Karen O finalmente explora seus tons mais delicados em Crush Songs

Em It’s Blitz! é “Skeletons”. Em Fever to Tell, “Maps”. Todo álbum do Yeah Yeah Yeahs apresenta, em meio aos gritos raivosos e os tons incontidos, uma música em os tons mais delicados e melancólicos de Karen O. E Karen O sabe lidar com sua voz em um tom doce. “The Moon Song”, canção do filme Ela, não é só linda – é devastadora. O sussuro que encerra “Food Is Still Hot”, na trilha-sonora de Onde Vivem Os Monstros, é o que precisa para você se emocionar.

O fato é que Karen O é melhor fazendo canções de amor do que gritando descontrolada no Yeah Yeah Yeahs (e eu gosto bastante da banda). Se no seu trabalho com o conjunto ela divide espaço com muitos instrumentos, dando a impressão de músicas “estufadas” e sem muito respiro, em Crush Songs, seu “debut” em carreira solo é justamente essa pausa. “Quando eu tinha 27 eu me apaixonava bastante”, diz ela no encarte do disco,“Eu não sabia se eu iria amar de novo, um dia” . Mais que o amor ou uma obsessão, a paixão é um sentimento fugaz, uma afeição intensa que, sem os altos e baixos que constroem um relacionamento com amor.

Esse sentimento rápido e intenso explica a qualidade, e o motivo de existir, de Crush Songs. Karen O gravou as músicas entre 2006 e 2010, poucas tem mais de dois minutos (o álbum tem 25 minutos no total); e a “textura” das canções, repletas de ruídos (algumas músicas são escritas enquanto ela as toca) e com pouquíssimos instrumentos dão uma característica dura e direta, como uma mensagem apaixonada sem rodeios

. Crush Songs é feito de uma intimidade nunca presente em nenhum outro trabalho de O, seja dentro ou fora do Yeah Yeah Yeahs, e o seu poder está justamente em como O consegue transportar o espectador para seu estado de espírito na hora da performance. Com “Rapt”, “Ooo” e “NYC Baby”, Karen O expõe seu eu mais delicado, como um pedaço de bolacha prestes a se esfarelar.

Love é a melhor série original do Netflix

Geralmente, o mundo não é um lugar bom nas comédias românticas. Tudo dá errado em O Diário de Bridget Jones, embora ela sempre consiga dar a volta por cima; ninguém em Uma Linda Mulher, com exceção de Julia Roberts, presta; e em Embriagado de Amor o mundo é quase que um purgatório.

E esses são só pra citar os filmes. Na TV, o mundo é cruel com os casais — principalmente se as séries costumam se alongar. Quantos casos de amor foram arruinados em How I Met Your Mother ou Will & Grace ou Happy Endings? Em Love, nova série da Netflix que estreou no último dia 19, o mundo não é um lugar tão ruim assim — mas Mickey e Gus são.

Mickey e Gus, os protagonistas de Love, não são anti-heróis. Eles só são pessoas que fazem escolhas erradas, sabendo que a possibilidade certa é a outra. Mickey tem um longo histórico de vícios; e Gus é tão neurótico e medroso que se torna dissimulado. Love acaba sendo sobre duas pessoas que se cercam de pessoas legais porque elas precisam de um apoio para melhorarem. E, nessa necessidade, surge um relacionamento raríssimo de se assistir, e que Love dá espaço para crescer: aquele formado por pessoas que não querem sair de perto uma da outra, e que dão os motivos mais esfarrapados para não saírem da volta um do outro.

Love é sincero e doloroso na sua forma de tratar esse relacionamento. Se nos primeiros cinco episódios vemos Gus e Mickey se conhecendo em meio aos compromissos diários, os cinco finais dessa primeira temporada fazem o serviço de explorarmos o porquê desse casal ainda não poder ficar junto. Mickey e Gus não estão no mesmo lugar em suas vidas: Mickey tem problemas de saúde para resolver, confrontos internos com ela mesma; Gus precisa saber o que quer, em meio as possibilidades que tem. Essa dissonância entre os dois gera cenas desoladoras dentro da comédia: lá no final do episódio oito, quando o caos realmente se instala na série, Mickey observa, obcecada, o telefone, com lágrimas se formando nos olhos. A cena anterior (que eu não vou contar aqui) torna esse plano devastador. É um verdadeiro caso de completa ausência de comunicação entre os dois personagens.

Você pode achar que a série é sombria demais, então? Nada disso. Embora trate de um relacionamento cercado de problemas, intrínsecos dos próprios elementos que o formam, Love é genuinamente engraçado. Pode não provocar as guinadas de riso como Community (a série anterior da Jacobs), mas o seu humor carismático existe na sua realidade: o condomínio que parece um inferno; os amigos de Gus, que são excessivamente legais, os casos de amor fracassados de Mickey; e todo o humor de situação que Appatow coloca em seus filmes (com muito sucesso no seu melhor, Missão Madinha de Casamento), aqui presentes com melhor efeito na curta duração dos episódios.

Com personagens principais fascinantes de tão falhos em um relacionamento honesto e ao mesmo tempo singular, Love consegue ser a melhor série do Netflix, conhecido por ambicionar com produções grandes e “de peso”, por finalmente entender seus personagens e saber o que quer contar. Colocando toda a primeira temporada a disposição, eu assisti Love de uma só vez. Se conseguir, não faça isso: os arcos dos episódios são tão bem fechados e os ganchos são tão bem pensados que cada episódio da série só tem na espera pelo próximo episódio. Love é precisa, honesta e engraçada, e já é uma das melhores novas séries do ano.

Lugares, pessoas, paisagens e histórias se confundem em Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo.

Todo o casamento é perfeito, até que acaba.

“Galega bom dia, bom dia meu amor”, começa José Renato em seu diário de viagem. Pela próxima uma hora e quinze minutos, acompanhamos ele atravessando o sertão nordestino enquanto descreve, para a amada Joana, o que ele sente e a saudade que aumenta.

Ontem, a gente recomendou Firewatch, um jogo que levava o seu personagem principal para o isolamento de uma floresta, onde ele se reajustaria em relação à sua vida anterior. Em Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, José Renato está atravessando o sertão a trabalho. Ele é um geólogo que precisa avaliar o trajeto de um possível novo canal que o governo quer criar ali. José Renato conhece mais que paisagens, e mais que pessoas nessa sua viagem. Como Henry no isolamento em Wyomig, ele está lá para se conhecer, ou se reconhecer. Em certos momentos, Viajo Porque Preciso… flerta com a carta de amor, com o documental. Ele é certeiro, porém, quando não tenta nem um, nem outro. Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo é imbativel quando sentamos ao lado de José Renato em seu carro, olhamos para a janela e o ouvimos questionar seu amor, seu passado e seu futuro, enquanto observamos um Brasil muito brasileiro. Lá pelos vinte minutos de filme, enquanto uma caravana passa, a câmera fica observando o rosto de uma mulher — e ela retribui o olhar. É aí que a essência, e a magia, de Viajo… exala da tela. É aí que, mais que uma história de amor e de redenção, ele se torna um retrato íntimo do ser humano.

Imagem do filme

O rosto em questão, uma hora, se encabula. Olha para baixo, volta a olhar para a câmera, dá um sorriso tímido. Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo é um registro desses momentos, com várias pessoas. Nas vidas monótonas do filme, surgem esses instantes. Eles são breves, e quase imperceptíveis, esses momentos em que o tempo passa, em que percebemos que ele passa. Viajo… não busca a beleza da pobrezao ou na tristeza, como muitos poderiam fazer em sua situação. Ele busca, em sua viajem, entender a solidão. Mais que isso, porém, em entender a nossa necessidade de estar junto. De ter uma vida lazer, como uma das personagens dirá em um momento decisivo do filme. Afinal de contas, todos buscam amar e, ao menos um pouco, serem amados de volta.

Assim como sua realização, feita de restos de imagens filmadas para um documentário (Sertão de Acrílico Azul Piscina), os pensamentos de José Renato seguem um fluxo próprio. As vezes, ele se enraivece. As vezes, ele se foca no trabalho. Em outros momentos, ele se ocupa em apenas olhar a paisagem. Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo olha com ele, e nós percebemos como o filme funde paisagens e personagens, confundindo-os entre as estradas. Assim como os personagens, as estradas contam suas histórias, e assim como elas, as pessoas revelam tradições e cores que beiram o primitivo e o contemporâneo, o regional, o bem brasileiro, mas ao mesmo tempo o global. Viajo… é um registro de um momento, de um local que é tão específico que chega a ser um pouco de todos nós.

Ao fim e ao cabo, Viajo… é o drama de José Renato com saudades de sua galega. Ela foi embora? Ela morreu? O filme não deixa claro, e o mistério faz parte da nossa interpretação. Menos preocupados em responder, Aïnouz e Gomes preferem se voltar para a estrada e buscar o que nos faz entender Renato, Pati, a galega, dos Constantino. Em como, de realidades tão diferentes, conseguimos nos conectar com eles. Viajo… nos iguala pela nossa necessidade de nos aproximarmos, de formarmos laços e raízes, e de como eles nos prendem e sufocam quando começam a se romper. A força de Viajo… é de nos colocarmos ali, no carona, de podermos ver essas pessoas, e de dar a chance para elas serem ouvidas. Ele não quer mostrar uma realidade triste no Brasil. Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo quer mostrar que, no final de contas, estamos todos buscando a mesma coisa. Em uma época que tudo parece falso, que tudo parece temporário, que a vida parece estar em um pause perpétuo, todos só querem voltar a viver. Para José Renato serve qualquer coisa, seja resgatar ou esquecer sua galega. Ambos são um mergulho de cabeça, numa água agitada e gelada, para depois puxar o ar com força.

“Não aguento mais tentar te esquecer”, diz José Renato. Eu entendo completamente.

Um DVD deve ser lançado em breve, mas ainda não há previsão. Pra quebrar o galho, tem aquele link maroto pros amigos.

Firewatch apresenta a maturidade aos videogames

A gente aqui no PCM defende que os videogames não param de amadurecer. Nosso jogo do ano, por exemplo, é uma obra-prima na narrativa e na participação do jogador, colocando ele como espectador e agente da ação ao mesmo tempo. Nós inclusive fizemos uma lista com dezesseis jogos que amaruderecam os videogames. E, agora, a gente tem o prazer de dar como dica nessa volta de carnaval um jogo que segue essa linha (e, ao mesmo tempo, se alinha com as outras dicas que teremos essa semana): Firewatch, o belíssimo jogo de estréia da Campo Santo.

Começando com um delicado prólogo escrito, Firewatch aproxima o jogador do personagem principal, Henry. Acompanhamos Henry conhecendo, se apaixonando e vivendo com Julia, sua namorada e depois esposa, até que as coisas se complicam. O prólogo usa o mesmo método narrativo de Kentucky Route Zero, com o mesmo propósito, inclusive. As escolhas dadas para o jogador servem menos para levar a história adiante (elas vão levar para o mesmo lugar, afinal) e mais para alinhar a experiência de personagem e jogador, tornando-os cúmplices.

A partir daí, Henry se torna um vigilante florestal em Wyoming em uma época que buscar o isolamento ainda era possível. Na sua cabana, Henry só possui contato com Delilah, a coordenadora da reserva. Delilah é divertida e experiente, sabendo como solucionar os problemas que Henry se depara em quase todo o tempo. Ela é uma ajuda remota e nunca invasiva ao jogador, diferente de grande parte dos sidekicks que nos acompanham em jogos de aventura. Delilah não fica no caminho e não aponta roteiros, ela é uma companhia certeira.

Ela é, na verdade, o grande mistério de Firewatch, e sua maior virtude. A dublagem de ambos os personagens é soberba, mas Delilah possui um backstory que se revela aos poucos e sua profundidade como personagem se revela enquanto exploramos a floresta que nos cerca. Firewatch é um jogo de exploração física, mas também de investigação psicológica. O modo como você interage com Delilah permite (ou evita) que ambos troquem informações sobre suas vidas — e define como a relação de ambos irá progredir durante o jogo.

Muito pode ser questionado sobre as dinâmicas de Firewatch. O jogo nos apresenta um ambiente vasto, mas nos ilude quanto a sua função. Não estamos em um jogo de mundo aberto, como poderíamos imaginar, embora possamos explorá-lo quase que livremente. A Campo Santo não cria obstáculos muito visíveis para bloquear áreas, mas torna claro que os vastos ambientes de Firewatch na verdade são apenas caminhos para o ponto de destino. E é esse ponto que irá fazer a história progredir, e não necessariamente a jornada até ele. Não existem grandes desafios nesses caminhos, e poucas vezes o jogo irá apresentar algum obstáculo que fará o jogador pensar. A ideia de Firewatch é transformar o trajeto de Henry não em jogabilidade, mas em história. Tudo no jogo gira em torno das necessidades narrativas e emocionais, inclusive o relacionamento de Henry e Delilah. Escritos com perfeição, jamais idealizados e cheios de ansiedades e medos, Henry e Delilah possuem alguns dos melhores diálogos já escritos nos videogames.

Firewatch vai apresentar vários mistérios nesse caminho. O desaparecimento de duas meninas, o caso de um pai e de um filho, um misterioso incêndio. Nenhum deles é mais importante que o enigma que é Delilah e suas vontades. Ela é uma personagem fantástica, e é realmente emocionante perceber o quão forte sua conexão com a personagem se torna com o passar das horas. Querida, um tanto alcóolatra e bastante sedutora, Delilah escuta Henry sempre que necessário, mas também responde com sua necessidade de se abrir. E esse talvez seja o maior tema de Firewatch. A necessidade do ser humano de se conectar com alguém, da sua ansiedade pelo destino desse relacionamento (e não necessariamente no trajeto que se toma para moldá-lo), e uma nota sobre como no mundo de hoje, diferente desses anos 80 que Henry e Delilah partilham na floresta, em que ser monitorado é visto com normalidade, e até como segurança. A ideia de ser ouvida, de ter seus sentimentos expostos, enfurece e ofende Delilah. Firewatch nos lembra que intimidade é uma necessidade, e que a ideia de violá-la ou de sequer possuí-la.

E Firewatch é bem sucedido nisso também. Quando o jogo acaba, a decepção do jogador não é de como a história termina. É de perceber o quão nos tornamos íntimos desses dois personagens fantásticos por algumas horas e como é decepcionante termos que nos despedir deles de uma vez por todas.

Amor sem fim é um mistério sobre as razões do amor

Qual o mistério de Amor sem fim?

Escrito em 1997, Amor sem fim narra a história de Joe e Clarrisa. Em um lindo dia ensolarado, o casal faz um piquenique no parque, quando veem um homem voando, pendurado em um balão de hélio descontrolado, com uma criança no cesto, chorando desesperada. Joe, junto com alguns outros homens no parque, corre para o resgate. É aí que conhece Jed Perry, um dos homens que ajudam a controlar o balão. É aí que Jed se apaixona por Joe.

É estranho dizer nessas palavras, porque o modo como McEwan descreve as ações de Jed (sempre pelo ponto de vista de Joe, vale sempre lembrar), nunca parece que Jed se apaixona por Joe, e sim se torna obcecado por ele. É errado utilizar outra expressão, também. Jed persegue, encurrala e até fere Joe, coloca em risco o relacionamento com Clarissa e causa complicações profissionais. O que há com Jed, então?

McEwan é um mestre na prosa, mas é um mestre ainda maior em construir personagens desoladores, descontrolados ou a um ponto de implodirem. Como em Reparação (Atonement, 2003), Serena (Sweet Tooth, 2012) e O Inocente (The Innocent, or The Special Relationship, 1991), Amor sem fim é pontuado por longos monólogos internos e interpretações dos personagens sobre as situações que os cercam. Aqui, Joe ganha a vantagem de vermos as ações de Jed pelo seu lado (em um momento específico, e surpreendente, vemos o outro lado), e assim McEwan consegue manipular o desconforto e a fúria do leitor pelo personagem com uma facilidade surpreendente. Longe de ser dos seus livros mais macabros, McEwan não coloca na cabeça do seu leitor as sugestões aterradoras de O Jardim de Cimento (The Cement Garden, 1978) e Solar (2010), mas não deixa de construir Jed como um monstro, uma aberração.

É incrível como o livro, que tanto se pergunta o que há com Jed, fuja tanto dele. Não é a toa, Joe evita ao máximo o contato com o homem, e a narrativa o segue. McEwan constrói, porém, uma obsessão nas páginas de Amor sem fim, uma obsessão que parece ser narrada pelo próprio Jed. É os motivos pela sua obsessão que o livro se move - e McEwan pergunta para o leitor, até com frequência, para onde que você está levando essa história.

Amor sem fim é um mistério interno. Em determinado momento, Joe começa a ir atrás dos motivos do fascínio de Jed. Como você já deve saber, buscar as razões na paixão é uma jornada árdua e tortuosa, e muitas vezes sem retorno. McEwan explora aí os motivos do desejo dos seus personagens, não só de Jed, e como ele afeta a razão deles. Amor sem fim tortura Joe, e o leitor, por suas respostas difíceis, e pelas informações lentas e parcas que ele consegue. McEwan, hábil nas palavras, faz essa busca tortuosa para você também.

Como qualquer mistério, porém, Amor sem fim busca uma resposta. McEwan dá — e você vai questionar se você vai aceitar ela ou não. Ao nos deixar obcecados por uma mente obsessiva como a de Jed, McEwan nos iguala aos seus personagens e nos questiona, ao mesmo momento, o nosso motivo de sermos como somos. E esse mistério, McEwan não se dá o luxo de resolver.

Mais que sobre um mistério, Zodíaco é sobre a obsessão que ele gera

Se você conferiu as dicas de segunda e terça, já deve ter percebido o tema que guia as nossas dicas essa semana. Mistérios são uma força única para se contar histórias desde… bem, desde que sabemos contar histórias. Diferenciado do suspense de maneira soberba pelo mestre Hitchcock, o mistério seria um processo intelectual, na busca do porquê pelo espectador, e não na manipulação da tensão, como o suspense se baseia. O mistério nos cativa, ao menos nos casos que estamos apresentando essa semana, porque ele nos obceca.

O sucesso de Her Story, por exemplo, depende do quão fascinado você fica pelos primeiros clipes que você vê, o quão apetitoso o mistério se torna a partir dali. Em Serial, o mais incrível é acompanhar como Koenig se entrega ao mistério de Syed, e como ela nos faz, episódio por episódio, ficar obcecados pelos detalhes tanto quanto ela. Em Zodíaco, obsessão é a palavra de ordem — na frente e atrás das câmeras.

David Fincher é um diretor conhecido por filmar diversas vezes um plano, mudando detalhes mínimos a cada tomada. Sua atenção pelos detalhes se estende para sua pesquisa: em A Rede Social, seu filme de 2010, cada linha de código, cada versão de uma linguagem de programação e cada aspecto da criação do Facebook é exibida em tela com doentia perfeição. Em Zodíaco não há cenário, figurino ou close que não seja preenchido pela sensação de que a pesquisa exaustiva de Fincher e sua equipe de produtores confere ali uma pefeição para a época e local do que estamos vendo. É incrível o nível de detalhe, e o uso de cor que Savides (o diretor de fotografia) brinca, com amarelos e azuis bastante fortes, com sombras muito escuras, parecem os quadrinhos iniciais do final dos anos 1960 e início dos anos 1970.

Zodíaco, porém, é sobre a obsessão que o assassino do Zodíaco gerou na São Francisco daquela época. Fincher, que era uma criança na época dos eventos desse filme, tenta levar ao espectador o sentimento de medo constante, mas também de fascínio, que São Francisco nutria pelo assassino. A genialidade de Zodíaco, porém, é de conseguir fazer os personagens — um cartunista, um jornalista, um policial e suas respectivas famílias — se tornarem uma ponte para que o espectador sinta uma obsessão pelos crimes. Se você não sabe, o assassino possui uma legião que ainda o caça, com uma comunidade um tanto ativa na Internet.

Dirigido com uma precisão cirúrgica, Zodíaco é o ponto de maturidade de Fincher, que antes fazia filmes bastante estilizados e excêntricos, como Seven: Os Sete Crimes Capitais e Clube da Luta. Zodíaco é bastante contido, porém nunca sem desviar seu ritmo. Fincher decupa o filme com perfeição, sem planos exagerados nem um momento em que você se perde na ação. Como é de praxe com ele, seu elenco é afiadíssimo, principalmente em um filme que se sustenta numa investigação muito mais baseada no diálogo que na busca. Fincher ainda referencia, em muitos momentos, o clássico Todos os Homens do Presidente, com as informações chegando e com a sensação que, mais que a busca pela verdade, essas pessoas lutam mais pela sua vida.

O genial de Zodíaco é nos unir na obsessão de seus personagens em um filme perfeito. Em suas duas horas e meia, você viaja para uma época e lugar diferente de forma tão absurda que, ao final, a conclusão pode parecer aberta demais, mas é uma viagem que vale a pena, completamente. É um dos poucos filmes que consegue te fazer sentir na frente (ou na sombra) de um assassino, e do pavor e do fascínio que esse momento nos proporciona. Zodíaco é absoluto em como mostra a obsessão, e como ela transforma seus personagens — mas quem sai dali obcecado pelo caso é você.

Serial faz história a cada episódio

Os podcasts, por anos, tentaram se identificar. Uma versão atualizada dos programas de rádio, agora na Internet, podcasts sempre tiveram o problema de não serem relevantes, de não introduzirem nada de novo que valha a eles serem considerados um meio de expressão. Não se engane: podcasts são divertidos pelos mais diferentes motivos, de serem verdadeiros diários sonoros a conversas fantásticas ou um modo interessante de contar histórias.

Serial é diferente.

Narrado por Sarah Koenig, Serial narra uma história real por temporada. Suas histórias são escolhidas pela falta de explicação. Algo falta nessas histórias. Mais que uma resolução, um detalhe. Um detalhe que não deixa de incomodar as pessoas por anos. Koenig e sua equipe buscam por esse detalhe, e vão onde a história os levar, onde os personagens que eles entrevistam levarem. E é aí que Serial une o melhor de dois mundos.

Serial é um trabalho jornalístico, não há dúvida. Koenig é uma jornalista que já trabalhou na área de Baltimore (e ligações da primeira temporada com The Wire são inevitáveis), e os melhores aspectos de seu trabalho transparecem no podcast. Com profissionalismo, Koenig narra uma história com paixão e em busca de fatos, sempre buscando não tomar lados, mas de entender seus personagens, o máximo possível. Serial, porém, se permite também as liberdades que os podcasts sempre reinaram sobre a programação de rádio: ele é extremamente honesto e, no final das contas, uma visão pessoal, as vezes até irreverente, de uma história.

Na sensacional — e já histórica — primeira temporada, Koenig segue a história do assassinato de Hae Min Lee, uma formanda do ensino médio em 1999. Seu ex-namorado foi preso após uma ligação anônima para a polícia indicar que deveria “seguir de perto” ele. Koenig não trata Adnan Syed, o preso, como vítima. Pelo contrário, em vários momentos ela chega a duvidar da história que ele conta e questiona se ele realmente não é o assassino, mas logo no primeiro episódio ela demonstra sua inquietação: se ele não for, toda uma comunidade está acreditando em uma história e lutando para que um real assassino seja solto; ou estão todos certos, e um jovem perdeu sua vida numa sentença perpétua na prisão.

Claro, ao final Serial não condena ou anistia Adnan, mas questiona os métodos de julgamento e os furos investigativos aplicados em 1999. Serial também questiona, em momentos, o modo como os bairros de Baltimore são criminalizados, ou vistos como criminalizados, por serem formados por muçulmanos, negros ou imigrantes. Koenig expõe, naturalmente e sem nunca ser catedrática, o modo como uma comunidade é vista pelo resto de uma sociedade, em uma visão pessoal e fascinante dos Estados Unidos. Em sua segunda temporada, esse escopo é aumentado para âmbitos internacionais, seguindo a história de Bowe Bergdahl, um soldado americano que desapareceu uma noite e acabou sendo sequestrado pelo talibã. Serial acerta em sua segunda temporada, mas também erra. Os erros de Serial, porém, indicam muito mais o quão esse é um trabalho de uma pequena equipe em contar histórias ouvidas de seus personagens, e entender seus motivos e posições.

Serial é um mestre em narrar, em indicar e em sugerir. É um monstro em criar uma comunidade ao redor. Para termos de comparação, um episódio de Serial teve em vinte quatro horas mais ouvintes que o grande campeão de audiência de Breaking Bad. Como a série da AMC, também, Serial busca entender como uma pessoa se transforma. Seja Adnan, de possível assassino para a figura angustiada dentro da prisão. Seja Bergdahl, e seus motivos para desaparecer. Mais que isso, porém, Serial engaja como poucas coisas hoje em dia (o Reddit da série é uma loucura de tanto conteúdo), e nos mostra nossa obsessão pela mente humana, e o modo que ela pode quebrar. Fazendo história a cada episódio, Serial indica a força milenar que é contar uma história bem contada.

Her Story é estranho, mas único

Her Story é um jogo que valoriza a atenção de seu jogador. Não sua persistência ou insistência, não a habilidade. Não é fácil prosseguir, após um tempo, não porque você não é habilidoso o suficiente, mas porque você não prestou atenção suficiente.

O jogo é um filho de Serial, um dos melhores podcasts da internet. Ao contrário de sua influência, porém, Her Story não é um caso real, e o jogador não é um espectador. Embora muito da jogabilidade seja assistir vídeos (o chamado Full Motion Video), Her Story o coloca como um investigador, uma pessoa querendo saber a verdade sobre o assassinato de um homem. Para isso, você possui alguns clipes de vídeo da viúva, interrogada sete vezes pela polícia.

A interface de Her Story emula um computador com uma base de dados que consiste, basicamente, em um mecanismo de busca para centenas de clipes de vídeos. O sistema tem suas limitações, ele exibe até cinco vídeos, de mais de duzentos, e toda a vez que você procura por alguma palavra que gera mais de cinco resultados, está sempre limitado a acessar apenas os primeiros resultados. Mais que enfrentar essas limitações e descobrir métodos de burlá-las, o jogador deve utiliza-las ao seu favor, e trabalhar em torno delas.

Você não precisa ser inteligente para jogar Her Story, você precisa prestar atenção. Quando você parece ter chegado ao final de uma linha de raciocínio, não hesite em olhar um clipe de novo, e perceber algum detalhe que antes lhe pareceu bobo ou desimportante. Her Story pode não ter uma história incrível, mas é muito bem pensado para que o jogador estabeleça um padrão narrativo a partir da forma não linear que você acessar os clipes. E a qualidade de sua história, ao final das contas, não enfraquece muito o jogo. Assim como Garota Exemplar, que rendeu um excelente suspense de David Fincher, Her Story também é um “livro de aeroporto”, desses que você compra, se diverte enquanto engole tudo de uma vez, mas deixa para trás assim que termina, porque sua história é muito bem intrincada, mas não necessariamente boa.

Aqui, o mistério da morte de um trabalhador de uma vidraçaria é mantido apenas pelo depoimento da viúva. Durante sete entrevistas, você deve guiar seu raciocínio pelos fatos que a mulher conta — desde como foi seu dia até alguma coisa que ela deixou passar numa conversa anterior. A partir daí, o jogador deve desvendar seu próprio caminho.

O mais fascinante de Her Story, porém, é entender justamente que dificilmente dois jogadores irão costurar a narrativa da mesma forma, e valorizar isso. Por vezes soando falso, as vezes realmente emocionante (diferente da Polygon, nosso jogo do ano também se baseia simplesmente em uma voz), Her Story é sempre frustrante, mas também sempre recompensador e surpreendente. Ao final de uma narrativa que você mesmo decide desvendar, o mais triste é que não haverá mais nada para descobrir.