As cinco melhores coisas de 2020

Se eu escrevesse no Pão com Mortadela em um vácuo, eu poderia dizer que 2020 foi um ano muito bom. Eu assisti, li, joguei e escutei muita coisa boa, um sentimento que eu não tinha desde metade da década passada, quando eu vi, li, joguei e escutei muito do que se transformou nos meus filmes, livros, jogos e discos favoritos. 2020 foi um ano em que eu consegui me reconectar de forma íntima àquela maneira que eu consumia cultura, em que eu mergulhava em listas de favoritos de escritores e amigos e vasculhava por coisas fascinantes. Eu finalmente voltei a gostar de ver filme, ou de escutar música, então eu até poderia dizer que 2020 foi um bom ano.

Mas eu não escrevo o Pão com Mortadela no vácuo. Inclusive, eu acho que 2020 foi a primeira vez que eu me permiti ver o quanto os meus arredores definem tanto aquilo que eu consumo quanto aquilo que eu escrevo aqui. Durante os primeiros quatro meses do ano, em que eu tentava continuar a fazer o que eu sempre fiz nesse blog — resenhas daquelas coisas que eu gostei de descobrir — parou de fazer sentido, e eu considerei encerrar o Pão nesse tempo.

Eu já comentei sobre como meus interesses mudaram no post de retorno e em alguns volumes d’A Baguete, a newsletter do Pão. Resenhar os filmes ou os livros que eu consumo nesse vácuo não fazem mais sentido para mim, e nesse que acabou sendo o ano mais prolífico do site desde sua criação parece ser sido uma coisa boa — eu comecei a olhar ao redor dessa cultura que antes eu isolava, e a perceber como ela refletia meu estado de espírito ou como algumas coisas mudaram com o tempo.

E eu acho que tudo isso aconteceu justamente por eu parar de tentar escrever para o Pão com Mortadela num vácuo, e o trouxe para mais perto do meu dia-a-dia. Ele é um pouco diário, um pouco livro de anotações, um pouco lista de leitura. E ainda é aquele blog que eu sempre amei manter — e, pelo visto, alguns de vocês gostam de ler. Meu muito obrigado pela companhia nesse mais um ano.

É legal manter algumas tradições, e eu amo o formato que minha lista de melhores do ano começou a assumir aqui no Pão, então vamos continuar com ela. Aqui estão minhas cinco coisas favoritas de 2020. E um bônus lá no final, meus cinco posts favoritos do blog nesse ano.

Fiquem bem, fiquem seguros, e um feliz 2021!


O melhor filme: Retrato de Uma Jovem em Chamas

Quadro de “Retrato de Uma Jovem em Chamas” Portrait de la Jeune Fille en Feu, Céline Sciamma

Se apaixonar é um daqueles momentos paradoxais, é ao mesmo tempo instantâneo e progressivo. Quando você percebe que se apaixonou, parece que é algo que aconteceu ali, enquanto você olha para a outra pessoa, mas você percebe lentamente todos os detalhes que te fascinam até perceber que sim, você está apaixonado.

Céline Sciamma traduz esse sentimento com perfeição em Retrato de Uma Jovem em Chamas, em que uma artista viaja para uma região remota da França para pintar um retrato de uma jovem para seu futuro marido em um casamento arranjado. Lá, as duas se apaixonam, e pelo período de dias em que o quadro é pintado, elas partilham um pequeno paraíso particular. O que Sciamma faz é tornar essa paixão palpável desde o primeiro momento em que as duas cruzam os olhos, o que primeiro parece um interesse objetivo de capturar um olhar ou uma expressão correta para a pintura se torna a apreciação que o amor nos permite ter pelo outro, de enxergar o outro e de se sentir visto por alguém.

O que me pegou de surpresa é como Retrato de Uma Jovem em Chamas fez o mesmo comigo. Quando percebi que estava amando esse, meu mais novo filme favorito, eu percebi que já sabia isso desde o início, em uma espécie de viagem do tempo. Tudo em Retrato me apaixonou, e me fez me apaixonar pelo cinema de uma forma que eu não sentia por meia década. É um filme perfeito sobre um momento perfeito na vida de duas pessoas.

E também:

  • First Cow (Kelly Reichardt)
  • As Mortes de Dick Johnson (Dick Johnson is Dead, Kirsten Johnson)
  • Lovers Rock (Steve McQueen)
  • Soul (Pete Docter e Kemp Powers)

A melhor série: I May Destroy You

Quadro de “I May Destroy You” Minissérie, HBO

I May Destroy You começa como uma história sobre uma mulher tentando reconstruir os acontecimentos de uma noite em que ela foi drogada e estuprada. Mas essa é apenas a ponta do iceberg que Michaela Coel escreveu, co-dirigiu e estrelou.

Essa minissérie de doze episódios é ao mesmo tempo dolorosamente engraçada e emocionalmente agonizante que usa o período imediatamente após um evento traumático para olhar diretamente para nossos valores contemporâneos de raça, classe, sexualidade, privilégio, e o que mais você enxergar ali. É uma grande realização de Coel, um dos nomes mais incríveis da TV recentemente, que maneja algo que a “TV de prestígio” dos nossos dias atuais não consegue equilibrar: a exploração de seus temas e o desenvolvimento de seu personagem. A Arabella de Coel é falha, dura, e fascinante, e acompanhar ela nessa jornada em que ela precisa se reconstruir é uma das coisas mais incríveis que eu pude assistir na TV em muito, muito tempo.

E também:

  • Small Axe (Antologia, Prime Video)
  • Betty (1ª temporada, HBO)
  • Central Park (1ª temporada, Apple TV+)
  • Ted Lasso (1ª temporada, Apple TV+)

O melhor disco: Fetch the Bolt Cutters

Capa do disco “Fetch the Bolt Cutters” Fiona Apple

Isso é difícil. Eu não sei escrever sobre música, e por grande parte da última década eu ouvi poucos discos novos. Mas Fetch the Bolt Cutters revitalizou meu interesse por música quase que sozinho. É um álbum poderosíssimo de Fiona Apple, em que ela continua sua jornada de deixar tudo aquilo que seu passado a segura para trás em uma música radicalmente íntima.

Composto e gravado quase que num auto-isolamento de Apple nos últimos cinco anos, Fetch the Bolt Cutters é uma experiência viceral. Um pouco disso é porque ouvir o disco é como adentrar um espaço íntimo da artista. O som desse álbum é feito ao bater em panelas, raspar paredes, ou deixando seus cachorros latirem o quanto quiserem. Principalmente, porém, Fetch the Bolt Cutters é o próximo passo de Apple como uma compositora, que se despe das expectativas de outras pessoas — inclusive de seus fãs e da mídia — para uma expressão quase comunal. Em “Newspaper” ela fala com a nova namorada de seu ex sobre o vestido da ex-ex-namorada dele, que ainda está no armário. Em “Ladies”, ela reúne as mulheres de sua vida para uma conversa franca; em “Relay” ela se dirige aos homens, e ao jogo de ódio com o qual eles lidam com seu poder.

Mas é na compaixão, na franqueza que Fetch the Bolt Cutters parece se tornar em um clássico instantâneo. É um disco íntimo tanto em seus instrumentos quando em seus versos, onde Apple não tem problema em deixar ideias e pensamentos se transformarem enquanto ela os canta. Sua franqueza é audaciosa, e é essa franqueza que vai me guiar pela próxima década.

E também:

  • Set My Heart On Fire Immediately (Perfume Genius)
  • Rough and Rowdy Ways (Bob Dylan)
  • Future Nostalgia (Dua Lipa)
  • The Joy of Music, The Job of Real Estate (Vulfpeck)

O melhor jogo: Kentucky Route Zero: Act V

Quadro de “Kentucky Route Zero: Act V” Cardboard Computer/Annapurna Interactive — PC, Switch, PlayStation, Xbox

Quando Kentucky Route Zero começou a ser lançado, em 2013, ele parecia ser uma exploração sobre a crise econômica que abateu grande parte do hemisfério norte em 2008. Com o passar da década passada, em que crises econômicas e políticas se acumulavam umas às outras, Kentucky Route Zero parecia ser uma exploração do que é viver nesse capitalismo tardio, um apocalipse que simplesmente se recusa a acabar com o mundo de vez porque antes precisa enxugar a tudo e atodos até sermos meros fantasmas ao redor daquilo que um dia amamos.

Hoje, surpreendentemente, o ato final de Kentucky Route Zero soa como profético. Em meio à pandemia, ao isolamento e a queda de vários fatores da sociedade que antes a gente dava como certos, eu vi minha família e meus amigos correndo para preenchermos o vazio uns dos outros, seja com videoconferências ou em grupos no WhatsApp, todos fazendo questão em estar presentes mesmo que distantes. Depois de anos de desenvolvimento, Act V encerra uma jornada muito diferente daquela que começou lá em 2013. Personagens se foram, mas cruzamos caminho com outros que decidiram nos acompanhar, e o mundo na superfície parece extremamente diferente daquele que vimos pela última vez naquela noite escura de 2013.

Através desses últimos sete anos, Kentucky Route Zero me levou em uma jornada através da história e da arte, me fez lembrar de quem eu já fui e de quem eu tentei e falhei em ser. Em Act V, a jornada se encerra não só no melhor e mais importante jogo que eu já joguei, mas também em uma nota de conforto: essas pessoas que encontramos no caminho não são só especiais porque com elas nós temos mais força para mudar uma sociedade que esmurrou nossa geração — e todas as gerações antes da nossa — para o desespero. O caminho é longo, e muitas vezes tortuoso, e com elas, nós não vamos nos sentir tão sozinhos quando precisarmos parar e sentir um pouco da brisa da estrada.

E também:

  • Hades (Supergiant Games — PC, Switch, PlayStation, Xbox)
  • Animal Crossing: New Horizons (Nintendo — Switch)
  • Spelunky 2 (Mossmouth/BlitWorks — PC, PlayStation)
  • The Lost Campfire (Hello Games — Apple Arcade, PC, Switch, PlayStation, Xbox)

Capa do podcast “Praia dos Ossos” Podcast, Rádio Novelo

Quando recomendei Praia dos Ossos para um amigo esse ano, eu falei pra ele que esse é o nosso Serial: um podcast que beira à perfeição, que envelopa sua narrativa em contextos que revelam as facetas de uma sociedade inteira.

Como o podcast americano, Praia dos Ossos percorre os eventos de um homicídio — o assassinato de Ângela Diniz em 1976 —, mas no caminho consegue observar a evolução dos movimentos feministas no Brasil, a maneira como a violência contra a mulher é relativizada pela sociedade brasileira, e como um caso de quarenta anos ainda reverbera, e consegue traduzir, o Brasil todos esses anos depois.

É fácil de dizer o que Praia dos Ossos fez, mas ouvir é outra coisa. É uma conquista jornalística, que pega seu tema com a sensibilidade necessária e o eleva com sua pesquisa cuidadosa, sua edição sensível e arrebatadora. É bom ver a cena do podcast brasileiro finalmente deixando a roda de conversa (um formato que eu adoro) de lado e indo de cabeça na narrativa serializada — e ainda bem que seu norte é um podcast magnífico como Praia dos Ossos.

E também:


Bônus: Os cinco melhores posts de 2020

  1. Eu não sei se vou conseguir ver o fim do mundo na TV

    Eu acho que esse é o melhor texto que eu já escrevi.

  2. Tudo o que eu já amei

    Não sei se vou escrever sobre a Vivi todos os anos daqui para frente, mas eu gostei de como o post desse ano acabou ficando.

  3. A Rede Social é o filme da década

    Percebi esse ano que eu demoro muito para conseguir escrever sobre coisas que eu absolutamente amo, eu finalmente consegui escrever sobre um dos meus filmes favoritos.

  4. Kentucky Route Zero chegou ao fim

    Esse post não é bem escrito, mas eu acho que ele demorou tanto tempo para sair da minha cabeça e acabou sendo um pouco do resumo dos vários estágios que eu passei nesse ano.

  5. Foi assim que Fleabag partiu meu coração

    Em um ano que eu defini que eu ia parar de escrever resenhas por aqui, acho que o primeiro post a explorar o novo formato (um relato de algum detalhe sobre aquilo que eu amo) funcionou muito bem, e me inspirou a escrever bem mais.

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