Animal Crossing: New Leaf vai vender sua alma para reformar sua casa

Eu comprei meu Nintendo 3DS em junho de 2013 com o único propósito de jogar o remake de The Legend of Zelda: Ocarina of Time. É um dos meus jogos favoritos, e poder jogá-lo num console de novo era um sonho. Quando eu comprei o 3DS, porém, tinham acabado de lançar um jogo que estava rasgando elogios. Fui lá e comprei.

Eu jogo Animal Crossing: New Leaf todos os dias desde então, sem exceção. Talvez tenha sido a pior escolha da minha vida. Ou talvez a melhor.

Esqueça as barras de necessidade, as aspirações e os desafios para conseguir um bom emprego nos outros simuladores de vida por aí. Em Animal Crossing: New Leaf, todo o possível estresse que você poderia ter para satisfazer seu avatar no jogo é reduzido para um mínimo de atividades. É um simulador de vida minimalista, mas não pobre. Comprovando que sua fórmula é perfeita para os videogames portáteis, o progresso em New Leaf ocorre dia após dia, com uma série de atividades e eventos para que o jogador sempre sinta-se recompensado com as tarefas que deve cumprir.

Imagem de New Leaf Olha o charme desses vizinhos.

“Recompensa”, inclusive, é uma constante em New Leaf. Toda a interação social que você tem com os seus vizinhos animais, cada novo passo em melhorar sua cidade ou sua casa, são recompensados. Em Animal Crossing, você mora em uma pequena cidade do interior habitada por vários tipos de anivais. Cachorros, zebras, girafas, esquilos, tartarugas, e assim por diante, e a cultura dessa cidade toda gira em colecionar e decorar. Colecionar fósseis, insetos, seres marinhos, móveis e frutas; decorar sua casa, pagar hipotecas imensas para o maligno Tom Nook e melhorar sua cidade. Em New Leaf, você assume o papel de prefeito, e você se torna o centro da cidade: construir novos projetos públicos, como café, bancos e pontes; e aplicar leis, como “acordar cedo”, ou “ficar acordado até tarde” serão suas tarefas a mais.

Incrivelmente, Animal Crossing: New Leaf se mantém um ambiente vivo graças não só as atividades frequentes da cidade, mas pelos personagens adoráveis que rotam pela cidade. De tempos em tempos, um novo vizinho vai embora e um novo entra, e a Nintendo parece ter se dedicado especialmente em escrever os diálogos graciosos de um dos melhores elencos de seus jogos. New Leaf vem com tantos personagens de personalidades tão diferentes, que se mantém sempre charmoso e diversificado. Em New Leaf, você sempre terá algo para fazer e alguém para conhecer.

E eu digo isso por experiência própria. Já são quase três anos jogando, e New Leaf nunca deixa de me impressionar por me recompensar em ser um jogador dedicado — e olha que basta apenas uma breve visita ao jogo antes de dormir para que o jogo conte como dedicação. Animal Crossing: New Leaf é um pequeno zen garden onde você pode ir escapar do seu cotidiano com um cotidiano mais calmo, onde os prazeres de viver pelos seus amigos e por ser incentivado a participar de um mundo onde as menores coisas importam. Olhando assim, talvez seja a melhor decisão que eu tenha tomado, sim.

Community se despediu com uma das suas melhores temporadas

Vamos a algumas verdades absolutas da TV: a última temporada de The Wire é uma decepção; Seinfield é uma das melhores comédias da TV, mas a idade pesa; Community era uma das melhores coisas que vimos na televisão em suas três primeiras temporadas, mas nunca conseguiu retomar sua glória depois.

Talvez, quem sabe, precisamos revisitar essas afirmações. A última temporada de The Wire realmente não é a melhor da série, mas considere que estamos falando no melhor seriado americano da história, para você ver o que estamos procurando. Seinfield continua excelente, mesmo depois de décadas, e suas melhores piadas não são aquelas que envelhecem. Em sua sexta temporada, Community mudou profundamente — e essas mudanças trouxeram uma de suas melhores temporadas.

Isso tudo é pra eu dizer adeus a uma das minhas séries favoritas. Community não foi cancelada por ninguém. Mas Joel McHale já disse que o elenco é caro demais para que uma série com pouco orçamento possa manter, e o serviço de streaming que salvou ela da última vez, o Yahoo! Screen, disse ter perdido 42 milhões de dólares com a série, e fechou as portas no final do ano passado. Community acabou, mas se foi em uma incrível temporada.

Em sua sexta temporada, Community era sobre mudança. Desde seu season premiere, com “Ladders” — em que uma nova administradora da faculdade comunitária Greendale pretende fazer mudanças na grade horária, removendo tudo aquilo que for inútil e vergonhoso, sendo contrariada pelo grupo de estudos por medo da faculdade perder aquilo que sempre teve de estranho e especial —, a série buscou refletir as mudanças internas, nos tipos já famosos de meta-comentários que a série sempre foi conhecida.

Community mudou muito nesses seis anos. Não só em elenco, que mudou profundamente a partir da quinta temporada com a saída de Donald Glover e Yvette Nicole Brown (que, como Chang comenta, “tornou o grupo de estudos branco demais”), mas principalmente em estilo de humor. Nas segundas e terceiras temporadas, os ápices criativos da série, Community sempre fora insana e completamente autossustentável, não precisando fazer graça com nada mais do que ela mesma, algo que pareceu irritar boa parte de sua audiência. Na primeira, era uma divertida comédia dos tipos de faculdade. Na quarta, simplesmente não tinha graça. Na quinta, era sobre como voltar a ter graça de novo. As comédias na TV mudaram muito nesse tempo. Sitcoms, hoje, são raras e questionáveis em qualidade (com exceção de Mom, assistam). Community percebeu isso.

Ao invés de tentar resgatar a insanidade e a criatividade de sua segunda temporada, porém, Community resgatou algo melhor: a beleza e o charme de sua primeira temporada, e apresentou a ela temas mais profundos, mesmo que continuando divertida. Em sua sexta temporada, Community se tornou aquilo que todos esperavam que ela seria, antes de ela se transformar em outra coisa: um belo show de estranhos e desajustados em um ambiente que permitia a eles serem exatamente aquilo.

Sim, a sexta temporada ainda possui episódios completamente conceituais, com falsos documentários e jogos que vão além da brincadeira, mas isso é pelo que Community é conhecida afinal. No meio disso, porém, a série criou aventuras mais pé-no-chão para seus personagens, que tratavam Greendale como um mundo orgânico, um lugar onde os personagens encontraram uns aos outros — e um lugar no qual eles acharam seu lar. E agora, Community era sobre deixar o lar.

E como isso é Community, seus personagens parecem saber disso e explicitamente tocam no assunto. No início, com a apresentação de seus dois novos personagens, o grupo original questiona as semelhanças (físicas e de personalidade) com seus “substitutos”. Porém, essas observações acabaram transformando o tema da temporada em como Jeff, que começou a série entrando em Greendale apenas para conseguir um diploma rápido, pode acabar sendo o único ali depois que todos se encontrarem e seguirem em frente. No final da temporada, seus amigos estão todos encontrando novas oportunidades (Abed vai ser showrunner em uma série meio The It Crowd, Annie aceitou um estágio em Washington, Britta está feliz trabalhando em um bar no centro da cidade — em uma cena que parece mover a mesa de estudos para uma mesa de bar, uma das grandes sacadas da temporada).

Esse nível de conhecimento de seus personagens, e do que eles precisam para serem completos, sempre esteve intrínseco no DNA de Community (e foi justamente a falta disso o que tornou a quarta temporada em algo tão estranho). Em sua sexta temporada, Community percebe que parece ser Greendale o paraíso do grupo de estudos, mas como qualquer paraíso, não pode durar para sempre, e os personagens percebem que não podem permanecer ali.

Claro, falando assim parece que essa temporada era toda sobre ir embora, algo meio melancólico. Embora seja seu tema central, a sexta temporada foi repleta de comédia. Abed, agora sem Troy, precisou lidar com suas manias de transformar tudo em uma fórmula de TV; Britta se reconciliou com seus pais e consigo mesma; Annie percebeu finalmente que seus amigos ali são o que há de melhor na sua vida, e não precisa mais mudá-los. Todos esses desenvolvimentos de personagem vieram repletos de piada, responsáveis por manter as engrenagens da série girando quase da mesma forma que a gente sempre conheceu ela. O humor charmoso e bastante preciso de Community parece ser a maior constante da série — aquilo pelo qual ela sempre foi reconhecida, e continuará sendo.

Mas, olhando para a sexta temporada agora, com certa distância, é certeiro falar que seu tom é bastante saudosista. Community tenta ser ela mesma quando não dá mais, quando precisa mudar e seguir em frente. Para isso, todos seus personagens ganham um certo final, mesmo Jeff, que finalmente percebe que, se seus amigos forem embora buscar novos picos, ele continuará lá para recebe-los se eles voltarem com a cara quebrada.

Porque Community quer que você siga em frente, assim como ela percebeu que precisava mudar pra continuar. Ela estará lá quando você sentir falta. Mudar é inevitável, seja para nós ou para séries. Nós podemos ter tudo, só não podemos ter tudo para sempre.

Os melhores de 2015

2015 acabou, gente. É isso aí, não tem mais. Como ele foi pra vocês? Por aqui ele foi bem ruim, obrigado. Mas tudo tá pra melhorar, não é? O último dia do ano tá começando, e é importante lembrar porque ele foi bom, no que ele não foi, e o que vamos fazer pra melhorar no dia seguinte — que, olha só, já vai ser 2016.

Seguindo. O que 2015 trouxe de bom, culturalmente falando? Foi um excelente ano pro cinema (há tempos que não havia uma quantidade de filme fazendo sucesso como esse ano); mas foda-se, o que aconteceu com a TV? Se antes era possível indicar as três, quatro melhores séries do ano, esse ano está difícil de manter um top 10 sem ter pelo menos três séries que deveriam estar ali. Com Adele lançando seu novo álbum, e se transformando num fenômeno ainda maior que era (e que pensávamos que ainda fosse), a música surpreendeu com um ano em que deu o que falar — e nos trouxe um álbum digno de entrar na história. Você jogou Fallout 4? O novo Metal Gear? Excelentes jogos foram lançados esse ano — a maioria, verdadeiros cantos-de-cisnes de seus criadores. E o que você andou lendo? Eu me perdi em livros antigos esse ano, mas dei uma olhada no que meus autores favoritos andavam escrevendo por aí.

Vamos ver os melhores do ano? O ranking funciona assim: são cinco posições, e só pode entrar um de cada categoria (um filme, um seriado, um jogo, um livro e um álbum). Aí, a posição deles é pela sua qualidade. Discorde o quanto quiser, sugira o quanto quiser. Vamos adorar explorar novas obras culturais no ano que está por vir. Vamos começar?

5. A Balada de Adam Henry condensa desejo, dúvida e a beleza do texto jurídico

Ian McEwan é um de meus romancistas favoritos desde o primeiro livro que li dele (O Jardim de Cimento, em 2006). Dono de uma prosa construída de maneira cirúrgica, com amplas descrições de lugares, personagens e estados de espírito, McEwan não tem medo de se perder na construção de um universo rico e perturbador.

E A Balada de Adam Henry não é o seu melhor livro. Talvez não seja o seu quinto melhor livro, mas comprova como McEwan, como autor, nos prende a personagens deploráveis, nos aproxima e nos compara a eles. Aqui, num romance sobre uma juíza que vê seu casamento vindo a baixo em meio a um caso da Vara da Família, ele mistura paixão, moralidade e o seu tom macabro, quase sempre presente em suas obras. A Balada de Adam Henry é perverso e sufocante, mas também belo e lapidado. Como todo o texto jurídico.

E como todo o romance de McEwan, também.

A Balada de Adam Henry (Companhia das Letras, 2014). Ian McEwan, 200 páginas. The Children Act, traduzido por Jorio Dauser.

4. Com um pouco de tudo, To Pimp A Butterfly é feito para entrar na história

Em ano do sucesso esmagador de Adele com seu 25, do fracasso retumbante do Coldplay com A Head Full Of Dreams e da renovação do Tame Impala com Currents, o mundo na música parou para escutar Kendrick Lamar.

To Pimp A Butterfly é uma mistura de tudo, levada à perfeição. Não me entenda mal. Talvez seja o melhor álbum desde Funeral, no longínquo 2004. Mas é isso que ele é, uma grande, perfeita e magnífica mistura. To Pimp A Butterfly é um magnum opus, uma declaração, uma façanha. É um álbum que se sente seu peso, seu trabalho e sua realização. Mas To Pimp A Butterfly não seria tão bom, e tão importante, se fosse só discurso. Lamar sabe o que está falando, e eleva suas letras a uma complexidade de composição e ritmo que pouco se ouve. To Pimp A Butterfly não só questiona seus temas — sua blackness, como dizem por aí. Ele questiona o espaço da música, em uma hora e vinte minutos de densa e complexa utilização de referências e sons variados. Sua forma, sua importância. Em 2015, quando música hoje é amendoim de avião, um álbum revalorizar toda uma mídia não é só um trabalho de gênio. É um trabalho de um verdadeiro mestre de sua arte. Do maior rapper de sua geração. E Lamar, que começa escutando Boris Gardiner (com um trecho de Every Nigger Is A Star) e termina conversando com Tupac, sabe muito bem onde chegou.

To Pimp A Butterfly (Top Dawg Entertainment, 2015). Kendrick Lamar, 80min.

3. Cardboard Computer continua explorando a força do jogo em Here And There Along The Echo

2015 foi um ano de jogos imensos. Metal Gear Solid 5: The Phantom Pain é a obra máxima de um dos maiores game designers da história. Fallout 4 leva toda a herança de um estúdio, conhecido pela grandiosidade, a outro patamar. The Witcher 3: Wild Hunt faz certo o que os jogos fazem errado há mais de uma década.

São jogos imensos, esses. Eles custaram caro, frutos de pesquisas gigantescas e desenvolvimento de tecnologias completamente novas e fantásticas, que levarão a forma para outros patamares. Mas eles possuem um erro comum: eles são obras de uma geração desiludida, em que o jogo não é mais uma forma de expressão. Não é Myiamoto expressando seu perfeccionismo com o compasso perfeito de Super Mario Galaxy, ou a obra sensorial que é Journey ou, cara, a jornada do que é jogar, que é o SimCity original. Ficou para Here And There Along The Echo, um interlúdio para o quarto ato de Kentucky Route Zero, explorar onde os jogos nos atingem. O que faz de uma pessoa, um jogador.

É paradoxal, então, que o jogador em Here And There Along The Echo só ligue de um telefone. A experiência, a partir daí, está quase toda escrita, bifurcada através de menus de opções. Você quer conhecer as paisagens que permeiam o Rio Echo, ou ouvir as histórias que os moradores contam sobre ele? Críptico como Kentucky Route, Here And There… não busca responder os grandes temas que o seu jogo proveniente questiona. Pelo contrário. Ele explora, após a verdadeira provação que foi o terceiro ato, o espaço do jogador. Se está tudo escrito, codificado, como o jogador possui alguma liberdade de interação? O que cabe a nós, jogadores, entender de nossos personagens. Porque controlar uma vida falsa é tão importante para tantas pessoas.

Quando Here And There Along The Echo acaba, um personagem pergunta se eles já podem ir embora. Como resposta, o jogo nos dá duas opções. “Sim, estou pronta” e “Acho que vou ficar um pouquinho mais”. Assim como as perguntas que Kentucky Route Zero nos faz em diversos momentos, Here And There Along The Echo nos aponta não quem são aqueles personagens, mas sim quem somos nós mesmos — e o que devemos fazer para nos conhecermos.

Here And There Along The Echo (Cardboard Computer, 2015). Windows, Mac, Linux, telefone.

2. Mad Max: Estrada da Fúria é tudo o que eu queria do cinema esse ano

Vamos tirar isso do caminho logo. Meu filme favorito de 2015 foi, sem sombra de dúvidas, o pequeno drama inglês 45 Anos. Casais são um dos núcleos narrativos do cinema, e mesmo assim Haigh consegue criar algo novo e avassalador, mais de cem anos depois.

Mas entenda. Não há nada no cinema em 2015 como Mad Max: Estrada da Fúria. Não há como comparar, não há como respirar algo além disso. Em uma das obras mais concisas e mais fantásticas, George Miller (que, preciso concordar com o trailer, é um mastermind) cria uma experiência magnífica que se conduz em basicamente uma grande caçada em cima de carros gigantes.

Absolutamente tudo em Mad Max: Estrada da Fúria é fascinante. Não só as incríveis sequências de ação, que estão aqui para definir como iremos ver — e esperar — sequências de ação no cinema daqui para frente, mas Estrada da Fúria é um empolgante drama de personagens, centrado absolutamente no perdido Max e na corajosa Imperatriz Furiosa. Mad Max: Estrada da Fúria é impressionante, fascinante, incendiário e divertido como poucos filmes conseguiram ser nas últimas duas décadas. É essencial, é definidor, e é fodasticamente divertido (desculpem a expressão). E o mais incrível: é o único filme da década a possuir um guitarrista preso em um carro gigante tocando música enquanto fogo sai de sua guitarra.

Ele é meu novo parâmetro pro que eu quero ver no cinema.

Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road, 2015). Warner Bros. Pictures. 120min.

1. No ano da TV, The Leftovers atingiu níveis inimagináveis de qualidade

2015 pode ter sido o ano em que muitas pessoas voltaram a comprar álbuns (agradeça a Adele) ou ingressos (agradeça Star Wars). Mas 2015 é, sem sombra de dúvida, o ano da TV. De novos clássicos sendo canonizados, como Hannibal, Transparent e The Americans; até grandes despedidas, como Looking, Mad Men, Community e Parks & Recreation.

Nenhuma série chegou, porém, onde The Leftovers alcançou em sua segunda temporada. Em uma viagem sensorial em um espaço já místico que era a primeira temporada, agora The Leftovers explora temas ainda mais profundos da existência. Não é só comentar de depressão agora. Damon Lindelof vai além e desbrava uma jornada muito maior, não só narrativa. Quando os personagens estão perdidos na dor como estes estão, a jornada passa por uma sensação, por uma impressão, que pouco se viu na TV antes. Esqueça os momentos de tristeza de Six Feet Under. The Leftovers vai além. Não só na estranheza, mas também na compreensão que a vida é uma luta constante contra o que há de pior em nós mesmos.

The Leftovers (HBO, 2014—). Segunda temporada, aproximadamente 53 min por episódio.

A segunda temporada de The Leftovers é a melhor série do ano

Se a primeira temporada de The Leftovers parecia demais com a última temporada de Lost, a produção anterior de Damon Lindelof, esse ano a série da HBO supera comparações e vai além. Em sua segunda temporada, The Leftovers se transformou em um dos melhores shows da TV — não com um grito, mas com um suspiro.

Na primeira temporada da série, que dividiu a audiência entre fãs e haters, sem meio-termo, The Leftovers extrapolava na tristeza de uma família após “a partida”, um evento inexplicável em que dois porcento da população mundial desapareceu em pleno ar. The Leftovers era extremamente triste, com mistérios um tanto mirabolantes demais, mas uma excelente investigação sobre a depressão.

Não me entenda mal: eu sou um dos grandes defensores da primeira temporada de The Leftovers, embora ainda enxergue seus problemas. Sua estrutura narrativa, focando-se em diversas pessoas através dos EUA, nem sempre escolhia os melhores pontos de vista nem os melhores dramas particulares. As vezes, também, a série parecia carregar muito na tristeza e na auto-importância que dava a si mesma. Mas acertava em nunca menosprezar o sentimento de seus personagens, e conseguia transpôr para a tela o que se passava na mente deles visualmente, sem a necessidade de diálogos expositivos.

The Leftovers manteve suas qualidades nesse ano, e foi além. Mudando de tom completamente, simplificando sua estrutura e escolhendo melhor os dramas no qual se focar, a série de Lindelof encontrou o ritmo certo, e quase perfeito. Observe, por exemplo, como acerta muito mais com uma nova vinheta (e compare-a com a da primeira temporada):

É uma mudança drástica no tom da série de modo geral, mas não muda o comportamento de seus personagens — isso é deixado para a narrativa. The Leftovers se passa alguns meses após os eventos do último episódio da primeira temporada, quatro anos após a “Súbita Partida”. Kevin, Nora e Jill se mudam para uma nova cidade, no interior do Texas. The Leftovers ainda se preocupa com os questionamentos existenciais de antes, mas agora dá espaço não só para o drama e a agonia dos seus personagens. Há também um pouco de esperança, e até mesmo alegria.

Por mais estranho que possa parecer, The Leftovers é um show sobre o pós-pós-11 de setembro. A questão não é mais sobre como os EUA devem retomar suas vidas após uma tragédia, mas sim o que acontece depois disso. A estranheza da normalidade tentando bater à sua porta, e você não ser mais o mesmo que antes, e não conseguir voltar a ser aquilo nunca mais.

The Leftovers entra para um panteão de séries como Six Feet Under, Enlightened, United States of Tara e The Wire, séries que usavam anedotas para tratar de dramas humanos de maneira indireta — e alcançar, assim, uma jornada quase espiritual, emblemática, sobre o que somos. The Leftovers deixou de ser um drama com um mistério a ser desvendado e amadurecer para um drama em que o mistério pouco importa. Ele provavelmente continuará sendo a incógnita que sempre será, já que é justamente a busca pelas respostas que faz a vida daqueles personagens girar.

Por Uma Vida Melhor

Quantas pessoas bacanas você viu no cinema? Bacanas mesmo. Alguém gente-fina, que é legal e se importa em fazer algo bom — seja para si, para a família ou para um bem comum —, mas que não é um herói por isso. É só uma pessoa bacana.

Burt e Verona, o casal no centro de Por Uma Vida Melhor, são duas pessoas bacanas. Eles estão pelos trinta, são saudáveis, educados, gentis, possuem um bom emprego, não são neuróticos e estão realmente apaixonados. Eles são o extremo oposto dos demais personagens que Sam Mendes leva para o cinema em seus filmes (Beleza Americana, Estrada para Perdição, Foi Apenas um Sonho e os dois últimos 007). A maior preocupação deles? Encontrar um bom lugar para criar sua filha, que ainda não nasceu.

Por uma vida melhor é simples e eficaz. Em seus pouco menos de cem minutos, conta a história de como o casal descobre que os pais dele (os dela já morreram) estão se mudando para a Bélgica alguns meses antes do nascimento da neta, e então decidem buscar em outras cidades dos EUA e do Canadá um lugar para viver. A única imposição: que haja algum tipo de conexão, que seja perto de um amigo ou de um parente, para que eles finalmente possam plantar raízes. Verona observa, mais de uma vez, se eles não são uns ferrados. Afinal, eles vivem em uma casa pequena, perfeita para um casal, com uma janela tampada por papelão. Mas a vida adulta está batendo à porta, e eles cruzam o país para Phoenix, Houston e Montreal, visitando conhecidos no caminho para encontrar um estilo de vida que seja ideal para sua futura família.

É incrível que Por uma vida melhor seja dirigido por Mendes. Diretor de grandes dramas e com uma mão pesada para atuações fortes, seu filme é um desvio de rota. Com uma estética mais do interior, com mais cores e personagens um pouco mais satisfeitos com suas vidas, Por uma vida melhor não é mais uma das tragédias suburbanas do diretor britânico. Aqui, empregando um bem vindo teor cômico, afinando ainda mais a direção de seus atores e com um roteiro afiado e pungente, que não tem medo de ser sensível e até mesmo triste às vezes, Sam Mendes mostra um conforto que eu não vi antes na carreira.

E, talvez por isso, Por uma vida melhor seja seu melhor filme. É o filme em que tudo está mais confortável em seus lugares. Sem os personagens desesperados de Foi apenas um sonho nem as sequências de ação grandiosas (e excelentes) de 007: Operação Skyfall, Mendes finalmente dá espaço para que seus atores tomem o filme para si. É de Burt e Verona o filme — reflexos de seus autores, os excelentes David Eggers e Vendela Vida, que não são apenas grandes escritores e ensaístas, mas também excelentes pessoas (sério, eles tem uma loja pirata, com tapa olhos, pernas de pau e bússolas em frente a uma de suas editoras).

Você pode enxergar Por uma vida melhor como um filme em que pessoas sem grandes problemas encontram algo pelo qual se preocupar. Mas e quem aqui não faz isso? Sem grandes comentários, sem grandes declarações, apenas uma observação sobre família e o significado de lar, Por uma vida melhor é um dos filmes que melhor sabe o que é e onde chegar que eu vi em um bom tempo. Calmo e delicioso de assistir. Eu gostaria de ver filmes assim todos os dias.

Space Age: A Cosmic Adventure

Space Age parece tanta coisa que as vezes ele mesmo não sabe o que é. É um jogo com o visual dos jogos de aventura dos anos 1990. Ele se inspira naqueles desenhos animados futuristas dos anos ’70, e é o que as desenvolvedoras andam chamando hoje de “jogo rico em história” (seja lá o que isso quer dizer). Nessa confusão toda, porém, Space Age tem momentos excelentes.

Um jogo de aventura com momentos de combate em um esquema que parece aqueles jogos de estratégia em tempo real (selecione um conjunto de unidades e realize ações em grupo), Space Age ganha mais em seus momentos iniciais, quando exploramos um planeta alienígena com nossa equipe de pesquisadores. Isso porque, além de nós descobrirmos o mundo do jogo, nós também descobrimos como ele funciona e quem nos é importante. É um início mágico, onde o jogador se empolga tanto quanto os exploradores.

Space Age se perde mais pro meio, quando a chamada grande narrativa cinematográfica começa a pesar. Embora o roteiro não decepcione, Space Age simplesmente se perde no meio de um monte de coisa que ele quer ser, e os personagens que antes pareciam interessantes ao explorar o Kepler-16 agora são só um bando de referência de outras obras. Isso incomoda, não muito (é tipo quando tu percebe que Star Wars: O Despertar da Força é quase igual Uma Nova Esperança). Isso te tira da história que antes parecia bacana e que tinha aquele ar de descobrimento e fascínio.

Pelo preço, porém, Space Age é uma boa experiência. Um joguinho que emula tanta coisa de outras épocas que as vezes parece sem personalidade, mas bastante charmosinho. O jogo é curto — umas três, quatro horas e você encerra a narrativa —, mas por uma boa parte ele surpreende por quão bem fechadinho ele é.

Space Age é bonito, vale o preço e, por instantes, é genial. Por outros é bastante mediano. Mas poxa, na telinha do celular a “aventura cósmica” fica um charme. Dê uma chance.

Cinco coisas (que você não conferiu) pra terminar bem 2015

2015, o pior ano de todos (ou, pelo menos, desde o surgimento do Twitter, que foi quando eu comecei a mensurar esse tipo de coisa), tá acabando. Finalmente, vamos pôr nossos pés no arroz, pra dar sorte.

Pode ter acontecido um monte de coisa ruim, mas 2015 teve várias coisas boas pra tentar deixar ele bom. Foram excelentes filmes (Mad Max! Jurrassic World! STAR WARS!), excelentes séries (Mad Men! Community! The Leftovers?), jogos (The Witcher 3! Metal Gear Solid! Fallout!!!$#%#@) e muito mais. Todo mundo viu, jogou, leu, escutou isso. Mas teve outras coisas — tão boas, ou ainda melhores — que acabaram se perdendo no meio de tanta coisa boa.

Já que o ano tá acabando e tá na hora de ver o que fazer nesse recesso, aí vão cinco dicas de coisas que você provavelmente perdeu em 2015, e que pode colocar em dia agora.

Um filme: 45 Anos

O que me deixa triste com 45 Anos não foi que ele foi pouco visto. É normal, pra um filme que vai ser lembrado só nas premiações, lá por fevereiro e março do ano que vem, que seu lançamento em outubro leve pouca gente pra ver. O que me deixa realmente triste é que ele foi lançado na pior semana do ano. Seus concorrentes, Os 33 e O Último Caçador de Bruxas, foram dois fracassos de bilheteria, que não encheram salas e que quem viu não gostou. Daí 45 Anos, que quem viu amou, ficou lá, com duas salinhas aqui em POA, enquanto as outras pros “grandes lançamentos” estavam vazias.

45 Anos conta a história de Kate e Geoff (eu fiquei me perguntando que nome é esse, mas é um apelido pra Geoffrey), um casal que está nas vésperas de celebrar o seu quadragésimo quinto aniversário de casamento. Durante a semana que precede a grande festa, Geoff recebe uma carta que o informa que sua grande amada da juventude foi encontrada numa geleira na Suíça, onde desapareceu há cinquenta anos. A partir daí, Kate e Geoff descobrem verdades dolorosas sobre seu relacionamento, e talvez não haja mais o que celebrar no final.

O mais impressionante de 45 Anos é a simplicidade com que tudo é exibido, mas o quão doloroso é assistir, mesmo assim. Andrew Haigh já fez um filme incrível sobre relacionamentos (Weekend, de 2011) e dirigiu uma das melhores séries do ano (Looking, na HBO). Mas em 45 Anos ele une a honestidade de um com a maturidade do outro e cria uma obra pequena e irretocável de dor e dúvida. 45 Anos não é um filme sobre aquilo que faz um casal se separar; mas sobre aquilo que passa na nossa cabeça quando estamos ainda estamos juntos.

Onde assistir? 45 Anos ainda está no circuito, em algumas salas do país. O DVD deve chegar em março do ano que vem.


Uma série: Hannibal

Essa foi difícil. 2015 foi um ano incrível para a televisão. Transparent é uma das coisas mais sensacionais já feitas, Mad Men se encerrou em uma belíssima temporada, Community deu adeus (mas ainda espera um filme), The Leftovers foi a melhor série dramática do ano e Looking teve o mais incrível finale que eu poderia imaginar.

Mas teve, também, Hannibal.

Hannibal me deixa com fome. Ele me sacia, mas sempre me deixa querendo mais. Uma série de canal aberto, mas com um nível de qualidade que muita emissora de cabo não consegue atingir. Hannibal é charmosa (é o mais bonito show da TV), é inteligente e é implacável. Eu sua terceira temporada, a série não teve só que sofrer as consequências do magnífico final da temporada anterior, como também desenvolver o Grande Dragão Vermelho, adaptando assim o primeiro livro de Thomas Harris sobre um dos personagens mais marcantes do final do século 20; ao mesmo tempo que melhora e muito aquilo que o próprio autor destruiu nos terceiro e quarto livros. Em sua terceira temporada, Hannibal foi um dos melhores seriados policiais da história, bebendo de referências gigantes, como The Wire, Sopranos e até Six Feet Under. Mas ele não ficou só na referência: ele apostou fundo em si mesmo.

E também é uma história de amor.

Onde assistir? O AXN está fazendo reprise da série e você pode assistir tudo no site da emissora. As duas primeiras temporadas estão no Netflix, e a terceira deve aportar no primeiro semestre do ano que vem.


Um jogo: Here And There Along The Echo

Nada em 2015 se compara a Here And There Along The Echo.

Vocês já sabem que eu amo Kentucky Route Zero. Amo a ponto de dizer que ele é o melhor jogo já feito (pelo menos até agora). A Cardboard Computer, enquanto não lança o quarto ato, nos deu um gostinho do que está por vir. E Here And There Along The Echo é um telefonema que eu não quero esquecer.

E isso é tudo o que você precisa saber aqui. Here And There Along The Echo é um telefonema. Mas é o telefonema que vai acompanhar você por muito, muito tempo. Como nas melhores partes de Kentucky Route Zero, Here And There… é um excelente contador de histórias. Bem como naqueles antigos jogos de telefone, que você ligava para um número e se aventurava em uma série de menus, Here And There lhe apresentará personagens e lugares fantásticos e inesquecíveis, em uma das experiências mais mágicas que eu tive esse ano.

Onde jogar? Várias formas. Você pode ligar para o número do jogo através do Skype (é um número americano, então use o Skype para ser mais barato), ou (acesse o site)[http://kentuckyroutezero.com/here-and-there-along-the-echo/] e baixe-o gratuitamente.


Um álbum: Currents

Deixa eu te contar uma verdade: eu não gosto do Tame Impala. Nunca vi o que eles têm de especial. Sério. O que é aquele InnerSpeaker, ou aquele Lonerism, com uma só música boa? Mas daí todo o mundo falou bem de Currents. Daí né, o pau mandado aqui foi conferir.

E Currents não é todo excelente, pra falar a verdade. Tem umas três ou quatro músicas ali que eu passo toda vez, sem exceção. Mas Let It Happen, The Less I Know The Better e Past Life, em compensação, estão sempre no repeat agora. E não dá pra não ser. Currents tem aquele poder de ser o ponto de virada de uma banda, que já tinha aquela personalidade bem definida, mas que agora vai além. Currents é excelente. É divertidíssimo de se ouvir. Completamente dançante. Completamente apaixonável. Eu quero ouvir ele o resto da minha vida (ou até o próximo álbum do Arcade Fire).

Onde ouvir? Já a venda em qualquer lugar, se você é desses. O álbum já está disponível no Spotify.


A melhor dica que eu recebi esse ano não foi de livro, não foi de filme, não foi de série e nem de jogo. Quando me recomendaram ver a Jout Jout lá por julho, eu não dei muita bola. Vi um vídeo. Daí fui ver outro. E agora eu fico vendo todos eles repetindo várias vezes.

As vezes eu sinto saudades de podcasts. Aqueles programas de áudio que parecem rádio, mas na Internet. Podcasts eram bons pra trabalhar. Era só dar o play e ficar ouvindo enquanto trabalha. Mas eu não sei mais de nenhum podcast que seja bom e que o pessoal não fiquei gritando que nem um desesperado, então tem isso. Mas agora tem a Julia e o Caio, que fazem meus dias melhores, com um monte de opiniões geniais, insights inesperados e funks maneiros. Jout Jout Prazer é uma das melhores coisas que a internet brasileira nos fez nos últimos anos.

Onde assistir? Sai correndo agora e se inscreve no canal dela.

Hannibal vai te deixar com fome

Se eu tenho algum arrependimento na minha vida, é a de não ter acompanhado Família Soprano e The Wire quando passaram na TV. Claro, eu era muito novo (naquela época, eu só assistia E.R.), mas existe algo que a exibição semanal de uma série proporciona que, diferente do “tudo-de-uma-vez” que o Netflix oferece hoje, é mais rico, mais maduro e mais impactante.

Se eu posso de vangloriar sobre algo na minha vida, é a de ter acompanhado Hannibal na sua exibição original.

Hannibal é filho direto das séries definitivas da HBO. Rica em detalhes, em referências visuais, em simbologias e com uma trama compassada de forma perfeita. É o melhor drama da televisão desde que The Wire finalizou sua última temporada, e é a melhor série de um canal aberto americano em muito tempo.

Se você já viu Manhunter, O Segredo dos Inocentes, Dragão Vermelho, Hannibal ou Hannibal: O Início, já sabe sobre o personagem principal: um canibal que caça suas vítimas com propósitos singulares, preparando pratos para suprir seu paladar impecável. Baseado nos livros de Thomas Harris, os filmes mostram o quão decadente o autor tornou seu personagem — de uma força elementar na obra-prima O Segredo dos Inocentes para uma mera punch-line no lixo Hannibal: O Início. O que a série Hannibal faz, com tanta perfeição, é ressignificar um personagem tão rico.

Com total liberdade para isso, Brian Fuller (o showrunner da série) faz de Hannibal um show de mitologia, tornando o personagem de Hannibal Lecter no verdadeiro Diabo, pronto para expurgar da terra os fracos e burros e buscar, nos fortes e inteligentes sua vitalidade e interesse. Muito mais que um seriado policial, Hannibal é um estudo da condição humana — de maneiras estremas, é claro —, e uma história de amor sobre dois personagens que são, ao mesmo tempo, melhores amigos e piores inimigos.

Vivendo por três temporadas impecáveis (há possibilidades de uma quarta, ou de um filme de encerramento), a NBC proporcionou a melhor hora dramática na TV desde 2013. Hannibal é composto por um elenco impecável (Mads Mikkelsen interpreta o canibal sem medo de inevitáveis comparações com a performance de Anthony Hoppkins, criando um Hannibal só seu; e Hugh Dancy faz um vertiginoso Will Graham em uma atuação que faz uma carreira); uma história incrível — que inicia como um drama policial processual (cada semana um caso) para uma verdadeira caçada humana; e o mais belo valor de produção de toda a TV, com visuais incríveis e uma trilha-sonora perfeita. Se a cancelou na terceira temporada, ao menos fez com coragem. A emissora simplesmente permitiu exibir um homem comendo sua própria perna no jantar.

Charmosa, emocionante e construída com perfeição, Hannibal é a série de TV que você precisa assistir agora. Se você conhece as histórias dos livros ou dos filmes, ficará impressionado em como Dragão Vermelho foi adaptado, e surpreso em como a série trabalhou em cima de um material medíocre como os dois livros finais (Hannibal e Hannibal: O Início). Se um dia teremos uma continuação para ver o que será feito sobre o material de O Silêncio dos Inocentes, eu não posso nem imaginar no que Hannibal poderá se tornar.

Hannibal é a ressignificação de um dos personagens mais notáveis da cultura recente. É um trabalho soberbo de técnica. É uma mitologia construída no ombro de gigantes, desde os gregos até a literatura moderna. É uma obra-prima desvelada semanalmente. É indispensável pra qualquer alma.