A Tela em Combustão - Competitiva Brasil do 32º Festival Internacional de Curtas Metragens

“República” de Grace Passô 

Em sua 32ª edição, o Kinoforum exibe na Mostra Competitiva Brasil um filme que já há vários meses tem marcado os cantos por onde passa, “República” de Grace Passô, nos ganha pela genialidade de sua proposta simples e pungente quando bota o dedo na ferida absurda de ser brasileiro nestes últimos anos - ou nestas últimas décadas. Pode se dizer que começamos pelo final, mas também pode se argumentar que não há regras de ordem, nem começo, nem fim, quando se fala de um festival tão diverso e vasto quando o Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo. Neste ano, estão presentes na Competitiva Brasileira 13 filmes com diferentes propostas, diferentes estéticas, diferentes intenções. E algum despropósito no meio, como não poderia faltar.  

Procurar uma linha de união nesta seleção que se propõe, como o próprio nome já sugere, trazer um panorama brasileiro, é deixar-se submergir e ser levado, enquanto corre das armadilhas de dobrar os filmes a nosso olhar. Qual o ponto de encontro entre “Acesso”, de Julia Leite, e “Olhos Livres”, de Fábio Rogério? Talvez, a resposta venha justamente do desencontro, da possibilidade de atrito. A construção finamente elaborada da montagem de Acesso conduz e nos prende em sua originalidade, é uma linguagem fílmica se desembolando e abrindo e dialogando com seu tempo histórico em sintonia. As imagens de arquivo, as viagens feitas pelo google street view, as janelas em constante variação. Em paralelo a estas visualidades múltiplas, está o ponto de maior intensidade do filme, a condução que se dá não por uma narração, mas por uma contação. Ao invés do olhar de fora que analisa e narra, temos o privilégio de um encontro sensível em que cada uma conta sua própria história, de resistência, de pertencimento, de rupturas e de comunidade. Ah sim, e do outro lado, Olhos Livres, como uma homenagem que fala mais sobre seu homenageado do que uma biografia não autorizada e que ecoa um velho mantra: “é da merda que nasce a epopeia”. Será mesmo? Acredito que em 2021 podemos reconhecer os méritos de algumas conquistas na história do nosso cinema sem fechar os olhos para a constância esmagadora do endeusamento de homens usualmente cis, héteros, brancos e burgueses.  

Em 2021 vemos Huri em “Colmeia”, de Maurício Chades, contando sua história como ela quer e quando ela quer, num longo plano de seu rosto que dura quase o filme inteiro. É uma entrevista subversiva a partir do momento em que ela rompe com a esperada mansidão do entrevistado e conduz ela mesma a narrativa. Ver sua força na tela quase nos ajuda a respirar, ouvir os sons do lago e vento e sua voz tudo em harmonia é como ser fisgada. E fisgada mesmo, a ponto de não perceber a ebulição sendo construída até que é tarde demais. Huri desde o começo se senta em frente ao lago Paranoá, mas este lago nunca foi apenas paisagem de fundo, se enreda com a própria vida de Huri, recebe seu presente oferenda, e responde, com calma, com força. É estranho como a placidez de um lago pode ecoar na serenidade do fogo queimando em constância.  

Ainda na mesma sessão, “Céu de Agosto” de Jasmin Tenucci é um filme peculiar, traça paralelos entre uma enfermeira em São Paulo e queimadas na Amazônia, mas não é nem isso o que mais chama a atenção. É por um ar de estranhamento que nunca nos abandona inteiramente, pelos elementos quase fantásticos quase de gênero. É também por sua protagonista, cheia de seus mistérios e passado e futuro, de rosto cansado e olhos argutos. Mas como não ter os olhos cansados, o corpo dela, grávida, ainda assim continua a ser um convite para que alguém sempre tenha um comentário, uma dica, um questionamento. Menino ou menina, onde está o pai? “Não tem, graças a Deus” ela responde, e a resposta atravessa a tela. No final inesperado, o que mais choca é como aquilo que poderia ser considerado um elemento fantástico, na verdade é o eco de um dia real em São Paulo.  

“4 Bilhões de Infinitos” de Marco Antônio Pereira 

E por fantasia, chegamos ao universo de “4 Bilhões de Infinitos” de Marco Antônio Pereira. Um dos filmes mais potentes presentes na mostra esse ano, essa história mineira consegue unir fantasia, imaginário, cotidiano, identidade e infância. Consegue inclusive transpor qualquer barreira geográfica, a identificação com as crianças protagonistas, Adalberto e Ana Júlia, é imediata. Do portal flamejante à ameaça de chuva, vemos o mundo principalmente através dos olhos de Adalberto, na verdade, grudamos nele. De um lado as montanhas infinitas, do outro as casinhas simples. Não se sabe o que vem a seguir, o filme não se entrega em nenhum momento, suas curvas são imprevisíveis, cada cena pintando uma nova parte do quadro cotidiano dessa família de mãe e filhos que à tarde sozinhos conversam à luz de velas, unidas contra o que o mundo pode querer tomar delas, planejando um futuro cheio de possibilidades. E ainda, a graça genial dessas duas crianças falando sobre Cinema: “igual a nós, a gente ri e chora juntos”. E isto, depois de “roubar” o cinema. É preciso ver, porque é preciso sentir. O lençol branco ao final, os galhos, o vento, parecem perguntar, mas o que é cinema mesmo? Uma tela em branco, uma vida a ser escrita.

“O Babado da Toinha”, de Sérgio Bloch 

Identidade, pertencimento, existência, afeto… paralelos possíveis a conectar alguns dos filmes na mostra esse ano. Menciono em especial “Ela Que Mora no Andar de Cima”, de Amarildo Martins e “O Babado da Toinha”, de Sérgio Bloch. Imageticamente não se aprecem em nada, um documental e o outro ficção, um na Bahia outro no Sul, uma Toinha, a outra Luzia. Diferenças há que sobra, mas isto apenas evidencia a força justamente da pluralidade, não é a escolha de uma ou outra forma, é a coexistência de mil possibilidades e ainda mais. Luzia se encanta com uma paixão em ares de primeiro amor, sonho e ansiedade que a faz desafiar a si própria e se reinventar. Toinha conta sua história numa trama costurada com fios de dendê e sua receita mágica, é reinvenção todo dia, com força e energia evidenciadas pela câmera que a acompanha de estalo e em cores vívidas, porque “é difícil de fazer, mas vale a pena”. Com licença, mas Toinha faz todos os babados, e o babado da Toinha também é o babado do Cinema.

Dentre as concatenações possíveis, a ficção, o documentário, aquilo que não é nem um nem outro em específico, mas experiência na tela, estão os 13 filmes deste ano. Vários caminhos são abertos, descobertos, achados. Mas ainda resta a sensação de que falta algo, algo que exploda, algo que ecoe na mente insistentemente, mas é claro, não é tão justo falar do que falta. Exceto, pela clara falta de diversidade na direção dos filmes daquela que é uma das principais mostras do festival: 13 filmes, 3 diretoras.  

13 filmes.

3 diretoras.

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