Modern Vampires of the City é daquele tipo espontâneo de música boa

O Vampire Weekend sempre foi uma banda conhecida por sua música excêntrica e divertida. Eles são uma banda pop, afinal de contas. Eles rimam “horchata” com “balaclava”. Eles gostam de brincar.

E Contra, seu álbum anterior, era sobre eles se aceitarem, e buscarem aqueles que os entendem, dentro de toda essa excentricidade. Eles provavelmente obtiveram sucesso, porque Modern Vampires of the City é mais seguro, mais simples e, assim, muito melhor. O Vampire Weekend achou, finalmente, o tom ideal.

Dá pra confirmar isso até nos shows. Por mais que Contra e o Vampire Weekend fossem bons, era simplesmente sofrível assistir a performance ao vivo de Ezra Koenig. Com Modern Vampires of the City a banda não só amadureceu, como explodiu. O próprio Koenig parece mais confortável com isso. E muito se sente na música. Repare em “Unbelievers”, a música mais parecida com aquilo que vimos anteriormente no Vampire Weekend.

Há ali o tom rápido e brincalhão, mas ele está ligeiramente diferente. Parece que o Vampire Weekend não se interessa mais em fazer aquela música divisiva que era sua marca logo na estreia. Eles encontraram na sutileza de faixas como “Everlasting Arms” e “Don’t Lie”, contando para nós as fábulas cotidianas da banda, como em “Finger Back”, “Hudson” e “Step”. Mesmo com explosões melódicas de “Diane Young” ou na própria “Unbelievers”, sentimos a diferença.

O Vampire Weekend continua brincalhão, continua único na irreverência. Mas eles finalmente acertaram o ponto naquela simplicidade da melodia e na excentricidade. Depois de se aceitar com Contra, eles finalmente mostraram em Modern Vampires of the City, do que eles realmente são capazes.

Uma carta de amor a Abbas Kiarostami

Filmes nos conectam. Nos conectam com diferentes realidades, com diferentes ideias, com diferentes pessoas. Seja na própria imagem, seja nas conexões que criamos ao ir no cinema com alguém, ao discutir um filme com alguém, mas filmes nos aproximam de relações, não de coisas.

O ponto central de Cópia Fiel, o momento em que tudo muda, é um momento filmado de um modo diferente de tudo o que o filme havia mostrado até ali. Ela (interpretada por Juliette Binoche), está de frente para a câmera, sentada em uma mesa de um café toscano. Ela olha para nós, embora fale com o personagem que a acompanha. Ela questiona a validade daquele casamento. Ele foi um bom pai? Um bom marido? Ela fala com ele, mas ela olha para nós. Ela fala para nós.

E nem nós, e nem ele, o personagem, fomos bons maridos. Não fomos companheiros, não fomos bons pais.

Esse é um momento central em Cópia Fiel porque aí começa um jogo com quatro jogadores: dois estão na tela, Ela e James Miller; dois não estão. Um é Kiarostami, e o outro somos nós. Kiarostami nos entrega uma lacuna, os dois personagens jogam com ela. Resta, para nós, completá-la. Esse é um elemento crucial durante todo o filme. Nós acompanhamos uma tardinha na vida de uma dona de uma pequena galeria de arte, que recebe a visita de um estudioso inglês que divulga seu novo livro, que questiona o valor da obra original e da sua cópia.

A gente pode divagar muito sobre os temas que Cópia Fiel cobre a partir daí, na longa conversa que os personagens terão pelas lindas ruas de Lucignano. Mas Cópia Fiel não é um quebra-cabeça, é um enigma. E, como os bons enigmas, nós não temos as peças para decifrá-lo, nós só temos aquilo que carregamos conosco. Precisamos de nossa intuição, não para decifrá-lo, mas para explorá-lo. Quando chegamos no final, e estamos tão exaustos quanto Ela e James, não é porque passamos os últimos cem minutos buscando pistas do que está acontecendo, mas porque aquilo que nós descobrimos sobre eles, e sobre nós, é extasiante.

Dava pra recomendar outros, talvez melhores, mais premiados filmes de Abbas Kiarostami. O diretor mais importante da história do cinema iraniano possui obras-primas como Gosto de Cereja, uma ode à vida em forma de elegia como poucas vezes o cinema nos trouxe; Dez, um dos retratos mais únicos das relações sociais no Irã; a inebriante trilogia composta por Onde Fica a Casa do Meu Amigo?, O Vento nos Levará e Através das Oliveiras; ou a jornada pelo filme, e pelo Irã, com Close-up. Kiarostami trabalhava nesse seu cinema de relações com as ligações que conectam seus personagens, seus temas ou seus lugares com o espectador. Todos eles são gratificantes. Poucos deles, porém, são tão claros quanto Cópia Fiel em seu objetivo.

Juliette Binoche em Cópia Fiel A Mona Lisa de Kiarostami.

O fato é que poucos diretores no cinema buscaram dar ao espectador uma voz. Claro, o cinema não aceita respostas, mas Abbas Kiarostami era um diretor único que permitia a seus filmes serem completados por aqueles que os assistiam. Quando andamos pelas ruas com os dois personagens de Cópia Fiel, nós podemos questionar, junto a eles, os enigmas que envolvem não só a arte, mas também o amor. Os filmes de Kiarostami foram sempre retratos tão lindos da vida por exibir que, como eles, a vida é algo que desvendamos ser cada vez mais rica, estranha, e até mesmo confusa. A vida é uma eterna reflexão de nós mesmos com aquilo que nos liga ao mundo, e foi uma honra poder ter a oportunidade de ser ligado a um mundo incrível, enigmático, mas sempre fascinante que era aquele que Kiarostami nos proporcionava.

Há uma famosa citação de Jean-Luc Godard de que “o cinema começa em Griffith e termina em Abbas Kiarostami”. Eu sou um pouco mais otimista, mas é possível entender o que o francês indica. São poucos os diretores que são mestres, são poucos os diretores que são artistas; são ainda mais raros aqueles que são os dois. E esses, os mais raros, que são os poetas. E Kiarostami era talvez o maior do nosso tempo.

E o poeta nos deixou. O cinema não acaba aqui, mas algo realmente não vai mais ser visto. É triste imaginar que eu não serei questionado, com a delicadeza e a sofisticação, por Kiarostami em mais um filme. Mas ele mesmo já nos mostrou o que fazer. Quando James sai de quadro pela última vez em Cópia Fiel, Kiarostami finalmente nos deixa sozinhos. Finalmente, após mais de uma hora e meia acompanhados, nós estabelecemos uma ligação com nós mesmos. E é isso que esse poeta nos deixou: a possibilidade de nos experimentar, de nos conhecer, de nos impressionarmos.

Através das lacunas da sua poesia, Kiarostami nos ensinou a saborear o maior enigma que há: o de nós mesmos.

E por isso, meu muito obrigado, Kiarostami. Foi uma honra.

Gilmore Girls não é a melhor série já feita, mas é a melhor série já feita

Na última sexta-feira a Netflix liberou pro resto do mundo as sete temporadas de Gilmore Girls, antes disponíveis somente para a América do Norte. Se você, assim como eu, assistia nas terças-feiras de noite na Warner Channel, deve ter vibrado com a notícia. Afinal, Gilmore Girls é a melhor série já feita.

Gilmore Girls conta a história de três gerações de mulheres da família Gilmore. Lorelai, uma mãe solteira que teve Rory com 16 anos. Desde então, ela cuida de sua genial, inteligente e esforçada filha sozinha. Mudando-se para uma pequena cidade no interior de Connecticut, a fictícia Stars Hollow, ela é “adotada” pelos habitantes da cidade, que são uma sorte de pessoas divertidas e únicas. Quando Rory cresce e é aprovada em um dos mais renomados colégios do país, porém, Lorelai precisa se reaproximar de sua mãe, Emily, e seu pai, Richard, para pedir emprestado o dinheiro para pagar pela escola. E esse é o ponto de partida.

Stars Hollow é uma das cidades mais charmosas da TV

O que torna Gilmore Girls realmente especial são seus personagens. Lorelai é uma mãe incrível que, mesmo cometendo erros, busca o melhor para sua filha e, quando essa precisa traçar o seu caminho, busca seguir o seu. Rory é uma querida que precisa tropeçar e não é uma dessas adolecentes da TV que é idiota por ser idiota. Emily é uma matriarca com todos os seus defeitos, mas um grande coração e grande personalidade, mas as garotas Gilmore são apenas a ponta de um iceberg cheio de personagens carismáticos.

O elenco de Gilmore Girls Você vai aprender a amar (e odiar) cada um deles.

Os habitantes de Stars Hollow criam uma das melhores mitologias da TV, de tão lúdicos e divertidos: temos Kirk, um empreendedor com os mais loucos tipos de negócio; Babette, uma das vizinhas de Lorelai apaixonada por gatos; Patty, uma instrutora de dança com gostos no mínimo exóticos; os colegas da pousada de Lorelai, Sookie (a excelente Melissa McCarthy) e Michel; a amiga de infância de Rory, Lane, uma roqueira enrustida; Paris, a para sempre arquirival de Rory; Luke, a grande paixão de Lorelai, e por aí vai.

Gilmore Girls cria esses personagens com grande interesse, e não se esquece deles (embora as vezes passar vários episódios sem sequer mencioná-los). Lorelai, é claro, é a grande força da série, mas todos esses personagens ajudam a torná-la a pessoa forte, sonhadora, medrosa e extremamente divertida que ela é. No passar das sete temporadas, todos esses coadjuvantes crescem de alguma forma significativa: alguns se casam e tem filhos, outros mudam completamente de vida, outros mudam mas percebem que antes era melhor, e mudam de novo. E assim por diante.

Assistir Gilmore Girls é voltar no tempo

Existe uma teoria de que as séries que vemos hoje são pós-pós-11/09. Séries como The Leftovers e The Americans tratam de como é difícil ter que seguir em frente quando algo nunca vai voltar ao normal. Gilmore Girls não vive nesse universo. Mesmo sendo produzida entre 2000 e 2007, a série nunca tratou das perdas do 11 de setembro, ao menos não de forma direta. Até mesmo séries que atravessaram a década passada, como ER, mudaram consideravelmente após 2001, mas Gilmore Girls se manteve ali, um forte onde tudo está normal, na medida do possível.

Assim, Gilmore Girls nunca acabou tratando de temas maiores do que seus próprios personagens. Se “grandes temas” funcionam para as séries que citei acima, aqui a coisa é um pouco diferente. Preocupando-se sempre com os pequenos dramas e pequenos prazeres na vida das Gilmore, a série acabava tendo um escopo no micro: como Rory vai superar tal problema na escola; como Lorelai vai contar a Luke que ela gosta dele; onde Lane vai esconder seus CDs agora que sua mãe descobriu onde ela os esconde, e por aí vai.

Vendo hoje, quase dez anos após a série ter sido cancelada, Gilmore Girls é um alívio. Uma pequena dramédia sobre o cotidiano de uma série de pessoas em uma pequena cidade no interior dos EUA não parece muito interessante, mas é justamente nesses personagens que se esconde a vida da série. São sempre eventos espalhafatosos, encontros da cidade e muito mais para criar a vida da série. Mas aquilo que dá a vida aos episódios é, realmente, Lorelai e Rory.

Lorelai e Rory aproveitam o domingo com doritos Eu quero passar o resto dos meus domingos assim.

Claro, Gilmore Girls não é a melhor série já feita. São vários os problemas. É uma série da temporada “baixa” de um canal aberto na TV americana. Não é um bom precedente em 2000, quando a HBO estava começando a fazer as séries que mudariam tudo, anos depois. Gilmore Girls tem sérios problemas de direção e de ritmo, e a atuação de Alexis Bledel é sofrível (ela melhorou muito depois). Mesmo assim, com as centenas de incertezas e péssimas escolhas (a última temporada é quase impossível de assistir), há algo no meio de Gilmore Girls que ainda é imperdível: um carinho gigantesco pelas personagens, e um cuidado que ainda é pouco visto na TV pelas pequenas histórias da vida. Após acabar sua maratona, não duvido que você não vá fazer como eu e recomeçar Gilmore Girls logo em seguida.

É, eu sei como é. Eu nunca mais vou deixar Stars Hollow.

Invocação do Mal 2 quase não assusta, mas também não tá aí pra isso

Eu amo o primeiro Invocação do Mal. É excelente em vários níveis. Ele é um filme de terror que volta aquele tipo clássico do início dos anos 1970, como O Bebê de Rosemary e O Exorcista e, mesmo não sendo tão bom quanto esses, ele acha um lugar só seu pelos mesmos motivos. O mal ali era outro: o do desconhecido e, por isso, do incontrolável. Invocação do Mal nunca mostrava essa força maligna — ele mostrava como ela destruía a vida de uma família, cabia ao espectador imaginá-la.

É ótimo ver que James Wan voltou para essa segunda parte muito porque ele só amadurece. Olha aquele plano-sequência em que ele apresenta a família se mudando para uma nova casa. A gente não percebe como, na verdade, ele primeiro nos familiariza com cada cômodo, cada corredor, pra depois transformar aquela casa em um verdadeiro labirinto, uma entidade do mal. Ele repete a dose aqui. A família da vez (os Hodgson) não tão se mudando. Pelo contrário, eles conhecem muito bem aquela casa, e a familiaridade é que tornará ela, mais pra frente, aterrorizante. É a força que toma a casa contra as pessoas que vivem lá dentro que vão criar o medo.

Funciona muito bem. Invocação do Mal 2 é o tipo de filme de terror que se tem feito menos hoje em dia porque é muito difícil de acreditar. É um terror quase religioso, que brinca com fantasmas e nomes e rituais que já apareceram muito no cinema (é quase uma piada quando uma das personagens mostra um tabuleiro de Ouija). Wan sabe que tá pisando em ovos, e ao invés de se cuidar ele dança: ele manda a história pra Inglaterra, enche de referências de folclore local, e não se importa de exibir o circo midiático em volta.

É uma faca de duas pontas essa mistura de elementos. Invocação do Mal 2 dá um show na virtuose cinematográfica e nas atuações (Patrick Wilson e Vera Farmiga entregam tanto no papel que é de se emocionar); Wan dosa com sabedoria momentos cômicos e os momentos de sustos (eles existem, não dá pra dizer que não, mas são bem pontuados); mas acaba se perdendo um pouco nas sub-tramas. Ele começa narrando, de forma bastante econômica, o caso mais famoso dos Warren: o massacre a uma família em Amityville, e leva as “cicatrizes” desse caso até o final do filme (na forma bastante assustadora — e comercial — da Freira que, adivinhem, já tem um filme anunciado).

O bom do filme anterior era como tudo se fechava direitinho, e como absolutamente tudo girava em torno daqueles personagens. Invocação do Mal 2 faz quase tudo isso, mas ele almeja um pouco mais alto, e acaba se perdendo em partes. O circo midiático vira uma subtrama necessária, mas mal tratada; a Freira entra no filme, ganha importância, mas a gente nunca sabe o que ela realmente faz ali; tem uma reviravolta de espírito com espírito que não funciona muito; e, o maior dos pecados: Wan, dessa vez, mostra o mal, algo que ele sabia muito bem como não fazer. Pelo menos é por pouco tempo.

E, no meio de alguns erros e vários acertos, Invocação do Mal 2 se junta com A Bruxa num ano que promete bons filmes de terror por serem, justamente, aterrorizantes, e não assustadores. Não há muitos sustos em Invocação do Mal 2, mas ele não se importa muito com isso. A gente perde muito tempo conhecendo aqueles personagens e aquela casa por um simples motivo: quando o pesadelo começa, Invocação do Mal 2 nos prende lá dentro com eles. E daí, sim, ele cria o medo.

Wolfgang Amadeus Phoenix diverte pra sempre

A “busca pelo pop perfeito” é incessante. Mesmo pra Michael Jackson, que já o encontrou mais de uma vez, o pop perfeito era algo que se metamorfoseava toda a vez que ele o encontrava. Não é a toa. O pop em si se transforma a cada punhado de anos, e se você parar pra pensar no que era pop antes, e o que é pop agora, pode se espantar: o pop como gênero é uma eterna transformação. Atingir essa perfeição, então, não é só fruto de conhecer o seu tempo, é também saber o que virá pela frente.

Em termos muito extremos, é isso que Wolfgang Amadeus Phoenix faz. O quarto álbum de estúdio da banda indie francesa Phoenix homenageia Mozart no seu título não por acaso. Mozart aqui não é só inspiração pro método de fazer música (WAP usa composições milimetricamente pensadas, as vezes com grandiosidade, as vezes com esperteza), mas também na recepção. Com Wolfgang Amadeus Phoenix, a banda deixou de ser “aquela banda legal que pouca gente ouve” pro “consenso universal de música boa”. O motivo? Eles encontraram o pop perfeito.

Ao usar como referência um dos maiores compositores da história da música, usar fórmulas matemáticas para compôr versos e melodias e entender onde estavam, e pra onde precisavam seguir, o Phoenix entrega desde a primeira música, “Lisztomania”, uma resposta ao que se ouvia (e o que se ouve, até hoje) de forma bastante casual. Em um mundo pós-_Discovery_, em que a pista de dança foi redefinida, o Phoenix sai do “dance music” francês típico, que brinca de ser Daft Punk, e entrega filhos de “One More Time”. Com “1901” e “Rome”, os versos parecem aleatórios enquanto as melodias se encontram perfeitas. Como se fossem músicas do Daft Punk, existe um perfeccionismo técnico nos sons que os tornam ao mesmo tempo inovadores e reconhecidos.

Mas Wolfgang Amadeus Phoenix sai da sombra da “fórmula-Daft Punk” ao mesmo tempo que busca ir para frente. WAP reflete o seu momento. A música pop em 2009 era casual e embalada pelo divertimento, e surpreende que o Phoenix o levasse a um extremo com músicas como “Lasso” e “Girlfriend”, exemplos extremos de músicas que se fazia naquele ano (porém, aqui, com os padrões altíssimos que permeiam todo o álbum). Porém, Phoenix não se segura e larga, quase que no meio de seu álbum, um verdadeiro ensaio do porquê eles fazem música como fazem, e para onde eles pretendem ir dali pra frente. Com a grandiosa e excelente “Love Like A Sunset”, dividida em duas partes, o Phoenix mira mais alto do que jamais tinha feito — ou que fez até hoje, já que Bankrupt! é, basicamente, uma continuação desse álbum.

E essa junção de tanta coisa em apenas dez faixas jamais deixa Wolfgang Amadeus Phoenix parecer um álbum inflado. Os elementos passados, presentes e futuros da banda estão tão bem dosados quanto as melodias calculadas, os loops cuidadosos ou as canções de Mars, finalmente confortável cantando como ele canta. Wolfgang Amadeus Phoenix reflete muito a música pop de seu tempo, mas é perfeita até hoje por possuir uma fortíssima confiança casual em sua música, como se ela fizesse parte de nossa herança musical por décadas.

Uma carta de amor a Pokémon

Pokémon fez vinte anos nesse último sábado, dia 27. Fazia anos que eu não enxia meus olhos com tantos dos monstrinhos de bolso que eu sempre amei.

Eu não lembro o ano que eu conheci eles, mas eu lembro que foi no programa matinal da Eliana, e eu perdi o primeiro episódio (eu fui ver ele muitos anos depois, graças à Internet). Comecei no segundo. E, nossa. Aquilo sempre foi demais. Eu revi a primeira temporada de novo essas semanas, e Pokémon, o anime, pelo menos em sua primeira temporada, é realmente muito bom. Os primeiros episódios são excelentes ao criar a mitologia da série, apresentar o básico e depois deixar seus personagens para explorarem o mundo incrível de Kanto. Eu provavelmente posso afirmar que até a segunda temporada, que se passa nas Ilhas Laranja, a série ainda é bastante boa.

Eu nunca fui muito fã dos filmes, porém. Claro: Pokémon, o filme: Mewtwo Contra Ataca e Pokémon 2000: O Poder de Um têm momentos emocionantes, mas por boa parte eles parecem mais “desculpas” para colocar o maior número de pokémons na tela. A exceção é Pokémon 3: O Feitiço dos Unown, um filme verdadeiramente bom. Esses três primeiros filmes, porém, tem como pontos fortes fazerem seus personagens principais serem importantes em um mundo habitado por criaturas muito mais legais que eles, como dragões aquáticos e Charizard. Como as primeiras duas temporadas da série (algo aconteceu na minha vida e eu não vi aa liga Johto na TV), esse é o tempo áureo de Pokémon nas telas não interativas (realmente, é queda abaixo depois disso, Jirashi Realizador de Desejos é talvez o pior filme que eu já vi).

É estranho eu começar esse post em que revelo meu amor por Pokémon falando do anime e dos filmes, certo? Isso porque eu demorei um tempo considerável para colocar minhas mão em um jogo da série. Meu primeiro videogame, um Super Nintendo (❤️) nunca viu os personagens. Eu só fui ver os pokémons nos videogames consideravelmente depois, lá por 2000, quando ganhei meu Nintendo 64 (💖) e um cartucho de Pokémon Stadium 2. Eu não era muito bom nas batalhas (eu provavelmente jamais fiz alguma estratégia naquele jogo), mas eu certamente sou insuperável até hoje nos mini-games (aquele da Chansey, eu faço perfects até hoje). Esse foi, por muito tempo, meu único contato com os jogos de Pokémon.

Eu só fui jogar um jogo da série principal com o lançamento de Pokémon Diamond & Pearl, até hoje meus jogos favoritos da série. Essa quarta geração introduzia, pela primeira vez, recursos completamente wi-fi. Bleh, irrelevante. A melhor coisa, pra mim? Pokémon Diamond & Pearl introduziram os primeiros elementos 3D na série principal. Pra mim, é o estilo visual ideal da franquia até hoje, charmoso e ainda assim nostálgico.

Claro, eu acabei, eventualmente, jogando Pokémon LeafGreen, Pokémon Crystal e, hoje em dia, Pokémon Y. Eu jogo muito esse último, a ponto de as vezes ficar cerca de trinta minutos no banheiro, quando eu realmente podia ter ficado menos de dez. Pokémon tem uma capacidade de prender o jogador na jogatina, e de trazê-lo de volta horas depois, como poucos. Eu sou fiel às minhas visitas diárias e matutinas ao Animal Crossing, mais pela minha necessidade por uma rotina do que por outra coisa. É Pokémon que sempre me chama de volta, toda vez.

Tenho meus problemas com a franquia? Tenho, claro. Realmente acho a história bastante batida, já. Me irrito com a impossibilidade de completar a PokéDex hoje em dia, e na necessidade de ter alguém pra jogar contigo pra que tu complete tarefas básicas do jogo (eu sou bastante solo nos meus jogos, não curto um multiplayer). Mas isso tudo também adiciona ao charme da grandiosidade de Pokémon, e a complexidade de sua mitologia — em sua visão avançada, porque ele é bastante simples e direto se você não gosta de se dedicar — sempre acabaram me reconquistando. Pokémon não precisa de dedicação do jogador, mas se ele o tem, o jogo irá recompensá-lo como poucos aí sabem fazer.

Pokémon faz vinte anos e envelheceu, sim. Mas eu não digo que já passamos de seu tempo. Pokémon X & Y são as renovações necessárias que a franquia deveria passar para chegar a um novo tempo, e parece que ela está disposta a avançar mais lançando Pokémon Go, o sonho de muita gente, em breve. Pokémon sempre será importante para mim, porém, porque ele representa, assim como o Pikachu para o Ash no desenho, a lembrança do companherismo que é tão necessário na infância — e que, por boa parte dela, foram os monstrinhos que me fizeram. E pela sua presença em minha vida hoje. Não diária ou central, como um dia foi. Mas tangencial, e sempre presente. Pokémon vive, ainda bem, porque quero que esses monstrinhos continuem comigo por um bom tempo. E se esse aniversário repleto de novos anúncios (inclusive uma nova geração, Pokémon Sun & Moon) comprova algo, é que eles estão aqui para ficar por mais alguns anos.

Ainda bem. Eu ainda não peguei todos.

Em To The Moon você é a história de amor

Se você, assim como eu, é fascinado pelos jogos de RPG, mas tem problemas com toda aquela complexidade desnecessária de classes, grupos, mecânicas de batalha; ou com os clichês traiçoeiros que eles exploram, vai adorar To The Moon. Feito sob medida para aqueles que gostam de jogos “narrativos”, como andam chamando por aí, o jogo permite ao jogador ser o sentimento que liga um casal, perdido em memórias.

Assim como Ela, To The Moon é uma ficção científica que adora suas tecnologias, e não tem medo delas. Aqui, nós seguimos a Dra. Roselane e o Dr. Watts enquanto eles precisam viajar pelas memórias de Johnny Wyles, descobrindo sobre seu casamento infeliz com River, sua companheira desde a escola. Wyles está prestes a morrer, e a missão de Roselane e Watts é a de criar memórias que o façam pensar que viveu uma vida sem arrependimentos.

De maneira bem semelhante ao que acontece com Joe em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, a mente não trabalha como os doutores imaginaram e criar memórias se torna impossível. Cabe aos doutores, então, revisitar as memórias de Wyles e explorar o porquê de sua vida infeliz, e porque ele deseja ir à lua, para entendê-lo e então realizar seu desejo.

Em To The Moon, o jogador vivencia as memórias de Wyles e de sua vida com River. Sem dar detalhes de como a narrativa se desenvolve, posso dizer que em To The Moon, devido à situação de Wyles, o jogador serve como a ligação entre ele e River nessa história de amor. Servindo não como um mediador de um relacionamento, mas de uma lembrança de porque os dois se amam, o jogo nos oferece um lugar de destaque em sua história — na qual somos tão protagonistas quanto Wyles e River naquilo que representamos para eles.

Sendo delicado sem ser meloso, To the Moon explora os melhores lados do RPG (inclusive no estilo visual, que lembra bastante os antigos Final Fantasy) enquanto oferece uma história realmente significativa para seus jogadores e para seus personagens. O final, emblemático, coloca o jogador como meio e fim, como todo o bom jogo deve fazer.

Ela é a história de amor de uma geração

Spike Jonze começa Ela nos apresentando ao melhor lado de Theodore. Theodore é um escritor que trabalha nessas agências feel-good vibes, que oferece aos clientes cartas escritas a mão. Theodore é excelente. Suas cartas são repletas de emoções e descrevem, minuciosamente, como o amor dessas pessoas — seja o romântico, seja o cordial, seja o familiar — é real e precisa ser compartilhado entre elas.

E Theodore é realmente um “romântico” nesse sentido. Ele realmente escreve bem, ele tem uma sensibilidade em conseguir sentir, em imaginar como é bom amar e ser amado. Principalmente após a separação com sua esposa, Catherine, Theodore encontra no seu trabalho um refúgio onde pode sentir amor novamente. Naquela distância que a gente busca após sair de um relacionamento.

Ela, o quarto (e melhor) longa-metragem de Spike Jonze, mostra o pior de Theodore depois que conhecemos bem ele. Depois que conhecemos a simpática e apaixonante Samantha, a inteligência artificial que opera sua vida tecnológica. Samantha é inteligente, e ansiosa em saber sobre tudo, sobre explorar o mundo, sobre conhecer pessoas diferentes e sobre entender os seres humanos. Ela é repleta de perguntas sobre ela mesma (seus sentimentos são reais, ou meras projeções de seus programadores?), e ela tem uma fome de entender e compreender tudo. Ela é o oposto de Theodore, que ultimamente só quer sentar a bunda em sua cadeira, trabalhar, ir para casa, jogar videogame, bater uma e ir dormir. Sem julgamentos.

Como todo filme que trata sobre um romance, Ela mostra como essas duas partes, essencialmente diferentes, se complementam para tornar a vida delas em um novo e funcional sistema. Com seus altos e baixos, o relacionamento de Theodore e Samantha passa por momentos íntimos e inesquecíveis, como o final de semana na cabana, e por brigas feias e decisivas, como aquela mais pro final, com uma “terceira”. Ela retrata, de forma emocionante e melancólica, como relacionamentos estão condenados a mudança constante, e como as vezes passamos umas sobre as outras no trajeto.

Filmes de ficção científica, sejam otimistas ou pessimistas, costumam ser tecnofóbicos. Eles geralmente mostram o quão fascinante o progresso que a tecnologia nos trará, para depois nos mostrar o quão menos humanos, menos sociais, ela nos torna. Desde clássicos como Blade Runner aos novos queridinhos Ex Machina, o cinema tende a ter medo de onde a tecnologia nos levará no futuro. Ela vai para um lado diferente, e sua verdadeira beleza reside nessa diferença básica. Ao fazer com que Theodore volte a perceber o mundo através de Samantha, uma máquina, e nos fazer questionar se o que eles sentem é um relacionamento verdadeiro (e eu vou adorar discutir sobre esse tema com alguém), o filme nos apresenta uma visão do futuro em que, talvez, finalmente, voltemos a ver o mundo — e a nós mesmos — com o fascínio de uma criança.

Ela é um filme de amor atípico não só pelo seu tema ou pelo roteiro. Jonze é mais sensível que o seu parceiro anterior, Charlie Kaufman, e a estranheza em seu filme é delicada e sempre nos fazendo olhar para os personagens, mais do que para a estrutura (Kaufman só consegue fazer isso com sucesso em seu melhor filme, Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças). Ela tem um carinho pelo seu casal (e pelas pessoas que o cercam, como a amiga Amy — em um outro caso de relacionamento também fascinante de ver sendo desenvolvido) e, principalmente, pelos momentos que eles constroem juntos. Ao final de contas, são eles que ficam em um relacionamento, e é através deles que desenvolvemos o carinho pela outra pessoa. Ela é íntimo ao seu diretor (o filme pode ser visto como uma resposta ao filme de sua ex-esposa Sofia Coppola, Encontros & Desencontros), e essa intimidade transparece na tela. É um coração remendado mostrando como o seu personagem vai remendar o coração.

E Ela é meu filme favorito de 2014 por causa desse carinho, que exala da tela como se fosse fumaça. Quando Theodore pergunta “como você está” para Samantha, em certo momento do filme, ele recebe uma resposta complexa como a que receberia de uma pessoa em um relacionamento. É um momento de profundidade casual em um filme repleto deles. Se existe graça em perguntar a um computador como ele está se sentindo, o filme torna a resposta dele importante. O motivo? Por que, para a audiência, Samantha é real tanto quanto para Theodore. Theodore ama ela, assim como eu amo Ela.