Arthur Freitas

@arthrfrts

O Internet Archive está preservando jogos e animações em Flash

O Flash foi uma daquelas tecnologias tão fundamentais quanto odiadas da juventude da internet: era um jeito fácil e simples de criar animações e jogos complexos que podiam ser jogados num navegador, na época em que a tecnologia básica da internet — o HTML, o CSS e o JavaScript — estavam começando a amadurecer. Sites usavam Flash para criar efeitos e animações complexos, e portais como o Kongregate, o Miniclip e Newgrounds hospedaram centenas de jogos feitos com essa tecnologia com o passar dos anos.

Entre 2007 e 2010, quando o iPhone se firmou como uma plataforma na qual os desenvolvedores precisavam prestar atenção (e, eventualmente, seria o centro da atenção), o Flash encontrou seu pior inimigo: Steve Jobs, que anunciou que o iOS não ofereceria suporte à tecnologia. Gradualmente, a Adobe encerrou o suporte da tecnologia, primeiro nos celulares — no início dos anos 2010, o Android usava o suporte ao Flash como um de seus recursos notáveis contra a concorrência — e, no fim desse ano, em todos os outros dispositivos.

Você provavelmente já tem o Flash desativado há anos no seu navegador. O Chrome, o Firefox e o Safari não o ativam por padrão desde meados de 2015. Existem bons motivos para isso: o Flash é pesado, lento e propenso à brechas de segurança, por causa do seu código fechado. Ele certamente não é o futuro da web, uma vez que as tecnologias fundamentais da internet amadureceram e, em muitos sentidos, superaram o que o Flash podia fazer. Mas ele foi fundamental para tornar a web criativa e interativa nos primórdios, e uma boa parcela da internet vai ser perdida quando o Flash parar de funcionar no fim do ano, uma parcela que consiste em experiências únicas que desbravaram a web antes de todo mundo. O JavaScript voa hoje porque o Flash tropeçava e caía.

É por esse valor inestimável à história da internet que o Internet Archive começou a hospedar um arquivo de jogos e animações em Flash. Usando um emulador chamado Ruffle, o Internet Archive é capaz de armazenar e executar esses softwares no seu navegador sem a necessidade de nós instalarmos um software desatualizado e sem suporte. É uma das várias iniciativas incríveis do IA, que preserva a história e a evolução da internet enquanto algumas gigantes por aí tentam apagá-la para colocar um novo parquinho de anunciantes no lugar.

Boas notícias: em breve, o emulador Ruffle será lançado como uma extensão para navegadores — mais leve, mais ágil e mais seguro do que instalar o Flash no seu computador —, permitindo que todos esses sites e portais de jogos em Flash que poderiam parar de funcionar no fim de 2020 possam continuar existindo e hospedando essa parte importante da internet.

Episódio 10 – com Victor Silva

O Victor e eu nos sentamos pra conversar sobre como a gente desbravou o mato que era a internet no início dos anos 2000.

Você pode encontrar o Victor no Twitter, em @amobrejas e no Instagram, em @vicaobaker.

Esse é o último episódio do Pãodecast nesse ano, mas eu já estou gravando conversas para o ano que vem. Quer participar? Envie uma mensagem e vamos combinar um dia.

Como é que eu vou falar de Betty?

Eu não entendo nada de skate. Antes de Betty, eu sequer achava skate interessante. Vai ver eu posso começar por aí, porque Betty é um daqueles achados que eu tenho na minha vida que expandem o mundinho dentro da minha cabeça. Eu nunca achei que eu ia me interessar por uma série sobre um grupo de skatistas, e agora Betty talvez seja minha série favorita desse ano.

É o seguinte: Betty é uma “dramédia1” da HBO sobre um grupo de mulheres skatistas em Nova York. É difícil de dizer sobre exatamente, porque embora Betty tenha uma trama (e uma trama muitíssimo bem construída, quando você para para pensar nela), a série parece ser muito mais observacional do que dramática. Cada episódio da primeira temporada é mais ou menos um tempo em que a gente fica assistindo essas garotas passarem o tempo juntas. Seja procurando um lugar para andar de skate, seja dando uma volta procurando algo bom para comer ou tentando encontrar uma mochila esquecida no parque.

E esse é o bacana de Betty, é genuinamente uma série de garotas passando o tempo juntas e descobrindo um pouco sobre como elas gostam de passar o tempo — e como o sexismo e o racismo que está sempre no fundo acaba afetando esses momentos que elas têm. Betty acompanha essas garotas em um momento difícil de capturar de forma narrativa — aquele momento em que firmarmos nossas amizades, descobrimos nossos primeiros amores, e gastamos nosso tempo livre com coisas que não têm muito sentido aos olhos dos outros. Aos olhos delas, porém, andar de skate faz todo o sentido, e Betty é extremamente eficaz em tornar a conquista delas pela liberdade e autodescoberta que é andar de skate pela cidade.

Betty age de forma tão sutil que é fácil achar que nada está acontecendo. Como cada episódio retrata um momento específico (uma briga de bar, uma sessão de fotos, e assim vai) do grupo, mas a série está justamente observando como cada uma das garotas reage à emoções sísmicas em seu dia-a-dia: como Camille não quer ser “reduzida” à uma “garota skatista” no meio dos homens, ou como Janay precisa enfrentar sua relação com um amigo problemático (ou algo ainda pior). Ao observar esses pequenos momentos entre elas sem adicionar muito mais drama externo, Betty permite que a gente observe os sentimentos bastante íntimos de alegria, tristeza, traição e companheirismo em pessoas que ainda não sabem exatamente o que estão sentindo, e como estão sentindo, em uma época da vida onde há muita descoberta a cada segundo. Betty não entrega essas descobertas em conclusões fortes porque nunca precisou formar um enredo com elas em primeiro lugar. Esses sentimentos são confusos e nem sempre são bonitos, e é a honestidade com que a série entrega eles que a torna especial.

A criadora e diretora da série, Crystal Moselle, trouxe esse grupo de atores não-profissionais do seu filme Skate Kitchen, que tem algumas semelhanças com o enredo da série. O filme é excelente, mas é em Betty que Moselle pode mostrar o quanto ela entende a vida dessas garotas, e como é difícil para elas viverem da sua paixão em meio ao arcaico “mundo dos homens”. Com sua câmera que navega entre essas garotas, Moselle consegue capturar todos os pequenos momentos de felicidade que essa luta constante trazem — uma piada, um choro, o milhão de memórias que se formam com uma companhia perfeita —, e que incentivam elas à continuar tentando. É o que traz à Betty sua linda espontaneidade, da descoberta do que pode ser viver livremente.


  1. Um professor meu dizia que o melhor nome para esse tipo de história era “tragicomédia”. Eu concordo, mas acho o termo carregado demais. Nas séries da HBO especificamente, dramédia são todas aquelas séries que não são necessariamente comédias, mas respeitam os trinta minutos típicos do gênero. É algo bem específico porque torna o drama mais eventual, e eu gosto muito. 

Nada que é dourado permanece

Meu amigo Leo Michelon colaborou com o diretor e crítico Giordano Gio em Nada que é Dourado Permanece, um vídeo-ensaio sobre os ritos de iniciação presentes no cinema gaúcho.

É comum, quando a gente estuda cinema, procurar aspectos semelhantes em um cinema de determinada época ou de determinado local. Geralmente essas épocas são alguma década no início dos anos 1900 e o local geralmente é algum país da Europa, mas eu acho fascinante quando a gente para e olha o cinema que é feito perto de casa, e como ele captura e revela a nossa relação com o lugar que a gente vive. É um trabalho importante, e fico feliz que tá sendo feito — e tá sendo feito muito bem, o vídeo-ensaio é muito bom de assistir, dá seu tempo para a gente ouvir, ver e entender sem ser maçante.

Episódio 9 – com Guilherme Novello

O Guilherme e eu tiramos a noite pra conversar sobre sonhos (aquele tipo que a gente tem quando dorme).

Você pode seguir o Guilherme no Twitter e no Instagram.

A primeira temporada do Pãodecast acaba no próximo episódio. Se você quer conversar sobre alguma coisa, a nova temporada chega em algum momento do ano que vem. Me envie uma mensagem e vamos marcar nossa conversa. ☕️

Minha longa jornada até Earthbound

Eu tenho muita dificuldade de jogar RPGs. Eu nunca joguei os de mesa, eu estou falando especificamente dos videogames nesse caso. Eu sou um jogador muito lento (muito mesmo), e tenho muita dificuldade de adentrar um jogo com um tutorial de algumas horas, porque eu posso muito bem passar meses progredindo muito pouco (eu acho que metade dos meses que eu passei fazendo o ranking do Zelda foi nos tutoriais de Twilight Princess e Skyward Sword).

Some a isso meu desinteresse pelo tom da maioria dos Final Fantasy recentes e meu afastamento progressivo de Pokémon, os únicos RPGs que eu gostava de jogar há um tempo, e eu comecei a achar que esse tipo de jogo não me interessava mais. O problema é que eu gosto de jogos com boas histórias. Tá cheio deles por aí em aventuras e em jogos de mundo aberto, mas tem um tiquezinho que é diferente em RPGs, aquele tipo de história crescente e sem vergonha de ser grandiloquente.

Então eu passei os últimos quatro, cinco meses anos dessa quarentena jogando várias contra-propostas de RPGs. Eu joguei moon RPG Remix, que eu gostei muito. Eu joguei (de novo) Undertale, um jogo que meus amigos gostam mais que eu. Eu joguei o charmoso Guildlings do Apple Arcade também. Todos eles me ofereceram alternativas aos combates aleatórios e a estética medieval dos RPGs que eu estava acostumado. Foi bem bom.

Daí eu finalmente cheguei no que eu já imaginava ser o meu destino quando eu comecei essa busca: Earthbound.

Earthbound é, pros videogames, o que Brilho eterno de uma mente sem lembranças é pro cinema: é um favorito cult, apreciado fervorosamente pelos poucos que experimentaram na época, e que gradualmente foi sendo descoberto por mais pessoas, que se inspiraram nele para criar outras obras. Earthbound é um dos legados mais estranhos da Nintendo: é um jogo japonês que se passa no interior dos Estados Unidos num misto de anos 90 e futuro próximo — e comenta e homenageia e debocha a cultura americana em igual medida.

Não é necessariamente uma leitura fiel dos EUA, mas é uma boa visão do que os EUA representam para o seu criador, Shigesato Itoi, em um dos jogos mais “autorais”1 da história da Nintendo, sobre a aventura de um grupo de crianças tentando salvar o mundo de uma ameaça alienígena que pode acometer a Terra no futuro.

Eu caí de amores por Earthbound na introdução:

Acho que dá pra tirar tudo o que é excepcional de Earthbound direto dessa intro. É um jogo produzido no que talvez seja o videogame mais bem servido da Nintendo, o SNES, mas não é um grande sucesso como A Link to the Past, Super Metroid ou Super Mario World. Não: é um punhado de referências da cultura japonesa e da cultura americana que eram bastante especiais para seu criador. A introdução me lembrou na hora das séries de aventura que passavam na Nickelodeon no final dos anos 1990, com uns adolescentes desvendando crimes ou explorando ruínas misteriosas enquanto também conseguiam conciliar os estudos e os horários dos pais. Não é que seja bobo, mas não se leva tão a sério, e existe esse tom perfeito naquilo que sabe exatamente o quão especial é por ser divertido.

Ao mesmo tempo, Earthbound é imprevisível. É um jogo direto ao ponto, mas que adora se estender em tangentes estranhas; que sempre deixa o jogador à espreita de uma surpresa — seja uma morte inesperada do que parecia ser um personagem principal, ou de um detalhe ousado que você não esperava ver em um jogo com classificação livre como esse. É de virar qualquer um de ponta cabeça.

E também é um jogo que contradiz Miyamoto em sua missão com game design. O criador do Mario é conhecido por priorizar mecânicas de jogabilidade antes de tudo em um jogo, e o seu histórico realmente torna difícil de questioná-lo. Quem quer uma história atrapalhando as mecânicas de jogabilidade em Super Mario Galaxy, por exemplo? E ainda bem que Breath of the Wild deixa o jogador procurar a história nos cenários, ao invés de fazer ele engolir cutscenes à torto e a direito.

Ainda assim, Earthbound consegue manejar um equilíbrio entre as mecânicas do RPG e a história, o que é um problema que sempre me afetou no gênero, onde detalhes característicos desses jogos me incomodaram: histórias param porque um evento aleatório apareceu no mundo, ou você não constrói nenhuma ligação com determinado personagem se não buscar uma missão paralela lá no início do jogo.

Earthbound é diferente: é um jogo de mecânicas de RPG extremamente básicas — stats são quase irrelevantes até determinado ponto, você encontra batalhas aleatórias que são literalmente cachorros de rua andando soltos por aí, etc. Mas tudo nesse jogo funciona no balanço entre essas mecânicas simples e como elas são apropriadas pela história do jogo, com suas trocas de perspectivas que redefinem as habilidades dos personagens, as quebras de quarta parede, e o humor que é empregado nos itens e nos locais que você vai conhecer. Não é a toa que esse a tradução e adaptação desse jogo para o ocidente fez a Nintendo fundar a Treehouse (o estúdio ultrassecreto de localização da empresa), é um trabalho maravilhoso.

Agora vou jogar a sequência, que dizer ser ainda melhor. Eu duvido.

  1. Eu talvez comente mais sobre isso no futuro, mas para uma produtora grande como a Nintendo, eu acho bem fascinante como a gente consegue identificar os traços e interesses dos seus autores maiores nas obras: Aonuma em Zelda, as várias direções de Super Mario com seus idealizadores, Miyamoto com Wii Sports, etc. 

Lexicografia Positiva

Lexicografia Positiva é um projeto iniciado por Tim Lomas que reúne palavras intraduzíveis de uma língua para outra que representam algo feliz.

“Saudade” talvez seja a mais conhecida palavra sem equivalência na língua portuguesa, mas meu carinho favorito, o “cafuné”, também pertence ao léxico. O japonês é especialmente bonito:

Koi no yokan (恋の予感)

The feeling on meeting someone that falling in love will be inevitable.

Ibasho (居場所)

‘Whereabouts’; a place where one belongs, fits in, can be oneself

Wai-wai (ワイワイ)

The sound of children playing.

O site é bem bacana de explorar, e provavelmente vou perder umas boas horas do final de semana nele. As palavras são categorizadas por idiomas e por temas (Estética, Saudade, Ambivalência, Amor, etc.) O The New Yorker publicou um artigo sobre a origem do projeto em 2016.

Via @tdbem, que complementou a lista com uma série de expressões igualmente adoráveis.

A Gaivota de Anton Tchekhov interpretada no The Sims 4

A dramaturga Celine Song, autora de Endings executou uma performance do clássico A Gaivota de Anton Tchekhov no The Sims 4, como parte do programa de “instigação” do New York Theater Workshop, para ajudar artistas durante a pandemia, enquanto os teatros estão fechados.

A performance é caótica e bonita, bem do jeito que as melhores jogatinas de The Sims são: os Sims nem sempre se comportam exatamente do jeito que Song quer, o que torna a execução da peça em algo inusitado e único — algo bem semelhante com uma performance ao vivo. Song explica melhor:

The Sims is a very interesting video game, because it attempts to simulate human life as it exists, the mundanity and all. In The Sims, we as players are both Gods and voyeurs. That seemed to closely resemble the experience of writing and watching a play as a playwright, but without the living, breathing humans as the actors.

Via Polygon. O artigo também tem um apanhado bem bacana de outras tentativas de usar videogames e espaços virtuais pra experiências teatrais.

Minha cena favorita de The Office

Essa é a minha cena favorita da versão americana the The Office:

Tem também aquela sequência maravilhosa do Dwight colocando todo mundo em uma simulação de incêndio e as pegadinhas do Jim. Mas essa, do protetor de tela do DVD, é a minha favorita.

The Office é uma daquelas séries que é bem clara desde o início: esse é um ambiente de trabalho meio bosta cheio de gente que não necessariamente gosta uns dos outros, mas em geral se suportam. Pra série funcionar, porém, ela precisa desvelar essa dinâmica como cotidiano. A versão americana de The Office é ótima nisso: embora tenha arrombos de humor absurdo e o humor-através-do-ódio que o Michael Scott interpretado pelo Steve Carell causa na gente; a série funciona, e só se manteve no ar por tanto tempo, porque com o passar dos episódios se descobriu ser uma série onde pequenos momentos de harmonia e de algo até parecido com felicidade podiam ocorrer.

A gente lembra do relacionamento do Jim e da Pam como um dos grandes eventos de The Office, mas é fácil de esquecer que ele só aconteceu na quarta temporada. São momentos como esse aí de cima que me tornaram fã da série, e que eu só reparei revendo ela nas últimas semanas. Tem o tom absurdo, tem o Michael Scott, mas The Office, no fundo, cria uma bela evolução de pessoas que convivem juntas por tempo suficiente na vida delas que acabam encontrando juntas breves momentos de beleza. Nem que seja no protetor de tela do DVD.

Uma imagem gigante da constelação de Órion

Constelação de Órion

Ontem eu tava comentando com uma amiga sobre como eu amo ler e ver sobre o universo. As vezes chega a ser um problema sair de um vórtice da Wikipédia, em que eu passo sábados inteiros lendo sobre alguma nebulosa ou o que acontece quando duas estrelas se chocam, por exemplo. Eu acho fascinante, e não é algo que eu falo muito sobre.

Enfim, Matt Harbison é um astrônomo amador que, pelos últimos cinco anos, vem capturando uma imagem detalhada da constelação de Órion. Ele completou a imagem, e o resultado é esse mosaico de 2.5 gigapixel composto por mais 12.816 fotos. É legal de vasculhar a imagem à procura de algo que você já leu sobre, é parecido com aquela curiosidade que você tem de ver os lugares que você conhece em um mapa.

Via Kottke.

O trailer de MANK, o novo filme de David Fincher

MANK, o novo filme de David Fincher depois de um hiato de seis anos desde Garota Exemplar, finalmente recebeu um novo trailer. E se eu já tava com saudade de ir no cinema ver um filminho nesse isolamento social, esse trailer simplesmente me matou.

A textura da imagem, a forma que Fincher transforma o enquadramento, a montagem precisa, o tratamento de som… que saudade de ver um filme desse cara.

Chega na Netflix em 4 de dezembro, e em novembro em “cinemas selecionados”, se é que vamos poder ir neles até lá.

Os contos de Raymond Carver

Um dos meus planos para 2020, lá no longínquo ano de 2019, era que eu ia voltar a ler mais. Eu fui uma criança que lia muito, mas quando eu entrei na faculdade eu magicamente parava de ler. É estranho, porque desde que eu me lembro eu estou sempre “lendo um livro”. Nos últimos anos, isso significava ler algumas páginas, ficar alguns meses sem ler, daí ler mais algumas páginas, e assim mais uns meses sem ler até terminá-lo. Mas eu sempre considerava que eu tava lendo um livro. Eu decidi parar com essa baboseira e ler de uma vez, e se o livro não me chama a atenção pra voltar no outro dia, simplesmente procurar outro pra ler. Desde que eu saí da faculdade eu acho que eu lia um livro por ano, e muito porque eu ocupei o que eu considerava meus horários de leitura com outras coisas (ver o Twitter, principalmente). Então eu mudei isso esse ano.

Demorou um bocado pra eu encontrar meu tempo pra ler como eu queria em 2020, mas se tem um plano pra esse ano que eu me dediquei (e que não se chama Animal Crossing), foi o de ler mais. Eu finalmente encontrei meu horário de leitura perfeito: depois do almoço e antes de voltar pro trabalho. Eu costumava usar esses trinta ou quarenta minutos pra ficar descansando na frente do computador, mas eu acho que eu nunca descanso na frente do computador. Então eu decidi usar esse tempo pra ler.

Eu já tô lendo muito mais do que eu li nos últimos anos. Eu decidi que ia ler todos os contos do Raymond Carver, que se espalham por sete livros publicados e duas coleções de “restos” no gigantíssimo 68 Contos de Raymond Carver. Eu comecei relendo Iniciantes, um livro com a versão “original” dos seus primeiros contos publicados. Eu já tinha lido esse livro em 2014 e gostado muito. Reli e continuei gostando muito, então decidi seguir em frente.

Raymond Carver escrevendo em sua máquina de escrever em seu escritório cercado por uma estante de livros

Raymond Carver foi considerado um dos grandes autores do minimalismo americano, uma abordagem à escrita que reduz a narrativa aos seus elementos mais básicos. Eu tenho a impressão que isso torna os contos do autor mais cinemáticos, também. Eles são bem diretos em termos do que está acontecendo, e torna o detalhismo bem mais eventual, e bem mais forte quando aparece. Em um dos meus contos favoritos, “Coreto”, Carver detalha a textura do lençol da cama de hotel que o casal está deitado. Mas ele o faz porque eles estão sobre aquele lençol por horas, e a textura começa a chamar a atenção de seus personagens.

Segundo a introdução de Iniciantes, esse minimalismo talvez não fosse um aspecto inicial do autor, mas sim do editor Gordon Lish, que reduziu os contos daquele livro em até 60% para publicação em Do que estamos falando quando falamos de amor. Lendo eles depois de ver suas versões maiores me causou uma estranheza, porque eu já achava Iniciantes bem direto ao ponto, e alguns contos de Do que estamos falando… parecem “capados” de fim ou de início como resultado.

Mas é algo que eu acabei me acostumando, e que parece que o escritor foi se adaptando conforme seus próximos contos, que parecem menos capados e mais como momentos eventuais nas vidas ordinárias que Carver se especializou em escrever. Todos os contos do autor são sobre o cotidiano de pessoas de classe média-baixa dos EUA, satisfeitas por não estarem na linha de pobreza, mas conscientes que se algo acontecer — se elas perderem o trabalho, sofrerem um acidente, ou a geladeira estragar — pode ser a catástrofe que vai levar todo o pouco de estabilidade que eles têm. É como a versão literária dos quadros de Edward Hopper, como o famoso Nighthawks: composições simples de pessoas em meio à imensidão americana. Distantes o suficiente pra gente saber o que elas estão sentindo de verdade — mas o rosto delas não nos engana.

Carver nunca escreveu dois personagens iguais (embora alguns livros possuam versões diferentes de contos de outros livros, o que eu acho bacana), mas todos os seus contos parecem ter aspectos autobiográficos. Carver também viveu de bicos e trabalhos temporários enquanto não conseguia publicar seu primeiro livro, e em todas as suas histórias a presença de bebidas alcoólicas (ou a ausência delas) é bastante demarcada, talvez um reflexo do alcoolismo que ele enfrentou até os quarenta anos.

Esses fatores comuns, e o minimalismo que guia a forma de todos os seus contos, fazem suas histórias serem simples de você sair lendo e acompanhando seus personagens; mas os sentimentos que elas provocam estão longe de serem fáceis de suportar. São famílias se desfazendo, amigos percebendo que estão se afastando, ou o medo de se perder tudo que os deixa imóveis. Em Você poderia ficar quieta, por favor?, seu primeiro livro de contos, os personagens estão todos silenciosamente desesperados, mesmo quando estão felizes. O tom se complexifica bastante durante a carreira do autor, até chegar nos magníficos Catedral e Fogos, seus dois últimos livros.

A coletânea Catedral é considerada a obra-prima do autor, e o seu conto-título talvez seja o mais marcante de todos os que eu li: nele, o marido precisa receber um amigo da esposa que não ama mais, de uma época bem antes dos dois terem se conhecido. O amigo é um homem velho e cego, e o conto acontece todo dentro da cabeça do marido, com seus preconceitos aflorando e então despencando, um após o outro. A história é bem direta: o amigo aparece, eles jantam, o marido tenta não falar bobagem, ele convida o amigo pra assistir TV enquanto a esposa arruma a cozinha, está dando um documentário sobre catedrais, o amigo pede pro amigo descrever o que como são as catedrais, já que ele nunca viu uma, e o marido percebe coisas que ele parece nunca ter visto dessa forma — e o leitor também.

Já é em Fogos que eu vi o autor explorando mais a sua abordagem. Os contos ainda são bastante minimalistas e centrados no que os personagens estão fazendo e pensando, mais do que o que acontece ao seu redor; mas Carver parece mais confortável em transformar sua forma e adaptá-la. Alguns contos têm mais de um narrador em primeira pessoa, e as vezes o que um fala contradiz o outro. Outras vezes o tempo da narrativa muda — começa com uma primeira pessoa no presente, e se transforma numa primeira pessoa no passado, como se o que está acontecendo do nada se transforme em uma memória. Nada que acabe nos tirando da história para observarmos a forma como ela está sendo contada, e essa é a magia dos contos de Carver pra mim: elas acontecem tão naturalmente, mesmo as mais tristes, as mais violentas, que você só percebe o que aconteceu quando elas acabam, quando elas mesmas se transformam em memória para o leitor.

São pequenos momentos na vida de pessoas comuns que eu acompanhei o ano inteiro, e fico muito feliz de ter escolhido esse autor como minha porta de entrada pra literatura de novo. Eu não sei se eu teria a mentalidade de ler um romance nos últimos meses, mas era bom sempre ter um pequeno momento na vida de alguém que eu podia mergulhar e observar, as vezes compartilhar um pensamento, ou as vezes só ver elas com a distância que o autor me deixou.

Episódio 7 – com Manuela Neri

Eu e Manu falamos sobre como é se virar morando sozinho, e como é impossível fugir de baratas voadoras.

Você pode encontrar a Manu no Twitter.

(Desculpem pela falta de voz nos créditos, eu tava um pouco doente!)

Esse episódio foi produzido por Arthur Freitas. A trilha-sonora é do Blue Dot Sessions. A ilustração do Pãodecast foi feita pelo Raul Fontoura.

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O Coração É Um Inadimplente Sem Esperança

Meu amigão Leonardo Michelon lançou hoje um curta que ele fez nessa estação chuvosa que a gente tá tendo aqui no sul.

O Coração É Um Inadimplemte Sem Esperança é curtinho, um pouco mais de dez minutos, mas captura muito o que eu gosto no trabalho do Leo, que compreende muito bem o sentimento de cidades pequenas (ou do interior), onde as coisas acontecem em um outro ritmo, diferente daquele da cidade.

O Coração… é ainda mais especial porque é um trabalho que usa bastante da influência literária onde esse ritmo prevalece: os contos góticos de Carson McCullers e Flannely O’Connor, ou o minimalismo de Raymond Carver. São autores que prezavam pela atenção ao detalhe, que revelava uma realidade bem íntima dos seus personagens. O Coração… captura algo muito semelhante ao mesmo tempo que é bem específico aqui do Rio Grande do Sul, onde essa chuva que lava por semanas parece trazer o peso da existência consigo.

As Mortes de Dick Johnson estreia hoje na Netflix

O documentário anterior da diretora Kirsten Johnson, o belíssimo Cameraperson, era um filme ensaio sobre suas memórias enquanto observava sua mãe perder as dela. Era ao mesmo tempo um filme íntimo (um recorte da carreira da diretora como fotógrafa de outros documentários) e abrangente (as imagens dos outros documentários iam desde imagens da natureza até o nascimento de uma criança no meio de um hospital de campanha).

O novo documentário de Johnson que estreia hoje na Netflix, As Mortes de Dick Johnson, é sobre seu pai, e uma tentativa dela de tornar a morte inevitável dele em algo divertido ou até mesmo capaz de enganar o tempo à seu favor. Eu mal vejo a hora de sentar na frente da TV hoje de noite e assistir, Cameraperson é o tipo de filme poderosíssimo que me faz ficar interessado por tudo o que Johnson quer fazer — e As Mortes de Dick Johnson parece ser esse tipo de filme também.

Eu tô adorando Perry Mason

Eu quase paguei minha língua quando escrevi semana passada sobre assistir séries semanalmente porque, quando o terceiro episódio de Perry Mason terminou, eu quase deixei ir pro próximo episódio (eu não deixei, mas ô vontade). Eu queria ter visto enquanto a série ainda tava dando na HBO, pra me incentivar a ver os episódios semanalmente, mas não consegui porque tava assistindo outra série na época e agora a temporada inteira tá na HBO Go, e a tentação é grande.

Postzinho rápido porque eu tô no meio da temporada, mas a recomendação é forte. Perry Mason tem a sensibilidade das séries antes do pico da TV na década passada: é uma série de antiherói, sim, mas como as melhores desse clichê ela enxerga todos os personagens ainda mais fascinantes ao redor do protagonista, e como as ações dele afetam essas pessoas ao redor — o que só acentua o anti do heroísmo dele.

Diferente dos antiheróis que enchem a TV, o Perry Mason interpretado por Matthew Rhys é realmente um personagem falho — ele sabe que ele falhou como pai, como marido e, na visão da sociedade americana do início dos anos 1930, como homem. Ele não tenta se redimir por esses atos, pelo menos não conscientemente. Ele tenta sobreviver na Califórnia pós-Grande Depressão, e o jeito que ele arranjou foi em fazer pequenos bicos de detetive particular que investiga traições e casos de tablóides, como o de um comediante que gosta de fazer sexo envolto de glacê. Até que um caso macabro cai no colo dele e do advogado que ele trabalha, que dá a estrutura da primeira temporada da série: o sequestro e assassinato macabro de um bebê envolvendo a alta sociedade de Los Angeles e uma igreja.

Eu ainda não sei direito o porquê de Perry Mason funcionar tão bem. O mistério do bebê é meio trama padrão de dramas que precisam de uma muleta narrativa pra seguir em frente; mas ele é construído ao redor de personagens fantásticos com atuações fabulosas por trás. O Mason de Rhys (um dos melhores atores hoje em dia) tem tristeza típica dos filmes de filme noir da época, mas ainda assim com um pouco de bom humor no coração. A secretária Della Street (Juliet Rylance, de The Knick) é leal aos seus colegas, mas também é a pessoa mais competente do escritório. O policial Paul Drake (Chris Chalk, de When They See Us) é a antítese do Mason: um homem tentando fazer o certo, mas sendo incapaz de agir por ser um homem negro na força policial corrupta de Los Angeles. Esses personagens tão numa das séries mais bonitas que eu já vi. Perry Mason esbanja sua produção com uma reprodução dos EUA entre as duas Guerras Mundiais. Me lembrou o quanto eu gostava daquele jogo Mafia, que acontecia mais ou menos na mesma época, e de como eu amo os filmes noir: é uma série que usa bastante contraste pra demarcar as profundezas de seus personagens, onde até mesmo o figurino revela mais intenções do que o que as pessoas conseguem falar em uma sociedade que não os dá ouvidos.

Acho que, por ser uma série, Perry Mason tem a paciência de deixar seus personagens simplesmente existirem nesse mundo construído milimetricamente pra eles, e é aí que a série brilha pra mim. São oito horas, e acho que nem metade do que eu já vi é sobre a “trama” do assassinato. Como minhas séries favoritas, a trama é uma desculpa para a história seguir em frente, e os verdadeiros conflitos dos personagens, aqueles que existem no cotidiano, que são invisíveis em outras formas de arte que não têm a gordura que uma série de TV proporciona. Com isso, Perry Mason cria uma ótima série de gênero (é bem especificamente um drama de advogados, tipo The Good Wife mas nos anos 30), mas que aproveita seu tempo e seus visuais incríveis pra ressaltar os momentos privados que revelam como a sociedade americana falha com suas pessoas. É linda e profunda, sim. E é divertida também, porque o cotidiano que a série observa é cheio de desvios e de becos sem saída, e nem todos eles são trágicos.

Episódio 6 – com Erê Carvalho Zimmer

A gente começou conversando sobre pastel, depois conversamos sobre música e finalmente conversarmos sobre a arte de flertar.

Você pode encontrar o Erê no Twitter e no Instagram.

O Pãodecast é produzido por Arthur Freitas, a trilha-sonora é do Blue Dot Sessions, e a ilustração foi feita pelo Raul Fontoura.

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Em defesa de assistir séries semanalmente

A quarentena aqui por casa já dura seis meses e a cada mês — as vezes à cada semana — eu vou repensando e reavaliando algumas coisas na minha vida. Eu me reaproximei da música, por exemplo. Eu parei de assistir tanto filme e a ler mais (ainda vou escrever sobre isso!). Hoje eu vou falar de uma nova redescoberta.

Como todo o jovem com acesso à internet em meados dos anos 2000, eu sou um adepto da maratona de séries há um bom tempo, desde quando isso significava baixar um pacote de RMVB legendado ou de AVI com pacotes de legendas do Legendas.tv. Foi assim que eu vi Família Soprano e A Sete Palmos e Deadwood pela primeira vez, foi como eu descobri a primeira temporada de Community ou de United States of Tara também. Passar uma semana inteira baixando (porque a velocidade da internet naquela época era um… problema) pra poder maratonar temporadas inteiras no sábado e no domingo.

Quando a Netflix começou a lançar seus conteúdos originais ali na primeira metade de 2010, com temporadas completas de House of Cards e Orange is the New Black sendo lançadas simultaneamente, era quase que uma “formalização” de como os ~jovens~ assistiam TV. Ter que esperar uma semana pros novos episódios das últimas temporadas de Breaking Bad e Mad Men era algo que estava saindo de moda.

E pelos últimos anos eu me acostumei a assistir séries assim. Eu sempre acompanhei uma ou outra série semanalmente — as que eu sempre fui mais fiel, como Community ou Veep ou The Leftovers e Watchmen —, mas a grande maioria das séries da década passada pra cá foram vistas em questões de dias. Até que, nos últimos meses, eu comecei a sentir o peso de ficar muito tempo na frente da TV, e de ter tempo sobrando pra ficar todo esse tempo na frente da TV. As histórias que eu assistia nas séries que eu assisti nesses últimos meses viraram borrões narrativos.

Séries de TV são ótimas oportunidades pra acompanhar narrativas que se desenvolvem durante muitos anos, que espiralam e se transformam, mas têm a qualidade específica de serem feitas através de momentos — sejam eles de 20, 40 ou 60 minutos — que acompanhamos. A tragédia de Walter White em Breaking Bad envolve dezenas de personagens por um período de anos, mas ela é considerada uma grande série de TV porque cada episódio não era só uma parte dessa tragédia, mas uma própria história em si. Grandes séries de TV têm essa qualidade — nós nos lembramos tanto da sua grandiosidade narrativa quanto da sua profundidade. O primeiro fator é feito pelas temporadas, que se estendem através dos anos, mas o segundo só é possível de construir episódio por episódio.

Antes da Netflix, séries de TV precisavam criar grandes episódios semanalmente — eles precisam ficar na sua mente durante a semana inteira para que você volte na semana seguinte, e precisam desenvolver uma relação com você que seja forte o suficiente para você esperar meses até a próxima temporada. Com o streaming, e com a Netflix e o Prime Video disponibilizando temporadas inteiras de suas séries na quinta ou sexta-feira, para você poder assistir elas inteiras durante o fim de semana, essa qualidade da série de TV se perdeu, e temporadas de séries se tornaram mais próximos de filmes de dez ou quinze horas. É muito mais difícil discernir o que acontece em um episódio de Stranger Things do que de Succession, por exemplo.

E tem um motivo formal pra isso: o “gancho” do episódio mudou. O gancho é aquele evento que nos instiga a querer continuar assistindo a série. Tecnicamente todos os episódios de TV usam ganchos. Quanto mais tempo uma série está no ar, menos ela precisa desse artifício porque seu público já está naturalmente investido nos acontecimentos dos personagens, mas o “gancho” ainda existe. Seja uma série exibida semanalmente ou disponibilizada por inteiro no streaming, o gancho de seus episódios está bem no finalzinho, provavelmente na última cena ou na última sequência de cada episódio.

Em uma série de TV exibida semanalmente, esse gancho é o “desenredo”, a consequência do clímax do episódio. O clímax é aquele evento mais forte da narrativa, o ponto alto onde o conflito estoura. Em Succession, por exemplo, é quando o patriarca da família trai um de seus filhos, deixando ele pra ser comido vivo pelos jornalistas. O episódio não termina nesse evento, mas termina no desenredo — em como o filho traído precisa aguentar a traição do seu pai quieto, por exemplo. Esse desenredo geralmente é marcante, mas também é vago. A gente não sabe o que está na mente do personagem, como ele está reagindo ao evento do clímax. Tanto o personagem quanto o espectador precisam amadurecer esse sentimento durante a semana.

Já um episódio de série da Netflix usa o clímax como gancho. O momento mais marcante de um episódio de House of Cards ou Stranger Things é exatamente aquele evento final, o que torna o episódio em um crescendo dramático. Isso tem dois efeitos: o primeiro, a gente não vê a consequência desse evento importante, o que nos leva a querer começar o próximo episódio imediatamente; o segundo, que eu acho menos intencional e mais problemático, é que torna as temporadas de séries assim um crescendo gigante. A série nunca pode “diminuir” os riscos do clímax do episódio anterior sem desmentir seus próprios eventos, o que torna um episódio extremamente dependente do outro1.

Eu não quero fazer um juízo de valor aqui e dizer que séries de TV semanais são melhores. Elas tendem a criar episódios de TV muito melhores, é claro, mas acho que é um fator que precisa ser avaliado caso-a-caso Por exemplo, minisséries como Olhos que Condenam caem muito bem na fórmula da Netflix porque são visivelmente séries com capítulos extremamente dependentes uns dos outros. Mas séries de TV que duram vários anos, e que precisam nos fazer nos conectar com seus personagens muito além da narrativa, precisam criar grandes momentos. E tá sendo muito bom, pra mim, experimentar essas histórias com um tempo pra refletir sobre elas. Eu tô revendo Enlightened agora, e ver a personagem de Laura Dern aprender que lidar com as adversidades do seu dia-a-dia é parte essencial do que é a vida adulta é algo belo, mas que eu acho que perderia muito da magia se eu fosse ver tudo de uma vez. O crescimento da personagem acontece “em tempo real” se eu dou uma pausa entre episódios.

Minhas séries favoritas dos últimos anos, como Succession e Betty também são pensados em episódios fechados. Em nenhum dos casos eu acho recomendável você olhar essas séries fora de ordem, mas você sabe exatamente o que acontece em cada um dos episódios porque seus eventos — o conflito, o clímax e o desenredo — são muito bem estabelecidos, e levam mais naturalmente um episódio ao outro assim. Os personagens dessas séries crescem em cada episódio, mas nossa relação com eles amadurece durante a semana. O jeito que eu deixo o Kendall em um episódio de Succession pode ser extremamente diferente de como eu vou reencontrá-lo na semana seguinte.

Tenho a impressão que isso é algo que outros serviços de streaming estão observando. Em termos comerciais, a Netflix domina alguns finais de semana do ano com três ou quatro séries que dominam a conversa, como Dark e Stranger Things e Sex Education. Mas olhe como a HBO conseguiu dominar semanas a fio ano passado com Watchmen e a última temporada de Game of Thrones e a segunda temporada de Succession, que acabou levando os principais prêmios da noite ontem no Emmy. E vale a pena de lembrar como Twin Peaks hipnotizou todo o mundo por dezesseis semanas em 2017, com episódios que nunca eram parecidos um com o outro.

Outros serviços de streaming parecem ter observado e estão agindo de acordo. Algumas séries do Prime Video estão sendo lançadas semanalmente, e o Disney+ e o Hulu lançam tudo semanalmente hoje em dia. Para os serviços, isso mantém suas séries como assunto para conversas por mais tempo durante o ano, tornando-os mais essenciais para pessoas com o mínimo de convívio social. Para nós, isso provavelmente vai resultar em episódios melhores para nossas séries favoritas, e eu honestamente não vou reclamar.

  1. Acho importante explicar que isso vale principalmente pras séries dramáticas da Netflix, mas ainda mais para suas produções live action. As animações originais da Netflix são bem menos “maratonáveis”, embora sejam criadas pra isso. BoJack Horseman é uma série visivelmente pensada pra que cada episódio se sustente sozinho. 

A era dos videogames portáteis acabou

A Nintendo encerrou a produção de todos os modelos do Nintendo 3DS no Japão (e provavelmente no resto do mundo também). Esse é, talvez, o fim dos videogames portáteis dedicados.

O Nintendo 3DS é parte da linhagem que conseguiu manter a Nintendo relevante durante gerações de videogame que seus consoles de mesa não conseguiram competir com o PlayStation. O sucesso estrondoso do Game Boy e do Game Boy Advance durante os anos do Nintendo 64 e do GameCube foram essenciais para a empresa no início dos anos 2000, e o sucesso modesto, mas estável, do Nintendo 3DS salvou a Nintendo do fracasso do Wii U (sem falar no DS e o Wii, que venderam como água juntos no fim dos anos 2000 e início dos anos 2010).

Hoje o cenário de jogos portáteis é bem diferente, com qualquer celular sendo capaz de jogar centenas de milhares de jogos, que vão desde quebra-cabeças e Tetris genéricos até RPGs e GTA: San Andreas. É surpreendente que o 3DS conseguiu durar tanto tempo desde que foi lançado, há nove anos, porque era um videogame fadado ao fracasso em um mercado que o iPhone já tinha dominado nos anos finais do DS. A própria Nintendo seguiu em frente, pegando as lições dos portáteis e trazendo para o seu híbrido Nintendo Switch. Vai ser interessante ver como ela vai seguir em frente sem esse braço que já foi fundamental pra ela por muito tempo.

Minha relação com videogames portáteis começou relativamente tarde, mas eu sempre gostei que eles eram uma alternativa relativamente mais barata para os jogadores brasileiros que não tinham dinheiro pra comprar um console de mesa. Eu “herdei” um Game Boy Advance SP do meu primo, com The Minish Cap e Super Mario Advance, e me apaixonei pela ideia. Eu só fui ter um outro videogame portátil anos depois com o 3DS, que eu paguei com o meu primeiro salário de estagiário. Hoje, meu 3DS é meu grande backlog de vários jogos que eu quero/quis/vou jogar com o passar dos anos, já que ele oferece compatibilidade com todos os videogames portáteis da Nintendo e com jogos do SNES e do NES pelo Virtual Console. É uma pequena preciosidade que vai fazer falta — celulares não têm jogos grandiosos mas pequenos como os portáteis da Nintendo ofereciam de vez em quando, e eu não sei se eles vão ter espaço num console de mesa como o Switch.

Defector está aqui

Captura de tela da página inicial do site Defector no dia 10 de setembro de 2020

Defector, o site formado pela equipe que se demitiu do antigo, excelente Deadspin, foi lançado hoje.

Eu não sou um fã de esportes, mas era um leitor assíduo do Deadspin por anos. Era um blog sobre esportes, mas sua cobertura era muito mais abrangente que isso. Como todos os sites que pertenceram à rede de blogs do Gawker (como o Kotaku e o Gizmondo), o Deadspin era um blog com um tema, mas que transcendia esse tema ao relacionar ele com qualquer tópico do nosso dia-a-dia. É aquele tipo de cobertura mágica, que faz uma pessoa não muito interessada em esportes no geral a se interessar pelo assunto ao mostrar, com humor e sagacidade que eram típicos da blogosfera de meados dos anos 2000, como “gostos” e “assuntos” não existem no vácuo. O Deadspin usava esportes pra comentar sobre política, pra expor redes de abuso e de misoginia na nossa cultura, para explorar o racismo institucional dos Estados Unidos.

Como o Gawker, o Deadspin “acabou” porque pessoas com dinheiro demais não gostavam que um blog que atraía milhões de pessoas por dia expusessem como as garras de acionistas e especuladores alcançam muito mais do que o Vale do Silício, causando interferência política (Peter Thiel, que financiou a falência do Gawker, é confidente de ninguém menos que David Trump). Assumindo as empresas mães desses blogs que expunham suas influências na economia americana, eles mataram seus maiores inimigos por dentro. Se você quer saber sobre o que aconteceu com o pessoal do Deadspin, o post de abertura do Defector explica direitinho isso ao mesmo tempo que dá um panorama da internet hoje em dia.

E agora aquela mesma equipe voltou com Defector, um blog mantido por assinaturas (pra não depender de acionistas e publicitários) com a mesma voz do grande falecido Deadspin. É muito bom ver um site assim surgir hoje em dia. Ele tem aquela mesma qualidade de muitos dos meus sites favoritos, que já deixaram de existir há muito tempo. Sites que eu sei o endereço de cabeça, e que acessar eles no início do dia ou no horário do almoço é um ritual do meu cotidiano. Eu amava isso no The Dissolve, e é bom finalmente ter um site assim de novo pra colocar na minha barra de favoritos. É aquele tipo de site que, quando acontece algo, você vai correndo acessar o site pra ler um post sobre algum dos seus autores favoritos comentando exatamente aquilo. É divertido, é instrutivo e serve àquele propósito mítico da internet de nos conectar às ideias uns dos outros.

Longa vida ao Defector, meu mais novo melhor amigo na internet!

O trailer de Duna é incrível

A Warner finalmente divulgou o trailer1 da nova versão de Duna, e caramba eu tô empolgado.

Essa versão é dirigida por Denis Villeneuve, do excelente Blade Runner 2049 e do magnífico A Chegada. Eu sou um fã do trabalho mais recente dele (não gosto muito dos pseudo-Nolan que ele fez no início da carreira, mas até lá tem um potencial), e quero muito ver pra onde ele vai levar o material.

Eu tô há tempos procurando um universo de ficção científica pra afundar minha cabeça. O cinema tem O Senhor dos Anéis pra fantasia, mas fora Star Wars não tem uma ópera espacial grande o suficiente pra me satisfazer. O Duna do David Lynch é instigante (mais instigante do que bom, vale dizer), quero ver o que o Villeneuve faz com o quádruplo do orçamento.

Agora, tá com uma carinha de que vai ser um outro fracasso de bilheteria como BR2049 foi (Villeneuve trabalha num ritmo lento demais porque gosta muito dos planos que encena), então nem vou me animar muito pra uma sequência que já foi meio que confirmada.

Esse é um filme que eu quero muito ver no cinema. Villeneuve trabalha numa proporção gigante, sempre, e vale a pena uma imagem maior que o natural. Eu realmente espero que a Warner atrase o lançamento (que, por enquanto, tá previsto pra dezembro). Não façam como fizeram com Tenet.

  1. Particularmente eu gostava mais de quando os trailers simplesmente surgiam na internet, sem muito aviso prévio. Criava aquela surpresa e excitação de ver o que um filme ia ser pela primeira vez. Há tempos já não é assim — esse trailer de Duna foi anunciado há umas semanas já e a Warner ficou criando “hype” pro seu “lançamento” como se ele fosse o filme em si. Pra mim é surreal que um trailer por si só não seja capaz de criar conversa sobre um filme mais. 

E se Digimon tivesse vencido?

Eu estou assistindo esse vídeo repetidamente desde ontem. Eu adoro a Jenna e suas análises de como certas escolhas no game design dos jogos que gostamos repercutem. Aqui, ela faz uma análise do que tivesse acontecido se Digimon tivesse vencido Pokémon no final dos anos 1990 pela ubiquidade da atenção das crianças.

O ponto de divergência nas timelines segundo a Jenna é bastante plausível, na verdade. Ele seria a exibição de um episódio do desenho de Pokémon no Japão que provocou convulsões em centenas de crianças. No nosso mundo, isso impactou Pokémon, tirando-o do ar por quatro meses, mas o anime volta e a Nintendo pode dominar a TV e o Game Boy simultaneamente por anos a fio. No mundo que Jenna propõe, Pokémon nunca voltou pro ar, e Digimon teve a chance de dominar tanto os canais de TV quanto os videogames, se tornando o mamute cultural que a Nintendo nunca teria.

É um vídeo muito engraçado, principalmente quando ela começa a falar de como os furries dominariam a cultura popular ou como Mother 3 teria sido lançado pro Nintendo 64. Mas o que eu realmente gosto é em como ela reflete sobre como Pokémon é vital pra existência da Nintendo como ela é hoje. Embora o Game Boy tenha sido um sucesso estrondoso sem os jogos de Pokémon, o lançamento criou uma nova onda de sucesso que fez a Nintendo atrasar o lançamento do sucessor do Game Boy em anos, permitindo que as “revisões de hardware” do portátil existissem. Esse é um impacto gigante, porque muito do sucesso contínuo do Game Boy pra Nintendo — e que tornou a Nintendo a grande monopolizadora do videogame portátil até o lançamento do iPhone — foi o fato deles serem baratos de serem produzidos e vendidos (lá fora, vale lembrar).

Por exemplo, se Pokémon Red & Blue não tivesse sido lançado, o sucessor do Game Boy teria sido lançado no lugar. O nosso sucessor do videogame é o Game Boy Advance, outro sucesso estrondoso da Nintendo porque refletiu a fórmula do original: era ainda menor, era barato e era mais poderoso. O Game Boy Advance não teria sido lançado em 1996, porque a tecnologia que o permitiu ser lançado em 2001 não era tão madura e nem tão barata em 1996.

O Game Boy 2 fracassaria enquanto a Nintendo lutava contra o PlayStation e o PlayStation 2 com o Nintendo 64 e o GameCube, e nessas gerações o videogame portátil foi essencial para a Nintendo, porque vendiam como água. Sem um Game Boy Advance para ajudar a Nintendo a aguentar o baque do fracasso do GameCube, eu duvido que uma “aposta” como o Nintendo DS teria existido. Eu duvido também que a Nintendo tivesse mantido sua linha de portáteis em paralelo aos videogames de mesa, o que nunca resultaria no Nintendo Switch.

Enfim, como vocês podem ver eu também adoro analisar a carreira da Nintendo. A Jenna faz isso muito melhor.

Eu tô amando The Last Campfire

Eu passei esse fim de semana jogando The Last Campfire, que foi lançado no último dia 27 no Apple Arcade (e no PC, no Switch, no Xbox e no PS4). É o meu novo jogo favorito do serviço de assinatura de jogos da Apple, e eu tô considerando comprar ele no Switch pra poder jogar na TV.

The Last Campfire é o novo jogo da Hello Games, o pequeno estúdio que fez No Man’s Sky, um dos jogos mais ousados e fascinantes da última década. O lançamento de No Man’s Sky foi meio complicado — as pessoas descobriram que explorar o espaço levava muito tempo e era raro encontrar planetas com vida orgânica (surpresa!?) —, e a Hello Games passou os últimos quatro anos fazendo grandes pacotes de atualização pro jogo, adicionando multiplayer, estações espaciais, e aliens.

O novo jogo dessa équipe é bem menor. É do mesmo designer de um dos meus jogos favoritos do Wii, LostWinds, e compartilha muito do mesmo DNA. Ao invés de ser um plataforma, The Last Campfire é um jogo de aventura onde o jogador controla Brasa, um serzinho encapuzado que se separou de outros coleguinhas e precisa atravessar umas ruínas pra reencontrá-los. Nessas ruínas, Brasa descobre que outros encapuzadinhos como ele morreram com o mesmo objetivo. Para Brasa conseguir sair desse lugar misterioso é preciso reunir essas almas e levá-las até à fogueira que dá título ao jogo, onde um espírito levará os encapuzadinhos para o Além.

The Last Campfire é um jogo econômico. Ele não é muito longo e sua estrutura é simples: você atravessa as ruínas misteriosas em busca dos vestígios dos encapuzadinhos. Você precisa mover um sapo de lugar para conseguir uma chave, que vai liberar uma área onde está um desses encapuzadinhos. Quando você o encontra, o jogo abre uma espécie de “dungeon” (como as de Zelda), onde você precisa resolver um quebra-cabeça para reconectar o corpo do encapuzado à sua alma. As vezes você move pedras para conseguir alcançar a alma, outras vezes você precisa pisar nos lugares certos na sequência correta.

Conforme você vai solucionando os quebra-cabeças da “dungeon interna”, você vai descobrindo como o serzinho perdeu sua alma. E esse é um dos traços onde The Last Campfire mais remete à LostWinds: embora seja econômico, o jogo consegue criar uma história e um lugar com muita eficácia. LostWinds criava uma sensação de que o vilarejo do Deus do Vento (onde a história começava) era um lugar repleto de história e de tradição.

The Last Campfire é muito mais íntimo, as histórias que você vai descobrindo são de criaturas com medo e se sentindo sozinhas ou com fome, e conforme você vai as reunindo perto da fogueira o jogo consegue criar uma sensação de comunidade muito bonito. Aos poucos, as ruínas não parecem mais tão sombrias e vazias, a chama da fogueira vai crescendo e mais encapuzadinhos se sentam ao redor dela.

É na “textura“ dos comandos que The Last Campfire brilha. LostWinds era um dos jogos que realmente entendia as possibilidades do Wii Remote, e The Last Campfire faz algo muito semelhante com a tela de toque do iPhone e do iPad: os controles não são só precisos, mas eles criam uma ilusão de peso que é rara até mesmo nos outros jogos do Arcade, que tentam criar esquemas de controle semelhantes à joysticks, o que causava uma estranheza. Como Monument Valley e Assemble With Care, o time da Hello Games usa a tela do celular como uma tela em branco onde você é o pintor: uma passada de dedo muito rápida oferece um toque ágil mas fraco, fazendo Brasa correr; um giro firme com o dedo aplica força, o que é útil para mover manivelas ou empurrar caixas. Sabendo do cuidado desse time com seus jogos anteriores, eu suspeito que os comandos traduzam muito bem para mouse/teclado e controles de videogame também.

É um jogo perfeito para sessões curtas por causa da sua estrutura, e também oferece uma ótima experiência se você quer sentar e enfrentá-lo em uma sessão: não existem cronômetros nem urgência nas suas missões, e o cuidado visual e sonoro do jogo nunca faz a experiência ser maçante ou estressante — você não precisa correr com nada, porque o jogo pede sua paciência. The Last Campfire é bem delicado. Ele retribui sua dedicação e sua atenção, tanto nos quebra-cabeças quanto nas histórias que eles têm pra contar.

Episódio 4 – com Cássio Fagundes

Era um pouco tarde da noite quando eu e o Cássio paramos pra conversar. Eu tava trabalhando. Ele tava lavando louça.

O Cássio não tá por aí na internet, mas ele pediu pra avisar que se quiser falar com ele, procura na praia.

O Pãodecast é produzido por mim, a trilha-sonora é do Blue Dot Sessions, e a ilustração foi feita pelo Raul Fontoura.

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Alguém entrou na minha cabeça, leu minha mente e fez o jogo perfeito pra mim

Eu não sei quando ou quem, mas alguém entrou na minha cabeça.

Fantasy Life é um RPG lançado para o Nintendo 3DS em 2015, e eu não sei como eu não descobri ele antes porque, caramba, eu não sei como explicar, mas esse jogo pega todas as minhas frustrações com o gênero e resolve cada uma delas. Eu tô a um ponto de distância pra dizer que esse jogo é perfeito pra minha pessoa.

Meu gosto pra jogos de videogame se desenvolveu bem tarde na minha vida. Eu não tive um videogame na infância, e o computador que o meu pai usava pra trabalhar não era muito poderoso. Grande parte da minha infância foi jogando uns jogos de aventura de apontar-e-clicar que ele sempre gostou muito de jogar, ou SimCity e o primeiro The Sims. A gente só teve um computador mais forte lá por 2007, que foi quando eu comecei a jogar jogos mais “sérios” (que tinham sido lançados vários anos antes, porque nem a pau que algo como Crysis ia rodar nele).

Em resumo, uma boa parte da minha vida foi jogando coisas simples ou simuladores, e isso teve um efeito gigante em como eu jogo videogames até hoje. Eu prefiro jogos que não se importam se eu sigo em frente devagar, ou se eu vivo desviando do objetivo principal porque eu encontrei algo mais interessante no meio do caminho. Eu também me frustro bastante se um jogo não aceita bem essas minhas disgressões e a história parece que “quebra”. Eu acabo gostando de jogos com pouca história, ou que ela se desenvolve espaçadamente (como Animal Crossing e Breath of the Wild), ou jogos com tanta história que é impossível de se desvencilhar dela (como Portal ou Kentucky Route Zero).

É aí que vive o meu problema com RPGs. Existe uma falsa “abertura” na jogabilidade da maioria dos jogos do gênero que me irrita bastante, porque são jogos com histórias longas e mirabolantes, mas estruturalmente são quase sempre a mesma coisa: você vai de uma cidade à outra — que é onde a história acontece, porque você interage com outros personagens — e no meio do caminho você precisa ficar grindando de nível pra poder batalhar com um chefão que você vai encontrar a seguir. Como eu sou um jogador inexperiente em praticamente tudo, eu odeio combates de maneira geral, e evito sempre quando eu posso. Só que em RPGs eles são a única maneira de você seguir em frente, e você precisa ficar batalhando um monte pra aumentar de nível e de experiências pra conseguir progredir com as histórias.

Em Octopath Traveller, por exemplo, se eu escolho ser uma mercante eu atravesso um bosque e a primeira coisa que me aparece é um monstro. Eu não posso ir lá e, sei lá, vender algo que eu tenha em mãos pra ele. Eu preciso batalhar com ele. Eu tenho uma sacola de compras na mão, e do nada ela se transforma numa espada. Eu sempre fiquei meio frustrado com isso, porque RPGs geralmente são os jogos com as histórias mais mirabolantes do meio, e eu me sinto por fora da maioria por causa disso. Se jogos fossem livros, Half-Life seria um daqueles virador-de-páginas que a gente compra no aeroporto; mas, sei lá, Final Fantasy IV seria um Guerra e Paz e, meus amigos, eu quero muito ler Guerra em Paz, esses novelões gigantes com centenas de personagens. Eu amo!

É aí que entra a mágica de Fantasy Life. Ele pega esse fator mais limitador da maioria dos RPGs e dá uma bela mexida, adicionando mecânicas de simuladores como Animal Crossing e The Sims. Ao invés de você ser um guerreiro — ou um arqueiro, ou um mago, ou um ninja, ou um cavaleiro, sei lá — indo salvar o mundo, Fantasy Life deixa você escolher entre doze vocações bem diversas. Os cavaleiros e mágicos e arqueiros estão lá, mas você também pode ser cozinheiro, mineiro, e até alfaiate! É exatamente o que eu sempre quis, poder jogar essas histórias intrincadas dos RPGs podendo realmente fazer as ações da classe que eu escolhi. Eu decidi ser um pescador, por exemplo, e estou evoluíndo de nível pescando peixes e vendendo eles no mercado.

Isso faz com que o jogo evolua em velocidades diferentes pra cada jogador, mas eu não tenho problemas com isso. Pelo contrário, acho que isso faz Fantasy Life se tornar ainda mais especial, porque usa aquilo que é bem específico dos jogos em si — a necessidade do jogador fazer escolhas.

Uma das coisas mais bacanas que Fantasy Life faz, também, é me apresentar com maior delicadeza às mecânicas mais clássicas do gênero. Depois que eu domino a minha vocação inicial, eu posso ir no sindicato (!) do reino (!!) e decidir começar uma nova profissão (!!?). Eu posso escolher entre aquelas doze vocações de novo e misturar minhas habilidades de uma vocação com a outra pra continuar a história. Se você escolhe ser um mineiro, por exemplo, você vai na mina escavar pedras, e se você depois decide ser ferreiro, você pode forjar ferramenta, armas e armaduras. Daí você decide ser um cavaleiro, e pode fazer suas próprias armas com suas próprias mãos. É muito bacana!

Fantasy Life me impressionou um monte porque, pra é um RPG com uma história relativamente curta, mas que ganha escopo justamente na forma que o jogador joga. Ao invés de você viajar o mundo como nos Final Fantasy da vida, você fica só aos arredores do reino, explorando ele de maneiras diferentes conforme você aprende uma vocação e evolui de nível e mistura suas habilidades entre vocações. É tão repleto de conteúdo (e a localização da Nintendo Treehouse não decepciona), que me fez gostar de aprender combater. Vai ver esse é o jogo que vai me ensinar a gostar dos RPGs mais clássicos, no final das contas?

Ainda bem que Gilmore Girls existe

As coisas tão meio quietas por aqui, mil desculpas por isso. Eu queria ter mais inspiração do que escrever ultimamente, mas eu ando bastante cansado do trabalho e decepcionado que eu não tô conseguindo escrever o projeto de mestrado que eu tô tentando escrever. Eu demorei mas eu tô começando a sentir os efeitos de se sentir sozinho por muito tempo e isso não tá fazendo bem pra minha cabeça.

É nessas horas que eu lembro que Gilmore Girls e amigos, ainda bem que Gilmore Girls existe. Eu tinha parado de rever — depois de passar uns três ou quatro anos revento infinitamente, terminando e recomeçando a série —, mas na última semana eu fiz meu check-in em Stars Hollow de novo. Essa não é a melhor série já feita, mas é a melhor série já feita.

Eu tô indo com mais calma dessa vez. Ao invés de assistir vários episódios por dia, eu tô assistindo um episódio por semana. Eu tô no segundo episódio, em que Rory, a filha da Lorelai, começa na nova escola particular. Esse é o evento que faz a série começar: Lorelai é filha de dois magnatas da alta sociedade americana, mas ela nunca conseguiu aceitar o estilo de vida que todo aquele dinheiro e poder demandava. Lorelai engravidou cedo, pra desgosto dos pais, e logo depois do nascimento da filha decidiu largar a escola e fugir para uma cidadezinha no interior, onde ela encontrou um lar. A Rory cresce e se torna uma daquelas crianças prodígio — inteligentíssima, e o sonho é se tornar ainda mais inteligente —, e acaba conseguindo uma vaga numa escola prestigiada e cara. Lorelai não tem dinheiro pra oferecer essa educação pra filha, e acaba tendo que fazer um acordo com os pais: eles emprestam o dinheiro para a educação de Rory, e ela vai todas as sextas-feiras jantar na casa deles.

E é isso. Gilmore Girls não é uma série de grandes eventos. A primeira temporada tem uma fórmula bem simples: nós acompanhamos o dia-a-dia das garotas Gilmore, e eventualmente elas vão para a casa dos pais da Lorelai, onde o conflito geralmente surge/explode. Emily, a matriarca da família, tem uma visão de vida muito diferente da de Lorelai, e todos os conflitos mal terminados ou absorvidos durante os anos tendem a vir à tona quando a rígida Emily e a instintiva Lorelai se deparam. Sendo mãe e filha, as duas se conhecem mais do que gostariam, o que pode criar momentos realmente bonitos de conexão entre duas pessoas muito diferentes; ou momentos dolorosos em que elas se machucam de maneiras imperdoáveis.

A dinâmica familiar dos Gilmore é um dos pontos altos dessa série. A criadora Amy Sherman-Palladino ficou conhecida pela sua potência em criar diálogos inspirados e afiados, cheios de referências e humor (reza a lenda que os roteiros dos episódios chegavam a ter 70 páginas, quando o normal é 45, porque os diálogos precisavam ser lidos com o dobro da velocidade normal). Mas ela é uma grande dramaturga também. A complexidade emocional que vai se criando em Gilmore Girls é sutil e poderosa, que explora os machucados geracionais que uma mãe rígida como Emily pode causar numa filha, ou como uma mãe-melhor-amiga como Lorelai pode acabar causando em Rory. A autora consegue sempre visualizar o que se perde quando Lorelai e Rory brigam (são momentos raros, mas dolorosos sempre), como se uma porta se fechasse com algum assunto que mãe e filha entendem que nunca mais vão poder compartilhar.

Mesmo assim, essa série é um conforto de se assistir. Muito do charme de Gilmore Girls existe porque Lorelai encontrou um lar e uma família adotiva em Stars Hollow. Se um dos grandes arcos da série é Rory percebendo que o lar que a mãe criou não é o lar que ela gostaria de viver, Gilmore Girls só consegue fazer esse arco funcionar tão bem como ele funciona porque a cidade é muito bem construída. É um apanhado de clichês, onde sempre há um evento na praça da cidade onde todos se encontram. Alguns são clássicos, como o dia das bruxas ou a páscoa, mas outros — como o campeonato de dança de 24 horas, do meu episódio favorito, ou a exposição de obras vivas — são inspiradíssimos.

É por causa de Stars Hollow que a série é tão boa de assistir, principalmente quando as coisas tào ruins do lado de cá. No segundo episódio, Lorelai se desentende com a mãe em mais uma briga cansativa, e Rory descobre que ela não é inteligente assim. É um episódio de pequenas derrotas, onde elas acabam um pouco pra baixo, e não tem muita solução — Emily não morreu, e Lorelai precisa ver ela semana que vem; Rory vai precisar estudar muito mais pra conseguir pegar o ritmo da nova escola. Mas o episódio não termina com nada inspirador. Ele termina com Lorelai, Rory e Lane comendo pizza enquanto passeiam pela praça da cidade conversando sobre todas as derrotas que tiveram naquele dia. Elas estão cansadas, com as mãos engorduradas, mas ali em Stars Hollow elas são amadas e estão protegidas. Os problemas vão poder esperar até amanhã. Esse restinho de dia ainda pode valer a pena.

Episódio 3 — com Eduarda Ellwanger

Eu e a Eduarda falamos de família e o que é se sentir em família.

Você pode encontrar a Eduarda no Twitter e no Instagram.

O Pãodecast é produzido por mim. A ilustração é do Raul Fontoura e trilha-sonora é do Blue Dot Sessions.

Quer fazer parte de um episódio? A gente tem mais uma vaga para a primeira temporada, mas já estou começando a organizar os entrevistados da segunda! Nos envie uma mensagem.

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The Touryst foi lançado para PC e Xbox One

The Touryst, o meu jogo favorito do ano passado acabou de ser lançado no Xbox One e no Windows, e já está disponível no Xbox Game Pass.

The Touryst é um daqueles jogos raros hoje em dia — ele não é experimental e corajoso como os indies, nem conservador e apelativo como os AAA —, que se dedica a abraçar algumas mecânicas já provadas por outros jogos e tornar eles impecáveis. É curtinho, mas é lindo e charmoso e cheio de imaginação, onde você é um turista atravessando uma série de pequenas ilhas com alguns quebra-cabeças que precisam ser decifrados para você liberar as próximas ilhas.

O mais bacana de The Touryst é que, por causa do seu mundo diminuto, cada detalhe do jogo é cheio de decisões inspiradas e mini-games. Você pode surfar ou jogar joguinhos em um fliperama, ou pilotar um drone ou fazer aula de mergulho. Nem tudo isso faz você progredir na história do jogo, mas tudo isso ajuda a montar uma experiência relaxante e divertida e repleta de descobertas. Foi a melhor surpresa pro Switch ano passado, e eu tô muito contente que esse jogo tá ainda mais lindo no Xbox One X. A Shin’en não só se preocupou em criar um jogo com mecânicas bem maduras e desenvolvidas, mas também um jogo virtualmente livre de bugs. Foi uma experiência que me surpreendeu muito.

BDG passou um ano lendo todos livros de “Halo”

Minhas preces foram ouvidas.

Eu amo Halo, e tô muito feliz que Halo Infinite vai ser lançado esse ano. É um dos meus universos de ficção científica favoritos, primeiro porque é super desenvolvido — cada planeta tem uma tradição própria, mesmo que seja só uma colônia de uma civilização — e o jogo político se desenvolve por centenas de anos. Também, como o vídeo acima mostra, porque nada faz muito sentido, o que nos lembra que não tem porque levar ele muito a sério.

Episódio 2 — com Raul Fontoura

Eu e o Raul começamos conversando sobre os jogos que nós gostamos, depois sobre game design. Quando a gente viu, estávamos conversando sobre as escolhas que tomamos na vida. E o episódio é bem divertido de ouvir por causa disso! Eu até mudei a nomenclatura dos episódios e deixei só o nome do convidado, pra tirar a ideia de que a gente conversa sobre algum tema em específico. A gente conversa sobre vários, e é a conversa que interessa.

Você pode encontrar o Raul no Twitter (@raulranma), no itch.io e no Tumblr.

Esse episódio do Pãodecast foi produzido por mim. A ilustração é do entrevistado, o Raul, e trilha-sonora é do Blue Dot Sessions.

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A primeira temporada do Pãodecast vai ter dez episódios. Eles são quinzenais, e saem nas quartas-feiras. Ainda há alguns episódios vagos, se você quiser conversar comigo sobre qualquer coisa (até mesmo sobre nada), envie uma mensagem pelo email mesa {arroba} paomortadela.com.br ou uma mensagem de voz clicando aqui.

“Halt and Catch Fire” e “The Soul of a New Machine”

Ontem de noite estavam comentando sobre a abertura de uma das minhas séries favoritas no Twitter, Halt and Catch Fire:

Halt and Catch Fire me lembra muito um dos meus livros favoritos, The Soul of a New Machine, de Tracy Kidder. Escrito no início dos anos 1980, o livro documenta o desenvolvimento de um minicomputador na aurora da computação pessoal. É uma invenção que leva a equipe à beira da loucura por causa da forma que o gerente do projeto na empresa lida com sua equipe, usando o que ele chama de “gerenciamento de cogumelos”: deixá-los no escuro enchendo-os de merda.

The Soul of a New Machine é um livro trágico porque a equipe dá tudo o que pode para desenvolver um minicomputador que acaba sendo defasado muito rápido. O período, entre os anos 1970 e 1980, foi a explosão da evolução do hardware computacional (o Macintosh, o grande computador pessoal da Apple, foi lançado alguns anos depois), e o “gerenciamento de cogumelos” foi o que não permitiu que a equipe enxergasse que o grande trabalho que eles estavam realizado estava fadado ao fracasso.

Mas o livro tem uma noção da informática que eu gosto muito, e que é partilhada por Halt and Catch Fire, de que esses engenheiros de software e desenvolvedores eram desbravadores, e que cada invenção — uma placa-mãe, uma memória RAM, um processador, as instruções da BIOS — levava um pouco de quem eles foram e da maneira que eles pensavam, o que revela tanto dos seus potenciais quanto suas limitações (o livro descreve, já naquela época, como qualquer pessoa que não era um homem branco era colocado de lado pela indústria).

A tragédia de The Soul of a New Machine é de que a “alma” que os engenheiros davam à essas invenções serviam para mudar os meios, mas não as intenções pelas quais a tecnologia seria utilizada. Um exemplo que o livro dá pra tragédia que é a computação, de um modo geral, é que os computadores possibilitaram que empresas pudessem gerar e armazenar relatórios sobre qualquer setor sem a necessidade de papel, o que poderia eliminar muito os custos de uma empresa. O problema é que os executivos não acreditavam no que eles viam na tela de computador, então todos esses relatórios precisavam ser impressos, o que acabou aumentando o gasto com papel.

Mesmo assim, a beleza do que foi inventado nessa era da computação (que é muito semelhante ao que aconteceu de novo com a internet na segunda metade dos anos 1990) indicava que a tecnologia poderia ser usada pra ressaltar o potencial da humanidade, e não apenas alimentar suas falhas. O problema é que a tecnologia só vai até certo ponto, ela só muda nossos meios, mas não nossas intenções.


Esse post é uma versão mais coerente de algo que eu postei no Twitter. O original está aqui.

It's Lit: As línguas artificiais de JRR Tolkien

No último vídeo de It’s Lit, Lindsay Ellis explica como as línguas artificiais criadas por Tolkien para seus livros da Terra-Média influenciaram muito mais do que o gênero literário de fantasia, se transformando em um ramo importante no desenvolvimento de qualquer mundo narrativo — de Game of Thrones à Avatar. Como todos os vídeos do It’s Lit (e o trabalho da Lindsay Ellis de maneira geral), o vídeo trata o tema com fascínio e é só a ponta de uma discussão maior (e é curtinho!)

O que eu mais gostei foi reparar porquê eu gosto tanto da fantasia de O Senhor dos Anéis. Eu tenho a ideia de que eu gosto muito mais quando o gênero fantástico é usado para contar histórias muito íntimas de um personagem tentando sobreviver num mundo muito maior e indiferente à sua existência e aos obstáculos de sua vida — uma fantasia que torna a fantasia em si em algo mais cotidiano, digamos assim.

Eu sempre me referi ao que eu gosto no gênero como essas histórias menores em um mundo muito maior… e Senhor dos Anéis. Mas assistindo o vídeo eu percebi que, na verdade, O Senhor dos Anéis é mais ou menos o que eu gosto em uma escala muito maior: essas são as histórias de alguns indivíduos envolvidos em uma batalha muito maior que eles, e uma situação histórica muito, muito antecedente à eles. A Terra-Média e o mundo narrativo que Tolkien criou é uma versão muito maior do que aquilo que a gente geralmente se refere como “mundo narrativo”, é uma construção social e cultural gigantesca (onde até mesmo os idiomas inventados possuem histórias e um crescimento orgânico), usada para abrigar histórias grandes mas que, dada a herança cultural desse mundo, parecem eventos muito menores em um mundo ainda maior.

Yo La Tengo lançou a trilha-sonora do meu estado de espírito durante o isolamento

A banda Yo La Tengo lançou hoje o álbum We Hame Amnesia Sometimes, um álbum gravado à distância durante o período de isolamento social que a gente tá passando. A banda tava lançando prévias do trabalho nos últimos dias, mas largou o álbum completo no Bandcamp deles.

Assim como Fetch the Bolt Cutters no início do isolamento social, esse álbum do Yo La Tengo parece conseguir capturar direitinho o que eu ando sentindo nas últimas semanas. As faixas são as vezes calmas, as vezes dissonantes e confusas, mas são sempre bastante “introspectivas”, se isso é algo que eu posso usar como adjetivo de uma música. O álbum da Fiona Apple é íntimo e furioso, que é algo que eu sentia no início do isolamento. Esse álbum do Yo La Tengo é mais “calmo”, quase “cansado” mas não exaustivo. Difícil de explicar. Tá sendo bem emocionante de ouvir, porque faz sentir que a alma “sai” do corpo.

O álbum tá no Bandcamp, mas também no Spotify e no Apple Music.

Torta Brownie Brigadeiro

Um dos problemas de viver longe dos amigos é que eu tenho amigos talentosos e eu não posso apreciar eles de perto, principalmente quando o talento deles é um absurdo desses:

Torta de chocolate com massa brownie e cobertura de brigadeiro

Olha mais de perto:

Detalhe dos brigadeiros na cobertura da torta

Eu tô muito triste que eu não moro em Porto Alegre nesse momento. Se você mora, eu recomendo seguir a Tais Bakery no Instagram, onde eu vi esse absurdo de torta. A Taís e o Vitor abrem a agenda por lá e pelo WhatsApp. Eu amo eles e eu amo essa torta.

Júlia, no MUBI

Eu assisti Julia há alguns anos e ele nunca saiu da minha cabeça porque Tilda Swinton entrega uma daquelas atuações em que tudo o que ela faz fica marcado na mente. A forma como ela abraça o a criança no meio do deserto, ou como ela olha ao redor… Eu não lembro muito bem do filme, então fiquei empolgado pela oportunidade de rever ele agora: ele entrou na programaçào do MUBI hoje e fica por lá por um mês.

Episódio 1 — Tainara Fraga

Esse último sábado eu sentei com a minha amiga Tainara pra finalmente tirarmos do papel uma ideia que tivemos no ano passado: nós gravamos o primeiro episódio do Pãodecast, um podcast de conversas.

A ideia é bem simples, na verdade. Todo o episódio é uma conversa de quinze minutos com um convidado, sobre qualquer coisa que eles tenham em mente no momento. Eu queria que o primeiro episódio fosse com a Tainara, porque tive a ideia com ela e parecia certo começar dessa forma. A gente conversou sobre relacionamentos, e como foi terminar um namoro de muito tempo no meio da quarentena. É menos triste do que parece, espero que gostem!

Esse episódio do Pãodecast foi produzido por mim. A ilustração é do Raul Fontoura e trilha-sonora é do Blue Dot Sessions.

Você pode assinar o Pãodecast no Apple Podcasts, Spotify, Pocket Casts ou no seu player favorito assinando o RSS.


A primeira temporada do Pãodecast vai ter dez episódios. Eu ainda não defini se serão quinzenais ou semanas (depende de como for o ritmo da minha edição deles, hehe), mas eles vão sair nas quartas-feiras. Ainda há alguns episódios vagos, se você quiser conversar comigo sobre qualquer coisa (até mesmo sobre nada), envie uma mensagem pelo email mesa {arroba} paomortadela.com.br ou uma mensagem de voz clicando aqui.

Central Park é um charme, pena que tá na Apple TV+

Eu queria tanto poder recomendar Central Park pra todo o mundo que tá precisando de uma série carinhosa sobre uma família que se ama mesmo quando não se entendem. É uma comédia musical em desenho animado, dos mesmos criadores de Bob’s Burgers, e o humor carismático e coração grande são traços em comum nas duas séries.

Central Park ainda não tem os personagens bem formados de Bob’s Burgers, mas acho que isso é comum em toda a primeira temporada de uma comédia, já que o humor e o desenvolvimento dependem muito dos roteiristas e da audiência entender intimamente os personagens pra resultar em comédia. Mas Central Park tem picos muito altos, e não é só porque é um musical. A série é sobre uma família que mora no Central Park de Nova York, onde o pai trabalha como administrador, e os episódios são geralmente sobre pequenos eventos nos seus dias. A mãe é uma jornalista querendo ser levada a sério em um folhetim que ninguém se importa, a filha tá tentando entender seus sentimentos em relação à um garoto; e o caçula está apaixonado por um cachorro. Tem uma trama de uma ricaça querendo comprar o Central Park pra transformar em um “investimento imobiliário”, mas isso quase que não importa — Central Park tá mais preocupada no dia-a-dia dos personagens.

E é um charme, os números musicais não se focam nos grandes eventos da vida da família, mas nos pequenos eventos do cotidiano. É uma crítica recorrente à série, de que não existe material o suficiente pra criar números musicais entre os personagens, mas eu abracei isso mais como uma subversão de uma família nada excepcional tentando levar o seu dia a dia entre si com mais carinho do que desavença. Nem sempre eles conseguem, mas o que importa é o quanto eles tentam. Eu acho que isso só realça a carta de amor da série ao parque do título, porque destaca como esses pequenos momentos que realmente importam na vida da família se passam entre os bancos e as árvores do parque, e como eles são sortudos de viverem em um lugar como o Central Park. Esse é um lugar especial pra eles e quando a ricaça ameaça destruir ele, vira uma ameaça ao afeto da famíla entre si.

Só que é um saco que essa série esteja no Apple TV+. Ninguém assina o Apple TV+. Eu só assisto porque ganhei um ano de graça no serviço, e das outras séries que eu vi por lá até agora nenhuma me chama a atenção o suficiente pra recomendar que alguém pague por mais um serviço de streaming só por essa animação, então eu recomendaria esperar a primeira temporada acabar, no fim do mês, pra você aproveitar o período de teste grátis e assistir tudo. A série também tá naquele Popcorn Time, inclusive.

Essa é uma bela vaca.

Retrato de uma vaca pequena

Ela se chama Evie, e essa é a foto que fez Kelly Reichardt escolher Evie pra ser o animal título do seu filme mais recente, First Cow.

Eu ainda não vi o filme (eu quero assistir ele hoje de noite, depois de gravar o nosso primeiro episódio do Pãodecast), mas eu tava lendo esse artigo na Polygon sobre como Evie foi escolhida por Reichardt, e me lembrei de outro filme que gostei muito, A Rota Selvagem, protagonizado por um cavalo e um menino.

O que me chama a atenção, tanto em cavalos quanto em vacas, é esse olhar profundo que eles têm. Eles são animais grandes e vivem com a gente por tanto tempo que a gente começa a assumir algumas suposições sobre esses olhares. Eu sempre achei o olhar de um cavalo mais que humano. São olhos grandes mas tào profundos. E essa foto da Evie me fez perceber que isso também vale para vacas.

Segundo A24, a distribuidora de First Cow nos EUA, Evie teve uma filha no início do ano.

Belas, belas vacas.

Uma Criatura Gentil

Terminei Uma Criatura Gentil do Dostoiévski hoje de manhã. Caramba, como eu senti raiva quando comecei a ler essa novela porque era incrível como o autor consegue desenvolver o mundo do narrador, a personalidade do narrador e a impressão que o narrador tem do mundo que o carca com tanta facilidade. É tão natural e flui tão bem a leitura (eu leio bem devagar) que as vezes eu esquecia completamente como o escritor delimita formalmente a história que ele tá contando.

Minhas reações sobre o livro amadureceram conforme eu ia progredindo (ainda bem), porque Uma Criatura Gentil tá sempre mudando, mesmo que a forma se mantenha a mesma. Primeiro eu fiquei meio 😕 pelo livro ser sobre o marido de uma mulher que se matou. Depois eu fiquei meio 🤔 porque o livro era sobre as impressões do marido sobre a sua esposa, que cometeu suicídio. E acabou comigo bem 😲 porque é um belo retrato de um ser humano desprezível a ponto de ser completamente cego perante a pessoa que vivia junto com ele por todo aquele tempo, tão intoxicado dentro de si mesmo e da sua própria honra que acabou não percebendo a doença da esposa até ser tarde demais. No fim, o livro só confirma todas as impressões que o narrador tenta evitar que tu tenha com aquelas explicações egocêntricas.

Que baita livro, esse. Minha próxima leitura acho que vai ser… não sei. Preciso de uma sugestão.

Problema de nostalgia

Eu ainda não considero Super Mario Odyssey um grande jogo como Super Mario Galaxy é, mas se tem uma coisa que esse remake de Crash Bandicoot me fez foi apreciar mais o novo jogo do Mario.

Era pura nostalgia a lembrança que eu tinha de que Crash era divertido? Plataformas mal desenhadas, inimigos toscos e uma mecânica de controle que simplesmente me faz ficar revirando os olhos. Eu comecei a jogar Odyssey novamente porque eu precisava tirar o mal gosto do gênero da boca e, por mais que eu ache o conceito desse novo Mario mal explorado, ele pelo menos é feito com perfeição.

Um dos meus momentos favoritos de Kentucky Route Zero

Eu acordei hoje lembrando de um dos meus momentos favoritos de Kentucky Route Zero (dos vários):

A gente (Conway, Shannon, Ezra, Junebug e Jonnie) tá observando aquilo que sobrou de uma criação que parecia fantástica: o fantasma do alvorecer da Era da Informação que nos prometia finalmente se desapegar da ideia que ter algo é ter dinheiro, que agora a promessa é que a informação seria livre e que estaríamos finalmente livres das amarras do dinheiro.

É uma linda ruína: uma pilha de computadores pega fogo para iluminar uma caverna. A gente lembra que não temos mais um lar.

O jogo nos dá então uma única opção pra prosseguir:

Nothing to be done.

Como todos os bons momentos de Kentucky Route Zero, esse pequeno instante nos permite se deparar com a promessa de um mundo melhor, algo que parecia ter chegado bem perto — e então ele nos lembra que temos que seguir em frente.

O trailer de Godzilla 2 é fantástico

Ontem eu assisti o trailer de Godzilla: King of the Monsters, a continuação do filme de 2014 que eu nunca assisti.

Esse trailer não sai da minha cabeça. Eu não sei se é o Clair de Lune que eles usaram (muito) bem, mas eles capturam aí justamente o que é fantástico em Jurassic Park e que ninguém encontrou desde então: aquele sentimento de fascínio de ver esses monstros gigantes com seus próprios olhos. Aquele plano do monstro abrindo as asas e brilhando é uma das coisas mais empolgantes que eu já vi.

Os Últimos Jedi de Harry Potter

Ontem de noite eu não tinha muita coisa pra pensar (ou melhor, eu devia estar pensando num post que eu tô escrevendo mas não tava conseguindo evoluir) e fiquei fazendo equivalentes entre Star Wars e Harry Potter.

Se a gente for parar pra pensar a atual franquia de Harry Potter, essa ridícula Animais Fantásticos & Onde Habitam sofre de vários problemas que acometeram a trilogia de prequels de Star Wars. Há uma tentativa muito errada de “conectar” as várias histórias que na série original nos davam aquela impressão de que esse era um mundo extenso e muito além da história do Potter, fazendo todas as histórias do passado que a gente ouvia serem muito mais próximas uma das outras, com umas conexões meio bobas. Também tem o uso de personagens que são só citados, e como eles geralmente são muito menos interessantes do que as histórias que nós imaginávamos deles. Tem uma troca de cenário (Estados Unidos não é nem um pouco tão interessante quanto a Inglaterra mágica). E tem uma autora tão afundada na própria cabeça que não consegue ver que ela está minando tudo o que havia de mais lindo na série — e assim excluindo uma parte de seus leitores no caminho.

Eu sou daqueles que acha que Os Últimos Jedi talvez seja o melhor Star Wars já feito, muito porque desvirtua tudo o que a série fazia até ali e realmente expande aquela galáxia, tornando ela muito maior e mais imprevisível do que todos os outros filmes antes fizeram (ok, talvez O Império Contra-Ataca tenha feito isso). É um novo fôlego pra uma fórmula batida, e se a Warner decidir dar novas mentes pra uma possível terceira série de filmes nesse mundo do Harry Potter, pode ser pra melhor. Eu mal posso esperar um Os Últimos Jedi no mundo de Harry Potter.

Os filmes de Cannes que eu quero ver, edição 2018

Todo ano eu fico meio assim com Cannes, porque lendo a lista dos selecionados nada parece muito empolgante. “Ah, um novo do Von Trier! Quanto será que ele vai me irritar agora?” foi a reação mais forte que eu tive ao conferir a lista no início do mês. Agora que o festival acabou, que o Notebook já viu de tudo e postou notas sobre eles, eu começo a ficar interessado nas coisas tudo e preciso correr atrás.

Pra me organizar e acompanhar esses filmes, aí vai a lista do que eu quero ver de Cannes esse ano:

Competição:

  • Everybody Knows: o novo do Asghar Farhadi com Pelenope Cruz. Abriu o festival com críticas mornas, mas eu não consigo não me empolgar pra um novo do Farhadi. Ou da Penelope Cruz. Parece uma delícia de assistir.

  • O Livro de Imagens: eu lembro quando fiquei sabendo que Filme Socialismo tinha sido selecionado pro Un Certain Regard e tinha me deixado completamente fascinado pelo trailer. Eu vi o filme com o João no laptop no meio de uma aula de programação. Mal posso esperar pra ver esse (que levou uma Palma especial???).

  • Sorry Angel: eu só li sobre esse filme hoje, mas é um conto gay do Cristophe Honoré que não fez muito barulho. Exatamente o meu tipo de filme.

  • Shoplifters: assistir o vencedor da Palma é sempre obrigatório. Esse ano que parece que eles finalmente deram a Palma pro merecedor (algo que não acontecia desde o quê, 2011?), finalmente é empolgante. Kore-eda é lindo sempre, vamo ver esse aqui.

  • Under the Silver Lake: foi bem mal recebido mas eu gosto muito do It Follows então ok.

  • BlacKkKlansman: puta merda se esse filme não parece tudo o que eu sempre quis ver do Spike Lee e que ele chegou muito perto com Chi-Raq.

  • Guerra Fria: o novo filme do diretor de Ida parece lindo e muito triste, bem o que eu gosto mais em Ida.

  • 3 Faces: Panahi homenageando Kiarostami? Muito minha cara.

  • Feliz como Lazzaro: o mais intrigante da competição e que parece lindo. Vai ser lançado por aqui pela Netflix e eu tô triste.

  • The Wild Pear Tree: o novo do Ceilan (que ganhou a Palma em 2015) fechou a competição e não fez muito barulho. Mas tem quase três horas e todo filme dele é como assistir uma homilia. Lindo, misterioso e que fica na tua cabeça por algum motivo indefinido.

Fora de competição e exibições especiais:

  • A Casa que Jack Construiu: eu não tenho interesse nenhum em um filme que o Von Trier parece embelezar sua própria misoginia, mas ao menos isso vai dar uma boa sessão + cerveja com o Erê.

  • O Grande Circo Místico: do Carlos Diegues. Parece lindo.

  • Dez Anos na Tailândia: novo do Joe & amigos, caralho.

  • Fahrenheit 451: vai vir pro HBO, é claro que eu vou ver.

Un Certain Regard:

  • Long Day’s Journey Into Night.

  • Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos: levou o prêmio do júri e foi o queridinho da crítica esse ano. Que orgulho.

  • Dunbass: o novo do Loznitsa (eu ainda quero assistir o Uma Criatura Gentil dele, esquecido na competição do ano passado) é simplesmente o filme que eu mais quero ver de Cannes esse ano.

Semana da Crítica:

  • Wildlife: esse filme do Paul Dano parece bom demais pra ser verdade.

Quinzena dos Realizadores:

  • Pássaros de Passagem: novo filme da equipe de O Abraço da Serpente, um dos meus filmez favoritos dos últimos anos. Um drama familiar no meio do conflito do narcotráfico colombiano. Parece lindo.

  • Climax: o novo do Gaspar Noé que tão dizendo ser o melhor dele!!!!

Bastante coisa esse ano. Queria ter visto um James Gray ou uma Claire Denis nessa lista também, mas ainda tem Veneza, né.

Minha dieta cultural em 2018

Faz um tempinho já que eu andei pensando no porquê eu andar tão desinteressado por ver filmes e séries com a mesma frequência que eu andava assistindo. Eu cheguei na conclusão que é porque eu andava assistindo demais. Também fiquei preocupado quando o meu Kindle começou a ficar meses parado (a bateria dele morreu já algumas vezes, um verdadeiro crime) ou porque as minhas mixes do Spotify começaram a ter sempre os mesmos artistas.

Quando eu entrei na faculdade eu fiquei tão fascinado com quanta coisa existia pra assistir e que eu não fazia ideia o quão fácil era assistir hoje. Resultado da faculdade, eu acho. Eu assisti muita coisa — muita coisa boa, aliás, que eu não arrependo de ter dedicado tanto tempo pesquisando, descobrindo, e assistindo. Alguns filmes mudaram a minha visão sobre o que eu gosto de assistir, e algumas séries simplesmente tiraram o meu chão pra sempre.

Ultimamente eu andei pensando no quanto do que foi assistido realmente importava pra mim, e o resultado era muito pouco. Não que todo filme ou série que tu assista tenha que mudar a tua vida (alguns eu só assisto porque meu colega me recomenda porque ele me odeia), mas é um tempo que eu me dedico emocionalmente e geralmente eu ando saindo mais cansado do que de costume, mas olha o raciocínio da minha mente – essa semana eu tava tirando o atraso em um filme do Éric Rohmer que tava prestes a sair do MUBI, mas enquanto eu assistia ele eu ficava cansado só de pensar que duas séries que eu tava acompanhando na Netflix tinham voltado e eu nem tinha começado a nova temporada delas, então eu tinha que fazer a madrugada valer.

Daí eu percebi que eu andava me dedicando tanto a assistir tudo o que eu podia porque é possível assistir, e não porque eu quero absorver algo dali. Ao mesmo tempo eu tava fazendo um péssimo trabalho em explorar as outras coisas que eu gosto. Meu rádio no Spotify nunca foi tão parado quanto nesse último ano. Também no início do ano passado eu comprei um Kindle. É provavelmente a melhor compra que eu já fiz na minha vida. Junto com o Kindle eu devo ter comprado um contrato com o demônio também que me fez amar tudo o que era livro que aparecia nas promoções de 5, 6 reais que a Amazon faz de vez em quando. É muita coisa boa. Eu comprei uma coleção de novelas do Dostoiévski que eu ainda nem abri pra ver se o índice funciona (importante!). Tem o novo livro da Jennifer Egan, também, que tá ali parado pra eu ler. Eu sei que eu vou ler eles, mas quando eu me dedico a ver uns dois filmes por dia e me manter atualizado em seja lá quantas séries eu consigo encaixar numa madrugada, como que faz pra ler?

São coisas bem diferentes, também, e que eu tava deixando pra trás. Eu me dedico emocionalmente a livros, também, mas não por algumas horas como um filme — eu fico lendo eles por meses, e eles sofrem o diabo comigo (mas apenas por amor), mas fazia tempo que eu não tinha esse tipo de envolvimento. Eu tava com saudade.

Então nessa última semana eu tô experimentando uma coisa diferente, e que eu tô curtindo um bocado por enquanto. Ao invés de assistir um filme logo que eu acordo, um filme antes de dormir e alguns episódios de uma série enquanto eu não durmo (!), eu me organizei pro seguinte — em um modo bem Rory Gilmore de ser: antes de trabalhar, eu tomo meu café lendo um livro. É ótimo, porque eu me aqueço pra trabalhar e não fico lendo artigos na internet (a minha fila no Instapaper andava gigante). Eu tô lendo uma coleção de contos do Raymond Carver agora, que meu professor de roteiro recomendou em 2014. É excelente, e eu tava com uma saudade tremenda de ler.

Uma lida de manhã, então eu trabalho de tarde. Quando eu termino de trabalhar, eu vou visitar Hyrule um pouquinho (eu espero escrever um pouco sobre como o mundo de Breath of the Wild virou tipo um segundo lar pra mim). Daí geralmente tenho que fazer umas coisas em casa, brincar com a Vivi, jantar. Então, antes de deitar eu vejo o que o MUBI trouxe. Se é algo que me interessa assistir (ontem de noite eu vi um filme de um diretor polonês que o MUBI tava fazendo retrospectiva e descobri que sou fanzasso). Se não é algo que me interessa, eu ou vejo algo na minha lista do Netflix, que só cresce, ou escolho algo no HD, que só enche. Ou um filme ou uma série, aquilo que eu mais curtir no momento — as vezes eu só quero rever uns episódios de Gilmore Girls pra dormir tranquilo com a vida, dicas saudáveis aqui.

Nem todo dia é assim, mas pra mim é importante ter uma rotina. Terça-feira eu vou no cinema de tarde, então eu costumo não ver um filme de noite, mas leio no ônibus de ida e de volta (dá umas três horas de leitura no total e eu não durmo — importante porque eu perco o sono muito fácil se eu durmo durante o dia). Sábado é dia de trabalho normal, mas domingo eu geralmente vario também: eu procuro jogar mais (eu tô com uma pilha de jogo pra experimentar ultimamente) e estudar algo que eu ache interessante. Esse domingo eu li sobre a importância da câmera em Super Mario 64. Baita lida.

Um resultado que eu (acho) que tem a ver com essa variação que eu tô fazendo ultimamente: eu ando com mais vontade, e mais inspirado, a escrever. Ainda bem, tava fazendo falta. Eu espero fazer um resuminho do que eu vi/joguei/li/ouvi nos finais de semana, ou no final do mês. Ainda não sei, veremos.

Hannibal vai te deixar com fome

Se eu tenho algum arrependimento na minha vida, é a de não ter acompanhado Família Soprano e The Wire quando passaram na TV. Claro, eu era muito novo (naquela época, eu só assistia E.R.), mas existe algo que a exibição semanal de uma série proporciona que, diferente do “tudo-de-uma-vez” que o Netflix oferece hoje, é mais rico, mais maduro e mais impactante.

Se eu posso de vangloriar sobre algo na minha vida, é a de ter acompanhado Hannibal na sua exibição original.

Hannibal é filho direto das séries definitivas da HBO. Rica em detalhes, em referências visuais, em simbologias e com uma trama compassada de forma perfeita. É o melhor drama da televisão desde que The Wire finalizou sua última temporada, e é a melhor série de um canal aberto americano em muito tempo.

Se você já viu Manhunter, O Segredo dos Inocentes, Dragão Vermelho, Hannibal ou Hannibal: O Início, já sabe sobre o personagem principal: um canibal que caça suas vítimas com propósitos singulares, preparando pratos para suprir seu paladar impecável. Baseado nos livros de Thomas Harris, os filmes mostram o quão decadente o autor tornou seu personagem — de uma força elementar na obra-prima O Segredo dos Inocentes para uma mera punch-line no lixo Hannibal: O Início. O que a série Hannibal faz, com tanta perfeição, é ressignificar um personagem tão rico.

Com total liberdade para isso, Brian Fuller (o showrunner da série) faz de Hannibal um show de mitologia, tornando o personagem de Hannibal Lecter no verdadeiro Diabo, pronto para expurgar da terra os fracos e burros e buscar, nos fortes e inteligentes sua vitalidade e interesse. Muito mais que um seriado policial, Hannibal é um estudo da condição humana — de maneiras estremas, é claro —, e uma história de amor sobre dois personagens que são, ao mesmo tempo, melhores amigos e piores inimigos.

Vivendo por três temporadas impecáveis (há possibilidades de uma quarta, ou de um filme de encerramento), a NBC proporcionou a melhor hora dramática na TV desde 2013. Hannibal é composto por um elenco impecável (Mads Mikkelsen interpreta o canibal sem medo de inevitáveis comparações com a performance de Anthony Hoppkins, criando um Hannibal só seu; e Hugh Dancy faz um vertiginoso Will Graham em uma atuação que faz uma carreira); uma história incrível — que inicia como um drama policial processual (cada semana um caso) para uma verdadeira caçada humana; e o mais belo valor de produção de toda a TV, com visuais incríveis e uma trilha-sonora perfeita. Se a cancelou na terceira temporada, ao menos fez com coragem. A emissora simplesmente permitiu exibir um homem comendo sua própria perna no jantar.

Charmosa, emocionante e construída com perfeição, Hannibal é a série de TV que você precisa assistir agora. Se você conhece as histórias dos livros ou dos filmes, ficará impressionado em como Dragão Vermelho foi adaptado, e surpreso em como a série trabalhou em cima de um material medíocre como os dois livros finais (Hannibal e Hannibal: O Início). Se um dia teremos uma continuação para ver o que será feito sobre o material de O Silêncio dos Inocentes, eu não posso nem imaginar no que Hannibal poderá se tornar.

Hannibal é a ressignificação de um dos personagens mais notáveis da cultura recente. É um trabalho soberbo de técnica. É uma mitologia construída no ombro de gigantes, desde os gregos até a literatura moderna. É uma obra-prima desvelada semanalmente. É indispensável pra qualquer alma.

Looking: a segunda temporada

Desde a primeira temporada eu defendo que Looking é uma grande série que tem como maior defeito buscar um nicho bastante restrito do público. Bem, eu estava errado. Com o episódio dessa semana, Looking se tornou uma das melhores séries na TV atualmente — e se focar em um público específico talvez seja seu maior acerto.

É um salto tremendo o que a série criada por Michael Lannan e primariamente escrita e dirigida por Andrew Haigh conseguiu dar da sua primeira para a segunda temporada, mesmo considerando o primeiro ano de grande qualidade. Se na estréia Looking parecia uma comédia com episódios que beiravam ao drama absoluto, esse segundo ano deu à série a maturidade que Haigh apresenta em seu fabuloso filme Weekend e nos episódios que ele dirige com perfeição (“Looking for the Future” [1x05] e “Looking for a Plus-One” [1x07]). Desde o início (“Looking for the Promised Land”), a série consegue balancear seus temas entre o drama e a comédia e evoluir seus personagens a todo o momento.

Mas sério, o que “Looking for a Plot” fez esse domingo talvez seja o passo definitivo de Looking.

Centrado em uma amada personagem coadjuvante, “Looking for a Plot” é corrido, com algumas escolhas discutíveis de roteiro (levar Patrick para Modesto?), mas mesmo assim o episódio não consegue não ser espetacular. Apresentando tudo o que Looking consegue fazer de melhor, “… for a Plot” desenvolve personagens com impressionante profundidade em apenas algumas linhas de diálogo, investe em grandes verdades sobre seus personagens e leva, a todo o momento, a história para frente, mesmo que voltando em certos momentos a temas passados.

E assim Looking consegue avançar em sua jornada para tornar-se não mais um coming-of-age da temporada passada (o arco longo foi sempre de Patrick, Dom e Augustin precisando amadurecer), e sim tornar-se um estudo de personagens. Em uma cena, nos levando das lágrimas para o riso para o choro novamente, “Looking for a Plot” é uma verdadeira montanha-russa que tem como objetivo nos levar — junto com os personagens — para uma paz interna que eles tanto buscam, nem que seja por um momento só, quando Doris e Dom realizam que, aconteça o que acontecer, eles sempre terão um ao outro.

Looking é, de certa forma, uma versão extendida e semanal de Weekend, o que não é demérito algum. Se no filme de Haigh tinhamos um tempo limite, em Looking podemos acompanhar a jornada dos amigos mais calmamente, e mesmo assim enfrentando dilemas semelhantes. Por diversas vezes, Looking aborda a “saída do armário”, a infância de seus personagens e seus dilemas momentâneos (“porque eu desisti disso”, como Dom o fez essa semana). Sem nunca ficar a sombra do filme, porém, a série consegue ser uma impressionante e íntima realização da televisão contemporânea, que não tem medo de explorar a fundo seus personagens.

A intimidade e a naturalidade com que Looking trata seus personagens e sua temática tornam a série em um produto bastante específico, mas como o próprio Haigh diz sobre Weekend, “quanto mais específico sobre algum assunto você consegue ser, mais universal ele se tornará para as pessoas”. É uma série sobre gays em San Francisco, sim, mas Looking também é sobre seres humanos, como quaisquer outros, em busca de algo que seja real e que valha a pena.

E quem aí não está?

Os 10 melhores de 2014

Agora que já revelamos nossos favoritos, vamos numerá-los, certo? Para finalizar essa leva de retrospectiva de 2014, nós juntamos tudo o que houve de melhor nos últimos 12 meses e os ordenamos para vocês. Siga abaixo com:

10. The Comeback volta tão bom quanto nos deixou (e talvez melhor)

A empreitada de Lisa Kudrow na sátira da HBO sobre a estrutura da TV voltou, depois de ser cancelada na sua primeira temporada. The Comeback, agora uma sátira sobre o próprio canal, o star system que se criou ao redor das séries de TV, e do mockumentary, retornou tão bom quanto era — ou, muito provavelmente, bem melhor do que era. Kudrow não confirma, mas há rumores que a série continue conosco por mais um ano. Que The Comeback volte mais um, dois, três, dez anos com seu humor único, que nos faz relembrar de clássicos como 30 Rock, Studio 60 e, claro, ela mesma.

9. Dragon Age: Inquisition é o grande AAA desse ano

Se os jogos não tiveram um bom ano (seja em lançamentos, seja em toda a polêmica do GamerGate), não podemos negar que não houve aqueles bons destaques. Com o fracasso de Watch Dogs em nos entregar aquilo que prometeu, e grandes lançamentos fadados a fracassos de infraestrutura, como Assassin’s Creed UnityDragon Age: Inquisition se revelou o grande lançamento de 2014 para os jogos. Um RPG imenso, inebriante e com a qualidade de história que apenas a BioWare consegue entregar. Não é o melhor jogo do mundo, está recheado de falhas, mas te prenderá em um universo fascinante por centenas de horas.

8. Amantes Eternos, o melhor filme que ninguém viu

O novo filme de Jim Jarmusch é um dos melhores filmes do ano. A história de Adam e Eve, um casal de vampiros com centenas de anos e que assistem a humanidade de hoje com um olhar cético, depois de presenciar maravilhas (e horrores) em outras eras, é narrada com melancolia, dissonâncias e beleza. Se os vampiros no cinema há muito perderam sua identidade, Amantes Eternos devolve-lhes a dignidade com um filme à altura de seus mitos, e transforma Adam e, principalmente, Eve em seres eternos nas telas.

7. A Balada de Adam Henry é um retorno ao método curto

Depois de grandes romances aclamados, como SolarSerena, Ian McEwan retorna às histórias menores, mas não menos empolgantes, com A Balada de Adam Henry, sobre uma juíza que se relaciona com réu. Com toda a destreza nos detalhes típicos do autor, A Balada… mostra um vigor que McEwan não apresentava desde sua estréia, com O Jardim de Cimento, mas empregando toda a magia de seus últimos romances (SábadoAmor sem fim, inclusive, se conectam lindamente com este último), o novo livro do britânico talvez seja uma das melhores peças narrativas literárias de 2014.

6. True Detective é a grande estréia televisiva de 2014

A HBO retorna à forma que a consagrou com A Sete PalmosFamília SopranoA Escuta com o surpreendente True Detective, em uma pequena temporada (antes pretendida como minissérie) intensa e completa. Embora muito de sua fama acabe indo para os mirabolantes planos sequência dos episódios, True Detective maestra para além, conseguindo trazer de volta grandes histórias para o canal, que há muito precisava se sustentar com a alarmante The Newsroom e seus acertos menores, GirlsLooking. E por falar em Looking

5. Looking surpreende com a melhor temporada de 2014

Estreando em janeiro, a temporada inicial de Looking prometia “algo real”. Nas mãos do incrível realizador Andrew Haigh, ela entregou mais. Ela entregou “algo de verdade”. E há diferenças nessas duas chamadas. Looking, por mais de nicho que seja, é uma série que finalmente consegue trazer honestidade nos diálogos e na estética de sua temporada. Em um ano que Mad Men começa o seu fim, Girls derrapa, American Horror Story pisa na bola (de novo), House of Cards perde o fôlego e True Detective vem para balançar, Looking é uma sólida, intensa e honesta história de seres humanos — seres em extinção nas séries de TV.

4. Crush Songs supera superproduções com sua intimidade

Karen O ganhou o mundo em 2013 com The Moon Song. Seguindo uma vertente semelhante, mas ainda mais íntima, Crush Songs embala recordações e exasperações de um relacionamento com uma honestidade  única nos lançamentos de 2014. Assemelhando-se em momentos com For Emma, Forever Ago, mas ainda mais sincero que este, a vocalista do Yeah Yeah Yeahs consegue superar em qualidade obras maiores, mais poderosas e mais abrangentes — incluindo aí o grande álbum do ano, o autoentitulado Beyoncé.

3. 1001 pessoas que conheci antes do fim do mundo é um sopro de vida na blogosfera brasileira

O blog da Aline Vieira traz humor honesto, histórias bem contadas e uma delicadeza visual há muito escondidas na blogosfera brasileira — terra de memes e YouPixes. Com prazer, 1001 pessoas talvez seja o site com os melhores textos que tive o prazer de ler em 2014. E só de saber que ainda temos mais de 900 pessoas pra conhecer com Aline pela frente, dá expectativa e animação ao já fiel leitor.

2. Boyhood é o grande filme de 2014 — e talvez de toda uma geração

Com sua poesia visual baseada nos pequenos e eternos momentos da vida, Boyhood traça uma narrativa simples, não universal, mas sempre honesta sobre um jovem e sua família no Texas. Repleto dos vários tipos de amor que uma vida possa entregar, dos momentos e das incertezas que a juventude nos lança, dos amigos que vem e que vão, dos mestres que nos moldam e nos largam ao vento, Boyhood é certamente o melhor filme de 2014. E talvez seja o coming-of-age definitivo de toda uma geração. De toda uma universalidade.

1. Kentucky Route Zero: Act III toma o palco central em seu teátrico terceiro ato

Depois de EquusPerception of Space, o terceiro ato de Kentucky Route Zero agora busca em Esperando Godot suas referências. Agora, mais que nunca, Kentucky Route Zero assume sua teatralidade e leva o jogador para o meio do palco e dá a ele, na pele, o sentimento de Conway. Com uma potência nunca antes vista em um videogame, a narrativa do jogo da Cardboard Computer agora torna-se não um outsider da indústria dos jogos, e sim uma referência central. Depois do terceiro ato, em que o jogo puxa o jogador pelo pé para que ele sinta as dores de seu personagem, vemos que estamos na mão de mestres em contar histórias. Mestres esse que finalmente conseguem mostrar que os jogos são a evolução natural no método de narrativa. E para traçar o futuro, _Kentucky Route Zero _pisa no passado.