Como “Eu Terei Sumido na Escuridão” evita mitificar um assassino em série

Histórias de assassinos em série fazem sucesso em serviços de streaming, e não é pra menos. Alguns desses casos são tão horripilantes e grotescas que colocam até a ficção mais inventiva de Hannibal ou True Detective no chinelo. Muitas dessas histórias, porém, estão mais preocupadas em tentar “decifrar” as figuras desses assassinos e estupradores, e veem o rastro de dor e de violência que eles deixaram para trás muito mais como elemento que elevam esses casos à forma de mito. Sejam eles nomes conhecidos, como Ted Bundy e David Berkowitz (o “Filho de Sam”); até os desconhecidos, como o Jack, O Estripador e o Assassino do Zodíaco, o que eles têm em comum é que, mesmo depois de serem pegos ou terem desaparecido ou morrido, eles continuam tendo o controle sobre como a gente conta suas histórias e entendemos o que eles fizeram.

Muito disso parece ser um reflexo de um problema social maior de que nós, como sociedade, não sabemos ou não conseguimos dar suporte para vítimas e sobreviventes de atos de violência, e é esse aspecto do “legado” de um assassino em série que Eu Terei Sumido na Escuridão está interessada em explorar. A minissérie documental da HBO já está no quarto episódio, e por enquanto a figura do Assassino do Estado Dourado — um estuprador e assassino em série que atacou o estado da Califórnia entre nos anos 1970 e 1980 — serve muito mais para unir as histórias de suas vítimas e da jornalista que foi instrumental em dar visibilidade às suas histórias.

A criadora da minissérie, a documentarista Liz Garbus (a diretora de What Happened, Miss Simone?), é conhecida pelo seu uso extensivo de talking heads — quando uma pessoa faz um depoimento para a câmera, e a gente fica vendo artigos de jornais ou imagens de arquivo que ilustram o que ela fala. Em Eu Terei Sumido na Escuridão. Ao invés de deixar legistas ou investigadores traçarem a figura do Assassino do Estado Dourado, porém, Garbus usa trechos de uma reportagem escrita por Michelle McNamara para traçar a linha de eventos que levou o estuprador em série a se transformar em um assassino em série. De acordo com os números dados pelo documentário, o Assassino do Estado Dourado soma mais de cinquenta estupros e doze assassinatos. Esse número não é visto como um feito pela série, e sim como uma indicação de que há algo muito errado na forma como crimes sexuais são tratados pela justiça e pela mídia para que um homem seja capaz de tamanha violência.

Esses assassinos em série ainda tem o poder sobre suas histórias — é só você ver The Ted Bundy Tapes na Netflix para você ter uma ideia sobre como eles ainda definem sob que perspectiva nós vamos falar da vida de suas vítimas. Mas Eu Terei Sumido na Escuridão é um exemplo de como podemos tirar esse poder deles. A minissérie passa a maior parte do seu segundo episódio contando as histórias das vítimas e dos sobreviventes do assassino. Através de relatos de algumas sobreviventes, Eu Terei Sumido… não se foca na figura do homem que entrava nos subúrbios californianos, amarrava os homens e estuprava as mulheres, e sim nos detalhes que marcaram as que conseguiram sobreviver, seja antes, durante ou depois do evento traumático. É uma inversão de como um thriller funciona: não descobrimos quem foi a vítima a partir do ato de violência desse assassino. São seus depoimentos que colocam os crimes em contexto, é através desses depoimentos que descobrimos os padrões do assassino, é a memória delas que dá a chave para descobrirmos quem ele é.

Em um desses depoimentos do segundo episódio, a sobrevivente está acompanhada pelo seu marido, que foi imobilizado pelo então chamado “Violador da Área Leste” na noite em que a esposa foi estuprada. Enquanto a mulher descreve o crime, o marido tem um olhar distante e imobilizado, uma mistura de vergonha e desconforto sob toda aquela situação. O homem fala muito pouco, e a câmera observa seu rosto enquanto a mulher descreve como o homem andava pela casa durante as sessões de tortura que promoveu com ela. Esse é o legado que Eu Terei Sumido na Escuridão parece mais interessado em explorar e investigar. Ao invés de criar suposições sobre quem era e o que ele queria, o episódio intercala esses depoimentos com trechos de programas de TV que ensinavam a mulheres a não “induzirem comportamentos indevidos nos homens”, como usarem roupas curtas ou andarem sozinhas à noite. A minissérie faz jus à coragem e força exibidas pelas suas sobreviventes ao se preocupar mais em observar um sistema jurídico que diminuía o trauma dessas mulheres e de uma sociedade acostumada à culpar as vítimas.

Uma das críticas que recaíram à Zodíaco, o filme de David Fincher sobre um infame assassino em série que atuou na Califórnia entre os anos 1960 e 1970, é que o assassino em si só está presente no primeiro terço do filme. Pelo resto das quase três horas de duração, Zodíaco se preocupa em observar o peso dessa violência sobre as pessoas que sobreviveram à ele — as vítimas que escaparam, os jornalistas e investigadores que trabalharam no caso, etc.

Eu Terei Sumido na Escuridão é muito semelhante nesse sentido. O Assassino do Estado Dourado e sua violência são o centro do foco do documentário, mas eles são o incidente que incita uma observação muito maior sobre a incapacidade do homem de discutir sexo; o peso desproporcional do trauma e da violência deixado sobre as mulheres, e como o legado dos atos de violência desses casos vai muito além das manchetes de jornais e dos criminosos que eventualmente vão para trás das grades. E desfazer esse legado é parte de uma reeducação muito maior e muito mais profunda, que vai de como contamos essas histórias à maneira que somos falhamos em ajudar seus sobreviventes. A série põe rostos no tão dito “custo humano” da violência que, quando encarados, são difíceis de serem ignorados.

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