Eu jogo Animal Crossing e fico pensando no futuro

Eu ando pensando bastante em como vai ser daqui pra frente. Acho que todo mundo tá, né. O que vai sobrar depois dessa pandemia? O que vai acontecer? Vamos continuar seguindo rumo ao cataclisma econômico que vai acontecer depois do coronavirus, ou a gente vai parar pra decidir uma alternativa melhor? Agora que uma parte do mundo parou e lembrou que há muito mais além da exploração viciosa do nosso modelo econômico atual, a gente vai querer voltar pra esse ciclo de novo? O peso de ter que produzir mais finalmente vai ser levado em conta?

É isso o que eu penso todos os dias desde a quarentena. Coincidentemente, é mais ou menos o que eu penso todos os dias enquanto eu jogo Animal Crossing: New Horizons, desde que ele foi lançado no fim de março. É quase que irônico que o jogo que a Nintendo lançou um jogo sobre criar e cuidar de uma ilha paradisíaca com seus vizinhos simpáticos, onde a fome e a doença nunca vai nos acometer; enquanto grande parte do mundo se recolhia dentro de casa e começava a se distanciar fisicamente das outras pessoas.

Já tem muito texto por aí sobre 1. como Animal Crossing chegou na hora exata (e o sucesso estrondoso do jogo, o maior lançamento da Nintendo de todos os tempos); e 2. como Tom Nook, o tanuki (não é um guaxinim!) que leva você para a ilha paradisíaca e te enche de dívidas é um monstro capitalista. E, honestamente, eu não tenho nada a adicionar sobre esses dois tópicos, os dois são verdade! O jogo me anima um pouco todos os dias, e eu sinto um ódio profundo do Tom Nook todos os dias também!

TL;DR: o jogo defende a renda básica da cidadania.

Mas Animal Crossing anda me fazendo pensar bastante no futuro também. No que ele poderia ser.

O que me faz pensar no futuro com Animal Crossing é justamente o que faz esse jogo ser tão agradável. A ideia de que é impossível perder. Diferente de The Sims, talvez o único simulador de vida conhecido o suficiente pra ser considerado um concorrente à AC, New Horizons nunca tira do avatar do jogador os seus direitos básicos. Em The Sims, se o seu personagem não arranja um emprego ele não vai ter dinheiro pra pagar o IPTU ou pra comprar comida. Se você não paga o IPTU, seus móveis serão gradualmente confiscados. Se você não comprar comida, você vai morrer de fome.

Animal Crossing: New Horizons garante o básico para o jogador sempre. Se você não estiver bem naquele dia, e não quiser sair pra procurar frutas pra vender e fósseis pra doar pro museu, sem problemas. Comida e um teto não vão faltar. Isso é um direito intrínseco do seu personagem, o que te dá um conforto pra tentar no dia seguinte.

É um detalhe de jogabilidade pequeno esse, mas deixa eu te contar que é exatamente esse detalhe que me faz pensar no futuro. Eu passei os últimos três anos da minha vida sobrevivendo com vários graus de depressão, e enfrentando a ansiedade de que, se eu não melhorar logo pra voltar a produzir como eu produzia antes eu vou eventualmente perder meu emprego, e não vou ter dinheiro. O que me deixava mais ansioso, o que me fazia me sentir mais inútil, o que me deixava mais desapegado à minha própria vida.

Eu sou uma pessoa privilegiada o suficiente pra saber que, se eu perdesse meu emprego, eu não ia ficar sem casa ou sem comida. Eu tenho uma família para contar e uma rede de apoio que iria me receber e me ajudar. Mas muita gente não tem, e o medo constante de perder um emprego que garantia um mínimo de dinheiro para pagar a comida e o lar de sua família virou — ou vai se transformar muito em breve — em realidade. A nossa estrutura social e econômica atual não enxerga a saúde mental como deve. Para ela, ou você está doente, e não pode produzir; ou você está saudável, e deve produzir. Se tem uma coisa que eu aprendi nesses últimos anos foi como minha saúde mental parece muito mais com o clima: tem dias que está bom, muito obrigado; tem dias que é impossível de sair na rua; tem dias que parece que não vai dar pra sair na rua, mas no final do dia o tempo melhora.

Daí eu penso em Animal Crossing, onde todos têm um direito intrínseco àquilo que eles precisam pra sobreviver. Muito provavelmente não é o suficiente pro jogador — você já viu os castelos que as pessoas acabam construindo? (Eu tenho um amigo que tá devendo dois milhões de bells pro Tom Nook!) —, mas aí é com eles. O mínimo necessário pra sobreviver está garantido para ele e para seus vizinhos, o que libera a sua mente para cuidar de si mesmo e, mais importante, para ajudar sua comunidade.

Em Animal Crossing o jogador assume o cargo de representante da população. É você que conversa com Tom Nook sobre as obras que precisam ser feitas (como pontes, ruas, etc.); onde as casas, as lojas e o museu (que é aberto todos os dias em todos os horários, é gratuito e funciona com colaborações dos habitantes) devem ser construídas. Você conversa com seus vizinhos todos os dias — ou quase todos os dias, se você não tiver cabeça praqulo tudo bem faltar uns dias — sobre como eles estão. As vezes eles estão bem, as vezes eles estão doentes. As vezes eles te dão presentes porque você é um bom amigo.

Captura de tela do jogo: um alce e um garoto conversam, o alce está com uma expressão preocupada. Na legenda, o alce diz que está preocupado com as preocupações da vida adulta. Erik é o MELHOR ALCE DO MUNDO.

De acordo com esse excelente vídeo da professora Naomi Clark, Animal Crossing oferece uma visão nostálgica de furusato, as províncias pastorais que, antes da industrialização do Japão, tinham uma cultura de substistência básica e de troca de bens. Como em Animal Crossing, os habitantes dessas cidades assumíam dívidas coletivas para pagar por ferramentas como varas de pescar. Como eles não tinham o dinheiro para pagar as dívidas, eles permaneciam nas cidades. Como você deve algo para a comunidade, você deve retribuir tornando-a um lugar melhor.

É uma leitura interessante que explica o porquê de, quando chega aqui no outro lado do mundo, onde o colonialismo e o capitalismo desenfreado dominam e todo o sistema além deles deve ser quebrado e distorcido, Animal Crossing fazer notícia quando seus fãs pagam dinheiro real para outros jogadores para entrar nas vilas de desconhecidos e tentar atrair os vizinhos-celebridade para suas ilhas; ou como eles abusam de recursos do jogo para obter o maior número possível de bells pra ampliar suas casas. Mas também explica o porquê do jogo parecer ser tão confortável em meio à quarentena e ao colapso econômico que ela antecede: em Animal Crossing, todo o esforço é igualmente válido, todo o trabalho feito tem seu valor. Seja a pesca ou a coleta ou a ajuda no museu, você está tornando o seu vilarejo em um lugar melhor pra você e pra seus vizinhos.

Animal Crossing é um jogo que aprecia as conquistas modestas do dia a dia, e não os grandes feitos dos dias excepcionais. É por isso que eu joguei New Leaf por tanto tempo, mesmo depois de desbloquear tudo. Há uma liberdade em saber que, mesmo quando você não tem nada pra fazer, você ainda pode fazer algo para melhorar o seu dia a dia e das pessoas à sua volta. Seja ajudar a pescar um tipo específico de peixe ou de entregar um presente de um vizinho pro outro. Eventualmente New Horizons vai deixar de ter insetos para desbloquear e fósseis pra escavar. E por mim tudo bem, porque o jogo me ensina a apreciar os pequenos feitos dessa comunidade rumo a um futuro melhor.

Captura de tela do jogo: um personagem está deitado, dormindo em uma cama de solteiro à noite. Seus pertences estão ao redor (um rádio, uma estante com livros, um quadro de avisos, uma mesa com uma xícara de café). Ah, a noite de sono bem dormida que só a renda básica universal pode trazer.

No início do jogo, o cãolebridade K.K. Slider aparece em um sonho pro jogador para lembrar ele que são os pequenos feitos de hoje que fazem um amanhã melhor. É uma promessa simplória de se fazer se, na realidade, as pequenas conquistas, os pequenos feitos do dia-a-dia, não são apreciados por um sistema econômico que enxerga ou o dobro ou o nada. Mas Animal Crossing inspira, com sua falta de desafios e celebração de qualquer avanço que o jogador faça em igual medida, uma vida cívica mais atraente. Uma onde não temos o que perder, porque temos o que precisa — o que nos dá tempo, força, ânimo e vontade de querer melhorar tudo para todos.

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