Posts marcados com listas

Nas Listas os padeiros elencam as melhores coisas sobre qualquer coisa. Desde os melhores livros do ano até as melhores sopas do cinema. Parece vago? Geralmente é.

Jogos para terminar em uma jogatina

O Fabrício Aguiar, autor do blog 16 Bits da Depressão, fez uma lista com dez jogos para se jogar em uma jogatina. A lista inclui jogos bem narrativos, como What Remains of Edith Finch, e metroidvanias como Gato Roboto.

As experiências mais intensas e memoráveis que tive com videogames foram de jogos que terminei em uma ou duas sentadas na poltrona. Possivelmente, você já tem alguns exemplos em mente.

Aqui, trago alguns exemplos: jogos curtos e intensos para você sentar na poltrona e se divertir terminando-os em poucas horas!

Um dos jogos dessa lista é Portal, e esse foi o primeiro jogo que me veio em mente quando eu li o título do post do Fabrício. Eu lembro até hoje de comprar o The Orange Box porque eu queria muito jogar Half-Life 2, mas no fim das contas eu passei uma tarde inteira jogando Portal, um jogo de puzzle que dura apenas algumas horas, mas que me marcou muito porque seus níveis são muitíssimo criativos, e a GLaDOS é uma excelente personagem. Hoje em dia ele já é um clássico, mas foi demais entrar de cabeça nesse jogo sem ter ideia do que podia ser.

Essa lista me fez sentir falta de duas coisas: de ter mais tempo para conseguir terminar jogos em uma sessão; e de jogos que podem ser terminados em uma sessão. A maioria dos jogos que eu experimentei ultimamente são gigantes. Alguns são magníficos e eu não tiraria um segundo sequer da experiência, mas eu sinto falta de descobrir um jogo como Portal que pega uma ideia simples, experimenta ela em um punhado de cenários variados, mas que consegue criar essa experiência em duas, três horas.

Devem ter muitos jogos assim por aí. Eu mesmo joguei vários, mas eles costumam ser mais jogos narrativos como Firewatch e Gone Home ou Kentucky Route Zero. Jogos são experiências que são muito questionadas pelos seus consumidores — eles são caros, e as pessoas demandam um mínimo de conteúdo “aceitável” pelo preço. Mas esse mínimo anda tão grande hoje em dia… jogos de mundo aberto são tão comuns que eles deixaram de ser um “evento”. Qualquer jogo pode ser maior do que GTA 5 agora, mas será que todos precisam ser?

Enfim, a lista do Fabrício me deu umas boas dicas do que jogar pra coçar essa minha vontade de jogar uns jogos que eu finalmente vou poder terminar. Minha lista dos que eu comecei mas que nunca vou terminar já está grande demais.

Qual a melhor dupla de jogos Mario & Zelda?

Esses dias, enquanto eu terminava de jogar um dos Metroid Prime para fechar a trilogia de ranking das três franquias principais da Nintendo, eu fiquei traçando o histórico dos jogos de Metroid, Super Mario e The Legend of Zelda de acordo com as gerações de consoles. Chegou num ponto em que eu comecei catalogar como os jogos dessas franquias pontuaram os videogames da empresa, até que cheguei nessa lista.

Esse é um ranking rápido das melhores duplas de jogos dos consoles da Nintendo de acordo com a qualidade dos jogos. A melhor dupla não significa que tem os melhores jogos das duas franquias (pra isso confira o ranking do Super Mario e o ranking de The Legend of Zelda), e sim que a média dos dois jogos é a melhor.

Eu só vou levar em conta o principal volume da plataforma — então continuações ou spin-offs não contam. Eu acabei percebendo que o GBA não teve um título original de Super Mario, então The Minish Cap acaba não entrando na lista, enquanto o Wii possui duas gerações das duas franquias, então ele entra no ranking duas vezes — e, pra complicar mais um pouquinho, Breath of the Wild aparece em dois consoles distintos.

É surpreendentemente difícil de classificar essa lista, porque quando Super Mario lança um jogo mais ou menos, Zelda lança um baita jogo, e vice-versa. A exceção é o Nintendo DS, que tem um jogo bom do Mario, mas nada demais, e um jogo completamente esquecível de Zelda. Já o Game Boy tem o melhor Zelda de todos e um dos piores Mario (se é que um jogo do Mario consegue ser ruim).

  1. DS: New Super Mario Bros. e Phantom Hourglass.
  2. NES: Super Mario Bros. e The Legend of Zelda.
  3. Game Boy: Super Mario Land e Link’s Awakening.
  4. GameCube: Super Mario Sunshine e The Wind Waker.
  5. Wii: New Super Mario Bros. Wii e Skyward Sword.
  6. Switch: Super Mario Odyssey e Breath of the Wild.
  7. 3DS: Super Mario 3D Land e A Link Between Worlds.
  8. Wii: Super Mario Galaxy e Twilight Princess.
  9. Wii U: Super Mario 3D World e Breath of the Wild.
  10. N64: Super Mario 64 e Ocarina of Time.
  11. Super NES: Super Mario World e A Link to the Past.

Não me peça pra justificar as decisões.

As séries que me fizeram companhia em 2020

Mesmo com mais tempo livre para ficar assistindo TV durante os últimos dez meses, eu não assisti muito mais séries do que em 2019. Minha grande suspeita, como eu já expliquei em agosto, é que eu não ando mais maratonando séries. Eu prefiro ver elas por semana, ou no mínimo dia sim, dia não. Mesmo assim, algumas séries realmente me ajudaram a manter um senso de continuidade em um ano onde tudo pareceu parado.

Eu não vou listar todas as séries que eu vi ou que eu comecei a ver esse ano, mas sim aquelas que eu acho que me estimularam e que eu gostei de ter feito companhia nos meus finais de tarde aqui em casa, mais ou menos na ordem que eu assisti elas.

  • Fleabag (Prime Video). Foi revendo essa série entre fevereiro e março que me fizeram voltar a escrever pro Pão. Ainda é uma das melhores séries que eu já vi.
  • The Good Place (Netflix). A última temporada acabou sem fazer muito barulho, mas o bom humor e a honestidade emocional que a série usa para explorar ideias como “o que é ser uma pessoa boa?” e “como viver feliz?” foram essenciais ali pros meses onde tudo ainda estava muito confuso.
  • Community (Prime Video e Netflix). Ah sim, eu revi Community esse ano também, como todos os anos. Mas também foi a primeira vez que eu revi Community enquanto muitas outras pessoas viam e vinham conversar comigo sobre a série. Foi algo bem especial pra mim, e me ajudou a aguentar (e a aumentar) a saudade que eu sinto dos meus amigos.
  • The Wire (HBO). Como Gilmore Girls, eu vejo The Wire todos os anos. Eu revejo essa série uma vez por ano desde 2009, quando eu vi ela pela primeira vez. É um ritual quase religioso pra mim. Acho que eu nunca vi alguma obra que consegue traçar um panorama e fazer um mergulho nos sistemas que moldam a sociedade com todas as suas armadilhas. É uma série que nos faz ter uma visão mais aguçada das coisas, e um lembrete para observar mais a fundo como a gente falhou em 2020.
  • Central Park (Apple TV+). Eu não tinha ideia que eu ia acabar gostando de uma série na Apple TV+ mas puxa vida, Central Park é divertido demais. Eu adorei como a série misturou musical com eventos nada grandiosos do dia-a-dia de uma família. Ver as pessoas se divertindo em um parque (mesmo que numa animação) me fez lembrar de como é bom caminhar por aí.
  • Betty (HBO). Essa série foi uma surpresa maravilhosa pra mim. Eu nunca pensei que ia gostar de acompanhar skatistas matando o tempo pelas ruas de Nova York, mas acabou sendo o ponto alto das minhas semanas — passar o tempo com elas é bom demais, e me fez um bem pra caramba.
  • Eu Terei Sumido na Escuridão (HBO). Eu não acredito em “guily pleasure”, então fica aí a declaração que eu amo série sobre investigação de assassinos em série, mesmo as mais bobas, mas Eu Terei Sumido na Escuridão me pegou de surpresa por virar a premissa de ponta-cabeça e não tornar o assassino em uma figura mitológica, se interessando muito mais pela visão que suas sobreviventes tinham dele, e da escritora que ajudou a resolver o caso.
  • I May Destroy You (HBO). Foi difícil ver a minha série favorita do ano, porque ela entra na pele da sua protagonista de um jeito tão desconfortável que era duro olhar pro que ela revelava da Arabella (e de mim), mas ao mesmo tempo era impossível não assistir, porque a intensidade dessa série é contagiante. Não saber o que vai acontecer na cena seguinte era o lampejo de imprevisibilidade que eu precisava.
  • Gilmore Girls (Netflix). Eu decidi rever Gilmore Girls com mais calma esse ano, porque eu acabei usando a série como uma muleta nos anos anteriores e eu precisava cuidar um pouco mais de mim e não me deixar fugir para Stars Hollow na primeira oportunidade. Mesmo assim, eu continuo visitando minha cidadezinha favorita da TV uma vez por semana. É sempre bom.
  • Perry Mason (HBO). Fiquei preocupado que os primeiros episódios de Perry Mason eram muito “TV prestígio”, mas o terceiro episódio chegou e a série me ganhou com seu interesse em ir além do protagonista-trágico. São poucas as séries hoje que conseguem ter o fôlego de deixar seus personagens coadjuvantes terem suas próprias trajetórias. Mal posso esperar pela segunda temporada.
  • Enlightened (HBO). Se você lê A Baguete já sabe que eu quero escrever sobre esse clássico cult de duas temporadas, mas a versão resumida vai aí: Laura Dern se destrói inúmeras vezes nessa série, mas é em todas as novas maneiras que ela encontra para se reconstruir que mora a beleza.
  • The Mandalorian (Disney+). Eu gosto bem mais da primeira temporada porque ela não tenta ficar conectando tantos eventos à Saga Skywalker, mas Pedro Pascal sendo o pai de um bebê Yoda em uma série bem episódica como há tempos não víamos é tudo de bom. Mal posso esperar pra rever o Mando em dezembro.
  • The Americans (Prime Video). Chegou no finalzinho do ano, e é o que eu tô assistindo agora. Impressionante como eu não escrevi sobre The Americans ainda por aqui, porque quando ela estava no ar há uns anos era algo que eu não conseguia parar de falar sobre com meus amigos. Eu tô no início da segunda temporada agora, e amando como a série é bem sutil em transformar o drama da primeira (espiões que também são um casal com problemas conjugais) com o da segunda (pais que percebem que o trabalho deles coloca a vida de seus filhos em risco).

Meus filmes favoritos de 2020

Eu comecei o ano querendo refazer um projeto que fiz no longínquo ano de 2013 de assistir um filme por dia e escrever um pouquinho sobre ele. Não acho que tenha sido um bom ano pra fazer essa escolha, aconteceu tanta coisa por tanto tempo que foi difícil de me concentrar pra ver filmes quando o mundo parecia acabar umas três vezes por semana, em média.

Mesmo assim, 2020 trouxe um bocado de filme bom. Eu tava comentando com uma amiga esses dias sobre isso. Eu passei os últimos dois ou três anos meio que iludido com cinema, numa espécie de exaustão. Eu via a maioria dos filmes por obrigação e não por curiosidade, como eu costumava assistí-los naqueles anos em que eu assistia filmes demais. Mas esse ano foi diferente. Esse ano teve tantas descobertas e estreias boas, que eu voltei a ficar curioso pra assistir os filmes que me recomendavam ou que eu lia sobre. Foi um péssimo ano pro cinema, mas foi um bom ano de filmes.

Foi, também, um ano complicado para eu resenhar filmes. Eu tenho cada vez mais dificuldade de escrever críticas em si1, e muito do que eu tenho a dizer sobre meus filmes favoritos do ano são observações bem mais pessoais. Por alguns meses eu fiquei batalhando essa sensação para encontrar algo que eu pudesse resenhar, mas no fim das contas eu acabei desistindo. Eu acho eu não sou um bom crítico, que consegue ver o lugar de uma obra no contexto em que ela foi criada, mas me acho um bom observador de alguns aspectos da cultura. O que você vai ler aqui são muito mais observações do que fazem esses filmes especiais pra mim, do que avaliações sobre como eles fazem.

Uma última observação, como toda a lista de filmes precisa ter. Essa lista compreende os filmes assistidos em 2020 que a gente pode considerar como “estreias”, então alguns filmes de anos anteriores que só foram lançados em 2020 podem acabar entrando nela. Eu costumo fazer uma segunda lista de descobertas, com filmes lançados em outros anos e que eu descobri agora, lá no Letterboxd.


Retrato de Uma Jovem em Chamas (Céline Sciamma, 2019)

Eu me apaixonei por Retrato de Uma Jovem em Chamas como eu me apaixonei pelos meus outros filmes favoritos: de supetão, sem perceber.

Eu não tinha ideia do que eu estava prestes a experimentar, e o clássico instantâneo de Céline Sciamma tirou meu chão. Uma história de amor e de idílio, de descoberta e de afirmação, em que três pessoas conseguem criar um lugar onde elas podem estar livres de todo o resto, e descobrir o que é amar — porque era assim que histórias de amor precisavam ser vividas há não muito tempo.

Eu não sei o que eu esperava antes de assistir Retrato de Uma Jovem em Chamas. Eu não esperava ser tão incapaz de falar sobre esse que é o meu filme favorito em anos, o que tirou meu chão e fez meu coração bater mais forte como Estrada da Fúria fez lá em 2015. É um dos meus grandes filmes, e se todo o resto de 2020 não deu muito certo, pelo menos isso — esse encontro desse filme comigo — é perfeito.


First Cow (Kelly Reichardt, 2019)

First Cow é aquele feito que acontece quando um grande diretor está em total controle daquilo que sabe: é o filme mais acessível de Kelly Reichardt, ao mesmo tempo que é a melhor execução de suas ideias até aqui.

É uma comédia de amigos, um filme de culinária e uma fábula anti-capitalista sobre dois amigos que decidem roubar o leite da primeira vaca à chegar no interior dos Estados Unidos para vender quitutes. Reichardt é uma mestra de pegar ideias simples e estendê-las até revelar uma experiência humana em comum. Em First Cow, ela pega tudo isso para fazer um dos melhores faroestes modernos e observar de onde o coração dos Estados Unidos veio, e quem sabe enxergar onde ele está indo. Como todo o filme de Reichardt, é revelador.


As Mortes de Dick Johnson (Kirsten Johnson, 2020)

Depois de fazer um dos documentários mais lindos que eu já vi com Cameraperson, a diretora Kirsten Johnson faz algo ainda mais legal: ela impede a morte.

E em As Mortes de Dick Johnson ela faz parecer ser fácil tornar o seu pai, o querido Richard Johnson, em um imortal, mas o documentário é um daqueles filmes que são bons de assistir, mas que escondem uma complexidade estrutural bem na nossa frente. A diretora não impedirá a morte de seu pai — a arte não nos dá esse poder — mas ao olhar ela de frente, ela tem uma daquelas epifanias que a gente acha que só um personagem do filme de Bergman jogando xadrez com a Morte pode ter: ela percebe o que seu pai é ainda quando está vivo. A morte se torna apenas mais uma etapa que Richard Johnson vai enfrentar antes dela.

Tinha tudo para ser um filme triste, mas As Mortes de Dick Johnson olha para a morte tão de frente que o filme acaba se transformando em uma ode à vida de Richard, e como a nossa oportunidade de sermos humanos nesse mundo é tão breve e especial. A forma como Johnson faz a morte de seu pai se transformar em um paradoxo temporal com seu final é um dos maiores feitos que eu já vi em um filme.


Lovers Rock (Steve McQueen, 2020)

Eu sabia que Steve McQueen sabia filmar a beleza. Por mais sombrios que sejam seus filmes, eles sempre possuem esses breves lampejos de beleza e de felicidade. O que eu não sabia era que Steve McQueen poderia mergulhar nessa beleza e nessa felicidade e fazer um dos filmes mais lindos que eu já vi.

Um filme-protesto escondido dentro de um filme de festa (parecido com o que US Go Home fez, mas ainda mais belo e mais furioso), Lovers Rock é uma noite na vida de uma festa da comunidade de West India em Londres, e como o simples fato de se sentir feliz é um necessário ato de rebeldia, em que cada dança que McQueen captura em seus planos longuíssimos é um ato revolucionário. E ainda tem espaço para o amor que surge em um júbilo desses.


Soul (Pete Docter e Kemp Powers, 2020)

Cai para Pete Docter a responsabilidade de fazer a Pixar voltar às premissas criativamente ilimitadas, e o resultado é o melhor filme do estúdio desde Divertida Mente — uma jornada belíssima em busca do que move nossas vidas no mundo. Como o filme anterior de Docter, Soul traduz conceitos difíceis em jogos visuais criativos e em um bom humor afiado, mas é na jornada do músico/professor Joe Gardner em entender o que é (e os limites) do propósito e de nossa missão na vida que Soul mostra seu melhor lado. É um dos poucos filmes de 2020 que eu queria que fosse mais longo.

Além disso, é o filme que mais dói assistir em 2020. A Nova York que a Pixar cria aqui é repleta daqueles detalhes que nós observamos no nosso lar quando nos sentimos vivos: a conversa de pessoas estranhas na rua, o farfalhar das árvores, os encontros do acaso… Soul é uma ode aos verdadeiros momentos que definem nossas vidas, e bate forte quando Joe finalmente abre os olhos para toda essa vida ao redor dele.


Uma Vida Oculta (Terrence Malick, 2020)

Depois de uma década explorando um cinema mais improvisado, Terrence Malick volta ao cinema narrativo tradicional com Uma Vida Oculta, seu filme mais coeso desde Terra de Ninguém, em que retrata a vida e o cárcere do fazendeiro Franz Jägerstätter, que se recusa a expressar seu apoio por Hitler na Áustria em meio à Segunda Guerra.

Mas Uma Vida Oculta não deixa de ser um filme puramente malickiano, que traz a forma mais orgânica dos seus filmes mais recentes e os eleva à beleza de imagem alcançada em seus clássicos como Além da Linha Vermelha e Cinzas do Paraíso. Malick usa essa beleza inquestionável (a natureza parece se curvar à própria beleza em determinados momentos) para ressaltar a brutalidade do mal, aquele visível e invisível, e enxergar as pequenas ações heroicas que precisamos fazer para lutar contra ele.

Demorou quase uma década para Malick encontrar seu ritmo de novo, mas o encontrou em um dos seus melhores filmes, e o mais pungente até aqui.


A Despedida (Lulu Wang, 2019)

Chegando atrasado por aqui e sendo lançado direto em streaming, A Despedida é um dos melhores filmes que eu vi esse ano e uma das minhas maiores tristezas: Lulu Wang é uma diretora que preza pelos close-ups, mas aqueles close-ups onde cada detalhe do rosto é subitamente interessante e revelador, e não poder assistir esse filme na tela grande que ressalta esses traços é de partir o coração.

A Despedida pega uma história (real) um tanto absurda — a mentira que a família precisa contar para a matriarca, que está com câncer, para ela não precisar se preocupar com a vida — e revela com carinho e fascinação uma dessas realizações difíceis de termos na vida: que fazer parte de uma família é um jogo simples e complexo ao mesmo tempo, que ser parte de uma herança cultural é algo difícil de compreender, mas fácil de ser. E faz tudo isso de uma forma orgânica e emocionalmente honesta.


Undine (Christian Petzold, 2020)

Christian Petzold é um dos meus diretores em atividade favoritos, e depois das obras-primas Fênix e Em Trânsito ele decidiu fazer um dos experimentos que eu mais gosto: recontar um mito antigo nos dias atuais.

Em Undine, isso não parece acontecer, até que acontece. Undine é uma historiadora nos museus de Berlim, contando do passado da cidade para turistas e estudantes. Mas quando um imprevisto acontece o mito a alcança, e Undine explora como mitos como esse podem funcionar — e até mesmo revelar facetas novas — em um mundo que há muito tempo já se desencantou por eles.

Undine está longe de ser um dos grandes filmes de seu diretor, ao mesmo tempo que é inconfundivelmente um filme de Petzold: não há um plano a mais, uma cena desnecessária, embora o filme nunca pareça estufado ou correndo para dar conta de tudo o que precisa falar. É um filme orgânico, em que um mestre explora um novo gênero para onde ele pode estender suas imagens enigmáticas e seus temas favoritos.


Adoráveis Mulheres (Greta Gerwig, 2019)

Greta Gerwig comprova que é uma das melhores novas diretoras hoje com sua adaptação corajosa de Adoráveis Mulheres, que reconstrói eventos do livro oferecendo uma nova ênfase.

É um amadurecimento técnico e temático de Lady Bird e Frances Ha, mas que só ressalta o que Gerwig sempre teve: um conhecimento máximo de como fazer todos os personagens em cena importarem, e como levar os pequenos confrontos que compõem a vida deles no filme com a importância necessária. Adoráveis Mulheres comprova o domínio completo de Gerwig sobre seus filmes, e sua herança de Jonathan Demme.

Assim como o diretor de Silêncio dos Inocentes, Gerwig pode desorientar a história, mas nunca o espectador. Adoráveis Mulheres remonta os eventos dos dois livros de Louisa May Alcott para abrir os desejos e frustrações de seus personagens de forma mais dinâmica. O que torna seus sonhos mais bonitos, e suas frustrações mais difíceis.


American Utopia (Spike Lee, 2020)

David Byrne não tem mais um, mas dois dos filmes concerto mais mágicos do cinema. Com American Utopia, ele se une ao diretor Spike Lee para adaptar seu show-transformado-em-peça-na-Broadway em uma reafirmação de sua carreira. Um espetáculo ao mesmo tempo realista e otimista em relação ao estado das coisas nessa desgraceira de ano, que vê tanto onde falhamos quanto o que podemos fazer para reconstruirmos o que for necessário agora que a era Trump parece acabar.

E, além de tudo isso, é um bocado de música boa. É como passar um tempo bom com seus amigos lembrando de bons momentos. As letras enganosamente simples de Byrne revelam a exaltação que é estar vivo, e se tem um momento em que a gente precisa lembrar como é lindo e estranho poder experimentar a vida, é quando ela parece tão distante como agora.


O Preço da Verdade (Todd Haynes, 2019)

Duvide de quem achar que O Preço da Verdade é um filme menor de Todd Haynes. Tem seus problemas na forma de “filme baseado em fatos reais”, mas Haynes é um desses diretores que consegue exprimir na tela a decomposição da saúde de seus personagens ao mesmo tempo que revela a podridão da cultura que os cerca.

O Preço da Verdade é também uma continuação dos temas queridos de Haynes, e observa como os tentáculos de mega-corporações regem nossas vidas não através do mero didatismo, mas de como o corpo e a mente de seus personagens definham enquanto o processo legal contra uma empresa química se prolonga por anos. Embora seus eventos sejam bem antes da era Trump, Haynes parece preciso em seu ataque: os efeitos de um governo que afrouxou ainda mais as rédeas de grandes corporações só serão sentidos em muito tempo — e, na grande maioria dos casos, tarde demais.


A Vastidão da Noite (Andrew Patterson, 2019)

Minha maior surpresa do ano, A Vastidão da Noite é um filme que une tantos elementos do que eu mais gosto que me faz questionar se ele não é, de fato, o resultado de uma dobra espaço-temporal.

É uma apreciação de um momento em que a tecnologia ainda estava envolta em mágica e mistério, e uma vitrine para pessoas contarem histórias. O que começa como uma noite onde eventos estranhos acontecem em uma cidade pequena se torna em um belo filme sobre compartilhar histórias sem saber se elas serão acreditadas ou não. Une-se a isso interferências no rádio, problemas de conexão e distorções de frequência em meio a uma cidade onde pode ou não existir experimentos militares, e você tem uma ficção científica fascinante e atemporal. Esse é um novo favorito cult.


O Ninho (Sean Durkin, 2020)

Nove longos anos depois do seu filme de estréia, o excelente Martha Marcy May Marlene, Sean Durkin está de volta com um drama sobre uma família às vésperas de uma implosão.

A direção fria e inabalável de Durkin (que com apenas dois filmes na carreira já conseguiu definir traços estéticos) torna a crise doméstica da família em um filme de casa assombrada muito como Andrew Haigh fez em 45 Anos — portas se fecham e se abrem sozinhas, sons ecoam pelos seus corredores…

É a dinâmica entre Jude Law e Carrie Coon, a rainha da nuance, que eleva O Ninho — ele é uma força que não consegue parar, e ela é o alicerce que até então segurou tudo na vida dele. Ao invés de deixar esses traços definirem seus personagens, Durkin permite aos atores espaço o suficiente para eles se transformarem. O Ninho captura perfeitamente a complexidade dessa dinâmica, em que sentimentos não são constantes, e são geralmente contraditórios — a raiva compartilha espaço com o amor, a insegurança compartilha espaço com o carinho.


O Som do Silêncio (Darius Marder, 2019)

Um poderoso tour-de-force de um baterista de uma banda que começa a perder a audição, O Som do Silêncio é um filme comovente, mas não porque romantiza a surdez ou a aceitação. Darius Marder observa muito mais a jornada interna de Ruben do que das pessoas ao seu redor, e apenas quando ele se abre (em uma performance arrebatadora de Riz Ahmed) que o filme nos permite ver a comunidade que ele atraiu para o seu entorno.

O Som do Silêncio é um daqueles acertos difíceis, emocionalmente maduro para não cair no clichê do “filme de superação”, mas nunca imponente demais para se tornar inacessível. É um filme que mergulha no estado de sensações de seu protagonista — com a ajuda de um design de som excelente — para observar seus anseios e suas dores de perto, e em dramas assim não precisa se dizer nenhuma palavra a mais. A jornada está toda no corpo de Ruben, que nunca escapa o olhar fascinante de seu diretor.


Kajillionaire (Miranda July, 2020)

Ao mesmo tempo o filme mais acessível de Miranda July, e sua maior conquista como diretora até aqui, Kajillionaire conta a história de uma família de golpistas mega-estranhos em Los Angeles que, ao fazer parceria com uma garota normal, veem a sua estrutura familiar ser fundamentalmente abalada.

Como os filmes anteriores de July, Kajillionaire é tão estranho quanto seus personagens, um filme que mistura comédia com melancolia e com uma forte carga emocional sobre pais e filhos que nunca conseguiram se conectar. É absurdamente bem dirigido e bem atuado, em que cada cena revela um pouco das dinâmicas que mantiveram a família unida até ali, enquanto assistimos essa dinâmica ruir. Ao mesmo tempo, July consegue modular essa estranheza a ponto de ela fazer parte da história e não interrompê-la (como aconteceu com O Futuro), fazendo o clímax do filme bater mais forte, porque a gente não consegue ver de primeira onde bateu.


Boys State (Jesse Moss e Amanda McBaine, 2020)

Quem diria que um filme da Apple TV+ estaria nessa lista, mas voilà2.

Ao final de Boys State, eu estava de queixo caído. O que começa como um documentário sobre uns garotos brincando de serem políticos termina como um triste retrato de como políticos jovens percebem o quão fácil, e como compensa, cair nos vícios de corrupção e mentira que regem aquilo que eles almejam substituir. Isso sem perder o ritmo: o evento se passa em uma semana, e o filme é dinâmico e se transforma em uma bola de neve com facilidade, com pequenas escolhas de seus personagens desembocando em momentos decisivos na corrida final. É um retrato tão inteligente e desolador do ambiente político americano atual que é difícil de não perder o chão.


A Assistente (Kitty Green, 2019)

O poderoso um dia na vida de uma assistente de um magnata do cinema de Kitty Green, A Assistente é um filme corajoso e poderoso que pode vir a definir os filmes da era do movimento #MeToo.

A forma minimalista com que o filme revela a corrupção e a sujeira do escritório torna a atmosfera de A Assistente em desoladora, e o filme não tira o pé do acelerador até o fim, em um retrato silencioso e destrutivo de como uma jovem é removida de seu poder e de sua capacidade mental de poder evitar que o pior aconteça. É desolador e essencial.


Time (Garrett Bradley, 2020)

O poderoso documentário sobre uma Sibil Fox Rich, uma mulher que luta por mais de vinte anos pela liberdade do marido, condenado a 60 anos (!) por assalto à mão armada, Time usa sua construção como uma viagem no tempo para passar pelas várias batalhas que Rich enfrenta, suas derrotas e suas vitórias. É um documentário poderoso e imenso em escopo — a própria documentada ofereceu mais de uma década de material filmado por ela mesma para o projeto —, ao mesmo tempo íntima e épica sobre o racismo estrutural nos EUA, o sistema penitenciário como resquício da escravidão e, mais poderoso ainda, o retrato de uma ausência. A ausência do marido e do pai é palpável já no início, mas o vazio que assume uma parte considerável da vida dos filhos é de partir o coração.


Mank (David Fincher, 2020)

À primeira vista, Mank é muito menos que a soma de suas partes. O drama de David Fincher sobre a escrita do primeiro tratamento de Cidadão Kane simula a estética e a estrutura do clássico de Orson Welles, mas seu impulso narrativo não têm o mesmo fôlego.

Mank funciona melhor, porém, como uma janela para todas as histórias que cruzam com o personagem principal — o filme é um excelente mapa tanto do contexto em que Cidadão Kane foi criado para ser revolucionário, quanto pros eventos que o clássico se inspira. É um filme amargo e cínico sobre a era dos estúdios de Hollywood, o machismo do star system, a corrupção política nos Estados Unidos, e sobre como o trabalho de alguns é ignorado quando cantamos os feitos de uma peça de arte. Não é um filme perfeito, e têm problemas grandes em seu último ato, mas a acumulação histórica que Mank cria, e a queda irremediável do seu personagem principal perante aqueles que ama, tornam esse um filme Fincheriano à altura, não importa o quanto ele tente simular Orson Welles.


Wolfwalkers (Tomm Moore e Ross Stewart, 2020)

Wolfwalkers une mitologia com aula de história, sentimentos selvagens com relações familiares, e faz tudo sendo acessível o suficiente para crianças. A história da amizade entre uma garota da cidade e uma garota-lobo da floresta que a cidade está destruindo são o que movem a animação belíssima do Cartoon Saloon, em que a selvageria dos sentimentos — algo que nos permitimos sentir quando crianças — é expresso em cores e movimentos belíssimos; enquanto ao fundo a invasão inglesa na Irlanda se desenvolve através do conflito cidade e natureza.

É emocionante e lindo, e aprende as melhores lições com o Estúdio Ghibli em se permitir expressar e sentir emoções grandes demais para personagens tão jovens — elas são fortes o suficiente para conseguir lidar com elas.


  1. Acho que você, meu caro leitor do Pão, já deve ter percebido isso, mas eu expliquei meus motivos pra isso lá por maio

  2. Eu escrevi isso antes de outro filme da Apple TV+ entrar. 

As minhas séries favoritas para você assistir nessas férias

Game of Thrones acabou nesse último domingo com um monte de morte e um monte de pistas pro que vai acontecer nas duas próximas (e últimas?) temporadas. Você vai ter até o ano que vem para esperar uma nova temporada e as férias de inverno estão aí. Péssimo timing, HBO, a gente vai precisar de algumas coisas pra ver.

É por isso quedecidi escolher escolher sete séries para você assistir. Elas deviam seguir alguns critérios para entrar nessa seleção:

  • Elas precisam ser excepcionalmente boas. Isso mesmo, as séries aqui são aquilo que eu acho que há de melhor na TV por enquanto;
  • Elas precisam estar disponíveis para ver, de alguma forma, no Brasil.
  • Elas não podem estar canceladas ou finalizadas. Todas essas séries possuem uma nova temporada vindo por aí;
  • Elas precisam ter pelo menos uma temporada inteira disponível. A gente quer te indicar aquilo que tem de melhor, então vamos naquilo que confiamos ser bom — e que você provavelmente vá gostar.

Nós esperamos que essas sete séries lhe dão aquele gostinho de fazer uma maratona, de buscar coisas ainda mais legais e, claro, nos sugerir algo que você também acha que iremos gostar. Essas séries são só o começo: a gente gosta de ver o que você acha delas, e o que mais poderíamos ter sugerido. Vamos nessa?

Imagem da série “The Americans”

The Americans

  • Número de temporadas: 4
  • Próximos episódios: só em 2017
  • Onde assistir: Netflix, FX (em reprises) e FOX Play
  • O que é: um casal de espiões soviéticos vai viver nos EUA durante a Guerra Fria.

Vamos começar por cima? The Americans é uma das melhores séries na TV hoje. A terceira temporada, que foi exibida nesse ano, é disparado a melhor coisa que aconteceu na TV em 2016. The Americans é o filho de séries como Família Soprano, Mad Men e Breaking Bad: isso mesmo, uma herança de gigantes. Talvez seja até melhor que elas. Contanto a história de um casal de espiões soviéticos nos EUA, a série não brinca em ser emocionalmente forte e muitíssimo bem escrita. E prepara o espectador para um jogo tão forte com aquilo que nos ensinou e nos fez acreditar que, mesmo depois de assistir todos os episódios, vai ficar sedendo esperando a próxima temporada.

Imagem da série “Broad City”

Broad City

  • Número de temporadas: 3
  • Próximos episódios: só em 2017
  • Onde assistir: na Comedy Central (em reprises)
  • O que é: A vida e as desventuras de duas garotas em Nova York em um ritmo insano e surreal.

É incrível que Broad City exista, pra falar a verdade. Ela existe naquele universo insano de que a televisão consegue criar teoricamente tudo — mas que muitíssimo pouco disso é realmente percebido pelos seus manda-chuvas. Contando a vida de duas mulheres e suas desventuras por Nova York, com muitíssimo bom humor, sinceridade e aquele sabor agridoce do aprendizado e da realização de que a vida, por mais feliz e divertida que seja, vem carregada de perdas, medos e histerias. Sua última temporada foi insana de divertida, e fez suas duas personagens principais crescerem como poucas séries permitiriam (vide Girls — que eu também gosto bastante —, que demorou cinco temporadas para que suas personagens finalmente amadurecessem).

Imagem da série “Halt and Catch Fire”

Halt and Catch Fire

  • Número de temporadas: 2
  • Próximos episódios: estreia prevista para agosto de 2016
  • Onde assistir: no AMC Brasil
  • O que é: um grupo de pessoas na década de 80 se aventura no desenvolvimento para criar um computador pessoal.

A melhor surpresa que eu tive na TV do ano passado Halt and Catch Fire é um deleite. Capturando um momento na indústria da informática que une o fervor da descoberta (como aquele que vemos em A Rede Social), mas também o medo de até onde esse avanço pode alcançar. Unindo um elenco de peso e ideias maravilhosas que realmente se concretizam (e não apenas vivem no mundo da possibilidade, já que aqui é uma série que bota tudo o que tem na tela), Halt and Catch Fire é algo como um thriller e um drama de época, um fervor de descoberta e um medo do desconhecido — seja ele do tecnológico ou do humano. É TV de primeira, também.

Imagem da série “Master of None”

Master of None

  • Número de temporadas: 1
  • Próximos episódios: em algum momento de 2016
  • Onde assistir: no Netflix
  • Uma série de aprendizados sobre a vida adulta no mundo contemporâneo.

A vida adulta fascina a TV já que, afinal de contas, ela atingiu a maturidade há pouco mais de uma década. Master of None mostra como a vida adulta, no final de contas, não é nada demais e esse já é um grande motivo de ela ser interessante. Aziz Ansari encontra nessa premissa uma excelente série de auto descoberta, romance e, inclusive, o modo da Netflix de tratar suas séries. É diferente de tudo o que o serviço ofereceu até o momento: ao invés de ser uma grande e intrincada temporada com episódios bastante co-dependentes, Master of None é totalmente episódica e imprevisível — e isso a torna fascinante por si só.

Imagem da série “Silicon Valley”

Silicon Valley

  • Número de temporadas: 3
  • Próximos episódios: só em 2017
  • Onde assistir: na HBO Signature (em reprises), ou na HBO GO
  • Como o mundo da tecnologia da informação é triste e ganancioso — e suga a vida daqueles que desejam se aventurar nele.

Eu sempre achei Silicon Valley divertida. Ela é meio que o oposto de Halt and Catch Fire, e mostra uma visão bem decepcionada do universo da tecnologia da informação. Mas, cara, o que eles fizeram esse ano é surreal. Silicon Valley passou uma temporada inteira explorando seus personagens e vendo do que eles eram capazes, e com isso nos entregou uma das melhores comédias que a HBO já fez (ao lado de uma outra que está logo abaixo) e um dos retratos mais honestos de amizade da TV. Uma surpresa, e um deleite.

Imagem da série “Veep”

Veep

  • Número de temporadas: 5
  • Próximos episódios: só em 2017
  • Onde assistir: na HBO Signature (em reprises), ou na HBO GO
  • A vida da vice-presidente americana e sua equipe, que não é muito boa naquilo que faz.

A finale desse domingo foi difícil. Veep apontou pra um caminho que eu nunca havia pensado antes, mas vamos lá. A verdadeira líder das comédias hoje. Veep é poderosa e divertidíssima, honestamente aterrorizante e dolorosamente hilária. Repleta pelo melhor elenco em uma série cômica atualmente, e roteiros afiadíssimos que exploram, debocham e se fascinam pelo intrincado universo político americano — e pelos incríveis seres que habitam esse universo —, Veep é uma versão mais honesta, menos glamurosa de The West Wing, se é que você consegue me entender. Mais que isso, porém: é um retrato bastante doloroso de como o poder destroi uma pessoa, e a performance vertiginosa da Julia Louis-Dreyfus entrega cada nuance necessária.

Imagem da série “The Leftovers”

The Leftovers

  • Número de temporadas: 2
  • Próximos episódios: 2017
  • Onde assistir: na HBO Plus (em reprises), ou na HBO GO
  • Anos depois do misterioso desaparecimento de 2% da população mundial, uma família precisa reconstruir sua vida.

Cara, como eu amo essa série. A segunda temporada não é só a melhor coisa que eu vi no ano passado — é um dos retratos mais poderosos sobre como o ser humano só encontra a força para se reconstruir naqueles que o cercam. The Leftovers pode parecer desesperador, mas é um dos maiores, e mais complexos, retratos da necessidade do ser humano em acreditar, seja lá o que for. A série é, talvez, a coisa mais estranha da TV hoje: uma jornada mística sobre a aleatoridade e a inexplicabilidade da vida e sobre como tudo é uma constante luta pela sobrevivência. The Leftovers é a melhor coisa na TV hoje, e a mais única, a mais misteriosa e a mais satisfatória. Cada uma hora é uma jornada ao desconhecido de si mesmo. Ao final dela (que deve acontecer ano que vem, já que estamos na última temporada), talvez não sejamos mais os mesmos.

Os 10 melhores de 2014

Agora que já revelamos nossos favoritos, vamos numerá-los, certo? Para finalizar essa leva de retrospectiva de 2014, nós juntamos tudo o que houve de melhor nos últimos 12 meses e os ordenamos para vocês. Siga abaixo com:

10. The Comeback volta tão bom quanto nos deixou (e talvez melhor)

A empreitada de Lisa Kudrow na sátira da HBO sobre a estrutura da TV voltou, depois de ser cancelada na sua primeira temporada. The Comeback, agora uma sátira sobre o próprio canal, o star system que se criou ao redor das séries de TV, e do mockumentary, retornou tão bom quanto era — ou, muito provavelmente, bem melhor do que era. Kudrow não confirma, mas há rumores que a série continue conosco por mais um ano. Que The Comeback volte mais um, dois, três, dez anos com seu humor único, que nos faz relembrar de clássicos como 30 Rock, Studio 60 e, claro, ela mesma.

9. Dragon Age: Inquisition é o grande AAA desse ano

Se os jogos não tiveram um bom ano (seja em lançamentos, seja em toda a polêmica do GamerGate), não podemos negar que não houve aqueles bons destaques. Com o fracasso de Watch Dogs em nos entregar aquilo que prometeu, e grandes lançamentos fadados a fracassos de infraestrutura, como Assassin’s Creed UnityDragon Age: Inquisition se revelou o grande lançamento de 2014 para os jogos. Um RPG imenso, inebriante e com a qualidade de história que apenas a BioWare consegue entregar. Não é o melhor jogo do mundo, está recheado de falhas, mas te prenderá em um universo fascinante por centenas de horas.

8. Amantes Eternos, o melhor filme que ninguém viu

O novo filme de Jim Jarmusch é um dos melhores filmes do ano. A história de Adam e Eve, um casal de vampiros com centenas de anos e que assistem a humanidade de hoje com um olhar cético, depois de presenciar maravilhas (e horrores) em outras eras, é narrada com melancolia, dissonâncias e beleza. Se os vampiros no cinema há muito perderam sua identidade, Amantes Eternos devolve-lhes a dignidade com um filme à altura de seus mitos, e transforma Adam e, principalmente, Eve em seres eternos nas telas.

7. A Balada de Adam Henry é um retorno ao método curto

Depois de grandes romances aclamados, como SolarSerena, Ian McEwan retorna às histórias menores, mas não menos empolgantes, com A Balada de Adam Henry, sobre uma juíza que se relaciona com réu. Com toda a destreza nos detalhes típicos do autor, A Balada… mostra um vigor que McEwan não apresentava desde sua estréia, com O Jardim de Cimento, mas empregando toda a magia de seus últimos romances (SábadoAmor sem fim, inclusive, se conectam lindamente com este último), o novo livro do britânico talvez seja uma das melhores peças narrativas literárias de 2014.

6. True Detective é a grande estréia televisiva de 2014

A HBO retorna à forma que a consagrou com A Sete PalmosFamília SopranoA Escuta com o surpreendente True Detective, em uma pequena temporada (antes pretendida como minissérie) intensa e completa. Embora muito de sua fama acabe indo para os mirabolantes planos sequência dos episódios, True Detective maestra para além, conseguindo trazer de volta grandes histórias para o canal, que há muito precisava se sustentar com a alarmante The Newsroom e seus acertos menores, GirlsLooking. E por falar em Looking

5. Looking surpreende com a melhor temporada de 2014

Estreando em janeiro, a temporada inicial de Looking prometia “algo real”. Nas mãos do incrível realizador Andrew Haigh, ela entregou mais. Ela entregou “algo de verdade”. E há diferenças nessas duas chamadas. Looking, por mais de nicho que seja, é uma série que finalmente consegue trazer honestidade nos diálogos e na estética de sua temporada. Em um ano que Mad Men começa o seu fim, Girls derrapa, American Horror Story pisa na bola (de novo), House of Cards perde o fôlego e True Detective vem para balançar, Looking é uma sólida, intensa e honesta história de seres humanos — seres em extinção nas séries de TV.

4. Crush Songs supera superproduções com sua intimidade

Karen O ganhou o mundo em 2013 com The Moon Song. Seguindo uma vertente semelhante, mas ainda mais íntima, Crush Songs embala recordações e exasperações de um relacionamento com uma honestidade  única nos lançamentos de 2014. Assemelhando-se em momentos com For Emma, Forever Ago, mas ainda mais sincero que este, a vocalista do Yeah Yeah Yeahs consegue superar em qualidade obras maiores, mais poderosas e mais abrangentes — incluindo aí o grande álbum do ano, o autoentitulado Beyoncé.

3. 1001 pessoas que conheci antes do fim do mundo é um sopro de vida na blogosfera brasileira

O blog da Aline Vieira traz humor honesto, histórias bem contadas e uma delicadeza visual há muito escondidas na blogosfera brasileira — terra de memes e YouPixes. Com prazer, 1001 pessoas talvez seja o site com os melhores textos que tive o prazer de ler em 2014. E só de saber que ainda temos mais de 900 pessoas pra conhecer com Aline pela frente, dá expectativa e animação ao já fiel leitor.

2. Boyhood é o grande filme de 2014 — e talvez de toda uma geração

Com sua poesia visual baseada nos pequenos e eternos momentos da vida, Boyhood traça uma narrativa simples, não universal, mas sempre honesta sobre um jovem e sua família no Texas. Repleto dos vários tipos de amor que uma vida possa entregar, dos momentos e das incertezas que a juventude nos lança, dos amigos que vem e que vão, dos mestres que nos moldam e nos largam ao vento, Boyhood é certamente o melhor filme de 2014. E talvez seja o coming-of-age definitivo de toda uma geração. De toda uma universalidade.

1. Kentucky Route Zero: Act III toma o palco central em seu teátrico terceiro ato

Depois de EquusPerception of Space, o terceiro ato de Kentucky Route Zero agora busca em Esperando Godot suas referências. Agora, mais que nunca, Kentucky Route Zero assume sua teatralidade e leva o jogador para o meio do palco e dá a ele, na pele, o sentimento de Conway. Com uma potência nunca antes vista em um videogame, a narrativa do jogo da Cardboard Computer agora torna-se não um outsider da indústria dos jogos, e sim uma referência central. Depois do terceiro ato, em que o jogo puxa o jogador pelo pé para que ele sinta as dores de seu personagem, vemos que estamos na mão de mestres em contar histórias. Mestres esse que finalmente conseguem mostrar que os jogos são a evolução natural no método de narrativa. E para traçar o futuro, _Kentucky Route Zero _pisa no passado.