resolvê-la, mas ao ver Theodore e Amy ao final, na cobertura do prédio, olhando para a sociedade que os abriga e finalmente abrindo os olhos para o mundo ao seu redor, talvez responda.

Por favor, vá assistir Ela. Assim como Theo, você verá o mundo com outros olhos.

Tudo é completamente, incrivelmente, especialmente incrível em Uma Aventura Lego

Uma Aventura LEGO tinha um zilhão de chances de dar errado. Poderia acabar sendo um grande comercial das peças de montar, ou um monte de referências que crianças não entenderiam e que os adultos não gostariam (como nos dois últimos Shrek). Mas não: Uma Aventura LEGO acertou em cheio.

Imagem de Uma Aventura Lego

Primeiro, sim. É um grande comercial da LEGO, mas isso não é de todo ruim. Usar todo o universo de coleções que a empresa possui para criar um mundo inteiramente feito de peças de montar é no mínimo incrível. Em alguns momentos, inclusive, eu esqueci completamente que o filme era feito em computação gráfica e achei que era um stop-motion usando os brinquedos reais. São ruas, casas, prédios e cenários inteiros feitos apenas com as peças de montar. Até mesmo a água é feita com as peças “um por um” (inclusive, as nomenclaturas que usamos quando estamos montando os sets são usados pelos personagens, um deleite).

Mas Uma Aventura LEGO vai além porque é tudo o que o cinema quis mostrar. Ele leva a imaginação a sério permitindo que completamente qualquer coisa apareça na tela. Isso quer dizer que aqui é o único filme em que será possível conferir personagens como Batman, Dumbledore, Michelangelo, Michelangelo (o pintor), Gandalf, Super-Homem, Lanterna Verde, Mulher-Maravilha, Shakespeare, Han Solo, Chewbecca e C3PO em um cenário. É mágico poder assistir metade das referências de sua infância juntas em um só quadro de filme.

E é isso que torna Uma Aventura LEGO tão especial. Ele pega os imaginativos mundos criados pelas crianças com os conjuntos de LEGO e dão movimento. Mas a essência da brincadeira está sempre lá: enquanto os personagens correm em um carro turbinado, eles atravessam o Velho-Oeste e a lua, um mar cheio de piratas, um arranha-céu maligno e uma nuvem que parece ter sido criada por John Lennon e a Lucy no céu com diamantes.

Imagem de Uma Aventura Lego Benny, o astronauta da década de 50 e um dos mais adoráveis personagens do filme.

Tudo é incrível em Uma Aventura LEGO. Tudo é possível também. Com os cenários feitos inteiramente de peças de LEGO e usando todas as centenas de licenças que a LEGO possui, os diretores criam um incrível filme cheio de criatividade e humor, uma mensagem importante (para tanto filhos quanto pais) e torna possível que o mundo de imaginação que todas as crianças sonham quando crianças se torne real em um filme.

(Ah, sim, você vai ficar com a música-tema na cabeça por alguns dias).

True Detective

Imagino que, se você gosta de acompanhar séries americanas e assistiu American Horror Story, Fringe, FlashForward, Supernatural e tantas outras, deve se perguntar, por vezes, o que aconteceu com os mistérios nas séries. Como exemplo mais recente, American Horror Story tentou criar uma grande expectativa sobre a identidade da Suprema, a bruxa que tomaria o lugar da antiga líder do clã, tomando para si todos seus poderes e energia vital. Parece bom, mas acontece que, preocupados mais com a quantidade de elementos na série – bruxas, caçadores, fantasmas, criaturas mitológicas, voodoo, subtramas de problemas adolescentes ou casos amorosos para os quais ninguém liga, insira aqui algo que eu tenha esquecido -, a história acaba ficando em segundo plano. Então acontece o que sempre acontece em séries que tentam causar um impacto muito grande: matam e ressuscitam personagens a torto e a direito.

Já se tornou rotina, dessa forma, termos séries nas quais a narrativa é complicada, corrida e com cara de coração de mãe de roteirista: sempre cabe mais algum plot-twist de última hora. Para nossa sorte, entretanto, esse não é o caso de True Detective.

Martin Hart e Rust Cohle são dois detetives que tentam descobrir o que há e quem está por trás do assassinato de Dora Lange, uma jovem prostituta encontrada em um campo, em meio a uma coroação bizarra. Martin divide seu tempo entre o trabalho, sua família e sua amante, enquanto Rust lida com a perda de sua filha, seu problema com drogas e filosofia, tagarelice-seletiva, niilismo e desejo de morte. Os elementos vão sendo adicionados pouco a pouco, enquanto a história é contada pelos dois protagonistas, que são convidados a falar sobre o assassinato sete anos depois do caso ter sido aberto. Aparentemente, algo está acontecendo de novo.

Nada em True Detective é entregue facilmente, mas tudo é muitíssimo bem explicado pelos dois detetives, criando uma história contínua, sem saltos, interrupções ou remendos. Entretanto, ao responderem as perguntas dos policiais, que filmam os depoimentos, Martin e Rust começam a desconfiar de suas intenções. O interrogatório sobre o assassinato e sua natureza macabra vai, aos poucos, tornando-se uma investigação sobre um dos detetives.

Não é errado dizer que estamos enfrentando uma maré de histórias mal contadas. Não porque não existam histórias bem contadas, mas aquelas parecem estar mais em evidência. Mas será que, em uma era de The BigBang Theory, Awkward e Game of Thrones, temos lugar para uma boa história?

True Detective promete trazer de volta o bom e velho mistério de deixar de queixo caído. Com uma ótima estética e uma história bem dosada, usando seus elementos sem se tornar refém deles, a série acaba de entrar para os meus favoritos, ao lado de Black Mirror.

O Anjo Exterminador

Existem poucos filmes como O Anjo Exterminador (El ángel exterminador, 1962), de Luis Buñuel. Os motivos para tal, entretanto, divergem-se pela crítica: de um lado, os que pensam não haver obra mais magnífica em sua crítica à burguesia enquanto tensiona as características do racional e as relações humanas (se também não é característica da racionalidade), montando uma pequena sociedade “selvagem”, descaracterizando os personagens de sua consciência humana com um surrealismo impecável; do outro, os que admitem não entender grande parte do filme e, assim como eu, não se importariam com algumas explicações (o equivalente ao dicionário de nadsat ao final de Laranja Mecânica). Porém, independente de qual seja sua opinião sobre o filme, este é imprescindível na sua “Wants to watch” list no MUBI.

Saindo de um concerto, um grupo de amigos da alta sociedade resolve reunir-se na casa de um casal de amigos para aproveitar o resto da noite. Ao final do encontro, entretanto, por algum motivo, nenhum deles se permite abandonar a sala. Algumas das conversas entre os personagens parecem não fazer sentido, e as repetições de cenas, ângulos e falas criam uma sequência de fatores muitas vezes sem nenhuma ligação, uma rotina que não segue um padrão e que, apesar de existir, não carrega em si nenhum sentido para sua existência. Em certo ponto, tentar encontrar respostas ou fazer sentido em O Anjo Exterminador é tentar alcançar um ponto intangível e, pior, imaginado por nós, sem nenhuma garantia de existência. Como disse Clément Rosset em Princípo da Crueldade:

“Com efeito, não há nada no real, por mais infinito e incognoscível que ele seja, que possa contribuir para sua própria inteligibilidade: se é obrigado a buscar seu princípio em outro lugar, a tentar encontrar fora do real o segredo desse próprio real.”

Assim, também, procuramos entender a estrutura complicada que Buñuel apresenta, mas que não contém em si os elementos necessários para que possamos chegar a alguma conclusão. Eis uma das belezas do filme: ele é incrivelmente vasto para ser compreendido em toda sua extensão, mas também é incrivelmente raso para que possamos fazer nele algum sentido.

Imagem do filme O Anjo Exterminador “Me siento confuso. ¿Qué sucede aquí? No sé cómo hemos podido llegar a esto, pero todo tiene sus límites.”

Existe, todavia, o lado inteligível do longa mexicano. Buñuel critica os costumes e o pensamento da burguesia da época (apesar de admitir que a burguesia retratada em seu filme condiz muito mais com a inglesa do que com a mexicana). Também fala, em sua biografia, que ele avalia o filme como um estudo da vontade. O que faz com que todos presos naquela sala simplesmente não consigam deixar o lugar? O que faz com que uma pessoa ande em uma devida direção ou deixe de andar? Isolado, em uma situação extrema, o ser humano acaba deixando a razão de lado e pondo em primeiro plano seus instintos.

Mas será que isso é tudo? Existe mais alguma coisa por trás dos criados que fogem antes que do jantar? Do urso que aparece na cozinha? Da simbologia do apocalipse? Bem, nós do PCM ficaríamos gratos se você conseguir encontrar essas respostas.

Você ainda não assistiu Black Mirror?

Provavelmente você estava ocupado demais com Breaking Bad ou Dexter, eu sei. Mas agora que ambas as séries chegaram ao fim, você precisa de outro programa para estourar seus miolos e espalhá-los pelas paredes. Está na hora de assistir Black Mirror.

Se, dos textos subversivos de Manuel Antônio de Almeida até os quadros de George Grosz, a arte têm sido a captura da essência de sua era, o que Charlie Brooker, criador da série, faz é consagrar seu nome à lista de grandes artistas do nosso tempo. Tudo bem, eu sei que essa afirmação soa como esse engodo atual de “genializar” qualquer George R. R. Martin que aparece por aí, numa canonização pop escrota, mas vou provar que Black Mirror é mais do que papo furado.

Do esquecimento e perdão

Em sua rápida existência – apenas seis episódios, divididos em duas temporadas, cada um com aproximadamente uma hora de duração e com um foco diferente em cada história – a série britânica propôs várias reflexões sobre o atual estado de nossas relações sociais, abordando temas como identidade, histeria, sociedade do espetáculo, alienação, a interferência dos avanços tecnológicos nas relações pessoais, política e por aí vai. Brooker faz isso com a sensibilidade de um artista e a rigidez necessária para passar sua mensagem.

Um dos meus episódios favoritos, The entire history of you, por exemplo, tem uma premissa muito interessante: tratar do perdão e do esquecimento em uma realidade onde as memórias são armazenadas em um terminal implantado no cérebro e ligado aos olhos, tornando possível que a pessoa reveja todas suas lembranças, sem que nunca se esqueça de nada. Bem, a primeira coisa que pensamos é “isso é genial!”. Entretanto, não demora e outras questões surgem. Afinal de contas, é possível viver o presente sem deixar o passado interferir nas nossas decisões? É possível abandonar o passado? Se podemos “viver”, ainda que seja uma simulação, mas se é possível retornar às memórias mais felizes de nossas vidas, faz sentido seguir vivendo um presente, à espera de um futuro, que talvez nunca se igualem a essas lembranças?

O casal que protagoniza o episódio vê, nesse sistema, uma forma de cobrar as faltas e falhas um do outro, tendo cada lembrança bem nítida para ser assistida e reassistida; cada “erro” – sob o julgamento do outro – podendo ser assistido quantas vezes fosse necessário; cada palavra que desagradou, repetida infinitas vezes. Uma forma de cabal de julgar e condenar o outro, de reviver o momento da ferida e de esquecer que, o esquecimento, pode também ser uma potência da memória. Sim, sabemos que esses são pontos superficiais nas discussões, mas o papel da série não é ensinar, didaticamente, quais são os problemas da humanidade – até porque, precisaríamos tornarmo-nos muito sábios para chegar a tal ponto. Conhecemos uma pequena parcela dos problemas desse mundo e, ainda assim, ignoramos a maioria.

O papel da série, enfim, é de suscitar a discussão sobre os temas abordados. Instigar o interesse em outras linhas de conhecimento, uma filosofia prática, como diria Márcia Tiburi, que nos obriga a pensar e, em casos de extremo sucesso, fazer filosofia, pois o conhecimento deve ser vivido. Ainda assim, sabemos que não são todos que fazem essa reflexão. Para Schopenhauer, rei do camarote do pessimismo – um bom, pessimismo, veremos -, só é capaz de envergar para dentro de si, buscando reparar uma possível verdade subjetiva que não lhe agrada, quem sofreu e sabe que existem feridas na existência humana que só podem ser curadas com muito esforço, paciência e conhecimento. Quem vive sob essa entorpecente felicidade para imbecis que nos é “oferecida”, não é capaz de deixar esse estado banal do pensamento, da interpretação rasa de mundo e do “eu”. Essa é um exclusividade dos pobres diabos que encaram as pequenas mortes que enfrentam dia após dia. Chegamos, então, ao meu segundo episódio favorito.

A dor da existência

White Bear conta a história de Victoria Skillane, que acorda sozinha em uma casa, sem conseguir lembrar quem é. Ao começar suas buscas por pistas de alguma possível identidade, ela se depara com um mundo completamente caótico.

Há um sinal, emitido à todas as televisões, smartphones, rádios e afins, que hipnotiza as pessoas, transformando-as em espectadores da vida real. Esses, passam o dia filmando o que acontece. Há também, caçadores, pessoas que não foram hipnotizadas e aproveitam dessa condição para fazerem o que quiserem. Por último, os indivíduos que não foram hipnotizados e devem manter-se vivos e à salvos dos caçadores. O que não é tarefa fácil, tendo centenas de câmeras e smartphones gravando tudo o que acontece o tempo todo. Eu gostaria de poder entrar em discussões sobre o episódio, mas ele tem um plot twist incrível, que seria a essência da conversa.

Porém, apesar de eu adorar um debate filosófico, o foco aqui ainda é a série. A forma, não a mensagem. Por isso escolhi White Bear. No – talvez – melhor episódio da segunda temporada, Brooker afirma sua capacidade de surpreender em meio ao desconhecido batido. Digo “desconhecido batido”, pois seria muito simples chocar com algo “novo” – e, por “novo”, entenda esse narcisismo pós-moderno de criar obras cujo a captura de algo que não seja a própria imagem refletida num riacho é completamente descartada -, mas o criador da série, aos poucos, desconstrói o absurdo, trazendo a ficcionalidade para o mais perto possível da nossa realidade. E esse programa é realmente absurdo.

Sobre a dor da existência, bem, essa já é um eterno desejo bárbaro e cruel, que move a própria existência e permeia o episódio (sem spoiler!). Quem sabe, depois de assistir a série, você mata alguns desses desejos aí – provável que não – e vem bater um papo com a gente!