Eu estou apaixonado por Stop Making Sense

Eu estou apaixonado por Stop Making Sense

Umas semanas atrás eu parei pra assistir Homecoming, o filme-concerto do show da Beyoncé no Coachella 2018. Um filme grandioso, e faz a gente ter uma noção do porquê as performances foram chamadas de “históricas” no ano passado. É mais um passo de Beyoncé em se firmar como um mito contemporâneo. Além disso, é um filme muito bom. Eu nunca me interessei muito por “filmes-concerto” porque 1) eu sempre achava que era um show filmado; 2) eu sou desinformado. Daí eu amei Homecoming e pensei “puxa, agora eu tenho que ver mais filmes-concerto”, e decidi começar pelo que já tinham me recomendado várias vezes e eu não dei muita bola.

Desculpa pessoal, eu tava muito errado.

Eu acho muito incrível quando tu percebe que o filme que tu tá assistindo tá se transformando num dos teus filmes favoritos. Eu amo quando isso acontece, mas nos últimos anos aconteceu muito pouco. Não porque não se faz filme como antigamente e toda aquela baboseira, mas porque eu andei com muita dificuldade de sentir qualquer outra coisa que não fosse tristeza nesses últimos anos. Mas então eu assisti Stop Making Sense (no YouTube e no Spotify), e esse sentimento voltou. Foi instantâneo. Eu não conhecia os Talking Heads fora da trilha-sonora do filme Mulheres do Século 20, e quando acabou eu me transformei em um fã.

Stop Making Sense começa com David Byrne, o vocalista, fazendo uma performance solo, e em cada música seguinte um membro da banda se junta no palco: primeiro Tina Weymouth, depois Chris Frantz, e então Jerry Harrison. O som vai ficando mais rico a cada música, e o palco vai sendo montado gradualmente atrás deles. Depois se juntam a eles as cantoras Lynn Mabry, e Ednah Holt, e os músicos Bernie Worrell, Steve Scales e Alex Weir. É importante dar os nomes, porque o filme de Jonathan Demme faz questão em deixar claro o que cada uma das pessoas que sobe ao palco vai contribuir no som. Por parte do diretor, não tem essa de filmar a banda em um palco como deuses fazendo os mortais se mexerem, como Martin Scorsese gosta de fazer nos filmes-concerto do Rolling Stones, e sim nos fazer entender como a banda funciona no palco, como pode um momento assim ser possível — a confluência dos vocais com a guitarra, os cortes da bateria, a harmonia que existe no caos musical.

Jonathan Demme nunca fez um filme parecido com o outro. Ele é conhecido como o diretor de O Silêncio dos Inocentes, que assentou a figura do Hannibal Lecter, interpretado por Anthony Hopkins, na cultura popular. Mas antes de O Silêncio dos Inocentes ele fazia comédias, e depois ele fez filmes como Filadélfia, um drama sobre a tolerância e o preconceito, e o musical Ricki & The Flash: De Volta Para Casa. Toda a carreira do diretor vai de um lado para o outro, mas o espírito é o mesmo: o de uma confraternização das artes para criar um filme inesquecível. E Stop Making Sense faz exatamente isso.

Como outros filmes-concerto, Stop Making Sense conta uma história. Mas não a história dos bastidores da banda que levaram até aquele momento, nem uma história fictícia embalada pelas músicas do show. Não, é a história de como em uma série de noites frias uma banda se reune com seus fãs para ter algumas horas de emoção em comunidade, compartilhando epifanias existenciais em “Once in a Lifetime”, histórias de amor com uma lâmpada em “This Must Be The Place” e gritos de guerra em “Girlfriend is Better”. A preocupação de Demme é em manter a sua câmera nos músicos e em como cada um interaje com o outro. Stop Making Sense não tenta fazer o espectador se sentir parte daquele show porque sabe da grandeza daquele momento, então se preocupa em documentar ele para que o show possa criar outros momentos de comunidade com ele.

Quando Stop Making Sense finalmente exibe a plateia em seus momentos finais, cantando e dançando com a última música, parece que faz para confirmar o que a gente sente no filme: sim, esse show foi tudo isso de bom. E agora esse momento vive para sempre, tanto na mente daquelas pessoas que estavam lá naquela noite em Los Angeles, quanto para nós, mais de trinta anos depois, em nossas casas. O filme não quer que a gente se sinta parte da plateia, porque isso seria ma mentira que iria se desfazer no fim do filme. Por noventa minutos, Stop Making Sense nos faz criar boas lembranças assistindo aquele bom momento, porque essas sim vão sobreviver ao tempo, como uma boa música.