Continuando de onde paramos - Mostra Internacional 32º Kinoforum

O curta-metragem sempre foi um formato permissivo à própria reinvenção e adaptável aos diferentes contextos criativos. Ao acompanhar a Mostra Internacional do 32° Curta Kinoforum, composta por 38 filmes e 8 sessões, pode-se dizer que às limitações impostas pela pandemia se mostraram um ponto de partida para a invenção de muitos dos filmes, mas não podemos esquecer que esse desejo de mudança vai muito além disso.

Existe alguma “maturação” de certos temas que as cinematografias apresentaram nos últimos anos - por mais que não se proponha exatamente a fazer um panorama da produção de curtas-metragens pelo mundo nos últimos dois anos, podemos dizer a mostra nos traz um recorte interessante e bem diverso da produção mundial de curtas nesse período, construída a partir de alguns temas-chave.

Este texto não é nenhuma cahiersducinematização (não entenda mal), não foi escrito para vender nenhum cinema como “revolucionário”, ou afirmar que as coisas serão diferentes depois de qualquer filme em particular. Acontece que, diante da cada vez mais crescente necessidade de dizer o óbvio, talvez seja interessante pensar em como alguns filmes conseguem fazê-lo com certa desenvoltura, mas sem perder a chance de avançar em certos debates.  

Nessa leva de filmes, realizados entre 2020 e 2021, de alguma forma, o lugar comum do progressismo social democrata nas representações não se descola mais do pensamento neoliberal protofascista que começou a ser sistematicamente difundido pelos mercados após a crise de 2008 - de repente essa ideia tão prepotente que tínhamos, de que conseguiríamos traçar com uma linha que nos apontaria “onde foi que tudo começou a dar errado”, passa a soar tremendamente ingênua e pedante.

Um filme que nos ajuda a compreender para compreender essa noção é “Estrela Vermelha” (Yohan Manca. França, 2020), que conta a história de um homem que dedica o seu tempo ao trabalho voluntário junto ao clube de futebol de seu bairro, e que vê a sua vida ruir após perder o emprego e ter seu apelo à seguridade social negado por falta do registro de algumas horas trabalhadas. Note que aqui o vilão não é o autoritarismo explicito, e nem o infortúnio repentino do vírus, mas a mentalidade liberal progressista comum, a “social democracia keynesiana”, o welfare system - essa média desmedida e desequilibrada que se vende como “sensata” em meio à polarização, é ela quem deixa a porta da tirania aberta.

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A visão do começo dos anos 2000 como uma época de avanços e esperança parece nunca ter existido em “Fantasia do Desastre” (Christoph Girardet, Matthias Müller. Alemanha, 2021), filme que explora, de forma provocante, imagens das torres gêmeas produzidas por Hollywood, muitas delas fazendo algum tipo de alusão premonitória à tragédia do 11 de setembro - são travellings que atravessam pelo meio dos dois prédios, imagens e mais imagens de aviões sobrevoando áreas próximas (certamente produzidas para ressaltar a altura dos monumentos).

A animação “A arte está no sangue” (Joanna Quinn. Reino Unido, 2021) parece nos alertar, com muito bom humor, sobre como acabamos aceitando que nossas obsessões tornem-se definidoras de quem somos, e, ao narrar em primeira pessoa as peripécias de uma família de obsessivos, a realizadora toca em diversos temas como a solidão, as disfunções familiares e o próprio processo criativo. No filme “Do.Solo.Pin” (Javad Atefeh. Estados Unidos, 2021) Shahla, uma cuidadora de idosos, precisa implorar pelo seu salário como quem pede por um favor, e recebe a resposta afirmativa e preguiçosa da patroa como uma dádiva. Além da rotina exaustiva, ela ainda precisa fazer videochamadas para provar para a patroa que realmente está trabalhando.

Em “Cicatrizes” (Alex Anna. Canadá, França, 2020) e “Irmãs” (Katarina Rešek. Eslovênia, 2020) temos histórias de personagens tentando recobrar o controle sobre o próprio corpo, que também podem ser percebidas como relatos de solidão e “isolamento social” (não esse causado pela pandemia). No primeiro, Alex luta contra o desejo de automutilação, uma forma de “materializar” a dor que sente e criar um mapa temporal em seu corpo. A sensação de solidão e o medo da não compreensão das outras pessoas acaba por colocá-la em um vórtex onde ela não sabe mais se provoca os cortes para aliviar a tristeza, ou se na verdade sente-se triste por causa de suas cicatrizes. Já no segundo, vemos três garotas que se entregam ao combate físico como resposta à violência imposta pelos garotos do bairro - como se tomassem a iniciativa de escolher a violência antes de serem surpreendidas por esta - elas lutam por si mesmas, por outras garotas, e encontram na relação com uma personagem transexual, inicialmente vista com desconfiança e estranheza, uma conexão que finalmente afaga suas ansiedades e parece oferecer algum afeto em meio a um contexto tão conflituoso.

Em “Fim do Sofrimento (Uma Proposta)” (Jacqueline Lentzou, 2020), Sofia ouve uma voz informá-la de que ela na verdade vem de Marte, e que, assim como ela, existem muitos outros marcianos na terra perdidos, alguns deles seus amigos. Marte é um lugar onde não existe tempo, nem ansiedade; ou pelo menos é isso que a voz nos diz, além de nos fazer notar essa estranha obsessão dos seres humanos em buscar em tudo um “sentido” e finalidade - ao som de Hiroshi Yoshimura.

Na animação “Escondido” (Daniel Gray, 2020), ao brincar de esconde-esconde com seu irmão, um garoto acaba passando a vida inteira dentro de um armário. Esquecido pela família, ele observa pela fresta da porta a vida do irmão acontecer. A questão do esquecimento e da memória das pessoas esquecidas também é trazida por “Eventos Para Serem Esquecidos” (Marko Tadic, 2020), animação inspirada no poema de Hans Magnus Enzensberger “Die Verschwundenen/Os Desaparecidos”.

“Não foi a terra que os engoliu, foi o ar”

“O Frango” (Neo Sora, 2020) nos mostra um passado e um presente que se confrontam na medida em que a trama se materializa. Oriente e ocidente se misturam, e a morte do frango dá lugar ao nascimento da criança. Enquanto em “Canção do Pecado” (Marrocos. 2020) o passado se parecia muito mais com o futuro do que o hoje, e uma tradicional canção de amor e ternura se transforma em “depravação” com o avanço da mentalidade fundamentalista. O radicalismo, na verdade, parece uma praga a ser combatida em muitos dos filmes da Mostra Internacional, com destaque para “Cerberus” (Kaspar Ainelo, 2021), um conto sobre a “pós-verdade”, e “Ônibus Noturno” (Joe Hsieh, Taiwan. 2020) animação em que os personagens estão o tempo todo prestes a explodirem em uma espiral interminável de violência e vingança. 

Em “Grab Them” (Morgane Dziurla-Petit, Suécia. 2020) a técnica do Deepfake é utilizada para contar a história de uma mulher que carrega uma incrível semelhança com o então presidente norte-americano Donald Trump - tentando fugir dos olhares curiosos e buscando uma forma de se conectar com alguém após o divórcio recente, ela acaba encontrando simpatia em um pequeno bar da cidade, onde supremacistas e caipiras locais se reúnem para conversar sobre a teoria da conspiração em voga no momento. Apesar de aceita e livre dos olhares estranhos, ela não consegue se sentir confortável nesse ambiente.

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As questões geracionais aparecem de maneira eloquente em “Forasteira” (Diretora, Espanha. 2020), na trama a menina Antônia vai passar o feriado na praia após a morte de sua avó e, ao descobrir sua semelhança física com ela, passa a exercer um estranho poder sobre o seu avô enlutado, é um filme que tensiona alguns limites interpretativos e não oferece exatamente uma conciliação. Em “Trânsito” (Brendan Canty, Irlanda. 2020) uma jornalista que escreve sobre a sexualidade feminina passa por uma situação um tanto constrangedora quando têm de levar seu avô ao hospital e o aparelho de rádio defeituoso de seu carro começa a tocar suas anotações pessoais - no fim a essa comicidade termina por oferecer essa conciliação.

No curta-metragem “Passagem” (Ann Oren. Alemanha, 2020) um artista de foley tenta recriar os sons para um filme protagonizado por um cavalo, uma bela reflexão sobre o poder das imagens (e dos sons), inspirada na obra de Eadweard Muybridge. A técnologia também aparece em “Reconhecimento Facial”, uma divertida animação sobre um fugitivo tentando burlar um poderoso sistema de câmeras de segurança em um “futuro próximo”. Mas talvez o filme mais significativo a trazer a questão seja “Quebrantos” (Koldo Almandoz, Maria Elorza. Espanha, 2020), filme que mostra, através de uma radiografia, a situação de uma mulher que tenta fugir da violência doméstica através dos “devidos dispositivos legais”, o problema é que os aparelhos utilizados no controle das distâncias das medidas protetivas (algo semelhante às tornozeleiras eletrônicas utilizadas no Brasil) são fáceis de burlar, com dezenas de vídeos ensinando à fazê-lo no youtube, de forma que as mulheres não consigam se sentir plenamente seguras, e a ilusão de proteção acabe sendo mais um empecilho - não é exatamente novidade que, ao contrário do que possa parecer, na era das discussões calorosas nas redes sociais, a tecnologia pareça ser o caminho mais curto na recriação de um passado marcado por opressões.

Em “Viagem ao Paraíso” (Linh Duong, Vietnã. 2020) , Tam encontra um antigo amor durante uma viagem turística de ônibus, ela não sabe bem se ele lembra dela, e de alguma forma revive as ansiedades de um sentimento pueril. Já em “Chega Para Lá” (Inès Girihirwe. Ruanda, 2020) uma mulher busca em algum lugar de sua vida anterior uma fuga para o relacionamento abusivo que está vivendo.  

Você pode assistir aos filmes mencionados no texto, e alguns outros da Mostra Internacional através da plataforma Innsaei clicando aqui, eles seguem disponíveis por lá até o dia 29/08. Você também pode assistir à uma seleção especial dos filmes exibidos no 32° Festival Internacional de Curtas de São Paulo que estará disponível até novembro no SpcinePlay.  

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