Um ranking de todos os filmes da Pixar

Um ranking de todos os filmes da Pixar


Com o lançamento de Toy Story 4 nesse último fim de semana, a Pixar está pronta para uma nova era. Quando o filme anterior da franquia foi lançado, em 2010, a Pixar vinha de uma série de sucessos de público e crítica que era invejável, e parecia não ter fim.

Mas os problemas internos do estúdio começaram a aparecer, como um silenciamento sistemático de suas artistas mulheres (que levou ao afastamento de Brenda Champman de seu filme, Valente); e a eventual demissão de John Lasseter, o chefe da Pixar e o gerente de todos os estúdios de animação dentro da Disney, após uma série de denúncias de abuso no ambiente de trabalho. De 2010 pra cá, os filmes também não ajudaram — o estúdio se focou em desenvolver sequências para seus clássicos instantâneos dos anos 2000, nenhum dos quais conseguiu alcançar o nível dos seus originais. Toy Story 4 é o primeiro filme com Lasseter — o diretor dos dois primeiros filmes — fora, o estúdio volta a ser mais independente da Disney nas mãos de Pete Docter (diretor de Monstros S.A. e Divertida Mente), e é um fim (ao menos por agora) no que parecia há uns anos ser um foco em sequências das suas produções mais bem sucedidas. Ainda é cedo para dizer, mas Toy Story 4 parece indicar, tanto na sua produção quanto na sua história, que é um divisor de águas na franquia e no estúdio.

Para aproveitar esse momento, eu decidi rever nas últimas semanas os filmes da Pixar, pra me preparar pro choque emocional de ver os personagens da minha infância mais uma vez no cinema e também pra ter uma visão geral do que fez os primeiros vinte anos da Pixar tão bons, e o que os filmes dessa última década não conseguiram alcançar.

Uma coisa fica clara: dos vinte e um filmes, mais da metade são fantásticos, e eu acho que só existe um filme que seja definitivamente ruim (você provavelmente já sabe qual é). Enquanto muitos estúdios de animação americanos arranjavam desculpas narrativas pra mostrar uma inovação tecnológica na computação gráfica, a Pixar fazia o oposto em seus melhores filmes: usava um grande salto tecnológico para explorar novas possibilidades narrativas em seus filmes. E, por mais de vinte anos, fez isso sem uma grande derrapada. É fascinante de observar a carreira desse estúdio, o que torna ainda mais triste ver os tropeços dessa última década e dá expectativa pelo que a Pixar pode conseguir fazer daqui pra frente (seus excelentes curtas SparkShorts dão uma baita esperança de que eles encontraram vozes interessantes pra continuar com o legado).


Os reflexos de uma cidade com sinais de neon vistas pela lataria de um carro

21: Carros 2 (Cars 2, 2011)

Se os anos 2010 começaram com a Pixar lançando Toy Story 3, no ano seguinte eles lançariam seu único filme ruim: Carros 2, a continuação de um de seus filmes mais falhos, mas louváveis. Num mundo feito totalmente por veículos, o carro de corrida e famosinho pé-no-saco Relâmpago McQueen vai participar de uma corrida ao redor do mundo, e o seu amigo guincho, Mater acompanha — e se envolve numa trama de espionagem desnecessária. É o único filme do estúdio onde a história só serve de desculpa para mostrar uma série de ideias visuais novas, mas a premissa dessa série é tão limitada que nem a novidade visual dá um fôlego pra Carros 2. Não é só ruim, é um filme preguiçoso, que extrapola o alívio cômico do Carros original até ficar insuportável. É o último filme dirigido por John Lasseter, e fez um gazilhão de dólares em merchandising, nos assegurando que, na Pixar dos anos 2010, teria mais um filme vindo por aí.


Um caminhão atravessa uma planície.

20: Carros 3 (Cars 3, 2017)

Ei, eu não tô pegando no pé dessa franquia (eu sou um dos poucos defensores de Carros como um bom filme!), e há um grande salto de qualidade entre Carros 3 e o filme anterior. Mas Carros 3 é completamente esquecível, não porque a história é ruim mas porque é previsível demais. Ele tenta fazer o que Toy Story 3 fez para Toy Story — levar a sua ideia conceitual até o extremo narrativo, mas cai nos mesmos problemas que toda a série Carros enfrenta: um mundo habitado por veículos não é tão interessante assim. E não ajuda que nenhum personagem aqui (há uma série de retornos legais, depois da ausência em Carros 2) seja lá muito simpático.

Mas ei, a Pixar lidando com o fim da existência é sempre bom. Carros 3 passa voando de ser um filme ruim como Carros 2. Eu só aposto que o filme vai acabar e você vai esquecer de tudo o que aconteceu nele antes de você conseguir pausar o trailer que o Netflix vai jogar na tua cara durante os créditos.


Dory sai de sua casa dentro de um coral em formato de cérebro.

19: Procurando Dory (Finding Dory, 2016)

Andrew Stanton, o diretor de Procurando Nemo e WALL-E voltou para a Pixar depois de amargar com o fracasso de John Carter (um bom filme!!!!) e dá pra sentir que Procurando Dory, por mais adorável que seja, foi posto no colo dele como um castigo para pagar o rombo enorme que a adaptação de A Princesa de Marte deixou no relatório de final de ano da Disney.

E ei, pra um filme feito sob medida pra fazer um bocado de dinheiro na bilheteria, Procurando Dory não é lá a pior coisa que apareceu nesse mundo. Longe disso. Agora o “procurando” do título é mais subtexto, em que a adorável Dory, a peixinha com problemas de memória que era o alívio cômico de um filme bastante triste, quer encontrar suas origens. Não ajuda que ela não lembra de nada, é claro, mas Procurando Dory tem o benefício de trazer personagens queridos de volta, mesmo que não os leve a lugar algum — algo que, minha nossa, eu nunca achei que a Pixar falharia em fazer — e colocar, de contrabando, um retrato bastante honesto sobre a relação de pais com filhos com deficiências.


Uma criança abraça a cabeça de um dinossauro.

18: O Bom Dinossauro (The Good Dinosaur, 2015)

Coitado do Bom Dinossauro, ele era um bom dinossauro mesmo. Lançado alguns meses depois de um (enorme) acerto do estúdio, O Bom Dinossauro é hoje o “aquele outro filme da Pixar de 2015”, e o segundo filme da década que amargou uma produção conturbada, com o seu diretor sendo afastado no último ano de produção e uma força-tarefa reescrevendo uma boa parte do filme a partir daí.

E… não funciona muito bem. O Bom Dinossauro acabou sendo um “Toy Story mas com Dinos”, já que segue ponto-a-ponto a estrutura do primeiro longa da Pixar. Não ajuda também que as batidas emocionais venham direto de O Rei Leão… e Em Busca do Vale Encantado… e Bambi, se você parar pra pensar. Mas O Bom Dinossauro talvez seja o maior feito técnico do estúdio: seus cenários usam um nível de fotorrealismo nunca antes visto, e a escolha de usar personagens cartunescos no meio de uma natureza assustadoramente real é louvável. Mas quando o Arlo, o nosso querido bom dinossauro, está chorando nas margens do rio depois de um evento traumático e você não consegue parar de pensar no quão lindo é o movimento da água é porque tem algo fundamentalmente errado com o filme.


Max chega na universidade com suas malas

17: Universidade Monstros (Monsters University, 2013)

Eu me lembro de ter me divertido um bocado assistindo Universidade Monstros no cinema, porque eu tinha entrado na universidade no mesmo ano e algumas inseguranças do zoiudinho da mamãe a.k.a. Mike Wozalsky batiam forte em mim. Mas Universidade Monstros quer tanto que a gente se importe com personagens que nós já amamos que a quantidade de exercício que ele faz nos seus dois primeiros atos é desnecessária, e impede de o filme ficar realmente bom quando Mike e Sulley finalmente se unem.

Universidade Monstros nunca é ruim, porém, mas só demora um bocado para encontrar o que realmente tem de bom. Mas o que ele realmente tem de bom é exatamente aquilo que Monstros S.A. já tinha de excelente. É um problema que Procurando Dory e Os Incríveis 2 também sofrem: precisam justificar sua existência depois de uma forma já aperfeiçoada ter sido apresentada.


Relâmpago McQueen faz pose para suas fãs em uma corrida

16: Carros (Cars, 2006)

Eu gosto de Carros. É obviamente um filme menor do estúdio, mas é charmoso demais. Tem o Paul Newman também, e isso nunca atrapalhou ninguém.

Carros é bonito (como o Paul Newman), e tem um coração enorme (como o Paul Newman), e é definitivamente aquele mamãozinho com açúcar que você dá pro seu filho depois de ele ter voltado da escola chateado porque ele não é bom de jeito nenhum no esporte que ele queria ser bom. Então você precisa de uma história que mostra que ele vai encontrar seu lugar, mesmo não sendo muito bom em nada.

E Carros meio que sofre das mesmas coisas. Ninguém é tão bonito quanto o Paul Newman, nem tão querido como o Paul Newman. Carros até quer fazer com… carros… o que Toy Story fez para os brinquedos. Não consegue, é claro. Mas é uma boa tentativa.


A família Pêra brinca dentro de um campo de força.

15: Os Incríveis 2 (Incredibles 2, 2018)

Como eu queria ter amado Os Incríveis 2. Eu vi o filme original quase que diariamente quando o DVD foi lançado em 2005. Mas desde o momento que a sequência foi anunciada eu peguei birra com ela, porque se passava exatamente depois dos eventos do filme anterior, quando eu achava que o melhor seria ambientar ele anos depois. Eu sou arrogante, me desculpa. Eu tive que superar muita pré-concepção pra conseguir aceitar Os Incríveis 2.

E puxa, se esse filme não tem Brad Bird mostrando pro mundo que ele entende como filmar ação. Há sequências de tirar o fôlego e Incríveis 2 modula, como o anterior, entre a vida íntima de seus personagens e as sequências de ação com elegância. Mas ele nunca atinge o ponto alto de Os Incríveis (que honestamente é muito alto) quando essas duas linhas se convergem. É por isso que a sequência da família se reunindo na praia em Os Incríveis é histórica: ela une uma narrativa que parecia se dispersar tanto quanto aquela família. É algo que Incríveis 2, mesmo modulando vários acertos do original, nunca conseguiu acertar tão bem.


Merida se prepara para lançar uma flecha.

14: Valente (Brave, 2012)

Valente indicou, já em 2012, que tinha algo não muito certo em como a Pixar estava funcionando. A diretora do filme, Brenda Champman, foi afastada por diferenças criativas, e Mark Andrews, um experiente na casa, assumiu o lugar.

E Valente leva nas costas essa produção conturbada, porque é essencialmente um filme dividido em dois: o primeiro é um retrato sombrio de uma jovem querendo traçar seus próprios rumos e definir sua liberdade no em uma terra de magias desconhecidas e homens brutamontes. No outro, há uma história bastante batida de uma garota entendendo o papel de sua família na sua vida. Valente não se recupera desse conflito, mas traz consigo um dos filmes mais visualmente impressionantes do estúdio — sua Escócia Mitológica é belíssima, e os cabelos cacheados e volumosos de Merida fizeram os animadores repensarem todo o seu processo criativo.

É uma pena que, sei lá, eles não repensaram mais.


Três insetos se penduram em uma grama

13: Vida de Inseto (A Bug’s Life, 1998)

Eu amo que Vida de Inseto exista. É um filme estranho, bem típico de um segundo filme, onde seus criadores ainda estão tentando entender o que eles acertaram e o que precisam melhorar. Ele tem uma estranheza visual que só existe nesse filme, e se transforma em um verdadeiro filme de terror quando quer.

Tem seus problemas de ritmo, mas Vida de Inseto é divertidíssimo, e uma das sábias decisões da Pixar foi não querer explorar demais esse universo: é um filme pequeno que entende muito bem o que faz, mas também vê o limite conceitual da sua narrativa. Eles podiam ter matado essa charada com Carros também. Mas, eu não gosto de pegar no pé daquele filme.


Woody e Garfinho

12: Toy Story 4 (2019)

Há um grande salto de qualidade entre as posições #21 e #20 nessa lista, e um maior entre Toy Story 4 e o filme anterior. A partir daqui, nenhum filme é menos que excelente, e exemplos claros de como a Pixar usa sua tecnologia para explorar possibilidades narrativas.

Ninguém queria um Toy Story 4, mas ninguém queria um Toy Story 3 em 2010 também. Mas em Toy Story 3, a Pixar responde com um dos seus melhores filmes, que une toda a trupe em uma aventura de autodescoberta e alguns dos momentos mais memoráveis de qualquer filme do estúdio.

Não é o que eles fazem aqui, mas o que Toy Story 4 faz é bastante interessante: mirando baixo, a Pixar cria um filme que poderia muito bem ser chamado de Woody Story. O filme deixa Buzz e Jessie e todo o mundo (até o adorável Garfinho) de lado para criar um arco de personagem completo com Woody. E funciona. É um filme lindo e emocionante, que mistura drama e comédia como os melhores filmes da Pixar, que usa bem suas baixas expectativas para supor que Toy Story 4 não é só um final, mas um recomeço para a série. Ao fechar a história de Woody, enquanto apresenta outra penca de personagens excelentes, além daqueles que já conhecemos, Toy Story 4 nos dá expectativas pelo que pode vir — da série e, claro, da própria Pixar, que parece entrar em uma nova era.


Miguel encontra seus antepassados na Terra dos Mortos

11: Viva: A Vida é uma Festa! (Coco, 2017)

Em Viva, que conta a história de um menino que atravessa para o mundo dos mortos no Dia De Los Muertos, a Pixar cria um mundo de cor e de sombra para explorar a herança cultural de um povo e de ilustrar o amadurecimento de uma criança em entender o seu espaço nessa cultura — e a importância de mantê-la viva.

É um filme lindo, empolgante e com um coração gigante por todos os seus personagens, que complica a existência de seu vilão muito mais por causa da circunstância do que por motivos. Peca só por ser previsível demais, mas pra cada batida narrativa em comum com outros filmes, Viva surpreende com uma nova e inventiva sequência visual. É de tirar o fôlego.


Jessie observa uma janela

10: Toy Story 2 (1999)

Por muito tempo a única sequência da Pixar (ê o tempo voa), Toy Story 2 faz seus personagens questionarem a própria existência de um modo que nenhum outro estúdio de animação ousa fazer. Acho que é isso que eu gosto tanto nos filmes do estúdio. Eles entendem que crianças não são idiotas, e entregam pra elas temas grandes demais pra elas ficarem anos pensando.

Era verdade em 1999, quando Toy Story 2 foi lançado, e é verdade agora, vinte anos depois, quando as perguntas que o filme lançou são “respondidas” por Toy Story 4. A incerteza de Woody como sua vida de boneco de uma criança que claramente vai partir seu coração é profunda e emocionante, e Toy Story 2 não foge delas mesmo quando as respostas que ele sugere não sejam exatamente fáceis.


Marlin e Dory se veem cercados de águas vivas

9: Procurando Nemo (Finding Nemo, 2003)

De um lindo recife de corais ao interior de uma baleia e a um navio afundado habitado por tubarões, Marlin atravessa os mares com Dory para encontrar Nemo, seu filho que foi levado por um mergulhador para um aquário em Sidney. Procurando Nemo é uma verdadeira odisséia, com personagens conhecendo lugares e culturas diferentes enquanto precisam aceitar algo bastante íntimo — um pai que precisa entender que seu filho está crescendo, e um filho que quer dar a certeza para o seu pai que ele sabe se cuidar.

E, em tudo o o que Procurando Nemo se propõe a fazer, ele acerta: da tragédia nos seus segundos iniciais ao drama familiar no prólogo à grande aventura à Pernalonga e Patolino no meio ao filme de terror no final. Procurando Nemo acerta na modulação de seus temas e dos vários gêneros que explora para criar um filme divertido, as vezes aterrorizante, mas sempre emocionante. Entulhado de personagens fascinantes, cenários lindos e cenas que são de uma profundidade emocional única, é difícil ficar melhor que esse filme — e ele tá em nono na lista.


Bonnie acena para Andy, que deixa seus brinquedos para trás

8: Toy Story 3 (2010)

Ninguém precisava de Toy Story 3, e mesmo assim ele veio. E roubou o coração de quem viu (quase todo o mundo aparentemente, o filme fez rios de dinheiro).

Toy Story 2 acaba com Woody, Buzz e a turma voltando para o quarto do seu dono, Andy, decididos a viverem felizes com ele enquanto forem úteis para ele. Um momento incerto de amor é melhor do que uma vida isolada em uma prateleira. Mas Toy Story 3 leva essa premissa ao seu extremo: Andy está indo embora de casa, e os brinquedos precisam ir para um lugar. Alguns querem ir para o sótão, onde vão poder viver juntos. Outros querem ir para uma creche, e continuar a serem amados por outras crianças até suas partes enfraquecerem. Como Toy Story 2 não fazia perguntas fáceis, 3 não trilha caminhos simples: os brinquedos não só precisam decidir o que fazer nesse fim de uma etapa de suas vidas, mas também decidir se ainda vale a pena estarem juntos. É um dos filmes mais emocionalmente maduros do estúdio, que não evita em olhar para a tristeza da situação e do futuro nebuloso de seus personagens. E tem um momento de completa desolação que a Pixar só teria coragem de fazer de novo em outro filme, cinco anos depois.


Mike e Sulley conversam de noite

7: Monstros S.A. (Monsters Inc., 2001)

Sulley tem um coração gigante, e Monstros S.A. também. O primeiro filme de Pete Docter, Monstros é um descendente do Looney Tunes, com um humor cartunesco e expressões maiores que a realidade, onde personagens se explodem e se esmagam e continuam caminhando no final do dia. É hilário e horripilante e mais hilário porque as vezes fica realmente assustador.

E, no seu mais íntimo, tem aquela fórmula da Pixar de usar várias tramas paralelas para se fundirem em um clímax emocionante. Para todo o humor de Monstros S.A. há também a história de confiança entre Sulley e Mike, e de paternidade entre Sulley e Boo. E de uma cidade inteira que vive em uma mentira e precisa acordar para uma realidade. E quando Monstros S.A. parte seu coração (“gatinho!”) é difícil não ficar feliz, e triste, e feliz de novo.


Buzz e Woody caem com estilo no carro do Andy

6: Toy Story (1995)

Com cada avanço tecnológico da Pixar desde Toy Story, o primeiro longa do estúdio fica num passado distante onde a gente cada vez entende menos como Toy Story impressionou com seus visuais limitados.

Mas é só ver o filme que você é imediatamente absorvido por ele. Toy Story acerta tão bem em como montar uma história (e esconde em sua estrutura todos os elementos que a Pixar passaria as décadas seguintes explorando), modulando o tom do filme com tanta precisão que é difícil não achar que esse estúdio já estava há muito tempo no ramo. Ainda é um dos filmes mais experimentais da Pixar — há uma sequência de terror à O Iluminado que eu não acredito que poderia ser feita em outro filme hoje em dia —, mas que usa as limitações tecnológicas ao seu favor: Toy Story é só o necessário, com pouco mais de oitenta minutos, e justifica que tecnologia não pode ser um fim em si mesmo — o coração do filme está bem longe dos computadores que geraram aquela imagem.


Uma casa flutua no ar com balões

5: Up – Altas Aventuras (Up, 2009)

Up é um daqueles acertos improváveis da Pixar. Um filme onde o protagonista é um velho ranzinza que quer levar sua casa até o meio da Floresta Amazônica pra morrer em paz. Mas nada dá exatamente certo, e Up se transforma em um dos filmes mais originais da Pixar: um filme que explora amor nos seus primeiros minutos, e então lida com o luto e a ausência durante todo o resto do filme.

Up está há milhares de quilômetros de distância de Toy Story em tecnologia: os balões ultra-coloridos criam efeitos visuais belíssimos. Os pelos e texturas que moldam o mundo ao redor do velho Carl e seu companheiro de viagem Russell são detalhados e volumosos. Mas também indica a evolução narrativa do estúdio. Seus filmes não são só mais elaborados visualmente, mas também entendem mais os humanos, ou os placeholders de humanos, que habitam esses mundos — a dor de Carl e a solidão de Russell são muitíssimo reais, e quando eles finalmente encontram aquilo que queriam é compreensível que não seja aquilo que eles precisavam, o que torna Up em um dos filmes mais sinceros da Pixar até hoje.


Remy, o rato, prepara um omelete

4: Ratatouille (2007)

Ratatouille começou a era de obras-primas da Pixar, quando o estúdio não conseguia se cansar de fazer filme excelente um atrás do outro. Ratatouille, que teve um início de produção conturbado até que Brad Bird foi chamado para reescrever e dirigir, é como Up e WALL-E uma dessas ideias implausíveis que a Pixar conseguiu partir pra criar uma história que é empolgante e comovente.

Em Ratatouille, é a história de Remy, um ratinho sonhador que deseja ser um grande cozinheiro em Paris. Ele não só tem o sonho como tem o talento, que o leva à cozinha dentro do chapéu de seu amigo humano, Linguini. Com Ratatouille a Pixar faz um filme visualmente impressionante, como de costume, mas também intrigante: a Paris de Brad Bird é cheia de referências à grandes clássicos do cinema francês, mas o coração do filme está no cuidado em como o filme relaciona Remy e Linguini à essa Paris, que dá medo a um ratinho de rua e a um cozinheiro novato — até que ela se abre para eles e se transforma na linda cidade. Ratatouille faz isso na imagem, mas também no sabor. É difícil não ficar com fome vendo esse filme.


WALL-E, se segurando em uma espaçonave, observa as estrelas

3: WALL-E (2008)

Eu considero Ratatouille um filme irretocável, mas eu sei que tem gente que discorda. Mas a partir daqui, é nível “clássico instantâneo”, e onde a Pixar prova que ela pode ser a melhor no que ela faz.

Com WALL-E, mais uma dessas ideias implausíveis, a Pixar abre o seu amor pelo cinema mudo em um dos seus filmes mais experimentais e mais únicos: a história de um robozinho que empacota o lixo de uma humanidade que já foi embora da Terra há muito tempo mas é fascinado por esses humanos: desde filmes como Alô Doly! ao jazz e, claro, ao iPod. WALL-E vê sua chance de sentir algo verdadeiro quando conhece EVA, uma robô enviada pelos humanos para verificar se o planeta já está em uma condição habitável.

WALL-E é uma história de amor daquelas clássicas de Hollywood. É também um filme de ficção científica de primeira, com uma linda dança espacial pra ficar para a eternidade. E é também uma das exaltações mais únicas da Pixar em fazer o que ela faz: pega uma premissa única e estranha e explora uma condição humana com ela através da sua tecnologia de ponta. Não só pra fazer graça, não só pra fazer chorar, em WALL-E a Pixar nos ajuda a ver o mundo ao redor — e as pessoas que estão nele com a gente.


A família Pêra se prapara para lutar no meio de uma floresta.

2: Os Incríveis (The Incredibles, 2004)

Poucos filmes conseguem atingir a perfeição de Os Incríveis, um filme que se espalha por um sem número de personagens, cada um com suas próprias intenções e jornadas, e faz todas elas seguirem em frente sem fazer o espectador se perder, e sem tudo ficar uma bagunça. É assim como funciona no filme, e é assim como funciona a família de super-heróis dos Pêra.

Beto e Helena estão no meio de uma crise no casamento. Helena quer que Beto seja mais presente na vida dos filhos. Beto quer reviver seus dias de glória, como o super mais famoso do mundo, um mundo que seus filhos não conheceram. Flecha, o mais novo, quer ter essa oportunidade de mostrar seu verdadeiro potencial pra família. E Violeta, a mais velha, só quer se encaixar na vida que ela quer ter. E tem o Zezé também, o bebê. Ele não tem superpoderes. Pelo menos não ainda. Tudo isso é posto em jogo quando Beto aceita uma missão secreta e vai para uma ilha no meio do Pacífico. Lá ele entra em perigo, e faz o que nunca quis: coloca sua própria família em perigo.

Os Incríveis é um filme de ação como nenhum outro. É também um drama familiar extremamente bem elaborado (tem uma briga de casal que é… real demais) e um mundo imaginário onde super-heróis existem que é fascinante (os extras do DVD contém horas de material desse mundo que é uma verdadeira aula de contextualização). É também, como qualquer outro filme da Pixar, uma jóia de assistir, mas também um dos seus mais corajosos em enxergar os perigos. Crianças se deparam com a morte inúmeras vezes, e os inimigos não tem medo de puxar o gatilho em Os Incríveis. É a coragem que os tira das enrascadas, e é a coragem de que seu público está dentro para uma história bem contada que leva a Pixar a fazer um filme tão incrível assim.


As Emoções assistem uma Memória de Riley esquiando quando mais jovem

1: Divertida Mente (Inside Out, 2015)

No meio de uma década no mínimo problemática para a Pixar, o estúdio lança sua mais formidável obra-prima: um filme que navega entre mundos existenciais com metáforas visuais para emoções, dúvidas e memórias: Divertida Mente se passa dentro da cabeça de Riley, uma menina que acompanha os pais, se mudando de uma costa à outra dos Estados Unidos. Riley, como toda a criança crescendo no século 21, tem muita coisa pra lidar. E a Alegria, a Tristeza, a Nojinho, o Medo e o Raiva tem trabalho a fazer.

Divertida Mente não só explora todo o potencial dessa premissa com uma inventividade visual que é de cair o queixo a cada segundo, como também não tem medo de mergulhar nos momentos mais obscuros. Riley tá se sentindo sozinha, tá zangada e tá com medo, e no interior da sua mente suas emoções não só precisam lidar com esses problemas como também precisam amadurecer para entender o que vai acontecer. Sentimentos diferentes precisam entender que coexistir é importante, que esquecer e seguir em frente é parte da vida, e que as coisas que deixamos para trás podem nunca voltar. Mas reparar a importância delas é o que nos faz amadurecer.

É um grande filme. Um dos meus filmes favoritos mas também um dos filmes mais impressionantes que eu já vi. Divertida Mente une o humor de Monstros com a maturidade emocional de Procurando Nemo e a delicadeza humana de WALL-E para criar um retrato de como é difícil viver, e como é necessário aceitar que ficar triste faz parte da vida. É também um filme corajoso, que chega ali pra retratar uma depressão e como pode ser um perigo sem volta. É uma jornada de autoconhecimento inesquecível, e o melhor filme que a Pixar já fez até aqui.