Posts publicados em 2021

Efeitos práticos são tudo de bom

O vídeo acima é de um anúncio de uma empresa japonesa de bebidas, e é mais um anúncio que vai pra minha coleção de vídeos que eu amo porque usam efeitos visuais práticos.

Eu gosto muito de vários usos de computação gráfica, e esse vídeo com certeza usa para compôr e remover alguns detalhes pontuais, mas a parte mais legal mesmo — os corredores maleáveis e tudo voando pelos ares, é 100% efeito prático. Eu amo a sensação que esse tipo de efeito visual passa. Se você quiser dar uma olhada em como tudo foi feito (inclusive no corredor de 85 metros criado especificamente pro anúncio), dê uma olhada nesse vídeo de bastidores.

Esse vídeo me fez lembrar do anúncio Welcome Home que o Spike Jonze dirigiu para o lançamento do HomePod da Apple. É um dos meus vídeos favoritos (e também tem um making off muito bacana):

Eu não quero entrar para a briga de efeitos práticos e efeitos em computação gráfica aqui (até porque eu acho que essa é uma briga com um vencedor já). Computação gráfica cria coisas além da nossa realidade, mas eu amo a fisicalidade que os efeitos práticos de Mad Max: Estrada da Fúria criam, tornando aquilo que não pode ser verdade em algo real e tangível:

E usa computação gráfica para finalizar, tirar cabos e equipamentos de segurança e compôr os planos gerais. Que filme perfeito.

Kentucky Route Zero: Memory Overflow

O compositor Ben Babbitt lançou no seu BandCamp um disco de “sobras” da trilha-sonora de Kentucky Route Zero. O disco inclui músicas ouvidas só nos trailers (como a belíssima The Flood) e músicas do jogo que não foram incluídas na trilha-sonora oficial, como ruídos de estações de rádio, sons distantes e sonhos.

Eu passei o fim de semana ouvindo esse disco, e me deu uma vontade imensa de jogar KRZ de novo. Essas “sobras” representam muito da minha experiência com o jogo: segundo Babbitt, esse é seu último envolvimento com o projeto que acabou ocupando toda uma década para o trio que compõe o Cardboard Computer, e de alguma forma eles ilustram o furor, o desespero e os sonhos dessa última década que não foram registrados como as faixas do disco oficial, mas que de alguma forma foram sentidos. Ouvir elas assim, fora do contexto do jogo, parecem justamente memórias. São músicas passageiras, que antes eu ouvia com os efeitos sonoros do jogo por cima. Elas soam diferentes agora, como uma memória parece ter um sentimento diferente daquele momento que foi vivido antes.

Lindo demais. Dá pra ouvir de graça no BandCamp, eu comprei pra manter comigo porque são músicas muito especiais.

Ted Chiang: Medos da tecnologia são medos do capitalismo

Ted Chiang, autor de Exhalation, o livro de contos de ficção-científica que eu estou lendo nesse exato momento, e do conto que deu origem ao filme A Chegada, em uma entrevista para o podcast de Ezra Klein (ênfases minhas):

I tend to think that most fears about A.I. are best understood as fears about capitalism. And I think that this is actually true of most fears of technology, too. Most of our fears or anxieties about technology are best understood as fears or anxiety about how capitalism will use technology against us. And technology and capitalism have been so closely intertwined that it’s hard to distinguish the two.

Let’s think about it this way. How much would we fear any technology, whether A.I. or some other technology, how much would you fear it if we lived in a world that was a lot like Denmark or if the entire world was run sort of on the principles of one of the Scandinavian countries? There’s universal health care. Everyone has child care, free college maybe. And maybe there’s some version of universal basic income there.

Now if the entire world operates according to — is run on those principles, how much do you worry about a new technology then? I think much, much less than we do now. Most of the things that we worry about under the mode of capitalism that the U.S practices, that is going to put people out of work, that is going to make people’s lives harder, because corporations will see it as a way to increase their profits and reduce their costs. It’s not intrinsic to that technology. It’s not that technology fundamentally is about putting people out of work.

It’s capitalism that wants to reduce costs and reduce costs by laying people off. It’s not that like all technology suddenly becomes benign in this world. But it’s like, in a world where we have really strong social safety nets, then you could maybe actually evaluate sort of the pros and cons of technology as a technology, as opposed to seeing it through how capitalism is going to use it against us. How are giant corporations going to use this to increase their profits at our expense?

And so, I feel like that is kind of the unexamined assumption in a lot of discussions about the inevitability of technological change and technologically-induced unemployment. Those are fundamentally about capitalism and the fact that we are sort of unable to question capitalism. We take it as an assumption that it will always exist and that we will never escape it. And that’s sort of the background radiation that we are all having to live with. But yeah, I’d like us to be able to separate an evaluation of the merits and drawbacks of technology from the framework of capitalism.

Via Kottke. Esse é um assunto que me fascina desde que eu li The Soul of the New Machine, de Tracy Kidder.

Essa é a Shameika

Fetch the Bolt Cutters é uma obra-prima intimista e crua, composta por histórias que Fiona Apple não só conta como sente, porque são momentos e sentimentos da vida dela que a marcaram, de homens abusivos e da irmandade que ela encontrou em mulheres ao seu redor. Uma dessas é Shameika, em que Apple lembra da conversa que uma colega sua teve com ela na quarta-série sobre não dar ouvido para o bullying que ela estava sofrendo.

Uma das coisas lindas que Shameika captura é a imensidão de um pequeno momento. Na música, Apple conta que Shameika esteve em sua vida por pouco tempo — elas só foram colegas de escola na quarta-série —, e nunca teve a oportunidade de dizer para ela como o que Shameika disse foi importante para sua vida.

As pessoas se perguntaram onde estaria Shameika agora, e pelo visto a Pitchfork encontrou. Em novembro, Jenn Pelly publicou sua entrevista com Shameika Stepney, a colega de escola de Fiona Apple:

It was late April, deep in quarantine, when Shameika first found out about Fiona’s song, but not by hearing it. (She was always only vaguely aware of her former schoolmate’s music career.) The news came, instead, via an out-of-the-blue handwritten card sent in the mail by her and Fiona’s adored third grade teacher, Linda Kunhardt.

Shameika remembers venturing to her mailbox one day for a bit of fresh air and finding the curious note. Her disbelief is still palpable as she recalls the contents of the card: “Shameika, I hope this letter is finding you safe during quarantine, I had to write you because I don’t know if you remember this girl Fiona McAfee. You told her not to listen to bullies, and that she had potential. I just wanted to say thank you. And I wanted to let you know that your prophetic words have been turned into a beloved song titled your name…

A entrevista toda é bacana, e uma prova de que Shameika realmente é a pessoa incrível que Fiona Apple lembrava ser, e contextualiza seu desaparecimento na vida de Apple — Shameika foi expulsa da escola um ano depois, quando bateu em uma garota branca que a insultou. Shameika, que também é uma compositora, mostrou a música que fez com o seu lado da história, Shameika Said:

O Ano em que a Terra Mudou

O bacana de um blog é que, pra mim, eles são pequenos livro de recortes dos gostos do autor naquele exato momento em que o recorte foi feito.

Por exemplo: nesses últimos meses o que eu mais ando assistindo nos serviços de streaming são séries documentais tipo aquelas que davam (dão?) no Discovery Channel. No Disney+ eu fico assistindo sobre arqueólogos no Egito (o catálogo do National Geographic é bom demais). Na Apple TV+ eu fico assistindo documentários da natureza (assim como Peanuts, o serviço tem exclusividade nos documentários naturais da BBC). Eu não sei o porquê, mas essas séries são a única coisa que me acalma esses dias, e é algo que eu nunca tive muito costume de assistir antes.

Eu ainda vou fazer um post sobre como, do nada, o serviço de streaming da Apple virou um dos mais essenciais por aí. Enquanto eu não faço isso, fique com o trailer do novo documentário deles: The Year Earth Changed, sobre as mudanças que ocorreram na natureza quando parte da população mundial ficou dentro de casa.

O documentário é produzido pela BBC e a narração é do David Attenborough — o mesmo pessoal e o mesmo narrador do mítico Planeta Terra, e estreia no Apple TV+1 no “Dia da Terra”, em 22 de abril.

  1. Pelo amor de DEUS Apple, muda o nome desse serviço. 

Peanuts, 50 anos antes

Essa foi a tirinha de Peanuts em 29 de março de 1971:

Sally se arruma para a escola. Ao se sentar na classe, comenta “Aqui vamos nós de novo… Ainda procurando pelas respostas!”

Esse é o meu lema da semana (e do ano, etc.)

Via @Peanuts50YrsAgo.


Em outras notícias, me desculpem pela ausência de posts nas últimas semanas. Eu caí naquele pensamento de novo que existem observações do meu dia-a-dia que não valem um post, e acaba que quando eu paro pra pensar, quase nada vale um post. Eu tô tentando reverter essa ideia! Que essa semana seja um pouquinho melhor por aqui. Tomara que seja por aí também.

“Lore” é uma armadilha

Um dos melhores textos que eu li nas últimas semanas é “What we argue about when we argue about WandaVision”, da Emily VanDerWerff. Como os melhores textos da autora, ela pega uma série como contexto para destrinchar e analisar outros assuntos da cultura em geral. Seu último ponto é sobre como muito da recepção e discussão sobre os filmes e séries que assistimos hoje em dia se dá sobre sua trama: será que ela faz sentido no contexto maior do MCU? Será que um easter egg que apareceu no segundo episódio não significa outra coisa? O texto é fantástico, em especial essa última parte:

In a piece for Current Affairs, Aisling McCrea put something that lots of culture writers have been circling for years so succinctly, I actually am jealous. McCrea discusses culture via two terms used by the ancient Greeks: logos (stuff pertaining to the material world, which we can see and measure and quantify in some way) and mythos (stuff that is more elusive, which we mostly feel or contemplate). Around the piece’s midpoint, she writes:

This rejection of imagery, symbolism, or any higher meaning that cannot be reduced to the literal, has become especially pervasive in contemporary art criticism. This is not to say that there isn’t still great art criticism; it’s just that the internet has led to a much greater volume of all criticism, and much of it is dominated by a worldview that seems to reject metaphor, symbolism, mood and tone, or at least render them secondary to “plot.”

What McCrea touches on here is something I would imagine you’ve noticed if you consume a lot of pop culture writing. Though there are a ton of great critics out there working, by far the most popular articles and videos about culture are those that purport to “explain” to you what’s happening. At their best, these articles and videos reach beyond the cultural artifact at hand to talk about connections to other pop culture topics or dig into the long, complicated history of the characters whose adventures we so enjoy. At their worst, they more or less repeat the plot and tell you how to feel about it. (If you doubt me, watch any given YouTube video with “the ending, explained” in its title.)

But the problem is that when you boil down a piece of art to its most immediately obvious qualities — the plot and/or the lore underlying the story, for instance — you turn it into something tangible. You place boundaries on it that are designed to make it easier to consume so you can move on to the next pop culture artifact.

But art isn’t tangible. Even the worst, most cynical Marvel movie is full of things worth discussing for their more intangible qualities, like how particular visuals made you feel or the way the themes intersect with your life, or just the way a joke made you laugh really hard. There are a lot of superhero movies I strongly dislike, such as Batman v Superman, that are still worth dissecting as art rather than as commerce because they’re trying to say something and express some fundamental truth of the human condition.

Eu concordo com tudo o que VanDerWerff diz, e sua definição de logos e mythos é tão boa e simples que me revigora toda a vez que eu leio. Esses são termos que estudamos na faculdade de cinema (e que você provavelmente já se deparou se lê bastante sobre narrativas), e ela os usa aqui de uma maneira bem objetiva: por causa da natureza das histórias como WandaVision, nós somos impelidos a dissecar seu logos — sua história tangível, seus enigmas, sua representação daquilo que a gente sabe, como os personagens da Marvel — e deixamos o mythos — o intangível, o misterioso, o que é sentido, o que a gente sabe que existe, mas não sabe bem explicar o que é — para trás, ou até mesmo consideramos ele um problema de roteiro.

Eu acho que isso é um efeito cíclico. Como eu argumentei no meu post sobre WandaVision, a série é um misto de duas coisas que fazem muito sucesso no boca-a-boca da internet: o universo da Marvel e séries que usam o modelo da caixinha de surpresas que Lost aperfeiçoou. São filmes e séries feitos para serem decodificados, para suas referências serem compreendidas e assinalar o que vem pela frente nos próximos filmes e séries. Como eles fazem muito sucesso, mais gente se junta nessas discussões, que as tornam ainda mais onipresentes (você se lembra a loucura que era Lost? O Obama chegou a remarcar um discurso por causa da série).

Eu tenho a impressão que um dos efeitos colaterais desse tipo de discussão é uma canonização da mitologia dessas histórias. O MCU está passando por um ponto que Lost alcançou em sua quarta temporada, em que o sua própria história trabalha contra ele, limitando o que o público acha que pode acontecer, e limitando o que seus autores podem explorar. São histórias que dependem e presenteiam a dedicação de seus espectadores em relação aos detalhes e as referências, mas isso cria uma impressão de autoridade sobre seus fãs1, que cobram e reclamam toda a vez que essas histórias contradizem esse cânone, ou ignoram algum evento anterior.


Essa mitologia que existe dentro de uma ficção é chamada pelos fãs de “lore” (de “folclore”). Existem iniciativas para organizar e explorar o lore de franquias famosas, e é um trabalho realmente impressionante quando você confere a dedicação do trabalho em mapear O Senhor dos Anéis e Star Wars com tanta precisão.

Mas eu sinto que, conforme a voz dos fãs vai ficando mais alta, esse lore que antes servia mais para dar contexto à uma história acaba se transformando em uma armadilha para essas próprias histórias, como uma forca onde você mesmo dá a quantidade de corda.

E isso me faz pensar em como eu gosto quando algo tá nem aí pro lore, ou pro que você pensa que aconteceu. A terceira temporada de Twin Peaks faz isso com maestria, e a série seguinte do criador de Lost, The Leftovers, faz questão de criar uma história onde o que aconteceu é propositalmente incerto.

Mas acho que minhas abordagens favoritas para resolver a armadilha do lore vêm dos jogos de The Legend of Zelda e das tirinhas de Peanuts.

Zelda segue uma fórmula: todas as histórias dos jogos aconteceram, de uma forma ou de outra. A única coisa que é certa no lore dos jogos é de que Hyrule é um reino mantido sobre o balanço de três forças: coragem, poder e sabedoria, e quando esse balanço está instável, três figuras nascem para reestabelecer esse balanço: a princesa Zelda (sabedoria), o seu cavaleiro Link (coragem), e o monstro Ganon/Malice (poder).

Pronto. Nós sabemos porque a história básica de Zelda é sempre a mesma. É uma explicação direta que esconde uma limitação técnica na época que os primeiros jogos foram criados, mas que define a estrutura de todos os jogos até hoje. Zelda trata cada aparição de Zelda, Link e Ganon como eventos isolados com gerações e gerações de diferença. Quando um jogo referencia outro, ele o faz com a incerteza de uma lenda: alguns duvidam do que aconteceu, outros consideram isso uma verdade absoluta, etc.

Isso dá uma liberdade para os game designers de Zelda se desprenderem da história dura de sua franquia e se dedicar mais à jogabilidade, criando uma “lenda” que se adapta aos interesses do que o jogo quer explorar, e não o contrário. A própria linha do tempo “oficial” que eles oferecem para os fãs é revisada constantemente (e não faz muito sentido, o que eu acho que é exatamente o ponto).

Zelda usa esse aspecto de lenda em suas histórias justamente para enriquecê-las através das incertezas. O que acontece entre as centenas de anos que separam Ocarina of Time e The Wind Waker, por exemplo? O que a Hyrule de um ainda existe na de outro?

Peanuts faz um trabalho ainda mais surpreendente em sua simplicidade. Foi uma tirinha escrita por mais de cinquenta anos, e seu autor, Charles Schulz, conseguiu estabelecer uma identidade para seus personagens sem nunca limitá-los.

Existe algo específico da forma. Peanuts trata de um breve momento do dia-a-dia de Charlie Brown, Snoopy e seus amigos. isso não impedia que Schulz se aventurasse em narrativas maiores — alguns eventos na vida dessas crianças se desenrolavam um pouquinho todos os dias por semanas a fio.

Mas esses eventos nunca era jogado contra seus personagens. As coisas que acontecem em Peanuts nos informam sobre a personalidade de nossos personagens, e não de suas histórias. E é isso que tornou as tirinhas no marco que são: você não precisa ler todas para saber tudo o que acontece com a turma do Charlie Brown. Em poucas tiras você consegue identificar que o Minduim é um fracassado, a Lucy é irritada, o Linus é sabio, o Schroeder é esnobe, e o Snoopy é um sonhador. Se você lê continua lendo, você descobre algo mais bonito: com esses pequenos momentos quase irrelevantes no dia-a-dia deles, a gente descobre que esses traços não são tudo o que esses personagens são. Nós observamos como Linus trata os irmãos, como Charlie Brown se relaciona com o pai, e assim por diante.

Dessa forma — fazendo as tirinhas explorarem quem essas pessoas são, e não o que acontece com elas —, Schulz conseguiu tornar Peanuts no marco editorial que foi, porque se baseou em uma verdade da nossa existência: a gente nunca conhece alguém completamente. A gente sempre vai se surpreender com as pessoas que a gente conhece, e eu diria que a chance disso acontecer conforme a gente convive mais tempo com elas é ainda maior. Nós usamos os eventos do nosso dia-a-dia para conhecer as pessoas que nos acompanham nele. Os eventos acontecem, mas as pessoas ficam.

Eu acho que se nos prendemos demais à esses eventos, esse lore, nós acabamos caindo na armadilha de julgarmos demais o presente, a história que a gente estamos acompanhando. Entender o passado e como ele informa nosso presente é necessário para a nossa vida, mas se usarmos o passado para enxergar o presente — e não o contrário —, caímos na armadilha de ignorarmos o que está acontecendo em detrimento daquilo que já conhecemos, de supervalorizarmos aquilo que sabemos bem, e negarmos o desconhecido.

A gente pode acabar deixando de descobrir um ponto de vista novo, uma pessoa legal, um momento importante, ou uma nova faceta de alguém que a gente achava que não tinha mais como nos surpreender. E por que apreciaríamos a arte, se ela não olhasse para quem somos e onde estamos agora para nos ajudar a enxergar aquilo que, na nossa mera existência humana não conseguiríamos enxergar sozinhos?


  1. A gente tá passando por um momento em que os fãs andam com muita força em tomar decisões, e se isso é bom ou não (não é) é um tema para outro post. 

A trilha sonora de Ela

Pra mim, cada mudança de computador é um evento. Eu faço tudo no meu computador, então sempre que eu preciso trocar de um computador por outro, eu preciso tomar cuidado. Eu demoro meses considerando, eu preparo a mudança com semanas de antecedência, e faço tudo com calma, pra não perder nada. É engraçado, mas eu tomo muito mais cuidado com as coisas que estão no meu computador do que as que estão no meu celular. Eu acabo apagando mensagens, fotos e aplicativos sem muita consideração. Mas eu sei a localização de cada arquivo no meu computador, eu conheço de cor as minhas configurações preferidas dos programas que eu uso para trabalhar ou para escrever.

Eu mudo de computador a cada cinco anos1, e é um processo que eu me dedico à fundo porque é o aparelho central do meu dia-a-dia, mas também porque eu tenho coisas no meu computador que eu tenho muito medo de perder. Eu acho isso um tanto mágico: o digital nos permite armazenar qualquer coisa em pouco espaço de um jeito milagroso, mas também completamente efêmero. Um comando descuidado e puf, você perdeu algo importante para sempre.

Uma das coisas mais importantes para mim nesses momentos é a trilha-sonora de Ela, que sobreviveu três transferências de computador já. É um dos objetos mais raros, vindos de uma internet pré-streaming, mas pós-torrent: um álbum nunca lançado do Arcade Fire, levado para a internet em links suspeitos, no formato de um bootleg. A promessa da banda é de que o lançamento oficial do disco viria pouco tempo depois do lançamento do filme, em 2013, mas isso acabou só acontecendo na última sexta-feira.

Agora eu posso recomendar a trilha-sonora de Ela sem precisar mandar um link para a pessoa baixar — o disco tá disponível no Spotify, no Apple Music e no YouTube. Ela também mais suscetível à efemeridade digital — ele também foi lançado em vinil e em fita cassete. Ela está salva na minha biblioteca do Music, mas também tá salva no HD do meu computador. E no meu HD externo. E no Dropbox que eu tenho só pra ela. Essa trilha-sonora é especial demais para eu ter a chance de perdê-la.

Eu considero a trilha-sonora de Ela a minha “música ambiente perfeita”. Eu não sei se ela faz parte do gênero musical ambiente (eu acho que não?), mas eu penso nela nesses termos porque ela é, muito provavelmente, o disco que eu mais ouvi na minha vida. Eu escuto suas músicas quando estou triste, e quero me sentir menos sozinho na minha melancolia. Mas eu também gosto de ouvir quando estou feliz, porque suas notas são doces e sensíveis, e cada segundo em que elas me acompanham se torna um momento um pouquinho mais bonito, um pouquinho mais inesquecível. São músicas boas para trabalhar, porque suas notas são espaçadas na medida certa; e também são boas para relaxar e aproveitar o momento, porque elas parecem cercar ele com seus toques de piano.

Meu momento mais perfeito ouvindo esse disco foi em 2014. Eu me lembro como se fosse ontem. Naquele verão eu morava muito perto do trabalho — eu podia ir a pé até ele em menos de cinco minutos. Eu gostava de acordar bem cedo para poder ficar caminhando um pouco antes de chegar no escritório. Eu gostava de ir pelo meio da Santa Casa, porque no meio dela tem um café que eu gostava de pegar meu café com leite. Era uma manhã cinzenta e fria, logo depois de uma noite chuvosa. Eu caminhei pela Santa Casa ao som de Morning Talk. Ela começa lenta e triste e eu não lembro o porquê, mas eu tava meio triste também.

Eu tirei os fones de ouvido para pedir o meu café e agradecer a atendente, e quando coloquei eles de volta a música estava entrando em Supersymmetry, sua parte mais agitada e mais mágica. A música parecia guiar a movimentação da rua: os carros começavam a andar mais depressa, mais pessoas pareciam sair e andar na rua. O dia tava começando. Graças a esse momento, e à essa música, o meu estava começando um pouquinho melhor.

  1. Eu parei pra pensar sobre isso agora a pouco no banho e me deparei com esse padrão inesperado. Eu ganhei primeiro computador (um desktop Positivo) em 2005; depois substituí ele por um MacBook Pro em 2010, e por outro MacBook Pro em 2015. Em dezembro de 2020 eu troquei por um Mac mini. É uma periodicidade que eu nunca fiz questão de manter, mas eu começo a “sentir” meus computadores engasgando a cada cinco anos. 

Como nossos hábitos alimentares mudaram na pandemia

Ontem de noite eu resolvi dar uma lida nos artigos da minha lista de leituras e me deparei com esse artigo do The Atlantic sobre as mudanças dos hábitos alimentares durante o isolamento social.

Tem vários detalhes bacanas nesse artigo. A autora, Amanda Mull, contextualiza a ideia das “três refeições”, que começou a existir junto com a industrialização e o fato de que as pessoas tinham que sair de casa para trabalhar — fazendo com que a janta fosse a principal refeição familiar, já que os pais estavam fora durante o dia; e como a mesma industrialização criou a ilusão da necessidade do café-da-manhã como uma refeição essencial.

Meu detalhe favorito, porém, é todo o motivo pelo qual Mull escreveu o artigo. Ela começa comentando como seus próprios hábitos alimentares mudaram na pandemia. Ao invés de almoçar e jantar, a autora diz que faz apenas uma grande refeição o dia todo — o que ela chama de Big Meal, o que eu chamo de pratão. Ela também busca por pessoas que desenvolveram outros hábitos alimentares estranhos: pessoas que pararam de fazer refeições em momentos específicos e começaram a comer pequenas porçòes durante o dia; ou uma pessoa que finalmente teve tempo suficiente no dia para fazer as três refeições, por exemplo. E essas mudanças não fazem mal. Mull lembra que o o nosso corpo se adapta às necessidades do nosso cotidiano, e a forma como ele requer comida é uma dessas adaptações.

New or worsening food compulsions, such as eating far more or far less than you used to, are cause for alarm. But what’s not cause for alarm, Larkey said, is adjusted eating patterns or mealtimes that are more useful or satisfying in the weird, stressful conditions people are now living in. “We’re really not taught that we can trust our body’s cues,” she told me. “It can feel so destabilizing to have to think about them for maybe the first time ever.”

In some of the new routines created to make the past year a little less onerous, it’s not hard to see how life after the pandemic might be made a little more flexible—more humane—for tasks as essential as cooking and eating. For now, though, go ahead and do whatever feels right. There’s no reason to keep choking down your morning Greek yogurt if you’re not hungry until lunch, or to force yourself to cook when you’re bone tired and would be just as happy with cheese and crackers.

Eu senti meus hábitos alimentares mudando logo que o isolamento social começou, em março do ano passado. Eu fui perdendo a vontade de comer de noite porque eu comecei a acordar cada vez mais cedo, e eu nem sempre sentia fome no horário do almoço. Minha fome aparece ali pelas 14h, 15h, e desaparece até o dia seguinte. Como meu horário de almoço é às 12h, eu costumo comer algo nesse horário para puxar o apetite, mas minha rotina ideal seria ter um horário de almoço no meio da tarde. Eu ainda “janto”, mas na ocasião específica de ser dia de jantar pizza. É uma exceção obrigatória. De resto? Um sanduíche ou um ovo mexido resolvem.

Escute a Wikipédia

O vídeo acima é uma gravação de tela do site Listen to Wikipedia, um desses experimentos web que eu amo descobrir do nada. O projeto registra a movimentação constante das edições do maior site colaborativo da internet, e cada adição, exclusão e novo usuário são indicados por notas e acordes diferentes de maneira instantânea.

Sinos indicam adições, e cordas indicam exclusões. A entonação muda de acordo com o tamanho da edição; quanto maior a edição, mais profunda será a nota. Círculos verdes mostram edições de usuários não registrados, e círculos roxos marcam edições realizadas por robôs. Você pode ver anúncios de novos usuários conforme eles criam uma conta no site pontuado por uma ondulação.

Eu tô com o site aberto há uns minutos já. Na verdade eu esqueci que ele estava aberto porque fui pegar um café e voltei pro computador e continuei lendo umas coisas no meu RSS, quando percebi que a “música” que eu tava ouvindo vinha desse site.

Dá pra selecionar várias Wikipédias ao mesmo tempo, silenciar certos tipos de atividade, etc. É uma pequena maravilha.

O Coração É um Eterno Penitente

Se você lê A Baguete, já sabe como eu rasguei de elogios o novo curta-metragem do meu amigo Leonardo Michelon e da Bruna Giuliatti. Esse é um dos três curtas que fazem parte do Desejos do Coração — eu falei da segunda parte no ano passado.

Eu podia voltar a rasgar os elogios que eu fiz antes, citar como eu amo a forma com que o Leonardo mistura referências que eu acho fantásticas — o cinema de recortes do Chris Marker e o filme-diário do Jonas Mekas, pra ficar só em dois exemplos. Mas eu acho que isso só distancia as pessoas de um trabalho que é essencialmente íntimo sensível.

Eu já comentei como a visão do Leo consegue traduzir um quê de melancolia e de fantástico na existência às margens da cidade que a vida nas cidades do interior nos oferece, mas com O Coração É Um Eterno Penitente eu acho que fica ainda mais claro como esse projeto dos três curtas busca algo muito mais interno e pessoal. A fórmula é a mesma do curta anterior: a imagem ilustra a narração não-falada, um monólogo que pode muito bem ser interno de um desses personagens, ou uma consciência lembrando de uma memória. Como O Coração É um Inadimplente Sem Esperança, o fato de não ouvirmos esse monólogo torna o jogo muito mais pessoal, muito mais interno.

Eu tenho uma sorte tremenda de ser amigo de tanta gente talentosa. O mais bacana, quando eu testemunho a arte desses meus amigos, é conseguir perceber o olhar pessoal dos meus amigos sobre aquilo que fazem. É por isso que eu acho limitador ficar falando das influências estéticas que eu enxergo os diretores trazerem para esse curta, porque ele não é a soma delas: ele usa um pouco, mas as une em uma visão única. Eu tenho a sorte de ser amigo do Leo e de ler os livros que ele me recomenda, e de perceber como eles podem ajudar ele a nortear os filmes que ele faz. Mas eu acho muito mais bonito ver como é a visão dele sobre esse tom e esse ritmo que eu gosto tanto, porque isso é muito mais especial.

Eu conheço muitas das figuras que aparecem em cena em O Coração É Um Eterno Penitente, e sinto saudade de noites como aquela que o Leo e a Bruna registraram. Mas é o que ele criou com essas imagens e com esse texto que é realmente único: um breve mergulho nas memórias de alguém e na intensidade de seus sentimentos. É um momento criado para capturar um sentimento de verdade.

Jogos para terminar em uma jogatina

O Fabrício Aguiar, autor do blog 16 Bits da Depressão, fez uma lista com dez jogos para se jogar em uma jogatina. A lista inclui jogos bem narrativos, como What Remains of Edith Finch, e metroidvanias como Gato Roboto.

As experiências mais intensas e memoráveis que tive com videogames foram de jogos que terminei em uma ou duas sentadas na poltrona. Possivelmente, você já tem alguns exemplos em mente.

Aqui, trago alguns exemplos: jogos curtos e intensos para você sentar na poltrona e se divertir terminando-os em poucas horas!

Um dos jogos dessa lista é Portal, e esse foi o primeiro jogo que me veio em mente quando eu li o título do post do Fabrício. Eu lembro até hoje de comprar o The Orange Box porque eu queria muito jogar Half-Life 2, mas no fim das contas eu passei uma tarde inteira jogando Portal, um jogo de puzzle que dura apenas algumas horas, mas que me marcou muito porque seus níveis são muitíssimo criativos, e a GLaDOS é uma excelente personagem. Hoje em dia ele já é um clássico, mas foi demais entrar de cabeça nesse jogo sem ter ideia do que podia ser.

Essa lista me fez sentir falta de duas coisas: de ter mais tempo para conseguir terminar jogos em uma sessão; e de jogos que podem ser terminados em uma sessão. A maioria dos jogos que eu experimentei ultimamente são gigantes. Alguns são magníficos e eu não tiraria um segundo sequer da experiência, mas eu sinto falta de descobrir um jogo como Portal que pega uma ideia simples, experimenta ela em um punhado de cenários variados, mas que consegue criar essa experiência em duas, três horas.

Devem ter muitos jogos assim por aí. Eu mesmo joguei vários, mas eles costumam ser mais jogos narrativos como Firewatch e Gone Home ou Kentucky Route Zero. Jogos são experiências que são muito questionadas pelos seus consumidores — eles são caros, e as pessoas demandam um mínimo de conteúdo “aceitável” pelo preço. Mas esse mínimo anda tão grande hoje em dia… jogos de mundo aberto são tão comuns que eles deixaram de ser um “evento”. Qualquer jogo pode ser maior do que GTA 5 agora, mas será que todos precisam ser?

Enfim, a lista do Fabrício me deu umas boas dicas do que jogar pra coçar essa minha vontade de jogar uns jogos que eu finalmente vou poder terminar. Minha lista dos que eu comecei mas que nunca vou terminar já está grande demais.

WandaVision foi uma boa serie de TV presa em uma franquia que não deixou ela brilhar

WandaVision foi uma boa (e as vezes, uma ótima) série de TV que revelou como o MCU — o conjunto de filmes e séries que compõem o universo de super-heróis da Marvel no cinema e na TV — mudou o modo que discutimos cultura para pior. A série, que completou sua primeira (e quem sabe única) temporada na Disney+ na última semana foi a primeira produção da franquia a ser lançada em mais de um ano, e me lembrou de como eu não sentia falta.

Eu não sou um grande detrator do MCU. Eu gosto de um punhado dos filmes e acho a franquia, num geral, uma boa série cujos capítulos costumavam aparecer pela última década com alguns meses de diferença entre si. E eu acho que em alguns momentos WandaVision foi uma das melhores realizações da franquia até aqui, trazendo momentos genuinamente belíssimos em uma série de TV extremamente interessante. Mas o fator monolítico desse universo transformou muito do que se consome sobre cultura de um jeito ruim.

Os filmes e séries que compõem o MCU são simples por natureza, e não de um jeito ruim: como outras séries1, existe uma coesão estética entre seus capítulos e uma certa independência narrativa: você não precisa assistir cada filme ou série da Marvel para entender e gostar de um filme como Capitão América: Guerra Civil ou Thor: Ragnarok, por exemplo. Seus arcos narrativos são bem delimitados com a ajuda dos seus gêneros, você sabe bem o que esperar e quais clichês você vai encontrar. Essa é uma corda bamba especialmente difícil para um fascículo da franquia conseguir se equilibrar, e no geral a Marvel conseguiu manejar bem: comparado à outros “universos cinemáticos” que tentaram a mesma coisa, como os Monstros da Universal ou a própria Liga da Justiça da Warner/DC, a Marvel sempre teve o cuidado de transformar seus filmes arrasa-quarteirão em eventos para a família inteira: dos filhos que leem os quadrinhos aos pais que precisam acompanhar eles nos cinemas.

Porém, esses filmes também são feitos com seus fãs em mente: cada capítulo que compõe o MCU não é responsável apenas pelo arco narrativo daquele capítulo, mas também pela continuidade narrativa maior, que permeia todos os outros capítulos; e escondem pequenos detalhes para os mais dedicados — personagens menores em um filme aparecem em outro, itens são mencionados que na verdade montam o palco para um conflito maior em dois ou três filmes mais tarde, etc.

Não dá pra negar que WandaVision não tinha esse segundo público em mente: sua protagonista é uma das personagens-chave de Os Vingadores: Ultimato, e sua importância para o futuro do MCU — que agora vai começar a entrar nos multiversos — é cada vez maior. A própria série é estruturada como uma caixa de enigmas à Lost, em que cada detalhe de cada cena precisa ser destrinchado pelo público, sedento por saber como tudo vai se encaixar. E, como Lost, WandaVision sofreu mais quando precisou pagar pela sua própria aposta: quando o público acha que o prêmio da caça ao tesouro que esse tipo de série tenta fazer oferecer é insuficiente, toda a jornada será mal vista.

É possível observar como WandaVision sofre em manejar tudo isso: em ser uma boa série por si só; um fundamento para o futuro do MCU; uma caixinha de mistérios; e, por fim, uma exploração do trauma e do luto de Wanda. Que a série ao menos tente fazer tudo isso é louvável em si, e ela bem que podia ser lembrada justamente por essa tentativa — há muito o que se escrever sobre como a série consegue e não consegue fazer tudo isso.

Há um efeito colateral quando a força monolítica do MCU, uma franquia que o mundo inteiro pode assistir e discutir ao mesmo tempo, é altamente controlada por uma produtora como a Disney, que otimizou a criação de franquias e de brand awareness a níveis pós-apocalípticos: nenhum fascículo do MCU existe em si mesmo, interessa como parte da cultura ao seu redor. Pelo contrário: elas coexistem e se dependem muito mais conceitualmente do que narrativamente.

É nesse jogo que WandaVision, uma boa série sobre uma pessoa passando pelo luto de perder à todos que ama e que acaba levando outras pessoas como reféns de seu trauma, acaba perdendo seu significado. Séries como essa e como Lost são muito mais bem sucedidas em suas alegorias, em seu fator elusivo — em como o enigma da série serve para acentuar o drama de seus personagens.

Eu já falei aqui como séries tiram muito mais proveito do tempo do que filmes, tanto aquele passado nos episódios quanto aquele que existe entre eles, mas vale repetir: embora séries possuam tramas — por episódio, por temporada, e na série como um todo —, sua unidade narrativa é muito menor porque seu efeito narrativo é cumulativo: nossas experiências com Don Draper ou Tony Soprano ou Selina Meyer são através de vários momentos em um longo período de tempo, onde podemos não só ver a ação que eles tomam como também suas repercussões através do tempo. É no efeito que ações e decisões possuem sobre os personagens que acompanhamos que entendemos o que está acontecendo.

Em sua primeira metade, essa temporada de WandaVision era sobre como uma mulher se prende às suas séries favoritas para escapar da dor que está sentindo. E ei, se tem algo que eu fiz esse último ano foi me afundar em Gilmore Girls e Community para me fazer companhia no meio da pandemia. Em sua grande parte, WandaVision é muito mais perspicaz e pungente do que qualquer um poderia dar crédito à ela, e existe naquele âmbito das grandes séries de TV, onde parece que nada acontece, onde a falta de coesão entre os enigmas da série refletem o desnorteamento existencial de sua protagonista.

Porém, WandaVision não existe em um contexto onde o que acontece importa em si, mas sim em como ela faz parte de um grande palco para os filmes e séries futuros da Marvel. Se a presença de um agente da SHIELD em Homem de Ferro indicava o que poderia estar por vir, a presença de certos inimigos e de certos eventos é obrigatória em WandaVision porque a série precisa dar continuidade a certos eventos — e a gente precisa estar sempre brincando de corrida com eles: seja desvendando pistas ou pegando referências e discutindo à exaustão se elas são canônicas ou não (acredite, eu já estive em mais de uma dessas discussões quando o assunto é Star Wars, e eu sou insuportável nelas).

É como se Wanda em si fosse refém de uma outra realidade, na qual sua dor e seu aprendizado não são mais do que meros plot points pelo qual o MCU precisa passar para estabelecer seu novo mega-evento, em que seu desenvolvimento como personagem pode ser considerado como irrelevante — ou até mesmo como uma pedra no caminho que é a progressão do universo da Marvel nos cinemas.

Quando eu paro para pensar nisso eu fico muito triste, porque esses filmes acabam criando uma falsa ilusão de destino e de conquista na vida de seus personagens, quando WandaVision parecia muito bem querer sugerir que não há uma teoria única sobre como podemos interpretar o mundo, de que ele não é um enigma que pode ser solucionado com as pistas certas. Sua segunda metade, porém, contradiz tudo isso porque existe em um universo que se beneficia de explicações e teorias entre fãs, em que a realidade pode ser reduzida à algo tangível: uma série de eventos que se levam de um ao outro, sem a possibilidade de metáfora, de simbolismo e de tom. Para o MCU, tudo o que importa é a trama — e aquilo que pode levar ela para frente.


  1. Existe todo um outro texto que eu posso escrever sobre como o universo cinemático da Marvel pode ser considerado um grande seriado, e um que usa o formato de forma muito interessante. 

Será que eu quero assistir o Oscar esse ano?

O início do ano sempre foi uma época muito divertida pra mim. O Oscar divulga seus indicados (e começa todo aquele burburinho de quem não foi indicado) e os distribuidores brasileiros começam a lançar os filmes nos cinemas. Todo fim de semana era um agendamento de quantos filmes eu consigo assistir de uma vez, eu começo a acompanhar os prêmios dos sindicatos para poder prever quem ganharia o Oscar (macete total, é muito fácil de acertar acompanhando os sindicatos).

Mas esse ano… eu posso contar nos dedos quantos filmes eu já assisti em 2021, e eu não encontro mais aquele ânimo para assistir filmes durante a semana (e, em alguns casos, nem em fins de semana). Eu me sinto tão por fora da conversa que meus filmes favoritos do ano passado sequer aparecem entre os filmes favoritos na retrospectiva do Letterboxd. Será que eu perdi o jeito de ver filmes?

Esse é um dos motivos que eu ando escrevendo tão pouco sobre filmes ultimamente por aqui, mas também é um pouco pela oferta dos lançamentos. Eu não tenho muito interesse pelos filmes do Netflix e do Prime Video de maneira geral, e isso vem mais de como eu criava expectativas por um filme: eu sabia que ele existia antes, eu tinha visto um trailer ou lido algo sobre. Hoje em dia esses filmes simplesmente aparecem, são comentados por um fim de semana, e desaparecem em seguida. Ou eu assisto ele naquela semana em que eu acabo descobrindo que ele existe, ou eu perdi o trem.

Eu ainda fico empolgado quando o MUBI lança algum filme que tá na minha watchlist há um tempo, ou quando o Telecine traz uns filmes mais diferentes — ou até mesmo quando antigos favoritos aparecem no Netflix e no Prime Video. Mas têm algo na ideia de programação que tanto um cinema ou até mesmo um canal de TV proporcionam que eu sinto falta. As vezes eu chego a ir no MUBI Ao Vivo para ver se não pego um filme no começo, só pela experiência.

Claro, o Oscar não é flor que se cheire. Mas até a omissão de filmes ou de pessoas me fazia me interessar em assistir coisas diferentes. Na prática, a corrida desse ano tá começando agora: a votação começou no último domingo, a premiação deve acontecer em abril. Talvez meu desejo de ver filmes se reascenda até lá, mas eu tô genuinamente assustado de ter perdido o jeito.

As rotinas de Ursula K. Le Guin e David Lynch

Hoje eu começo meu novo trabalho, com uma carga horária diferente da que eu tive nos últimos três anos. Eu tive uns dias de folga entre o meu último trabalho e esse, e usei eles para tentar estabelecer uma nova rotina. Isso porque meus projetos, como escrever aqui no Pão ou estudar francês ou outras coisas que eu estou estudando, requerem um tempo do meu dia-a-dia, e eu tento ter um pouco de tempo pra tudo.

E eu me dou muito bem com rotinas. Eu preciso de uma para liberar minha mente para fazer outras coisas. Se eu estou seguindo minha rotina, eu sei que eu vou ter um pouco mais de espaço mental para escrever um post pro Pão, por exemplo, porque eu não preciso me preocupar com outras coisas naquele momento — elas têm um tempo para me ocupar também, então fica tudo bacana.

Eu aprendi isso lendo sobre o processo artístico de alguns dos meus artistas favoritos. A autora Ursula K. Le Guin, que escreveu alguns dos melhores livros que eu já li, era famosa por ter uma rotina. Le Guin, além de escritora, era mãe, editora e professora de universidade. O dia dela começava às 5h30 da manhã, por exemplo, e ela escrevia das 7h15 às 12h:

A lista de tarefas de Ursula K. Le Guin

David Lynch também é famoso por manter uma rotina bem específica: ele acorda cedo para meditar e fumar um cigarro, mas por sete anos ele ia no Bob’s às 14h30 para comer a mesma coisa. Ele comenta mais sobre como a rotina ajuda a criatividade dele no vídeo abaixo:

Nesse post sobre a rotina de Le Guin, o Open Culture usa uma citação de Gustave Flaubert para explicar o ímpeto de criar uma rotina organizada: “seja normal e organizado em sua vida, para que você possa ser violento e original em sua escrita” (Flaubert é o autor de Madame Bovary).

Rotinas são muito úteis para mim. Elas me ajudam a me sentir confortável o suficiente para usar mais a minha cabeça (eu demoro muito para escrever porque requer muito esforço para mim). Mas rotinas também são bem pessoais. Eu não consigo me ver acordando 5h30 como Le Guin, por exemplo. Se você quer encontrar um tempo ou força para continuar o seu projeto, eu recomendo tentar estabelecer uma rotina. Não esqueça de deixar um tempo para não fazer nada — descansar é muito importante —, e respeite seus limites.

Se eu não postar nada nos próximos dias, não se preocupem! Significa que eu vou ter que mudar a minha rotina um pouco mais, o que é normal também. Ela vai se ajeitando com o tempo.

As relações complicadas entre pais e filhos em Peanuts

A tira do dia1 de Peanuts é essa (via Comics.com):

Charlie Brown comenta com Linus que seu pai precisa de encorajamento

Eu sempre achei fascinante como a relação entre pais e filhos em Peanuts são complicadas, e geralmente melancólicas. A gente sempre vê apenas a interpretação das crianças sobre essas relações (nenhum adulto jamais foi visto nas tirinhas), mas Peanuts é bastante autobiográfico, e sua evolução por meio século acompanhando a turma do Charlie Brown dá tempo e espaço para Charles Schulz desenvolver elas com muita complexidade.

Pensando isso me lembrei desse excelente tópico do Twitter, que vou republicar aqui porque vai suma da timeline do autor. Luke Epplin observa como as relações com as mães em Peanuts geralmente são tristes — muito porque Schulz nunca pôde ver sua mãe, que morreu de câncer enquanto ele servia na Segunda Guerra:

Let’s do a mini-Mother’s Day thread: When Charles Schulz got drafted in WWII, his mother was dying of cancer. He never saw her again. Mother’s Day in Peanuts is often a sad occasion, none more so than this autobiographical strip.

Snoopy e Charlie Brown escolhem um cartão de dia das mães

In the 70s and 80s, it was often Woodstock who was looking for his mother on this day. In keeping with the sadness of this day in Peanuts, he not only never found her, but often ended up heartbroken.

Woodstock chora no colo de Snoopy por não encontrar sua mãe

A recurring trope was for Woodstock to sit at the top of a hill with a flower in his hands in the hope that his mother would fly by. Much like how the Great Pumpkin never comes, his mother is nowhere to be found.

Woodstock espera pela mãe no topo de uma colina

Mothers are absent in Peanuts in general. Charlie Brown talks of his father but rarely his mother. Peppermint Patty’s mother died when she was a child and she’s raised by her father. Here’s a poignant strip of her on Mother’s Day.

Patty Pimentinha escolhe um cartão de dia das mães para seu pai

Snoopy, too, doesn’t know his mother but tries to find her at various points. Once, Schulz did a long series on Snoopy just wandering the country trying to locate her. She’s nowhere to be found.

Snoopy procura por sua mãe

There is humor in these strips–as in the last two panels–but at its core it’s about loss and wandering in the rain looking for a mother who will never return.

Snoopy se esconde da chuva enquanto busca por sua mãe

Of course, the Peanuts characters find family among themselves. Snoopy does seem like a parental figure for Woodstock, but as these strips make clear, he can’t replace the absence of a mother.

Snoopy conforta Woodstock, que sente saudades da sua mãe

What can you say? Just look at how deeply sad a strip like this one is.

Charlie Brown conta para Lucy que está preocupado com Snoopy saindo de casa para procurar sua mãe

The punchline, if you want to call it that, of the entire series where Snoopy wanders the country in search of his mother is just, “Mom?”

Charlie Brown se despede de Snoopy antes do cachorro sair para procurar sua mãe

OK, I’ll conclude here. I don’t think you can separate the absence of mothers in Peanuts from how Schulz lost his own mother, a loss that came just as he was shipping out to war. Mothers are searched for in Peanuts, but never found.

Woodstock procura sua família no ninho, mas o ninho está vazio

Eu gosto como as pessoas pesquisam sobre esses pequenos detalhes dessas tirinhas diárias. Peanuts foi publicada por muito tempo, e certamente acompanhou pessoas por grande parte de suas vidas. Se você quer ler mais sobre como essas tirinhas desenvolviam assuntos bastante complexos um pouquinho por dia, confira os excelentes artigos de Kevin Wong para o Kotaku.

  1. É uma republicação, claro. Nenhuma tira nova de Peanuts foi publicada desde o falecimento de Charles Schulz em 2000. 

Séries com minhas aberturas favoritas

Eu sou completamente contra o recurso de pular abertura de um episódio de série que o Netflix têm. Eu amo uma boa abertura, e acho especial quando uma série usa ela como um portal pro tom e pro ritmo da série. Seja a música fofinha e os fades nos dando boas-vindas à Stars Hollow de Gilmore Girls ou a música levemente perturbadora e as imagens vazias na abertura de Twin Peaks. Uma boa abertura, inclusive, pode até ajudar na cena inicial de um episódio, ressaltando o gancho que ele oferece.

Essas são as minhas aberturas favoritas:

United States of Tara

Essa série sobre uma mãe (Toni Collette) com perturbação de identidade dissociativa e sua família é uma das joias raras da TV da década passada. Em três temporadas (as três estão no Prime Video!) ela foi de comédia para drama familiar para terror sobre trauma com muita naturalidade, sempre repleta de atuações excelentes. A série representa as identidades de Tara com um pouco de caricatura, para ajudar o espectador a entender como cada uma delas afeta cada uma das pessoas ao redor de Tara — seu marido, seus filhos, vizinhos e amigos —, e a abertura usa a mesma abordagem em um tom certeiro: um pouco melancólico, um pouco aconchegante, um tanto estranho. Bem como a série em si.

Halt & Catch Fire

Eu já falei aqui sobre sobre como Halt & Catch Fire captura perfeitamente o sentimento de descoberta de um universo inteiro que norteou a corrida da microcomputação entre os anos 1970 e 1990. A sua abertura é uma tradução visual perfeita para esse sentimento de desbravamento de fronteiras que bits e interfaces proporcionaram esses pioneiros. E é viciante de assistir.

The Leftovers

Outra abertura perfeita, da minha série favorita. A abertura de The Leftovers mudou drasticamente na segunda temporada. A abertura da primeira era opressora e complexa. A nova abertura é bem mais simples: fotos com ausências estranhas ao som de Let the Mistery Be tornam a esperança que está às margens da segunda temporada muito mais visível. Ela fica ainda melhor na terceira, quando cada episódio usa uma música-tema que condiz com a história que o episódio vai contar.

Succession

Outra que usa fotos e uma música bacana. Eu nem sei como Succession consegue arrasar nesse quesito também, mas tem algo mágico no tema composto por Nicholas Britell que simplesmente nos transporta exatamente para onde a série nos quer: no coração do mundo dos super-ricos, onde picuinhas familiares podem destruir países e consumir vidas. Tudo isso ao mesmo tempo em que nos dá uma palhinha da relação dos irmãos com seu pai. Seu efeito na audiência é tão grande que ela está sendo estudada.

ER

A clássica abertura de Plantão Médico nunca vai sumir da minha mente. Eu lembro de acordar no meio da noite quando eu era muito pequeno e ver minha mãe sentada na frente da TV, e quando a música tema de ER começava, ela era absorvida para dentro do County General Hospital e o cotidiano dos plantonistas. A grande estrela aqui é a música fantástica, que une sintetizadores com batidas; mas fica aí o meu carinho pro trabalho visual também, ao mesmo tempo bem representativo das grandes séries dos anos 1990, e estranhamente ainda muito moderna. Bem como ER, que era muito a frente do seu tempo.

Hubble observa a Galáxia Olho Negro

Galáxia Olho Negro, com seu anel de poeira escura cobrindo o núcleo

O Hubble tá sempre trabalhando e registrando as maravilhas ao nosso redor. Na última sexta, o perfil da NASA Goddard no Flickr postou uma imagem que o telescópio capturou da Galáxia Olho Negro (NGC 4826 pros fãs). Segundo a NASA, essa galáxia é bem movimentada (fonte):

NGC 4826 is known by astronomers for its strange internal motion. The gas in the outer regions of this galaxy and the gas in its inner regions are rotating in opposite directions, which might be related to a recent merger. New stars are forming in the region where the counter-rotating gases collide.

A Galáxia Olho Negro foi vista pela primeira vez em 1779 por Edward Pigott.

Eu recomendo muito que vocês sigam a NASA Goddard no Flickr ou por RSS, é um dos meus feeds favoritos com imagens quase que diárias dessas maravilhas celestiais à nossa volta.

Os cartazes de René Magritte nos anos 1920

Antes de ir para a França e se tornar um dos nomes mais conhecidos do Surrealismo, René Magritte vivia em Bruxelas como um ilustrador, criando peças comerciais ao estilo Déco, via OpenCulture

Os dois cartazes abaixo são para anunciar duas peças da empresa de compra Norine, do casal Honorine “Norine” Deschrijver e Paul-Gustave Van Hecke. Van Hecke também tinha uma galeria de arte, e foi um dos primeiros defensores do Surrealismo — e um dos primeiros a pagar Magritte pelo sue trabalho surrealista.

Ilustração de uma mulher em trajes verdes com o texto “Arlequinade” Uma mulher em trajes pretos com o texto “Lord Lister”

Magritte também fez cartazes para performances musicais, como esses abaixo:

Um rosto abstrato com o texto “Arlita” Uma cantora usando um vestido verde, com o texto “Primevere”

Alguém criou um exercito de corvos (e eles salvaram uma vida)

Das coisas boas demais pra ser verdade: uma pessoa começou a dar comida para os corvos da vizinhança, e eles se tornaram “leais” à ela. O número de corvos cresceu e eles começaram a defender a casa da pessoa de “intrusos” (suas visitas). A história é genial:

A couple months ago, i was watching a nature program on our local station about crows. The program mentioned that if you feed and befriend them, crows will bring you small gifts. My emo phase came back full force and i figured that i was furloughed and had lots of time- so why not make some crow friends.

My plan worked a little too well and the resident 5 crows in my neighborhood have turned into an army 15 strong. At first my neighbors didnt mind and enjoyed it. They’re mostly elderly and most were in a bird watching club anyway. They thought the fact that i had crows following me around whenever i go outside was funny.

Lately, the crows have started defending me. My neighbor came over for a socially distanced chat (me on my porch her in my yard) and the crows started dive bombing her. They would not stop until she left my yard.

/u/crane contou essa história em um subreddit especializado em “aconselhamento jurídico”, questionando se ela seria responsabilizada caso os corvos atacassem alguém. O tópico é divertido por si só, e o conselho escolhido foi sobre como ensinar os corvos a se comportar:

They are resource guarding. To stop them from attacking people, ask guests to bring shiny objects or food scraps to the murder of crows as an offering. You could also supply your guests little baggies of treats for them to offer up. If they dive bomb someone don’t give them food for 24 hours. If they are nice to a guest, give them a high value treat to reinforce positive behavior. Advice from my partner, she was a field biologist that is published in biology/ornithology.

O tópico fez tanto sucesso que /u/crane postou uma atualização sobre como os corvos acabaram salvando a vida de um de seus vizinhos:

The plan worked and the crows are now a beloved part of the community. There have been no recent dive bombings.

Most amazingly, the crows may have legitimately saved my neighbor. Our city had a pretty big ice and snow event recently. Like i said in my last post, most of my neighbors are older. One of my neighbors was walking down his steep driveway, slipped, and couldnt get back up.

The crows started going ballistic and were making more noise than we have ever heard. A different neighbor went outside to see what was up and found the gentleman in his driveway. Neighbor is mostly ok! Just some serious bruises.

De vez em quando a internet consegue ser boa demais.

30 minutos de visuais relaxantes dos filmes de Hayao Miyazaki

Na verdade não são trinta minutos mesmo, são seis — mas as sequências são rearranjadas a cada repetição. Mesmo assim, é sempre bom sentar e acompanhar um pouquinho da beleza pastoral dos filmes do diretor japonês Hayao Miyazaki.

Eu lembro que eu assistia Meu Amigo Totoro sempre que eu ia visitar a minha avó, era o único VHS na casa dela, e eu não via problemas nisso. Eu sempre gostei de assistir um filme que não me agitava nem me dava medo. As coisas acontecem em Totoro, mas num rítimo próprio.

Todos os filmes do Studio Ghibli (com uma exceção) estão disponíveis na Netflix.

O Daft Punk acabou

O Daft Punk anunciou que a banda se separou.

O dia de hoje ficou muito, muito triste. É um fim gigante pra mim, essa banda embalou alguns dos melhores momentos da minha vida, e imaginar que um dia eles lançariam um som novo para embalar um novo momento era uma boa esperança de se ter.

Muito obrigado por todos esses momentos e todas essas memórias, Daft Punk. Que jornada incrível vocês me ajudaram a ter.

Eu me apaixonei por colunas de conselhos

Eu acabei abraçando vários costumes nesse último ano de pandemia e isolamento social. Algumas, como a pizza de sexta-feira, eu mantenho até hoje. Outras, com ler depois do almoço, acabaram alguns meses depois de eu ter começado. Eu acho eles bons definidores do tempo que tá passando durante a pandemia: eu lembro da “época em que eu via filmes nas terças-feiras”, algo que aconteceu entre abril e maio de 2020. Parece muito tempo, mas foi ano passado.

O mais novo costume que eu abracei nesses últimos meses foi ler colunas de conselhos. Eu nem sabia que isso tinha conseguido sobreviver na internet. Eu lembro que colunas de conselhos existiam em revistas de saúde e estilo de vida (geralmente mais voltados ao público feminino), e nunca dei muita bola antes porque eu era jovem e ninguém tem problemas maiores do que um jovem de 11 anos, etc.

Mas colunas de conselhos são muito boas de se ler. Elas têm basicamente duas partes: a primeira é descrição do problema que a pessoa enviou para o colunista, escrita por quem eu imagino que já tenha bastante experiência lendo essas colunas e sabe que é preciso oferecer os detalhes certos para seu correspondente conseguir aconselhar com sucesso, além de um pouquinho de desespero, o que ajuda a deixar o problema mais profundo; a segunda é o conselho em si, em que uma pessoa muito mais mentalmente saudável do que eu responde a coisa certa, dando dicas de como desfazer o emaranhado causado pelo problema.

Tem algo a mais também: eu tenho a impressão de que histórias acontecem com as pessoas que as contam, e em um último ano em que eu tinha a impressão de que nada estava acontecendo comigo, eu comecei a perceber como os pequenos e os grandes problemas do nosso dia-a-dia também são histórias que podem ser boas para serem contadas, já que eu não tenho mais uma viagem ou algo que aconteceu no fim de semana pra contar para os meus amigos. Teve um momento ali pelo meio do ano em que eu achava realmente difícil de enviar um “oi, tudo bem?” para as pessoas que eu me importo, porque eu sentia que nem eu e nem elas tínhamos o que responder.

Acho que essas colunas de conselhos me ajudaram muito nisso. Primeiro eu comecei a usar algum pequeno problema do meu dia-a-dia (geralmente um que tem um final engraçado) pra puxar assunto com meus amigos e não deixá-los se sentindo muito sozinhos. Eu geralmente recebia uma anedota sobre um outro problema como resposta, e assim a gente vai se ajudando. Eu vou deixar o meu “tudo bem?” para quando eu puder ver meus amigos e abraçá-los enquanto eles respondem porque, se não estiver, pelo menos eu vou estar ali pra ajudar.

Colunas de conselhos são tão grandes na internet que existem subreddits só disso, portais que fazem um apanhado dos melhores conselhos da semana, e colunas de colunas de conselhos. Se você quer dar uma chance, minhas duas colunas favoritas são Ask the Fuck-up, da Jezebel (que inclusive foi um dos meus links favoritos do ano passado) e Dear Prudence, do Slate. As duas têm ótimos problemas e ótimas respostas, e as duas autoras não poupam tempo nem tamanho na hora de explicar sua linha de raciocínio. Um dia eu quero ter a saúde mental delas.

Arcade Fire e Owen Pallett anunciam o lançamento da trilha-sonora de Ela

Luva, vinil e fita-cassete da trilha-sonora do filme Ela Detalhes da luva e vinil da trilha-sonora do filme Ela

Eu recebi tantas boas notícias na sexta-feira que eu ainda tô pondo elas em dia. Uma das que mais me deixou feliz foi o email do Arcade Fire anunciando o lançamento da trilha-sonora de Ela, o premiado filme de Spike Jonze lançado em 2013, e um dos meus filmes favoritos de todos.

A trilha de Ela existe na forma de um bootleg que vazou na internet na época em que o filme foi indicado ao Oscar de melhor trilha-sonora em 2014, e desde então ele vive protegido em meu computador. Eu troquei de computador duas vezes desde 2014, e em todas as vezes esse bootleg é uma das coisas que eu mais tomo cuidado para passar da máquina antiga para a nova. É um dos meus bens digitais mais preciosos: uma música etérea, que mistura um pouco de melancolia, saudade e felicidade com sintetizadores delicados e um piano profundo. Ele geralmente é a trilha-sonora das minhas melhores manhãs.

Embora o Arcade Fire tenha anunciado que ia trabalhar em um lançamento da trilha lá em 2014, isso não se materializou até agora. Sexta-feira, o anúncio veio do nada e foi uma surpresa tão boa que eu passei o dia procurando formas de encomendar o vinil. Eu ainda não consegui, mas vou na primeira oportunidade. A trilha também vai ser lançada em fita cassete, nas lojas de música digitais, e nos serviços de streaming como Spotify e Apple Music dia 19 de março.

Parando pra pensar agora, a trilha-sonora de Ela é como o ápice de tudo o que eu gosto. É composto pela minha banda favorita e acompanha um filme que eu amo tanto (e que, se você acompanha esse blog há tempos, provavelmente sabe que eu não consigo parar de falar sobre), dirigido por um dos meus diretores favoritos. Eu tô tão feliz que ela finalmente vai ser lançada mês que vem, mal dá pra acreditar que esse dia vai chegar.

Tijolos de restos plásticos são mais fortes que os de concreto

Eu tava precisando de uma boa notícia essa semana, e olha só essa: uma jovem chamada Nzambi Matee começou uma empresa que fabrica pavimentos feitos com restos plásticos que são mais fortes, duráveis e baratos do que os feitos com concreto. Ainda por cima, ajudam a reduzir um tipo perigoso de poluição que permanece muito tempo no planeta. Pelos seus esforços, Matee foi honrada pela ONU:

Each day, the business churns out 1,500 plastic pavers, which are prized by schools and homeowners because they are both durable and affordable. Gjenge Makers is also giving a second life to plastic bottles and other containers which would otherwise end up in landfills or, worse, on Nairobi’s streets.

“It is absurd that we still have this problem of providing decent shelter – a basic human need,” said Matee. “Plastic is a material that is misused and misunderstood. The potential is enormous, but its after life can be disastrous.” […]

“We must rethink how we manufacture industrial products and deal with them at the end of their useful life,” said Soraya Smaoun, who specializes in industrial production techniques with UNEP. “Nzambi Matee’s innovation in the construction sector highlights the economic and environmental opportunities when we move from a linear economy, where products, once used, are discarded, to a circular one, where products and materials continue in the system for as long as possible.”

Via Colossal, que tem imagens lindas de como Matee e sua equipe pavimentaram os arredores de uma escola.

As fotos que compõem os quadros de Norman Rockwell

Por muitos anos, as obras do pintor Norman Rockwell foram desmerecidas por serem consideradas clichês. Suas pinturas eram retratos do cotidiano, mas seu uso de cores fortes e expressões faciais bem demarcadas são facilmente consideradas como sentimentalistas, que costumavam estampar capas de revistas ou anúncios.

Esse estilo e seus sujeitos — geralmente momentos mundanos, como um garoto levando uma injeção ou uma criança espiando outros passageiros pelos bancos do trem — que fazem a obra de Rockwell ser onipresente. Como outro pintor da época, Edward Hopper, Rockwell se interessava muito mais por representar o dia-a-dia americano. Mas os interesses dos artistas estavam em lugares diferentes, segundo o OpenCulture:

But while Hopper gave artistic form to the country’s alienation, Rockwell — whom history hasn’t remembered as a particularly happy man — created an “American sanctuary others wished to share.” And though neither Hopper nor Rockwell’s America may ever have existed, they were crafted from the pieces of American life the artists found everywhere around them.

Com o passar dos anos, o legado de Rockwell, de clichê e sentimentalismo, foi mudando justamente por sua maestria técnica em compôr cenas perfeitas demais. Rockwell usava das cores e das expressões faciais grandiloqüentes para ressaltar o seu idealismo, e apontar exatamente o que é real e o que não é em sua obra. É mais fácil de observar isso quando a gente observa as fotos que ele encenava com seus vizinhos e amigos como referências para o que ele iria pintar:

Comparativo entre as pinturas e as fotos de referência de Norman Rockwell Foto de homens tocando instrumentos musicais em uma pequena salinha à noite Pintura de homens tocando instrumentos musicais em uma pequena salinha à noite Foto de uma criança espiando um homem a alguns assentos de distância no trem Pintura de uma criança espiando um casal apaixonado a alguns assentos de distância no trem

A NPR publicou um artigo (e um programa de rádio) sobre esse processo do artista, e o Google Arts & Culture têm uma análise ilustrada de como Rockwell usou essa técnica de encenação para criar algumas das obras mais marcantes da luta contra a segregação racial nos EUA dos anos 1960.

Populus Run é uma mistura de WHAT THE GOLF? com Subway Surfers

Eu amo os jogos do estilo “corrida infinita”, aqueles em que o personagem está sempre seguindo em frente e você precisa fazer ele desviar de obstáculos. Pra mim, esse é o melhor estilo de jogo pra celular: jogos como Alto’s Adventure e Super Mario Run têm comandos fáceis e o objetivo é simples, e quando é bem feito os obstáculos vão ficando difíceis o suficiente para desafiar qualquer bom jogador. Então é perfeito tanto para jogar nos minutos em que você espera a água do café esquentar quanto para uma viagem mais longa (seja lá quando a gente puder viajar de novo).

Esse fim de semana eu experimentei Populus Run (Apple Arcade para iPhone, iPad, Mac e Apple TV). Ele me lembrou muito WHAT THE GOLF?, outro jogo favorito do Apple Arcade, porque ele pega um estilo de jogo e vira do avesso. Populus Run faz isso sendo uma corrida infinita de multidões, então você controla um grupo de pessoas através de pistas com bolachas gigantes e montanhas de batatas fritas. Nem todo o mundo chega nos checkpoints, alguns são esmagados por obstáculos, outros vão cair em buracos, mas é divertidíssimo perceber como o jogo consegue fazer você brigar com a própria física do jogo para fazer uma dúzia de pessoas entrar em um túnel que só vai ter lugar para metade delas.

Cada pista de Populus Run oferece alguns objetivos, como número mínimo de pessoas que devem chegar ao final, ou número de moedas (que têm o formato de Pingo d’Ouro) ou “segredos”, que são personagens vestidos com roupas estranhas. Esses são especialmente difíceis, as roupas grandes deles ocupam muito espaço, então se eles encostarem em algum obstáculo eles provavelmente vão cair e ficar para trás.

O mais divertido pra mim é a sensação de caos que os melhores níveis do jogo oferece. Tá todo o mundo correndo, tem uma bolacha recheada esmagando alguns deles, e do nada os outros precisam passar por um trecho estreito entre dois bolinhos ingleses, então mais um tanto vai ficar para trás ali também. É divertidíssimo, e a direção de arte do jogo capricha na textura das superfícies tão bem que dá aquela sensação de sonho para os visuais do jogo.

3:45 PM

Esse curta-metragem de animação de Alisha Liu dura só alguns minutos, mas é especial e muito bonito — as formas simples que ela usa são ótimas tanto para apontar o momento mundano em que as duas personagens estão vivendo e os pensamentos difíceis que uma delas está enfrentando.

Via Kottke, que inclusive descreveu isso como um “susto de domingo”, algo que acho que acomete todo o mundo, mas que eu não sabia que tinha um nome.

O remaster de Mass Effect parece glorioso

Aqui vai uma coisa que você provavelmente não sabe sobre mim: eu sou um fã insuportável de Mass Effect. Eu sou fascinado por essa ópera espacial desde que o original foi lançado no Xbox 360, quando ele era o ápice da narrativa interativa em jogos AAA desse lado do mundo. Agora que esse tipo de jogo não é feito mais pelas grandes desenvolvedoras do ocidente, eu sinto um carinho ainda mais especial pela franquia, mesmo com a dor que foi ver Mass Effect Andromeda ser uma bagunça.

Então eu tô empolgado, pra dizer o mínimo, com o remaster da trilogia original, que eu acho a melhor coisa que a BioWare já fez (desculpa, Raul!). Mass Effect: Legendary Edition inclui os três jogos e (quase) todos os DLCs e vai ser lançado em 14 de maio para PC, Xbox One e PS4 e tá glorioso. O trailer acima captura muito do que ME tem de tão especial: é como um romance, em que histórias seguem se espiralando em outras histórias diferentes, da ação à aventura ao romance e ao terror. Tudo o que eu queria era poder jogar essa trilogia deitado na minha cama no meu Switch, mas nem esse agrado a EA me faz.

Um vídeo de um show do Daft Punk em 2007 acabou de aparecer na web

Daft Punk não faz muitas apresentações ao vivo. Na verdade, elas são tão raras que hoje em dia elas alcançaram aquela fama quase mítica e quando imagens de uma apresentação deles aparece na internet, é como se alguém tivesse conseguido gravar um ovni aparecendo.

Esse show que Johnny Airbag divulgou no YouTube fez parte do Alive 2007, um disco com gravações da turnê do Daft Punk. O vídeo foi gravado em Chicago em 2007, no primeiro dia do Lollapalooza.

O último álbum do duo foi Random Access Memories, em 2013, e já passou da hora de aparecer um novo disco por aí.

Via Kottke.

Qual a melhor dupla de jogos Mario & Zelda?

Esses dias, enquanto eu terminava de jogar um dos Metroid Prime para fechar a trilogia de ranking das três franquias principais da Nintendo, eu fiquei traçando o histórico dos jogos de Metroid, Super Mario e The Legend of Zelda de acordo com as gerações de consoles. Chegou num ponto em que eu comecei catalogar como os jogos dessas franquias pontuaram os videogames da empresa, até que cheguei nessa lista.

Esse é um ranking rápido das melhores duplas de jogos dos consoles da Nintendo de acordo com a qualidade dos jogos. A melhor dupla não significa que tem os melhores jogos das duas franquias (pra isso confira o ranking do Super Mario e o ranking de The Legend of Zelda), e sim que a média dos dois jogos é a melhor.

Eu só vou levar em conta o principal volume da plataforma — então continuações ou spin-offs não contam. Eu acabei percebendo que o GBA não teve um título original de Super Mario, então The Minish Cap acaba não entrando na lista, enquanto o Wii possui duas gerações das duas franquias, então ele entra no ranking duas vezes — e, pra complicar mais um pouquinho, Breath of the Wild aparece em dois consoles distintos.

É surpreendentemente difícil de classificar essa lista, porque quando Super Mario lança um jogo mais ou menos, Zelda lança um baita jogo, e vice-versa. A exceção é o Nintendo DS, que tem um jogo bom do Mario, mas nada demais, e um jogo completamente esquecível de Zelda. Já o Game Boy tem o melhor Zelda de todos e um dos piores Mario (se é que um jogo do Mario consegue ser ruim).

  1. DS: New Super Mario Bros. e Phantom Hourglass.
  2. NES: Super Mario Bros. e The Legend of Zelda.
  3. Game Boy: Super Mario Land e Link’s Awakening.
  4. GameCube: Super Mario Sunshine e The Wind Waker.
  5. Wii: New Super Mario Bros. Wii e Skyward Sword.
  6. Switch: Super Mario Odyssey e Breath of the Wild.
  7. 3DS: Super Mario 3D Land e A Link Between Worlds.
  8. Wii: Super Mario Galaxy e Twilight Princess.
  9. Wii U: Super Mario 3D World e Breath of the Wild.
  10. N64: Super Mario 64 e Ocarina of Time.
  11. Super NES: Super Mario World e A Link to the Past.

Não me peça pra justificar as decisões.

Aparentemente descobriram uma nova tonalidade de azul

Farelos da nova tonalidade de azul, YInMn

Eu sempre achei que se tinha uma coisa que a gente já tinha total conhecimento, eram as cores. Nunca imaginei que (1) seres humanos conseguem criar tonalidades de cor; e (2) exista alguma cor que a gente ainda não tenha visto. Mas descobri que essas minhas duas certezas não faziam sentido quando eu li esse artigo sobre a primeira nova tonalidade de azul em dois séculos, YInMn.

O artigo é ótimo se você, como eu, não tem ideia de como tonalidades são criadas, nomeadas, patenteadas e licenciadas para uso (e como esses usos são categorizados de maneiras bem específicas). Sempre achei que cores fossem algo que a gente não tem domínio sobre porque é um aspecto intrinsicamente natural, já que quase tudo tem cor, mas olha como esse é um processo muito artificial:

Like all good discoveries, the new pigment was identified by coincidence. A team of chemists at Oregon State University (OSU), led by Mas Subramanian, was experimenting with rare earth elements while developing materials for use in electronics in 2009 when the pigment was accidentally created.

Andrew Smith, a graduate student at the time, mixed Yttrium, Indium, Manganese, and Oxygen at about 2000 °F. What emerged from the furnace was a never-before-seen brilliant blue compound. Subramanian understood immediately that his team stumbled on a major discovery.

“People have been looking for a good, durable blue color for a couple of centuries,” the researcher told NPR in 2016.

Não é todo o dia que meu mundo vira de ponta cabeça com um detalhe novo sobre como ele funciona. Hoje foi um desses dias.

Você precisa usar a Lista de Leitura do seu navegador favorito

Ali por 2017 eu voltei a usar um leitor RSS. Desde a morte do Google Reader lá no longínquo ano de 2013 eu não usava um RSS. Como outros milhares de usuários, eu acreditei que o Twitter e o Facebook eram uma boa alternativa: eles também tinham um feed de notícias e eu podia acompanhar meus sites e blogs favoritos por ali. É claro que eu tava enganado, os algoritmos do Facebook e do Twitter manipulavam seus feeds, e eu gradulamente fui parando de acompanhar os sites e os blogs que eu gostava, que ficavam dando espaço para posts de pessoas e de veículos que eu odiava, porque raiva cria mais engajamento — você vai comentar, reagir, compartilhar para mostrar para seus amigos como aquele post era péssimo e tudo o mais. Chegou num ponto, ali em 2017, que eu simplesmente odiava estar na internet.

Foi quando eu revivi minha conta no Feedly1, reorganizei meus feeds, limpei os sites que pararam de atualizar e os blogs que morreram naquele intervalo de cinco anos, e voltei a consumir notícias e textos principalmente por RSS. É difícil de dizer como isso mudou minha vida. Eu passo a maior parte dos meus dias na frente do computador, seja trabalhando, seja vendo filme, jogando alguma coisa ou conversando com meus amigos. Voltar a usar o RSS e a ter controle sobre minha própria curadoria da internet é excelente. Ao contrário do que outras pessoas dizem, fazer isso não nos isola ao redor das nossas próprias opiniões. Diferente do Facebook e do Twitter, os veículos que usam RSS são principalmente revistas digitais, blogs e sites de notícias. Eles não são voltados ao engajamento de posts curtos que removem o contexto de notícias ou se beneficiam de hot takes, eles prezam por textos mais longos e elaborados, onde o contexto em que algo está sendo escrito é tão importante quanto o motivo do texto em si. Não é à toa que, se a toxicidade da internet sempre existiu, ela estava muito mais escondida antes das redes sociais explodirem no final dos anos 2000: as plataformas que usávamos — fóruns, RSS e newsletters — eram mantidos por pessoas que também usavam essas mesmas plataformas, e se importavam em manter a qualidade delas.


Enfim, conforme eu fui me readaptando ao RSS eu comecei a usar um outro recurso que até então eu era bem cético, a Lista de Leitura. Eu nunca dei muita bola pra esse tipo de recurso até que eu precisei começar a organizar e fazer anotações das minhas referências pra dissertação de conclusão da faculdade, que consistiam principalmente em artigos de sites da internet (as discussões que eu tive com meu orientador sobre isso valem um post). Foi quando eu decidi experimentar o Instapaper, o pai desse tipo de serviço. No Instapaper você pode adicionar links que você quer ler depois, e o aplicativo faz o trabalho de extrair o conteúdo desse link, formatá-lo em um jeito confortável de ler (você pode personalizar cor e tipografia) e destacar e fazer anotações em trechos desse conteúdo. O Instapaper me ajudou horrores nessa época, porque eu podia organizar os links das minhas referências por capítulos da dissertação, destacar as partes que eu queria fazer uma citação direta, e ele registrava a data em que eu acessei esses artigos. Naquele ano o Instapaper virou o meu melhor amigo.

Há muito tempo que o Instapaper não é o serviço mais conhecido ou mais bem sucedido desse tipo. A funcionalidade é tão boa, e por um tempo ele se tornou tão essencial pra tanta gente, que os próprios navegadores começaram a criar recursos semelhantes integrados. O Chrome adicionou há poucas semanas o Read Later, o Safari possui a Lista de Leitura há alguns anos já; e o Firefox é integrado ao Pocket, uma alternativa mais poderosa e mais famosa ao Instapaper.

Todas essas opções fazem a mesma coisa: você salva um link nele e ele armazena em uma lista. O Safari e o Firefox possuem até mesmo uma “visão de leitor”, que basicamente reformatam o conteúdo do site, removendo anúncios e elementos gráficos que não pertencem ao texto principal. E o Pocket, que é integrado ao Firefox mas que você pode integrar através de extensões no seu navegador favorito, possui o mesmo recurso de tags e anotações do Instapaper. O fato de eles serem integrados aos navegadores, inclusive, permitem que sua lista de leitura seja sincronizada com todos os seus dispositivos e permite que os textos sejam salvos para serem lidos offline — para quando você for pra praia, em 2026, ver que não tem sinal e descobrir uma pilha de textos salvos sobre assuntos que você tinha muita curiosidade para ler sobre anos antes.

Lista de Leitura não é só útil para você salvar aquele texto longo que você encontrou no meio do caminho, quando você está navegando procurando alguma coisa e tinha um link para esse texto levemente relacionado que você quer ler uma hora dessas. Ele é excelente para esses casos, mas ele também é ótimo pelos mesmos motivos que um leitor RSS: ele ajuda na nossa curadoria do que consumimos na internet, nos incentivando a tirar um tempo para dar atenção à um conteúdo que oferece mais contexto e desenvolve mais um assunto do que uma thread no Twitter ou um textão no Facebook.

Esses recursos fazem um bem danado para sua saúde mental, mas para a saúde do seu computador e do seu celular também. Navegadores, principalmente o Chrome, deixaram de ser esses aplicativos leves e ultra rápidos e se tornaram um buraco negro que suga toda a energia e memória dos seus dispositivos porque acabamos tendo o péssimo hábito de deixarmos tudo o que queremos aberto em dezenas de abas que e usando recursos até que a gente decide que não quer mais ler aquilo porque o navegador está lento demais. Esses recursos existem justamente para resolver esse problema.

É comum a gente esquecer como o navegador é uma ferramenta poderosa simplesmente porque passamos o dia na frente dele. Mas um navegador nos oferece várias ferramentas para organizarmos o nosso consumo da internet, justamente para não nos sentirmos sugados por ela. Recursos como a Lista de Leitura e os Favoritos nos permitem salvar e organizar nossos links favoritos.

  1. Do Feedly eu fui para o The Old Reader por um tempo, até que estacionei no Feedbin, o melhor cliente RSS que eu usei até aqui. Essa é uma das belezas do RSS: é um padrão aberto, e os dados são seus. Não quer mais usar um serviço porque achou um melhor? É só exportar sua lista de feeds e importar no outro. 

Apreciando os trailers de Breath of the Wild

Eu acordo mais de uma vez por semana pensando algo do tipo “o que será que vai acontecer em Breath of the Wild 2?” ou “quando vai ser lançado?” ou ainda “será que a Zelda vai ser jogável?”. Em alguns desses dias eu revejo a única informação confirmada de Breath of the Wild 2: um trailer que anuncia o seu desenvolvimento:

E geralmente isso me faz perceber como é bom esperar por um novo jogo de Zelda. Só não é tão bom quanto finalmente jogar ele. Hoje em dia, com The Legend of Zelda: Breath of the Wild tendo sido lançado há quase quatro anos, é fácil de esquecer que esse também foi um jogo que a gente sonhou por muito tempo, e que por grande parte desse tempo a gente sabia muito pouco sobre ele.

Quando foi anunciado, em 2014, a gente só sabia que Zelda U seria em mundo aberto, como o primeiro jogo da série foi. Eu tava assistindo a coletiva de imprensa da Nintendo na E3 no meio da minha aula de história do cinema, quando esse trailer saiu:

Esse anúncio revelou tão pouco que a internet passou dias tentando tirar toda a informação possível: essa figura encapuzada era o Link mesmo, ou a Zelda finalmente seria a protagonista? O que é essa máquina de destruição que tá correndo atrás dele? Você viu COMO A GRAMA SE MEXE?

Enfim, Zelda U era pra ser o system-seller do Wii U, e acho que por um momento a Nintendo realmente acreditou nisso porque até deixou o Miyamoto e o Aonuma, que são designers que raramente fazem promessas sobre seus jogos antes de podermos ver eles em ação, comentarem sobre quando eles achavam que o jogo ia ficar pronto no final daquele ano:

Depois disso tudo começou a degringolar. O Wii U não foi um sucesso, e em 2015 e 2016 a Nintendo passou boa parte do tempo tentando colocar jogos na plataforma porque os desenvolvedores externos tinham debandado, mas a maior parte de seus estúdios já estavam lançando jogos muito melhores no Nintendo 3DS, que acabou virando o foco da empresa enquanto um novo videogame de mesa não ficava pronto.

E assim, Zelda U ficou de escanteio, com notícias sobre seus atrasos. Teve uma vez que foi pelo motor de física do jogo (ainda bem, porque o que apareceu no jogo final é excelente), teve outra que era teoria da conspiração, de que a Nintendo decidiu reformular o jogo para o NX (foi só uma meia verdade).

O fato é de que demorou um bocado de tempo, em termos de anúncios de jogos, pra que a gente pudesse ver Zelda U novamente. Foi só na E3 2016 que o jogo apareceu de novo. Não só isso, foi o único jogo que a Nintendo levou para a E3 naquele ano. Jornalistas puderam pôr as mãos nele pela primeira vez, e jogaram em um mapa que hoje sabemos que é o Grande Plateau, a (enorme) área inicial do jogo.

E daí a gente finalmente descobriu como o jogo ia ser chamado:

As pessoas começaram a compilar tudo o que Link conseguia fazer nesse trailer. Ele era realmente impressionante.

Breath of the Wild voltou a ser o centro das atenções pelo resto do ano ao lado da revelação do NX, que ia se chamar oficialmente Nintendo Switch. BOTW é um dos jogos exibidos no trailer que revelava o console. Pelo restante de 2016 a gente saberia que BOTW não era mais o system-seller do Wii U, e sim seu último título da Nintendo para o console. Agora ele seria o system-seller do Switch.

A pergunta é — quando?

A Nintendo programou uma coletiva de imprensa para revelar o preço, a data de lançamento e outros detalhes técnicos do Switch em janeiro de 2017. Para a surpresa de muitos, o Switch já estava quase pronto, e seria lançado em março daquele ano. A gente pôde ver pela primeira vez alguns dos jogos que iam ser lançados no primeiro ano do console: Splatoon 2, ARMS, Super Mario Odyssey, Mario Kart 8 Deluxe! Por toda a apresentação, o único jogo que ia ser lançado no mesmo dia que o videogame era o 1-2 Switch. Isso não soava certo.

É claro que não, a Nintendo tava deixando o melhor pro final:

Eu revejo esse trailer de tempos em tempos. É um dos meus trailers de jogos favoritos (tá junto com esse teaser de Halo 3), e deu o tom para o lançamento de BOTW. Não era só um Zelda com um mapa gigantesco, mas uma grande aventura por Hyrule. Todas as espécies que a gente aprendeu a amar na franquia estavam ali — os Zora, os Rito, os Gorons!! Os Gerudos!! Os Kokiri!!!!! —, a porra da Grande Árvore Deku tava de volta, caramba. A gente não sabia de nava o que estava acontecendo no trailer e, de alguma forma, isso parecia certo: BOTW era pra ser descoberto.

Ah, e no finalzinho, a Nintendo finalmente revelou que sim, Breath of the Wild ia ser o jogo de lançamento do Switch.

O resto é história.

A história da Wikipédia através dos relatos de seus fundadores

A Wikipédia fez vinte anos na última sexta-feira, dia 15. Eu considero ela o site mais importante da internet. É o site que melhor define a promessa do que a internet pode ser — um espaço de informação livre e colaborativa, onde pontos de vista se somam ao invés de se isolar. É gratuita, é distribuída, e se um dia sair do ar, o buraco que ele vai deixar na sociedade é gigante demais. A Wikipédia conseguiu ser inestimável para nós em tão pouco tempo que é difícil de pensar numa internet em que ela geralmente não é o segundo resultado em qualquer pesquisa no Google.

Para celebrar esse aniversário, o OneZero publicou uma história oral da Wikipédia com seus fundadores e contribuidores mais relevantes. É uma leitura fascinante:

Now 20 years later — Wikipedia’s birthday is this Friday — nearly 300,000 editors (or “Wikipedians”) now volunteer their time to write, edit, block, squabble over, and scrub every corner of the sprawling encyclopedia. They call it “the project,” and they are dedicated to what they call its five pillars: Wikipedia is an encyclopedia; Wikipedia is written from a neutral point of view; Wikipedia is free content that anyone can use, edit, and distribute; Wikipedia’s editors should treat each other with respect and civility; and Wikipedia has no firm rules.

[…]

It is not perfect. There is trolling. There are vandals. There is bullying of “newbies” by editors. And there are imposters who edit not for the greater good but to serve the greed, vanity, or ambition of self-interested (sometimes paying) parties. And, yes, there are many, many weak and thinly sourced articles (only about 40,000 out of the site’s 6 million entries meet the higher standard of being “good articles”). There is also a gender imbalance within the domain of Wikipedia — in English Wikipedia, more than 80% of editors are men and just 18% of biographies are about women.

Regardless, Wikipedia is now a cornerstone of life online. How many wives did King Henry VIII have? Where does the word “fuck” come from? Why did people wear bearskin shoes? Wikipedia has all the answers.

Uns fãs de Community fizeram um jogo de paintball assassino

Um grupo de aspirantes a desenvolvedores de jogos se juntaram para criar Six Seasons and a Game, um jogo de paintball assassino na faculdade de Greendale, o cenário de Community. E não é que o resultado ficou muito bom?

Six Seasons and a Game é um jogo de tiro em primeira pessoa, multiplayer e gratuito! Os voluntários encheram os cenários com referências à série (quer dizer, só a ideia do jogo ser um “paintball assassino” já entrega), e conseguiram criar espaços muito legais para interligar os espaços já conhecidos. Os corredores ao redor da sala de estudos dos protagonistas, por exemplo, só foi vista raramente durante a série. Aqui dá pra percorrer por tudo. O melhor é que, além de ser de graça, esse jogo é leve e divertido. Se você está procurando algo pra passar o tempo com seus amigos mas seus computadores não aguentam o tranco, Six Seasons and a Game é muito bem otimizado.

Essa não é a primeira vez que fãs de Community puseram as mãos na massa e fizeram um jogo. Enquanto a série ainda estava no ar, uns fãs recriaram Journey to the Center of Hawkthorne, um jogo de plataforma e aventura exibido em um episódio no final da terceira temporada, e também é um jogo gratuito e muito bom. Essa comunidade de Community é muito talentosa.

Six Seasons and a Game tá disponível no Steam e Journey to the Center of Hawkthorne tá disponível no GitHub.

Mas eu ainda tô esperando o filme.

Artista cria peças de exposição enviando-as sem proteção pelo correio

O artista Walead Beshty constrói peças feitas de vidro e as envia por FedEx para galerias e museus desde 2007. Ele as envia sem proteção, então quando as peças chegam elas estão danificadas, criando padrões de rachaduras nas superfícies:

Peça de vidro rachado de Walead Beshty sobre uma caixa de encomendas da FedEx Peça de vidro rachado empilgadas de Walead Beshty sobre caixas de encomendas da FedEx Peça de vidro rachado de Walead Beshty ao lado de uma caixa de encomendas da FedEx

Toda a vez que essas peças mudam de expositor, o artista as envia novamente por FedEx, sem proteção — então uma mesma peça nunca é a mesma entre exposições. Segundo uma entrevista do artista, sua intenção não é a de usar o “readymade” popularizado por Michel Duchamp com sua fonte, e sim de criar peças artísticas usando um sistema adotado por uma corporação gigante:

[…] Os objetos não são tratados de maneira diferente de outros pacotes da FedEx, eu simplesmente uso o sistema da FedEx para registrar como o objeto foi manipulado em termos estéticos. O resultado é um objeto que está mudando constantemente. Todas as vezes que o objeto é enviado, ele passa por uma transformação material.

No site do estúdio de Beshty têm mais informações (e peças) dessa e de outras coleções.

Via Kottke

O problema de Lane Kim em Gilmore Girls

Emily VanDerWerff é uma das minhas escritoras favoritas. Ela escreve sobre TV, sua história e suas dinâmicas, como ninguém, e o melhor, ela te faz entender o que funciona e o que não funciona em uma série de TV. Como as melhores críticas e ensaístas, VanDerWerff põe em palavras aquilo que a gente sente quando assiste algo.

No volume dessa semana da sua newsletter Episodes, VanDerWerff finalmente fala sobre o momento que, pra mim, é o mais importante em Gilmore Girls: quando a relação de Lane com sua mãe finalmente explode, e como Gilmore Girls não consegue tratar esse momento com o cuidado que ele merece:

Truth be told, I don’t think I could have told you what I hated about this storyline until my friend, Cassie, watched the entirety of the series over the past few months. Cassie’s viewing of the series immediately clarified for me what bugged me so much about this storyline: Once — just once — I wanted the show to take Lane’s desperation to live a life free from her mother’s influence as seriously as Lane did.

If the series were going to have a moment when it took Lane’s life seriously, it would have been somewhere in this season four storyline. That season is perhaps the show’s best, as it slowly but surely brings lots and lots of chickens home to roost, one of those being Lane’s long hidden secret life. Gilmore Girls excels at telling serialized stories where lightly comedic kookiness covers up something far bleaker, then at switching itself up tonally, so the bleakness breaks out and oozes over the comedy. Season four is the series’ best at this sort of tonal whiplash, particularly in its second half.

And for at least a little bit, Gilmore Girls takes Lane seriously in this storyline. The scene where Mrs. Kim kicks her daughter out of her house is a heartbreaking one, and the moment when Lane shows up at Rory’s door is, too. It feels like something the series has been building to for years and years — Rory and Lane, trying to shake off the influence of their mothers and making their way in the world.

Lane é a minha personagem favorita de Gilmore Girls, junto com Emily, porque as duas são as personagens mais bem exploradas até certo ponto, quando a série decide que se continuar cavando as dores e as frustrações delas, pode acabar respingando no carisma de suas personagens principais. Simpatizar muito com Emily pode tirar a coragem de Lorelai de viver fora das garras da mãe; observar como Lane tenta sair do relacionamento abusivo com sua mãe mas vê que Rory já está muito distante da sua realidade daria muito mais peso às dinâmicas de classe da série, algo que GG sempre preferiu tratar com muito mais sutileza e nuance.

Mas, como VanDerWerff escreveu na newsletter, Lane deixa de ser uma Lorelai 2.0 e se transforma em alívio cômico, e é a falta de seriedade com que a série (!) trata Lane a partir da quarta temporada que machuca bastante. Gilmore Girls sempre foi excelente em observar como relações íntimas, como as familiares e as amizades, podem ser abaladas para sempre mesmo que continuem existindo de alguma forma. Porém, Lane e a Sra. Kim não desenvolvem uma relação repleta de cicatrizes como a de Emily e de Lorelai — assim que sua mãe a visita em sua nova casa, as duas voltam à mesma dinâmica de antes (o que piora ainda mais na sétima temporada).

Enfim… Gilmore Girls? A melhor série já feita, tão boa que quando falha, falha por excesso de carinho.

O legado social do Nintendo 3DS

Cecília D’Alessandro escreveu um excelente post-mortem sobre o Nintendo 3DS (e os portáteis da Nintendo de maneira geral) quando o pequeno foi descontinuado no ano passado:

Hardware matters, but in the end, portable console players want to connect to each other with as few barriers as possible. The legacy of the 3DS, at least for me, is as a reminder that gaming is more than just entertainment: It’s a social network. Strangers saw each other playing their 3DSes out in the world and forged quiet (or loud), immediate connections. The magic of the Switch is that it was one of the first consoles to bring those outside connections inside—from the cafe onto your sectional couch.

Eu comprei um Nintendo 3DS com o primeiro salário do meu primeiro trabalho. Eu e meus colegas da época jogávamos Mario Kart depois do almoço e antes de começar o turno da tarde. Depois que saí da empresa para ir para a faculdade, minha jogatina com o 3DS era quase sempre sozinha. Eu jogava no trem, indo de Porto Alegre para São Leopoldo, até que comecei a perceber que outras pessoas também estavam tirando seus videogames das mochilas e bolsas para jogar. Eu nunca fiquei amigo dessas pessoas, mas visitei várias cidades em Animal Crossing: New Leaf e perdi várias brigas no Super Smash Bros.

Esse tipo de interação era bastante único dos videogames portáteis: você via que alguém estava jogando, seja no parque, no shopping ou no trem, e tirava seu videogame. Antes do 3DS, você falava com a pessoa, vocês trocavam Friend Codes e então podiam jogar juntos. O 3DS facilitou um pouco esse primeiro contato. O próprio videogame piscava uma luz verde indicando que tinha alguém por perto, o Mii da pessoa chegava na sua praça virtual e vocês eram apresentados. Você olha ao redor e encontra a pessoa que acabou de conhecer.

Eu acho que o que tornou o Nintendo 3DS tão especial para aqueles que tiveram ele foi justamente esse sentimento de culminação, de a Nintendo entender completamente o apelo de um videogame portátil que consoles de mesa e celulares não tinham: o 3DS era uma espécie de sociedade secreta que você entrava e, ao mostrar o seu portátil para os outros, era recebido com boas vindas. O StreetPass, o SpotPass, o bloco de notas e o relatório de jogos eram recursos naturais em um videogame que você jogava em qualquer lugar, nem sempre confortável o suficiente para pegar o celular com outra mão e anotar o código que você precisa digitar na próxima fase do jogo. Tudo o que você precisava para jogar no 3DS, ele oferecia.

É algo que eu sinto bastante falta no Switch, que indica que a Nintendo vê ele muito mais como um console de mesa do que um portátil. Recursos sociais são escassos nele, enquanto que eram fundamentais pro sucesso do 3DS. O Switch é superior em quase todos os sentidos, mas a Nintendo sabia exatamente o que um portátil precisava no 3DS, e o tipo de interação que um videogame portátil provocava e incentivava. Com o fim daquele pequeno videogame (e da linhagem que ele seguiu), um pouco dessa mágica se perdeu.

Eu ganhei uma escova de dentes de Natal

Meus pais me perguntaram se eu tava precisando de algo esse ano pra que eles pudessem me dar de presente de Natal. Faz uns anos já que eu nunca preciso de nada (eu tenho um trabalho, pais!), mas sempre lembro de um jogo que eu quero comprar ou de uma edição de colecionador de um filme que eu encontrei por aí e essa é geralmente a oportunidade perfeita de não desperdiçar meu dinheiro nesse tipo de coisa.

Eu não tinha nada pra pedir, então dei aquela mentira de que não precisava de presente embora soubesse que se eu não ganhasse nada no dia 24 de dezembro eu ia ficar ofendido. Na noite de véspera de Natal, que é quando a gente troca os presentes aqui em casa, minha mãe me surpreendeu com uma escova de dentes.

Eu não esperava. Escova de dente é aquele lance que eu esqueço de comprar no mercado e acabo usando a mesma por meses a fio até o ponto em que a minha gengiva começa a sangrar porque as cerdas tão uma pra cada lado e duras como espinho. Quando eu tô que não consigo falar, eu vou no mercado e compro a escova de dentes mais barata que eu encontro. Não que eu não dou bola pra minha higiene bucal, eu dou! Escovar os dentes e limpar a boca é um ato religioso pra mim, com horário marcado e duração mínima estipulada, mas eu não quero gastar 35 reais na escova de dentes da Colgate que tem um cabo antiaderente ou coisa e tal.

Enfim, eu gostei da surpresa. Eu gosto de presente simples e criativo, como uma escova de dentes. Mas eu não tava esperando que essa escova de dentes ampliasse meus horizontes sobre o que é conforto. Meus amigos, eu tô no céu. Pra quem dá importância para aqueles minutos que tu fica com um pau na boca com uma pasta de sei-lá-o-que sendo espalhada pelos seus dentes todos os dias, se sentir confortável escovando os dentes é essencial. Deixa eu mostrar a dita cuja:

Escova de dente

E aqui, um close das cerdas macias e perfeitas, que eu sinto abraçarem meus dentes para massagear com a pasta de dentes:

As cerdas da escova de dentes

Pelo que diz na caixa, o nome dessa escova é “Powerdent Eco Care Light”. Ela é bem light mesmo, é levinha de segurar e o cabo parece ser feito de algum material verdadeiro, não de plástico. Madeira, ou carvão, algo assim. E as cerdas, meus amigos. À primeira vista eu achei que ela era pequena demais, mas quando eu usei pela primeira vez ela me surpreendeu, indo em lugares onde as outras escovas jamais foram, preenchendo cada espaço que antes eu precisava fazer malabarimos para encontrar.

É aquele tipo de presente que você agradece (literalmente) todos os dias por ter ganho. Todos os dias eu lembro como minha vida ficou melhor depois daquela estranha noite de 24 de dezembro de 2020, o dia em que eu ganhei uma escova de dentes de Natal.

Supo Mungam Plus disponibilizará filmes novos todas as sextas-feiras de janeiro

A distribuidora Supo Mungam Filmes trouxe pro Brasil alguns dos melhores filmes dos últimos anos, como Em Trânsito e Retrato De Uma Jovem Em Chamas. No fim do ano passado eles anunciaram que iam finalmente lançar esse excelente catálogo de filmes em DVD e blu-ray (você pode reservar a edição lindíssima de Retrato no site da Versátil!), e que iam montar um serviço de streaming dedicado à filmes independentes e autorais.

O serviço, chamado Supo Mungam Plus, vai trazer novos filmes pro catálogo todas as sextas-feiras desse mês, começando com Bamako (Abderrahmane Sissako, 2006) e O Conto das Três Irmãs (Emin Alper, 2016) no próximo dia 8.

A lista até o final do mês inclui alguns filmes excelentes: na próxima sexta entra o clássico recém redescoberto O Funeral das Rosas (Toshio Matsumoto, 1969), que estava no acervo do MUBI até pouco tempo. No dia 29 entram o excelente Entre os Muros da Escola (Laurent Cantet, 2008) e Obediência (Craig Zobel, 2012), que eu quero muito assistir. É o primeiro grande papel da Ann Dowd, uma atriz que eu adoro.

O SMP já têm uns filmes excelentes no catálogo também, eu tava dando uma conferida e, além do magnífico Em Trânsito, também está por lá Wendy & Lucy da Kelly Reichardt, diretora de filmes excelentes pra você assistir durante o isolamento; e Eu, Olga Hepnarová de Petr Kazda e Tomás Weinreb, um filme polonês perturbador que não sai da minha cabeça desde que eu vi há uns bons três ou quatro anos.

Rachel Handler investiga o misterioso caso da escassez de bucatini

Rachel Handler é uma das jornalistas que eu mais gosto de acompanhar o trabalho. Ela escrevia para o The Dissolve, um site sobre filmes que eu amava muito, e sua escrita tinha um tom próprio muito forte: era bem humorado ao mesmo tempo que direto. Ela escrevia sobre qualquer coisa de forma clara, mas conseguia colocar tangentes nos assuntos com observações incisivas e hilárias. Ela tinha uma coluna no The Dissolve chamada “Female Stuff” que eu revisito até hoje.

Enfim, Handler tem escrito para a Vulture/New York Magazine pelos últimos anos, e seu trabalho continua incrível. Mas o texto que ela publicou há algumas semanas é simplesmente a melhor coisa que eu li em meses, uma investigação sobre o desaparecimento misterioso de bucatini, um tipo muito específico/chique de macarrão (aquela espécie de espaguete grossa e longa, com um furo no meio para o molho entrar e explodir na boca quando mastigados) durante a pandemia nos EUA.

“What the Hole is Going On?” começa com ela e seus amigos desesperados buscando esse macarrão por Nova York no meio da pandemia, e acaba se desenrolando de maneira surpreendentes — um pouco disso pelos nomes italianos das pessoas que ela cruza na busca por respostas, o que faz tudo parecer um episódio muito bem humorado de Família Soprano.

Curte só um trechinho, mas eu recomendo ler tudo:

“Rachel!” he roared. “I’ve touched closely to the reason. Because of the environment, people have been using bucatini as straws, instead of a plastic straw.”

“I’m sorry, what?” I asked.

“Yes. You can buy them. There are a couple of companies making them. You can have your soda and then eat your straw,” he said. “It’s like eating your fork or knife.” My mind reeled as it tried to understand and accept this information as true. “But pasta is not a ready-to-eat product,” Rosario added. “You have to cook it. So when you use pasta to drink sodas, you’re drinking and eating a not-ready-to-eat product. You put yourself at risk because that product has never been pasteurized or killed. And the only pasta cut affected is bucatini because of the hole.”

This made both perfect sense and absolutely no fucking sense at all, the sort of demented-timeline event that could only happen in 2020, when everything is, metaphorically, an innocent piece of pasta turned into a straw in a bid to help the environment that actually ends up being fatally dangerous. I confessed to Rosario that every time I made bucatini, I ate several raw strands per minute as I cooked it, as a sort of barometer of al dente–ness. I wondered if I was now going to die because of it, and I made peace with this instantly.

A evolução dos personagens de Super Mario

Mario Bros. é uma das franquias mais famosas e importantes dos jogos, e tá fazendo trinta e cinco anos. Para comemorar, a Nintendo relançou no fim do ano passado os excelentes 64, Sunshine e Galaxy na coletânea Super Mario 3D All-Stars, e vai relançar o (também excelente) Super Mario 3D World, até então exclusivo do Wii U, no Switch em março.

Eu amo essa franquia. Junto com The Sims, os jogos do Mario são os que eu mais joguei antes de Breath of the Wild chegar na minha vida. E na vida de muita gente também, e pra comemorar o aniversário dos jogos o Kotaku tá fazendo uma série de artigos sobre a evolução dos personagens. Dois textos já foram publicados, um sobre o legado da princesa Peach e outro sobre a evolução e o charme do Bowser.

São textos bem bons que observam como os personagens vão se adaptando aos jogos conforme a tecnologia dos consoles da Nintendo foi evoluindo nas últimas décadas, mas também como eles foram tomando um legado próprio ao lado do próprio Mario.

No texto sobre a Peach, Mike Shoars escreve sobre como a relação do jogo com a outra princesa de Super Mario Galaxy é fundamentalmente diferente:

Mario helps Rosalina, but he never rescues her. In the game’s climax, Rosalina and her Lumas undo the damage of Bowser’s newly-formed sun collapsing in on itself and destroying the universe. In her farewell to Mario, she grows to near-Bowser size, speaks about the birth of new stars, before saving all of creation. She is the closest thing we ever see in the main Mario games (don’t @ me, Paper Mario fans) to God.

E como Bowser evoluiu de um simples vilão de videogame para um vilão de videogame que se preocupa em ser um bom pai:

Both versions, interestingly enough, have embraced his most unique aspect: his fatherhood. Bowser Jr. is portrayed as an enthusiastic and tech-minded member of Bowser’s army in the main games, balancing out his dad’s more old-fashioned reliance on dark magic and airships. In the most recent RPGs, especially Paper Mario: The Origami King, Bowser’s status as a sometimes-competent warlord and a patient, supportive father is a huge part of his character arc. In a multimedia franchise owned by a corporation that approaches change in a cautious, measured fashion, Bowser just keeps growing.

Bem que a Nintendo podia colocar Super Mario Galaxy 2 no Switch também…

As séries que me fizeram companhia em 2020

Mesmo com mais tempo livre para ficar assistindo TV durante os últimos dez meses, eu não assisti muito mais séries do que em 2019. Minha grande suspeita, como eu já expliquei em agosto, é que eu não ando mais maratonando séries. Eu prefiro ver elas por semana, ou no mínimo dia sim, dia não. Mesmo assim, algumas séries realmente me ajudaram a manter um senso de continuidade em um ano onde tudo pareceu parado.

Eu não vou listar todas as séries que eu vi ou que eu comecei a ver esse ano, mas sim aquelas que eu acho que me estimularam e que eu gostei de ter feito companhia nos meus finais de tarde aqui em casa, mais ou menos na ordem que eu assisti elas.

  • Fleabag (Prime Video). Foi revendo essa série entre fevereiro e março que me fizeram voltar a escrever pro Pão. Ainda é uma das melhores séries que eu já vi.
  • The Good Place (Netflix). A última temporada acabou sem fazer muito barulho, mas o bom humor e a honestidade emocional que a série usa para explorar ideias como “o que é ser uma pessoa boa?” e “como viver feliz?” foram essenciais ali pros meses onde tudo ainda estava muito confuso.
  • Community (Prime Video e Netflix). Ah sim, eu revi Community esse ano também, como todos os anos. Mas também foi a primeira vez que eu revi Community enquanto muitas outras pessoas viam e vinham conversar comigo sobre a série. Foi algo bem especial pra mim, e me ajudou a aguentar (e a aumentar) a saudade que eu sinto dos meus amigos.
  • The Wire (HBO). Como Gilmore Girls, eu vejo The Wire todos os anos. Eu revejo essa série uma vez por ano desde 2009, quando eu vi ela pela primeira vez. É um ritual quase religioso pra mim. Acho que eu nunca vi alguma obra que consegue traçar um panorama e fazer um mergulho nos sistemas que moldam a sociedade com todas as suas armadilhas. É uma série que nos faz ter uma visão mais aguçada das coisas, e um lembrete para observar mais a fundo como a gente falhou em 2020.
  • Central Park (Apple TV+). Eu não tinha ideia que eu ia acabar gostando de uma série na Apple TV+ mas puxa vida, Central Park é divertido demais. Eu adorei como a série misturou musical com eventos nada grandiosos do dia-a-dia de uma família. Ver as pessoas se divertindo em um parque (mesmo que numa animação) me fez lembrar de como é bom caminhar por aí.
  • Betty (HBO). Essa série foi uma surpresa maravilhosa pra mim. Eu nunca pensei que ia gostar de acompanhar skatistas matando o tempo pelas ruas de Nova York, mas acabou sendo o ponto alto das minhas semanas — passar o tempo com elas é bom demais, e me fez um bem pra caramba.
  • Eu Terei Sumido na Escuridão (HBO). Eu não acredito em “guily pleasure”, então fica aí a declaração que eu amo série sobre investigação de assassinos em série, mesmo as mais bobas, mas Eu Terei Sumido na Escuridão me pegou de surpresa por virar a premissa de ponta-cabeça e não tornar o assassino em uma figura mitológica, se interessando muito mais pela visão que suas sobreviventes tinham dele, e da escritora que ajudou a resolver o caso.
  • I May Destroy You (HBO). Foi difícil ver a minha série favorita do ano, porque ela entra na pele da sua protagonista de um jeito tão desconfortável que era duro olhar pro que ela revelava da Arabella (e de mim), mas ao mesmo tempo era impossível não assistir, porque a intensidade dessa série é contagiante. Não saber o que vai acontecer na cena seguinte era o lampejo de imprevisibilidade que eu precisava.
  • Gilmore Girls (Netflix). Eu decidi rever Gilmore Girls com mais calma esse ano, porque eu acabei usando a série como uma muleta nos anos anteriores e eu precisava cuidar um pouco mais de mim e não me deixar fugir para Stars Hollow na primeira oportunidade. Mesmo assim, eu continuo visitando minha cidadezinha favorita da TV uma vez por semana. É sempre bom.
  • Perry Mason (HBO). Fiquei preocupado que os primeiros episódios de Perry Mason eram muito “TV prestígio”, mas o terceiro episódio chegou e a série me ganhou com seu interesse em ir além do protagonista-trágico. São poucas as séries hoje que conseguem ter o fôlego de deixar seus personagens coadjuvantes terem suas próprias trajetórias. Mal posso esperar pela segunda temporada.
  • Enlightened (HBO). Se você lê A Baguete já sabe que eu quero escrever sobre esse clássico cult de duas temporadas, mas a versão resumida vai aí: Laura Dern se destrói inúmeras vezes nessa série, mas é em todas as novas maneiras que ela encontra para se reconstruir que mora a beleza.
  • The Mandalorian (Disney+). Eu gosto bem mais da primeira temporada porque ela não tenta ficar conectando tantos eventos à Saga Skywalker, mas Pedro Pascal sendo o pai de um bebê Yoda em uma série bem episódica como há tempos não víamos é tudo de bom. Mal posso esperar pra rever o Mando em dezembro.
  • The Americans (Prime Video). Chegou no finalzinho do ano, e é o que eu tô assistindo agora. Impressionante como eu não escrevi sobre The Americans ainda por aqui, porque quando ela estava no ar há uns anos era algo que eu não conseguia parar de falar sobre com meus amigos. Eu tô no início da segunda temporada agora, e amando como a série é bem sutil em transformar o drama da primeira (espiões que também são um casal com problemas conjugais) com o da segunda (pais que percebem que o trabalho deles coloca a vida de seus filhos em risco).