Os 5 melhores de 2016

2016 não foi lá um bom ano no geral. Aqui com os padeiros também. Eu e a Thai tivemos um ano puxado e frustrante, e acabamos não conseguindo dar toda a nossa atenção ao nosso querido :bread:. Nós esperamos que 2017 seja melhor, e por isso vamos voltar com as dicas diárias na primeira segunda-feira do ano, dia 2 de janeiro.

Pra fechar esse ano, então, vamos pra nossa listinha dos cinco melhores do ano? Isso. Como no ano passado, o nosso top do ano aceita apenas cinco itens: um filme, um álbum, um livro, um jogo e uma série de tevê; e a gente rankeia eles pela ordem da nossa preferência. Pra entrarem na escolha, eles precisam ter sido ou a) lançados esse ano, ou b) experimentados pela primeira vez por nós esse ano.

Vamos começar?

5. O melhor álbum: Lemonade.

Que Beyoncé está colocando seu plano de dominação mundial em prática, todo mundo já sabe, mas o que a gente podia não esperar é que seu próximo passo fosse algo tão grandioso e pessoal como seu novo “álbum visual”, Lemonade.

Beyoncé navega no seu álbum mais coeso nessa sua fase mais madura que começou no autointitulado de 2013, explorando diversas vertentes da história da música norte-americana na excelente “Daddy Lessons”, gritando suas agonias em “Freedom”, ou dando seu grito de guerra em “Formation”. 2016 pode ter sido o ano de eventos fatídicos por aqui, Lemonade dá uma ponta de esperança de que, em tempos agoniantes, a arte estará lá para expressar nossos medos e nossa vontade de lutar. Se a vida nos dá limões, aprendemos a fazer limonada. Se a vida dá agonia à Beyoncé, ela faz sua obra-prima.

Também consideramos: Blackstar (David Bowie); A Moon Shaped Pool (Radiohead); You Want It Darker (Leonard Cohen); Skeleton Tree (Nick Cave & the Bad Seeds); Blood Orange (Freetown Sound).


4. O melhor jogo: Firewatch.

Imagem do jogo Firewatch

Poucos jogos conseguem o efeito absorvente e imediato de um conto. Primeiro, porque eles tendem a ser longos; e segundo, porque a narrativa nos jogos ainda cai no sobrenatural, na aventura e na grandiosidade. Poucos jogos buscam pequenas coisas, pequenos confrontos e pequenas jornadas. Os que fazem isso, como Gone Home e Dear Esther, são bem específicos: são jornadas de um personagem através de um ambiente, geralmente recompensados pela sua destreza na hora de descobrir objetos escondidos ou de acessar certos lugares.

Firewatch, o jogo de estréia da Campo Santo, é um desses jogos que te prendem imediatamente, e te faz absorver na pele de Henry, um homem de meia-idade que vai para o meio de um parque ambiental após uma tragédia pessoal. Lá, ele conhece Delilah, também guarda ambiental. A jornada de Firewatch é, porém, bastante simples: a história do relacionamento de duas pessoas que passaram por alguns maus bocados e decidiram se isolar no meio da mata. Quando eles percebem que alguém está ouvindo as conversas (que crescem em intimidade), eles começam a especular o que poderia ser. Firewatch não foge da realidade, como qualquer outro jogo faria: não há um plano maléfico por trás, não há uma grande trama envolvendo o estado (embora os comentários sobre a NSA estejam ali). É apenas a história de duas pessoas, imperfeitas como qualquer outras, e não de bonecos animados com alguns bugs. Se existe algum elogio melhor para um jogo, eu não saberia dizer qual é.

Também consideramos: Kentucky Route Zero, Act IV (Cardboard Computer); The Last Guardian (Sony Computer Entertainment); Neighbor (Cardboard Computer); Inside (Playdead); Battlefield 1 (Electronic Arts); Pokémon Sun & Moon (Nintendo).


3. A melhor série: Halt & Catch Fire.

Imagem da série Halt & Catch Fire

2016 foi consideravelmente mais fraco na TV do que 2015, mas três séries conseguiram aumentar ainda mais o nível nessa temporada: The Americans e Veep elevam já grandes séries a níveis impecáveis, mas Halt & Catch Fire, depois de uma segunda temporada fantástica, encontra em seus terceiro ano a força ideal.

Quando eu vejo uma grande série de TV, como The Leftovers ano passado, eu tenho a seguinte impressão: de que é a melhor coisa que a TV fez esse ano, e que caralho eu queria arrombar a tua casa e ligar tua TV nessa série pra dar mais audiência.

Deixando apra trás os ecos que a tornavam uma Mad Men sobre o Vale do Silício, Halt & Catch Fire olha para os primeiros dias da Internet para tentar compreender a sociedade que nós formamos hoje. A série captura com perfeição o medo e a excitação de um mundo conectado, o sexismo no mundo do empreendedorismo e da tecnologia e como o ramo tenta buscar nos gurus das empresas verdadeiros filósofos. Seja 1986 ou agora, não há nada mais humano do que querer mudar, querer fazer a diferença. Não há nada mais poderoso do que o medo de mudar, também.

Também consideramos: The Americans (FX); Veep (HBO); Westworld (HBO); High Maintenance (HBO); The Night Of (HBO); Insecure (HBO); Atlanta (FX); The People v. O. J. Simpson: American Crime Story (FX); BoJack Horseman (Netflix); Silicon Valley (HBO).


2. O melhor filme: Aquarius.

Não existe nada tão monumental como Aquarius no cinema esse ano. Foda-se, sinceramente, sua visão política. Quando um filme é tão bem dirigido, escrito, atuado, fotografado, sonorizado e montado como Aquarius, em que a linguagem cinematográfica tá tão plenamente na tela, presente para o espectador, é impossível negar: esse é um dos grandes filmes do cinema.

E, para todos os efeitos, Aquarius é. Eu ainda não vi Toni Erdmann, que muitos consideram o grande filme do ano, mas a magnetude que Aquarius atinge em cada cena, em cada fotograma em tela, é surpreendente. Em um filme, que viaja pela música brasileira de forma sublime, tão preocupado em registrar a memória, o nosso bem mais pessoal e mais inatingível, Kleber Mendonça Filho extrapola as qualidades do seu cinema, já apresentados em O Som Ao Redor, em um filme de força, que revela não só os percalços do brasileiro no dia-a-dia, nossa luta contra o nosso próprio preconceito, mas também contra um sistema que visou, por tanto tempo, lutar contra a igualdade. Aquarius é um manifesto, sim, mas também é um tour-de-force para Sônia Braga, que toma o filme para si e transforma Aquarius na obra-prima que é. Aquarius pode ser sobre qualquer problema do Brasil hoje em dia, mas antes de tudo, é um filme sobre Clara. E Clara, que escuta tanto Queen quanto Gilberto Gil, representa muito mais esse país que um homem que tem medo de sair na rua pra ser vaiado. Que Aquarius, em todo o seu monumento ao cinema e à memória, viva para sempre na história.

Também consideramos: O Abraço da Serpente (Ciro Guerra); A Bruxa (Robert Eggers); A Chegada (Denis Villeneuve); Cemitério do Esplendor (Apichatpong Weerasethakul); Looking: O Filme (Andrew Haigh).


1. O melhor do ano: O Coração é Um Caçador Solitário.

Capa do livro O Coração é um Caçador Solitário

Eu li muito em 2016, pra te falar a verdade. Não foi o meu ano mais produtivo, não foi o ano em que eu me dediquei mais naquilo que eu me interesso, mas eu li. Eu li muito, eu tirei meu atraso de anos, e isso me fez bem. Ler, ainda, é o melhor remédio. E, de todos os livros que eu li, eu tive certeza na primeira página qual foi o melhor livro do ano.

O Coração é um Caçador Solitário, o livro de estréia de Carson McCullers, não é só um exemplo de perfeição. Ele é o grande romance norte-americano, o livro que define uma sociedade, que define um tempo. Em sua estrutura, que baseou livros sublimes como A Visita Cruel do Tempo (Jennifer Egan) e Catedral (Raymond Carver), McCullers explora a Grande Depressão dos EUA sem sequer mencionar ela, sem sequer mencionar data. McCullers usa de seus personagens, os mais bem escritos que eu já li até hoje, pra comentar o preconceito, a pobreza e a busca por algo melhor – e a dificuldade de aceitarmos a mudança quando buscamos por esse melhor.

Mas, sinceramente? Foda-se. O Coração é um Caçador Solitário é a grande literatura que eu li esse ano. O grande desenvolvedor de narrativas, o grande contador de histórias. Quando você atinge o estágio de Carson McCullers (que escreveria A Balada do Café Triste depois, que é simplesmente genial), conseguindo desenvolver uma época e suas personalidades tão diversas, tudo parece pequeno. O Coração é um Caçador Solitário é genial, é grandioso, é histórico, é magnífico. É o melhor livro que eu li esse ano. É o melhor livro que eu já li.

Também consideramos: Enclausurado (Ian McEwan); Meia-noite e vinte (Daniel Galera); Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada (Carolina Maria de Jesus); O Tribunal da Quinta-Feira (Michel Laub).

10.000 km foi a melhor surpresa que eu tive esse ano

Eu não sabia nada de 10.000 km quando ele entrou na biblioteca do MUBI no meio desse mês. Não conhecia os atores, o diretor, nada. Mas o MUBI me indicou ele com força: a história de um casal que, por um ano, precisará viver com a distância do título entre eles. Eu juro que já ouvi várias histórias parecidas de relacionamento a distância uma das minhas favoritas, aliás, comenta exatamente a natureza desses relacionamentos) mas, ei. Que tal dar uma chance, né?

Ainda bem que eu dei. A história segue um casal que, ao que parece, está junto há bastante tempo. Ela, Aléx, é uma fotógrafa; ele, Sergi, é um professor substituto. Conhecemos eles enquanto estão tentando fazer um filho no pequeno mas aconchegante apartamento deles em Barcelona. Aléx recebe um email, informando que ela ganhou uma bolsa para viver por um ano, com tudo pago, em Los Angeles para executar um projeto. Eles conversam sobre as possibilidades, e decidem seguir com o relacionamento a distância.

Quando essa primeira cena acabou que eu percebi o quão habilidoso é o filme. Ao ver Aléx chegar em seu pequeno apartamento nos EUA, e ambos perceberem que a coisa é mais difícil do que eles haviam imaginado, o filme já havia me aproximado tanto de ambos que fica cada vez mais complicado vê-los ter de lidar com a distância.

E é justamente dessa distância que 10.000 km se refere o tempo todo. Ela não é só literal. Muito do que ambos os personagens acabam se referindo quando conversam sobre o seu relacionamento é sobre como a distância parece intransponível. Não é só um atlântico de diferença, vale dizer. Muito do espaço que se cria entre os dois se dá justamente pelas memórias que um nutre do outro, que se aventuram no meio dos dois, de seus cotidianos. O espaço entre duas pessoas em um relacionamento é sempre o melhor tema de um filme romântico (no supracitado Ela, por exemplo, o espaço entre Theodore e Samantha é justamente o que os une e que os condena) e 10.000 km usa ele tanto em texto, na distância física entre seus personagens, e no subtexto, quando explora o que os leva a acabarem se provando sempre, buscando entender até onde o seu amor aguentará.

10.000 km me aproximou tanto de seus personagens e de toda essa situação (não é preciso ter um oceano separando você daquela pessoa que tu ama pra perceber o quanto vocês estão distantes, enfim) no que eu acho que é a melhor surpresa que eu tive com um filme esse ano. Eu jurei que ia enjoar dos planos feitos com ligações via Skype, ou com um mostrando pro outro algo no Street View, mas Carlos Márquez-Marcet, o diretor, é muitíssimo habilidoso em entregar sempre o suficiente e de conseguir tirar dos dois excelentes atores o sentimento de seus personagens só na respiração.

O final simplesmente me trai, muito porque ele é preguiçoso no que ele tinha construído até ali. Mas o final é só a maior prova do quanto 10.000 km consegue te deixar íntimo de Aléx e Sergi, e o quanto você gostou de passar esse tempo junto com eles. Vai ver é porque nós, ao menos, podemos nos dar o luxo de nos sentirmos próximos de alguém.

Looking é uma das grandes séries que você não assistiu

É uma série sobre grandes temas, mas pequenos momentos.

Looking foi sempre difícil de amar, e eu entendo isso. Como o único seriado americano centrado em personagens gays, sua responsabilidade de representar era gigante. Estreando como uma grande decepção pelo seu ritmo lento, seus personagens não muito carismáticos e com a impossível missão de representar toda uma comunidade em trinta minutos, Looking perdeu muita gente logo no primeiro episódio. Quem sobreviveu a ele, porém, deve ter se sentido presenteado.

Narrando a história de Patrick, um cara de quase trinta anos na São Francisco, e seus dois amigos – o artista e auto-destrutivo Augustín e Dom, que tem um pouco mais de idade mas luta para aceitar isso —, Looking não se propõe em ser um discurso gay, um manifesto de aceitação. Desde seu primeiro episódio, o seriado buscou ser sobre a vida de três pessoas que buscam por algo, alguma certeza, alguém. Algo, é difícil até de explicar o quê. É, enfim, uma série sobre qualquer um. Todos buscamos algo. Nós só não sabemos o que é.

Por isso, vendê-lo como o Girls gay talvez tenha sido um erro. Girls é sobre um grupo de jovens mulheres também tentando crescer na vida, em se sentirem mais seguras e se aceitarem. Girls, porém, é frenética, encontra obstáculos e seus episódios são quase lúdicos em relação a como enfrentá-los. Looking olha para o outro lado, buscando encontrar algo real. São episódios cheios de conversas, rotinas de trabalho e erros. Patrick, Augustín e Dom erram muito. Erram até sentirmos raiva deles. E então nós nos enxergamos ali, afinal entendemos esses erros porquê, bem, nós já os cometemos, continuamos a cometê-los e sabemos dessas consequências.

Claro, não é a toa que a série se centra em três personagens gays. Como em Weekend, o filme de Andrew Haigh (que também escreve, dirige e produz a série), a série é sobre o espaço entre duas pessoas e a luta que devemos ter, com as outras e conosco, em encontrarmos o que nos separa e decidir se devemos nos aproximar ou não. É essencial na comunidade gay que Looking retrata: a luta é muito exterior, uma luta por direitos, por uma aceitação e por igualdade, mas ela também é essencialmente interior; o arco de Patrick, por toda a série, é de “saber” se aceitar como gay, de não ter que olhar em volta quando beija aquele que ama, de poder se sentir feliz em ser quem é. Coisa que seus amigos já sabem e já enfrentaram — e, por isso, enfrentam outros problemas.

Looking sabe como tratar essas grandes questões sociais. Não há episódios centrados, por exemplo, em pregação de aceitação, de precauções contra a AIDS, de retratos de discriminação; mas está tudo lá, nas margens. Também como em Weekend, Haigh mostra que, para seus personagens, o preconceito está ali, onipresente, mas não os definem. É um passo importante, o de não se centrar nesses aspectos. Os personagens de Looking sabem e entendem todo o preconceito que os contorna, mas que faz exatamente isso: vive nas margens, como os assovios ou os gritos de “viado”, ou as piadinhas com queer. É um modo delicado, e corajoso, de retratar uma realidade.

Tais grandes temas, porém, são tratados com detalhes tão íntimos e pequenos. As conversas entre os personagens são tão francas, e suas reações são tão pequenas e tão honestas, que talvez seja difícil perceber um gesto facial, um tremor na voz. Looking se preocupa com o íntimo de que cada personagem está sentindo, e então se demora em exibir um olhar perdido, um toque, uma confusão de fala. É um seriado que trata grandes questões em pequenos momentos. Em detalhes, até.

Claro, Looking é lenta, e até exibir essa sua beleza (no belíssimo episódio Looking for the Future), grande parte do público já tinha pulado do barco. Pouco se evolui na série, os personagens são pessoas intrinsicamente perdidas e confusas (como todos nós somos), e é uma situação que não muda. O que muda são nossos conflitos e nossos planos, mas a confusão e a busca são eternas. E, assim, após uma tremenda segunda temporada, em que episódios poderiam ser facilmente excelentes curta-metragens, de tão bem construídos e pensados, Looking é cancelado.

É de se esperar, claro. O final da segunda temporada é delicado, mas simplesmente espetacular. Ao som de “Simple Man” do Graham Nash, vemos Patrick finalmente dar um salto no escuro, em tatear o incerto e decidir por si mesmo, sem pensar nos outros. A série acaba num fabuloso plano.

Qual a necessidade do filme que vai estrear nesse sábado na HBO, então? Bem, não muito dramaticamente; mas Looking: O Filme é, principalmente após o tiroteiro em Orlando, quase que um belíssimo, excepcional discurso de se compreender e de, finalmente, se aceitar em todas as suas dúvidas. Todos são humanos, afinal. Todas essas dúvidas são válidas. Looking: The Movie é necessário para finalizar, mas mostrar que nunca vamos encontrar aquilo que buscamos, mas que isso não nos deve impedir de tentar.

Como tudo no seriado, o filme se dedica a mostrar, nos detalhes, como todos ali não sabem muito bem se os caminhos que eles estão escolhendo são o que eles querem. Augustín define, em uma frase: “É difícil perceber que eu sou tão diferente daquilo que eu esperava ser”. Esse é o sentimento de Looking e do filme, perfeitamente definido. A decepção, mas a eterna descoberta, de saber quem você é. É triste, mas também uma surpresa. E aí mora a magia de Looking. Em nunca saber, mas sempre descobrir. Se somos bons ou ruins, pouco importa. Ao menos estamos procurando algo.

E, por isso, Looking é essencial.

Acordei Vomitado é, antes de qualquer coisa, sincero demais

Terça-feira tive a oportunidade de encontrar um velho amigo e compartilhar com ele, como fazemos há anos, nossas últimas descobertas culturais. Ele me apresentou o livro que estava lendo, uma série da TV francesa que parece gostar bastante (e que fiquei interessado em conferir); enquanto eu apresentei a ele Esperando Godot (de um jeito melhor do que o jeito que eu apresentei a vocês), alguns filmes e uma música nova.

Eu não me lembro de ter me divertindo tanto em apresentar uma música.

Acordei Vomitado é a nova música d’Os Croquetes, uma banda que eu não tenho ideia da história nem de trabalhos anteriores; mas ela chegou ao meu WhatsApp (realizando a profecia do Wilco de que as pessoas não se reuniriam mais para apresentar músicas uns aos outros) e, depois disso, chegou ao YouTube e é disso que vou falar hoje.

No início da internet gaúcha havia uma fanzine formada por estudantes universitários em Porto Alegre, que publicavam texto e divulgavam os textos uns dos outros. O Cardosonline era produto de jovens que vieram a ser romancistas e jornalistas conhecidos depois; mas na época da fanzine eles tavam por ir na Garagem Hermética, beber Polar sempre que podiam; e, claro, passar mal por alguma péssima escolha na orla da Redenção.

Porto Alegre, mesmo com seus problemas, sempre foi muito eficaz em criar mitologia. A importância que é dada para certos lugares e regiões da cidade ajudam nesse processo. Acordei Vomitado, se você não estiver ciente dos lugares que ele descreve, pode parecer só um bando de nomes. Para quem vive ou habita os espaços, porém, aí está uma música que consegue refletir, com exatidão, as noites ferrenhas e depressivas, porém sempre bem humoradas em retrospecto, que o Cardosonline descrevia lá no final dos anos 90, e que Os Croquetes conseguem ainda refletir, porque o modo de vida ainda obedece essa mitologia.

Eu não entendo muito de como explicar porque uma música é boa, então posso comparar o som d’Os Croquetes com um Spiritualized menos eletrônico, se é que dá pra entender. A beleza do som de Acordei Vomitado está, porém, no quão precisa é a letra. O trajeto, especificado com clareza e sinceridade pela música, é conhecida em Porto Alegre, e quem conhece ela provavelmente já passou pelo Bambus como os integrantes da banda descrevem. Não tente negar, não é vergonha pra ninguém. Acordar vomitado é quase que um rito de passagem.

Acordei Vomitado não é, porém, bairrista, como muito do rock gaúcho me incomoda por ser. Claro, você precisa frequentar a Cidade Baixa, subir para o Bom Fim e acabar a noite por ali para entender a psicogeografia da música. Acordei Vomitado não gasta tempo explicando as poéticas do espaço, mas a sua precisão com os adjetivos coloca qualquer um naquele lugar. Quando meu amigo terminou de ouvir a música, depois de uma audição bem divertida (Os Croquetes são, acima de tudo, divertidíssimos), o seu comentário foi o único possível depois disso. Cito tal qual ouvi: “Esses cara deviam tá com os olhos que eram umas bolita”. Aí mora a beleza de Acordei Vomitado. Você se coloca na situação, não só da música como na de seus compositores. É como conseguir sentir o furor criativo dos primeiros tempos do Cardosonline, é como saber a empolgaçào depressiva na VU de Curitiba. Quando um bom narrador te conta uma história, por mais pessoal ou inexplicável que seja, ela se torna em muito sua.

E, eu não sei vocês, mas eu acordo vomitado mais vezes do que eu gostaria. Finalmente uma música dá justiça a isso.

Kentucky Route Zero: Ato IV é desesperador

Kentucky Route Zero é uma tragédia. E todas as tragédias acabam do mesmo jeito.

A balsa finalmente chegou. Depois de dois anos, Kentucky Route Zero, Act IV foi lançado na última terça-feira. O jogo começa logo onde o terceiro ato acabou em 2014: você está atravessando o subterrâneo Rio Echo em busca da Dogwood Drive, a rua indicada na encomenda que Conway precisa entregar.

Se você quer saber a minha opinião agora, eu posso te dizer: a espera valeu cada segundo.

Kentucky Route Zero cresceu muito nesses três anos em que está sendo lançado (o primeiro ato foi distribuído no início de 2013), mas sua história continua bastante intimista. Seguimos Conway, um entregador de antiguidades que precisa levar uma última encomenda ao seu destino, antes de se aposentar por motivos de negócios não irem bem. Logo no primeiro ato ele cruza seu caminho com Shannon, uma reparadora de televisores que, também, está perdendo o emprego. Ambos precisam encontrar a rota que dá nome ao jogo, enquanto cruzam com figuras únicas nas ruas, e cavernas, de Kentucky.

Prepare-se, porém. Se os três atos anteriores eram um crescendo constante, Kentucky Route Zero, Act IV é um baque. Há muito o que explorar aqui para remontar as histórias que foram apresentadas antes. Personagens novos nos dão novas interpretações sobre os acontecimentos (inclusive da morte de Charlie, em uma cena fantástica), os contos de Here and There Along The Echo, (nosso jogo favorito do ano passado) ganham vida própria e, claro, novas palhinhas do que está por acontecer no último ato.

Se algo pode ser dito sobre Kentucky Route Zero, Act IV sem revelar muito do enredo, é que ele se preocupa, agora que passamos do clímax do jogo e esperamos o dénouement, em nos deixar nos mesmos pés de nossos personagens. Não é por nada que muito do jogo se passa, diferentemente dos atos anteriores que víamos a ação por cima ou consideravelmente distantes, no mesmo nível dos personagens, vendo-os muito mais próximos. Act IV é desesperador. A noite está acabando, mas dentro da caverna não há luz. Ezra não sabe para onde ir. Shannon começa a racionalizar suas ações. Junebug e Johnny parecem ser os únicos calmos na situação.

Não se engane, porém. Tudo está ruindo.

E assim, nesse tom desesperador e quase apocalíptico que encontramos, e deixamos, os personagens em Kentucky Route Zero, Act IV, o jogo finalmente iguala a atual situação do mundo endividado de Kentucky com os sentimentos de seus personagens. Não é mais a melancolia que os bate, mas a fúria de se sentir amarrados, tentando resolver seus problemas, mas cada vez se prendendo mais. Kentucky Route Zero não está brincando em serviço. E, pelo visto, nem Conway. As coisas estão ficando feias para todos os lados. Kentucky Route Zero, agora, é o nosso reflexo.

Não há muito o que dizer sobre Esperando Godot

Esse é um péssimo texto sobre o melhor livro que eu já li na minha vida.

Então, o post hoje talvez seja curto demais. Difícil eu te confirmar, mas acho que vai ser.

A dica de hoje é um livro. Na verdade, é uma peça. Então, a dica é dupla.

Esperando Godot. Você já leu? Se já leu, deve entender. Não tem muito o que ser dito, né? Na verdade, tem muito o que ser dito, mas é difícil. Deixa eu ver por onde começar.

Bem. Tenho que começar por aqui: Esperando Godot é uma obra-prima. Não tem outro jeito de falar. É estranho, porque tu termina o livro e simplesmente sente que essas últimas horas lendo ele (ele é bem curtinho) te fazem ter certeza de que, sim. Você estava com uma obra-prima nas mãos.

O que te faz sentir isso? Bem, aí que é difícil de explicar. Esperando Godot é diferente de tudo que você vai ler, mas também não é isso que mostra o seu poder. É algo que está ali dentro, escondido, pronto pra te pegar.

Tá difícil. Deixa eu tentar de novo.

Esperando Godot é uma peça escrita por Samuel Beckett e encenada pela primeira vez em 1953. Na peça, nós acompanhamos Vladimir e Estragon, duas pessoas que estão, bem, esperando Godot. A peça é basicamente isso. É muito mais, também. Esperando Godot é o principal trabalho do chamado “teatro do absurdo”.

Bem. Definir o absurdo é, basicamente, definir Esperando Godot. O absurdo é, em termos leigos, o nome que a gente dá a duas forças intrinsicamente humanas: a de uma busca incessante de buscar o valor e o sentido dos acontecimentos da vida; e a nossa incrível incapacidade de nunca encontrar. Agora, tente imaginar o que é sentir isso nas quase duzentas páginas de Godot. É, é exatamente assim que eu me senti.

Eu poderia passar parágrafos e parágrafos aqui tentando te explicar todos os sentimentos, interpretações e dinâmicas que eu explorei ao ler Esperando Godot. Tudo seria completamente desnecessário, porque só de eu imaginar em escrever isso, tudo perde a força. O que eu posso, seguramente, te recomendar é que a leitura de Esperando Godot pode não mudar sua vida, mas certamente vai te acordar. Nem que seja naquele tempo da leitura.

O que eu posso te dizer com certeza é que, nessas quase duzentas páginas, Esperando Godot me quebrou. Ele não é confuso, ele não é difícil, ele não é previsível, ele não é fácil. Esperando Godot ignora completamente qualquer classificação que eu queira dar pra ele. É, como o absurdo no qual foi escrito, uma verdadeira força. Ele me destruiu em vários pedaços, os escondeu e me fez procurar. É a experiência mais única que eu tive. Eu jamais vou esquecer. Ainda bem que Godot não chegou, porque eu quero ficar esperando ele por muito tempo.

Uma noite de verão em A House in California

O som de grilos em uma noite. Parece que vai chover depois. Uma criança fala para a avó que está muito escuro. Ela não consegue dormir.

Assim começa A House In California.

Criado por Jack Elliott antes de fundar a Cardboard Computer, A House In California é um jogo de aventura de apontar-e-clicar em que você é um garoto na bendita casa em Califórnia. A casa é de seus avós, e há uns vaga-lumes por lá. Tem a lua, também.

Como todo o bom apontar-e-clicar, A House In California possui cenários em que o personagem possui algumas opções para explorar. O primeiro é o da casa, que tem a lâmpada, os vagalumes e a lua. Nesses ambientes você possui algumas opções de ação diferentes. Clique em “Ver” e depois na casa, por exemplo. Você pode clicar em “lembrar” e clicar nos vagalumes. “Esquecer” a lua, “Pegar” a lâmpada, e assim por diante. Você escolhe a ação. O jogo responde com uma frase, as vezes uma lembrança, as vezes um sonho, as vezes um enigma. A partir daí, a jornada vai ficando cada vez mais mágica, e o jogo se revela em frente ao jogador.

A House in California se revela lentamente ao redor do seu jogador e do personagem que esse controla. Você vai para ambientes distintos e decide esquecê-los, ou lembrá-los, e o jogo se transforma num conto de ninar, ou num sonho ou, ainda, na lembrança de um sonho. Tudo depende de como você vai decidir explorar (e, pricipalmente, sentir) os ambientes e os objetos ao seu redor.

Se você já jogou algum dos atos de Kentucky Route Zero, ou até mesmo algum de seus interlúdios, deve ter reparado nas semelhanças. Elliott emprega alguns recursos bastante semelhantes, como o de objetos que mudam de significado quando você os “percebe” de outra forma no jogo, ou como um ambiente muda a narrativa basicamente sendo descoberto depois, dependendo do caminho que você escolhe seguir. Mas, mais que isso, A House In California exibe a sensação que é jogar Kentucky Route Zero por excelência: a de se sentir preso em um sonho que é, na verdade, uma lembrança, e não conseguir distinguir o que aconteceu de verdade e o que é apenas um truque de seu cérebro.

Como nos melhores momentos de KR0, A House In California vai um pouco além. É aí que o jogo começa a te confundir. Não pela história confusa (ela é, na verdade, bem simples). Mas ao construir uma jornada tão pessoal e tão simples, o jogo começa a nos confundir em o quê faz parte da experiência do personagem e o que é a nossa própria experiência. O quanto das lembranças que estamos buscando são, na verdade, lembranças nossas.

E é aí que A House In California chega: em você.

The Night Of é insuportável de linda

The Night Of começa com uma sequência de títulos bem clássica. Faz tempos que a HBO começou a apostar em grandes aberturas pras suas séries de drama, contrariando a onda de títulos curtos que outras emissoras vinham fazendo. Ela não é mais bonita, por exemplo, como as duas aberturas de True Detective. A gente compara com True Detective naturalmente, aliás. Essa minissérie (embora ja se fale em segunda temporada) veio, muito discretamente, ocupar o espaço que seria da terceira temporada da antologia de crimes escrita pelo Nick Pizzolatto.

Adivinha: ela faz muito mais que isso.

Eu nunca vi a segunda temporada de True Detective. Todo o mundo que viu me disse que ela era horrível (eu não faço hate watch, então evitei ver). Eu já achava a primeira temporada, embora muito bonita e bem dirigida e bem atuada, cheia dos problemas narrativos (sério, aquele pessimismo e machismo era bastante chato), então provavelmente nunca vá me ouvir falar que aquela sequência na cena do crime do episódio oito é a melhor coisa que já se fez na TV. Eu não acho. Mas a HBO exibiu o primeiro episódio de The Night Of e, eu preciso dizer, que essa já tem a chance de ser a melhor série do ano.

The Night Of possui oito episódios e se começa na noite em que Naz, um descendente de paquistaneses na Nova York de 2014, pega o táxi emprestado do pai para ir para uma festa, quando acaba dando carona para uma mulher que aparece no táxi. Eles passam a noite juntos, transam, usam drogas. Ele acorda, horas depois, e ela foi brutalmente assassinada. Naz foge do local, e assim ele se transforma no principal suspeito.

Isso é uma parte do primeiro, e irretocável, episódio de The Night Of. Se desenvolvendo de forma devagar, como um bom romance policial, a série não se apressa em revelar detalhes ou em exibir grandes cenas de ação. Pelo contrário. Boa parte de “The Beach”, o piloto, trata da vida de Naz, como ele é tratado nos Estados Unidos que ele nasceu mas que não se sente parte, cheio de disparidades raciais, étnicas e de classes. A Manhattan de The Night Of é hostil e sombria. As vezes até selvagem. Ela lembra um pouco The Wire. Parece que você pode respirar o vento da noite.

Imagem de The Night Of. Essa é uma das séries mais bonitas da TV.

E The Night Of é mais comparável a The Wire que True Detective justamente pela maturidade que ele apresenta. Olha como a série usa o suspense e a tensão muito mais pra mostrar seus personagens presos em sistemas que os forçam a fazer escolhas questionáveis, ao invés de ir pro lado do suspense de impacto, da surpresa. Com o decorrer do primeiro episódio, Naz vai desaparecendo atrás de um pesado sistema judicial, ficando preso naquilo que fala. Caralho, ele vai se ferrar feio.

O interesse de The Night Of pelo processo judicial (assim como The Wire, na sua primeira temporada, tinha pelo processo de investigação) é meticuloso, e isso é o que parece dar o ritmo da história. Poucas séries, inclusive da HBO, parecem tão interessadas em gastar o seu tempo nos detalhes: os processos judiciais são exibidos em detalhe, sem nunca se tornarem maçantes, e cada personagem possui muito tempo de exploração e apresentação. Quando Naz faz as escolhas erradas que ele faz, a gente não só sabe como ele vai se ferrar por isso, mas a gente entende o sentimento que o impulsionou a fazer o que fez.

No seu núcleo, The Night Of ainda é um suspense sobre quem cometeu o crime (o chamado whodunnit). Mas ele é tão interessado em quem cometeu o crime quanto as pessoas envolvidas por toda a investigação. Seja o Naz, o advogado John, os policiais Box, Klein, Chandra, e até mesmo os outros suspeitos. Cada um desses personagens possui uma vida fora desse caso policial, e é interessantíssimo como ele joga com isso no primeiro episódio (e vai ser ainda mais interessante ver o que vai ser feito após). Embora boa parte das vidas dos acusados e dos advogados parem de acordo com o caso, muito de suas crises pessoais, seus problemas físicos ou sua aparência dependem daquilo que estão vivendo.

The Night Of começa com um episódio impecável, o melhor que a TV exibiu durante todo esse ano. Com um começo tão brilhante assim, vai ser difícil a série continuar no ritmo. Mas isso vai ser empolgante: se The Night Of continuar desse jeito, ela já tem um lugar na história dos grandes seriados policiais da história. Esse neo-noir tem um dos melhores elencos da televisão, uma realização que só a HBO consegue produzir, e uma história envolvente, importante e instigante. Eu tive que parar um pouco após terminar “The Beach”. Isso é televisão perfeita.