Uns fãs de Community fizeram um jogo de paintball assassino

Um grupo de aspirantes a desenvolvedores de jogos se juntaram para criar Six Seasons and a Game, um jogo de paintball assassino na faculdade de Greendale, o cenário de Community. E não é que o resultado ficou muito bom?

Six Seasons and a Game é um jogo de tiro em primeira pessoa, multiplayer e gratuito! Os voluntários encheram os cenários com referências à série (quer dizer, só a ideia do jogo ser um “paintball assassino” já entrega), e conseguiram criar espaços muito legais para interligar os espaços já conhecidos. Os corredores ao redor da sala de estudos dos protagonistas, por exemplo, só foi vista raramente durante a série. Aqui dá pra percorrer por tudo. O melhor é que, além de ser de graça, esse jogo é leve e divertido. Se você está procurando algo pra passar o tempo com seus amigos mas seus computadores não aguentam o tranco, Six Seasons and a Game é muito bem otimizado.

Essa não é a primeira vez que fãs de Community puseram as mãos na massa e fizeram um jogo. Enquanto a série ainda estava no ar, uns fãs recriaram Journey to the Center of Hawkthorne, um jogo de plataforma e aventura exibido em um episódio no final da terceira temporada, e também é um jogo gratuito e muito bom. Essa comunidade de Community é muito talentosa.

Six Seasons and a Game tá disponível no Steam e Journey to the Center of Hawkthorne tá disponível no GitHub.

Mas eu ainda tô esperando o filme.

Artista cria peças de exposição enviando-as sem proteção pelo correio

O artista Walead Beshty constrói peças feitas de vidro e as envia por FedEx para galerias e museus desde 2007. Ele as envia sem proteção, então quando as peças chegam elas estão danificadas, criando padrões de rachaduras nas superfícies:

Peça de vidro rachado de Walead Beshty sobre uma caixa de encomendas da FedEx Peça de vidro rachado empilgadas de Walead Beshty sobre caixas de encomendas da FedEx Peça de vidro rachado de Walead Beshty ao lado de uma caixa de encomendas da FedEx

Toda a vez que essas peças mudam de expositor, o artista as envia novamente por FedEx, sem proteção — então uma mesma peça nunca é a mesma entre exposições. Segundo uma entrevista do artista, sua intenção não é a de usar o “readymade” popularizado por Michel Duchamp com sua fonte, e sim de criar peças artísticas usando um sistema adotado por uma corporação gigante:

[…] Os objetos não são tratados de maneira diferente de outros pacotes da FedEx, eu simplesmente uso o sistema da FedEx para registrar como o objeto foi manipulado em termos estéticos. O resultado é um objeto que está mudando constantemente. Todas as vezes que o objeto é enviado, ele passa por uma transformação material.

No site do estúdio de Beshty têm mais informações (e peças) dessa e de outras coleções.

Via Kottke

O problema de Lane Kim em Gilmore Girls

Emily VanDerWerff é uma das minhas escritoras favoritas. Ela escreve sobre TV, sua história e suas dinâmicas, como ninguém, e o melhor, ela te faz entender o que funciona e o que não funciona em uma série de TV. Como as melhores críticas e ensaístas, VanDerWerff põe em palavras aquilo que a gente sente quando assiste algo.

No volume dessa semana da sua newsletter Episodes, VanDerWerff finalmente fala sobre o momento que, pra mim, é o mais importante em Gilmore Girls: quando a relação de Lane com sua mãe finalmente explode, e como Gilmore Girls não consegue tratar esse momento com o cuidado que ele merece:

Truth be told, I don’t think I could have told you what I hated about this storyline until my friend, Cassie, watched the entirety of the series over the past few months. Cassie’s viewing of the series immediately clarified for me what bugged me so much about this storyline: Once — just once — I wanted the show to take Lane’s desperation to live a life free from her mother’s influence as seriously as Lane did.

If the series were going to have a moment when it took Lane’s life seriously, it would have been somewhere in this season four storyline. That season is perhaps the show’s best, as it slowly but surely brings lots and lots of chickens home to roost, one of those being Lane’s long hidden secret life. Gilmore Girls excels at telling serialized stories where lightly comedic kookiness covers up something far bleaker, then at switching itself up tonally, so the bleakness breaks out and oozes over the comedy. Season four is the series’ best at this sort of tonal whiplash, particularly in its second half.

And for at least a little bit, Gilmore Girls takes Lane seriously in this storyline. The scene where Mrs. Kim kicks her daughter out of her house is a heartbreaking one, and the moment when Lane shows up at Rory’s door is, too. It feels like something the series has been building to for years and years — Rory and Lane, trying to shake off the influence of their mothers and making their way in the world.

Lane é a minha personagem favorita de Gilmore Girls, junto com Emily, porque as duas são as personagens mais bem exploradas até certo ponto, quando a série decide que se continuar cavando as dores e as frustrações delas, pode acabar respingando no carisma de suas personagens principais. Simpatizar muito com Emily pode tirar a coragem de Lorelai de viver fora das garras da mãe; observar como Lane tenta sair do relacionamento abusivo com sua mãe mas vê que Rory já está muito distante da sua realidade daria muito mais peso às dinâmicas de classe da série, algo que GG sempre preferiu tratar com muito mais sutileza e nuance.

Mas, como VanDerWerff escreveu na newsletter, Lane deixa de ser uma Lorelai 2.0 e se transforma em alívio cômico, e é a falta de seriedade com que a série (!) trata Lane a partir da quarta temporada que machuca bastante. Gilmore Girls sempre foi excelente em observar como relações íntimas, como as familiares e as amizades, podem ser abaladas para sempre mesmo que continuem existindo de alguma forma. Porém, Lane e a Sra. Kim não desenvolvem uma relação repleta de cicatrizes como a de Emily e de Lorelai — assim que sua mãe a visita em sua nova casa, as duas voltam à mesma dinâmica de antes (o que piora ainda mais na sétima temporada).

Enfim… Gilmore Girls? A melhor série já feita, tão boa que quando falha, falha por excesso de carinho.

O legado social do Nintendo 3DS

Cecília D’Alessandro escreveu um excelente post-mortem sobre o Nintendo 3DS (e os portáteis da Nintendo de maneira geral) quando o pequeno foi descontinuado no ano passado:

Hardware matters, but in the end, portable console players want to connect to each other with as few barriers as possible. The legacy of the 3DS, at least for me, is as a reminder that gaming is more than just entertainment: It’s a social network. Strangers saw each other playing their 3DSes out in the world and forged quiet (or loud), immediate connections. The magic of the Switch is that it was one of the first consoles to bring those outside connections inside—from the cafe onto your sectional couch.

Eu comprei um Nintendo 3DS com o primeiro salário do meu primeiro trabalho. Eu e meus colegas da época jogávamos Mario Kart depois do almoço e antes de começar o turno da tarde. Depois que saí da empresa para ir para a faculdade, minha jogatina com o 3DS era quase sempre sozinha. Eu jogava no trem, indo de Porto Alegre para São Leopoldo, até que comecei a perceber que outras pessoas também estavam tirando seus videogames das mochilas e bolsas para jogar. Eu nunca fiquei amigo dessas pessoas, mas visitei várias cidades em Animal Crossing: New Leaf e perdi várias brigas no Super Smash Bros.

Esse tipo de interação era bastante único dos videogames portáteis: você via que alguém estava jogando, seja no parque, no shopping ou no trem, e tirava seu videogame. Antes do 3DS, você falava com a pessoa, vocês trocavam Friend Codes e então podiam jogar juntos. O 3DS facilitou um pouco esse primeiro contato. O próprio videogame piscava uma luz verde indicando que tinha alguém por perto, o Mii da pessoa chegava na sua praça virtual e vocês eram apresentados. Você olha ao redor e encontra a pessoa que acabou de conhecer.

Eu acho que o que tornou o Nintendo 3DS tão especial para aqueles que tiveram ele foi justamente esse sentimento de culminação, de a Nintendo entender completamente o apelo de um videogame portátil que consoles de mesa e celulares não tinham: o 3DS era uma espécie de sociedade secreta que você entrava e, ao mostrar o seu portátil para os outros, era recebido com boas vindas. O StreetPass, o SpotPass, o bloco de notas e o relatório de jogos eram recursos naturais em um videogame que você jogava em qualquer lugar, nem sempre confortável o suficiente para pegar o celular com outra mão e anotar o código que você precisa digitar na próxima fase do jogo. Tudo o que você precisava para jogar no 3DS, ele oferecia.

É algo que eu sinto bastante falta no Switch, que indica que a Nintendo vê ele muito mais como um console de mesa do que um portátil. Recursos sociais são escassos nele, enquanto que eram fundamentais pro sucesso do 3DS. O Switch é superior em quase todos os sentidos, mas a Nintendo sabia exatamente o que um portátil precisava no 3DS, e o tipo de interação que um videogame portátil provocava e incentivava. Com o fim daquele pequeno videogame (e da linhagem que ele seguiu), um pouco dessa mágica se perdeu.

Eu ganhei uma escova de dentes de Natal

Meus pais me perguntaram se eu tava precisando de algo esse ano pra que eles pudessem me dar de presente de Natal. Faz uns anos já que eu nunca preciso de nada (eu tenho um trabalho, pais!), mas sempre lembro de um jogo que eu quero comprar ou de uma edição de colecionador de um filme que eu encontrei por aí e essa é geralmente a oportunidade perfeita de não desperdiçar meu dinheiro nesse tipo de coisa.

Eu não tinha nada pra pedir, então dei aquela mentira de que não precisava de presente embora soubesse que se eu não ganhasse nada no dia 24 de dezembro eu ia ficar ofendido. Na noite de véspera de Natal, que é quando a gente troca os presentes aqui em casa, minha mãe me surpreendeu com uma escova de dentes.

Eu não esperava. Escova de dente é aquele lance que eu esqueço de comprar no mercado e acabo usando a mesma por meses a fio até o ponto em que a minha gengiva começa a sangrar porque as cerdas tão uma pra cada lado e duras como espinho. Quando eu tô que não consigo falar, eu vou no mercado e compro a escova de dentes mais barata que eu encontro. Não que eu não dou bola pra minha higiene bucal, eu dou! Escovar os dentes e limpar a boca é um ato religioso pra mim, com horário marcado e duração mínima estipulada, mas eu não quero gastar 35 reais na escova de dentes da Colgate que tem um cabo antiaderente ou coisa e tal.

Enfim, eu gostei da surpresa. Eu gosto de presente simples e criativo, como uma escova de dentes. Mas eu não tava esperando que essa escova de dentes ampliasse meus horizontes sobre o que é conforto. Meus amigos, eu tô no céu. Pra quem dá importância para aqueles minutos que tu fica com um pau na boca com uma pasta de sei-lá-o-que sendo espalhada pelos seus dentes todos os dias, se sentir confortável escovando os dentes é essencial. Deixa eu mostrar a dita cuja:

Escova de dente

E aqui, um close das cerdas macias e perfeitas, que eu sinto abraçarem meus dentes para massagear com a pasta de dentes:

As cerdas da escova de dentes

Pelo que diz na caixa, o nome dessa escova é “Powerdent Eco Care Light”. Ela é bem light mesmo, é levinha de segurar e o cabo parece ser feito de algum material verdadeiro, não de plástico. Madeira, ou carvão, algo assim. E as cerdas, meus amigos. À primeira vista eu achei que ela era pequena demais, mas quando eu usei pela primeira vez ela me surpreendeu, indo em lugares onde as outras escovas jamais foram, preenchendo cada espaço que antes eu precisava fazer malabarimos para encontrar.

É aquele tipo de presente que você agradece (literalmente) todos os dias por ter ganho. Todos os dias eu lembro como minha vida ficou melhor depois daquela estranha noite de 24 de dezembro de 2020, o dia em que eu ganhei uma escova de dentes de Natal.

Supo Mungam Plus disponibilizará filmes novos todas as sextas-feiras de janeiro

A distribuidora Supo Mungam Filmes trouxe pro Brasil alguns dos melhores filmes dos últimos anos, como Em Trânsito e Retrato De Uma Jovem Em Chamas. No fim do ano passado eles anunciaram que iam finalmente lançar esse excelente catálogo de filmes em DVD e blu-ray (você pode reservar a edição lindíssima de Retrato no site da Versátil!), e que iam montar um serviço de streaming dedicado à filmes independentes e autorais.

O serviço, chamado Supo Mungam Plus, vai trazer novos filmes pro catálogo todas as sextas-feiras desse mês, começando com Bamako (Abderrahmane Sissako, 2006) e O Conto das Três Irmãs (Emin Alper, 2016) no próximo dia 8.

A lista até o final do mês inclui alguns filmes excelentes: na próxima sexta entra o clássico recém redescoberto O Funeral das Rosas (Toshio Matsumoto, 1969), que estava no acervo do MUBI até pouco tempo. No dia 29 entram o excelente Entre os Muros da Escola (Laurent Cantet, 2008) e Obediência (Craig Zobel, 2012), que eu quero muito assistir. É o primeiro grande papel da Ann Dowd, uma atriz que eu adoro.

O SMP já têm uns filmes excelentes no catálogo também, eu tava dando uma conferida e, além do magnífico Em Trânsito, também está por lá Wendy & Lucy da Kelly Reichardt, diretora de filmes excelentes pra você assistir durante o isolamento; e Eu, Olga Hepnarová de Petr Kazda e Tomás Weinreb, um filme polonês perturbador que não sai da minha cabeça desde que eu vi há uns bons três ou quatro anos.

Rachel Handler investiga o misterioso caso da escassez de bucatini

Rachel Handler é uma das jornalistas que eu mais gosto de acompanhar o trabalho. Ela escrevia para o The Dissolve, um site sobre filmes que eu amava muito, e sua escrita tinha um tom próprio muito forte: era bem humorado ao mesmo tempo que direto. Ela escrevia sobre qualquer coisa de forma clara, mas conseguia colocar tangentes nos assuntos com observações incisivas e hilárias. Ela tinha uma coluna no The Dissolve chamada “Female Stuff” que eu revisito até hoje.

Enfim, Handler tem escrito para a Vulture/New York Magazine pelos últimos anos, e seu trabalho continua incrível. Mas o texto que ela publicou há algumas semanas é simplesmente a melhor coisa que eu li em meses, uma investigação sobre o desaparecimento misterioso de bucatini, um tipo muito específico/chique de macarrão (aquela espécie de espaguete grossa e longa, com um furo no meio para o molho entrar e explodir na boca quando mastigados) durante a pandemia nos EUA.

“What the Hole is Going On?” começa com ela e seus amigos desesperados buscando esse macarrão por Nova York no meio da pandemia, e acaba se desenrolando de maneira surpreendentes — um pouco disso pelos nomes italianos das pessoas que ela cruza na busca por respostas, o que faz tudo parecer um episódio muito bem humorado de Família Soprano.

Curte só um trechinho, mas eu recomendo ler tudo:

“Rachel!” he roared. “I’ve touched closely to the reason. Because of the environment, people have been using bucatini as straws, instead of a plastic straw.”

“I’m sorry, what?” I asked.

“Yes. You can buy them. There are a couple of companies making them. You can have your soda and then eat your straw,” he said. “It’s like eating your fork or knife.” My mind reeled as it tried to understand and accept this information as true. “But pasta is not a ready-to-eat product,” Rosario added. “You have to cook it. So when you use pasta to drink sodas, you’re drinking and eating a not-ready-to-eat product. You put yourself at risk because that product has never been pasteurized or killed. And the only pasta cut affected is bucatini because of the hole.”

This made both perfect sense and absolutely no fucking sense at all, the sort of demented-timeline event that could only happen in 2020, when everything is, metaphorically, an innocent piece of pasta turned into a straw in a bid to help the environment that actually ends up being fatally dangerous. I confessed to Rosario that every time I made bucatini, I ate several raw strands per minute as I cooked it, as a sort of barometer of al dente–ness. I wondered if I was now going to die because of it, and I made peace with this instantly.