Onde estão Os Ratos?

Onde estão Os Ratos?

Dentre todas as linhas de pesquisa exploradas para dar conta das técnicas e exercícios lúdicos utilizados na construção (e na leitura) de personagens, seja na literatura, ou no audiovisual, uma sempre me despertou particular interesse: o estudo do consumo como agente dos conflitos internos.

Madame Bovary de Flaubert é das mais citadas como uma das primeiras obras mais alinhadas as leis do desejo capitalista que traz essas questões de maneira mais notória (assim como os bêbados dublinenses de James Joyce). Fato é que o consumo, o que se deseja consumir, a maneira com que se deseja, o que isso significa na realidade daquela personagem são detalhes que, quase de maneira desapercebida, foram tornando-se indispensáveis na construção psicológica de qualquer arquétipo que possa aferir algum tipo de identificação por parte do leitor/espectador. E o que definiu isso não foi, de forma alguma, um autor, ou uma obra em particular, ou um “movimento”, mas sim as alterações na forma de perceber o mundo provocadas pelo modelo sócio-econômico que foi aos poucos se transfigurando no capitalismo nacionalista atual.

É certo que o consumo pode ser objeto de estudo em períodos muito mais remotos, nossos antepassados nômades já se organizavam socialmente em torno de quem tinha mais comida, ou qualquer tecnologia que lhe imputasse a autoridade sobre o consumo; entretanto, a relação estrita da arte (oriental, anglo-saxônica) com a religião, que ao pregar a vida eterna, rejeitava qualquer referência possível à morte. E falar de consumo é, justamente, falar de morte: das coisas que se consomem e se acabam, do que se come para viver até que se morra, do desfrutar dos prazeres mundanos. Na narrativa bíblica, por exemplo, existe uma punição imposta à Eva por comer um fruto que teria sido designado como proibido - a “mensagem” por trás da história dos primeiros seres humanos, em Gênesis, é bem clara: esquecer dos prazeres e desejos (em especial os materiais) “mundanos” em nome da vida eterna.

Dante foi e voltou do céu e inferno sem consumir sequer uma barrinha de cereais, nem um gole d’água enquanto sua pele se queimava perto do fogo eterno - mas Dostoievski já não se sentia pecador ao expor a fome de Raskolnikov durante a crise do sistema Czarista, e Machado de Assis elevava o consumo a um estudo social que expunha a verdadeira face da burguesia em um período que compreendeu o império e sua dissolução na atual república.

Com o passar do tempo o consumo, e a cultura que dele imana, tornaram-se importantes demais para ficar de fora do estudo social esboçado pelos autores da literatura. Pode-se dizer que as questões relativas a cultura do consumo são responsáveis diretas pela forma com que a sociedade se organizou desde sempre, e isso faz com que, no momento em que a arte (novamente ocidental, anglo-saxã) começa a conseguir se libertar de suas funções religiosas, é bastante natural que, aos poucos, o consumo vá ganhando notoriedade como tema sob o qual as estórias encontram algum tipo de represamento e direção.

É pensando em tudo isso que podemos relegar um olhar mais preparado na recepção de Os Ratos, romance de Dyonélio Machado.


O romance nos mostra Naziazeno, um funcionário público que precisa pagar sua dívida de 53 mil réis ao leiteiro, que ameaça cortar o abastecimento caso a dívida não seja sanada até o final do dia. A gritaria do leiteiro é tanta que Naziazeno sente vergonha de fazer o caminho habitual até o trabalho naquela manhã, sente vergonha dos vizinhos, tem a impressão de que todos o observam e cochicham ao seu respeito. O romance se passa em um período de 24 horas, e mostra as andanças da personagem abaixo do sol do verão porto-alegrense, atrás da pífia quantia (o equivalente a 120 - 160 reais).

O estilo é aos moldes da segunda geração do Modernismo na Literatura Brasileira, utilizando os alicerces do realismo de Flaubert aliados à narrativa urbana/paranoide de Crime & Castigo e as imersões de consciência de um James Joyce - Todos já citados.

Naziazeno procura sanar a sua dívida pedindo dinheiro emprestado ao diretor da repartição, este já havia lhe auxiliado em situação de enfermidade de um dos filhos, mas agora lhe nega a ajuda replicando um discurso cada dia mais atual de “meritocracia”, de uma defesa das individualidades por meio de um discurso de exclusão - pois sonhar com os ratos roendo o seu dinheiro não é um delírio apenas de Naziazeno, quanto mais recursos tem um sujeito mais predisposto ele está a enxergar ratos ao seu redor, mas chegaremos lá mais adiante.

O que a personagem de Dyonelio sente enquanto anda errante pelo centro da Porto Alegre dos anos 30 é um sentimento relativamente novo: a indignidade sem razão, ou melhor, por razões monetárias, simbólicas, convencionadas. Diferente de um ser considerado “indigno” em uma sociedade primitiva, provavelmente por incapacidades físicas ou intelectuais, no fundo Naziazeno não vê a real razão de seu sofrimento - ele têm consciência do que lhe atinge, percebe seu conflito como pequeno, “pífio”; mas o abatimento e o constrangimento social sugam-lhe constantemente as energias, e o eterno sentimento de impotência faz com que fique estagnado e incapaz de uma reação mais definitiva.

Naziazeno não pediu para nascer e um dia morrerá sem aviso prévio, igualzinho a qualquer outro ser humano que tenha existido na história da humanidade.

Esse é, no fundo, seu grande dilema: ter de humilhar-se em busca da redenção pelo orgulho ferido, afetado pela sociopatia coletiva que acusava sua “indignidade”. Precisa, a todo custo, “limpar o seu nome na praça”. No fundo uma questão de sobrevivência, que não precisaria ser atenuada pela questão social, mas que mexe com as mentes delirantes da cidade a ponto de causar forte opressão em um sujeito trabalhador e pai de família.

A visão do autor acerca de tudo é bastante crítica, e é interessante notar que a desorganização financeira e social de Naziazeno é a questão menos criticada. O autor procura mostrar como todos aqueles que são as “esperanças” da personagem em sanar a dívida através de empréstimo ou penhores (malandros, jogadores, ricaços, juristas, políticos e agiotas) são, de alguma forma, os “responsáveis” pelo sistema que indignifica e anula a existência social do pobre funcionário público. Cada negativa recebida por Naziazeno é como um golpe no coração do leitor, que acaba gerando uma revolta que nada mais tem a ver com o que fora escrito pelo autor, mas que é, de todo modo, um ruído de interpretação muito bem arquitetado.

No fundo, apesar da paranoia e das alucinações vivenciadas por ele, Naziazeno parece o mais vívido ser que circula na cidade. E ísso se dá por uma razão muito clara: seu objetivo é restrito, ele sabe exatamente o valor da solução de seus problemas, quando fecha os olhos consegue observar a quantia sobre a sua mesa a espera do leiteiro. No fundo, o errante Naziazeno é o único que tem convicção de alguma coisa em meio a todas aquelas páginas.

Muitos amigos nos são apresentados, todos de “bom coração”, e compreensivos com a situação do amigo (um dia já estiveram no lugar dele), mas todos incapazes de ajudar; exceto pelo tramposo Duque, a grande esperança de Naziazeno, um sujeito com ares de revolucionário urbano, bon vivant, que faz sucesso entre as mulheres e é capaz de arranjar qualquer quantia no passo de poucas horas.

Mas o Duque não chega nunca, Naziazeno perambula pelos bares e cafés e nunca o encontra.

Capa da segunda edição de Os Ratos

No fundo o Duque é uma espécie de pai ausente, por um lado um herói e por outro um canalha cheio de boas intenções - provavelmente a personagem mais bem facetada pelo autor, cheio de nuances e complexidades, nunca sabemos quais as reais intenções do Duque: se quer ajudar o amigo poque existe algo de benevolente envolvendo sua existência, ou se tudo é um grande jogo de ego onde ele gosta de ver a si mesmo como uma espécie de Robin Hood porto-alegrense. As esperanças de Naziazeno no Duque são quase cômicas, ele pensa no amigo como uma espécie de entidade superpoderosa; mas no fundo, o olhar cínico de Dyonelio nos denuncia uma relação de certo trágica que envolve a própria masculinidade: Naziazeno enxerga em Duque, um homem mais jovem e sem família, entregue aos vícios, de certo um tanto mitomaníaco, como uma espécie de mentor, uma figura-modelo masculina. Mas Dyonélio nos expõe esse mesmo Duque como a morte de um mito urbano conhecido, que vê sua sobrevida num romanceamento dúbio de sua própria existência - dúbio porque essa mesma idealização que lhe dá vida como figura heroica, mata e oprime o sujeito comum que veste essa fantasia.

Já são quatro da tarde e o dinheiro do almoço que Naziazeno tinha em mãos se foi na tarifa dos bondes que ele tomou atrás da solução de seu problema. Fica a espera da saída de um amigo no seu trabalho para pedir-lhe uns trocados para almoçar.

O que pode ser mais identificável do que a fome de meio da tarde de um sujeito que ainda não almoçou?

Pior, o que é mais identificável que um sujeito sonhando com a riqueza a partir de uma quantia mínima de 10 mil réis?

Podemos perguntar à Betina, que, segundo a publicidade da Internet, fez seus 1.500 reais virarem 1 milhão e meio; ou aos tantos “coach’s” e consultores de investimento que enchem nossos ouvidos nos dias atuais. Naziazeno resolve transformar a pequena quantia do almoço emprestada por um amigo na oportunidade de ganhar a fortuna de sua vida na roleta. “É isso que faria o Duque”, pensa ele.

O jogo anuncia a sorte do pobre homem, não só tira a quantia que precisa pra pagar o leiteiro, mas ganha mais e mais, parece que nunca perderá - aquele é o seu dia de sorte, pensa consigo - até que arrisca tudo e perde. Não tinha nada, mas perdeu tudo. Lembra-se do rosto da mulher, triste em casa lhe esperando para esquentar o almoço. Não pode voltar de mãos vazias, a coisa já tinha tornado-se pessoal, já havia saído por aí anunciando sua dívida, seu compromisso com a esposa e os filhos. Um lapso da memória ancestral do caçador/coletor primitivo causa-lhe calafrios, mas ele não pode simplesmente matar um animal qualquer e levar até a sua casa, pelo menos não na Porto Alegre dos anos 30. São pouquíssimos anos de civilização, mas o extinto puro de quem tem fome não é mais bem visto, a barbárie só pode ser justificada através de movimentos “intelectualizados”, e por quem pode com o valor convencionado do dinheiro interferir nos valores simbólicos da justiça e da moral. Não é o caso de Naziazeno.

Precisa honrar a dívida, com o estômago ainda vazio, ir atrás do dinheiro do leiteiro. É assim que o caçador/coletor civilizado resolve os seus problemas. Corre ainda atrás dos amigos. Surge a figura do ricaço amigo do Duque, um homem que não pode ajudar-lhe, claramente, porque não quer - porque gente como Naziazeno são os ratos de seus pesadelos mais macabros. Porque a riqueza da década de 30 (assim como a de hoje) não vem de outro lugar se não da exploração… dar alguns trocados ao pobre funcionário público significa admitir essa culpa.

Naziazeno resolve o seu problema, consegue pagar sua dívida e retornar a sua família, mas o ricaço fica no meio do caminho do romance de Dyonélio, porque não existe lar ao qual possa retornar e, mesmo que ele tivesse uma família, não conseguiria olhar nos olhos dos próprios filhos sem enxergar os mesmos ratos. O homem poderia simplesmente dar à quantia a Naziazeno, não lhe faria falta alguma, ele não o faz - porém segue acompanhando as andanças de Naziazeno e seus amigos atrás da quantia, porque existe, para ele, algo de entretenimento nisso tudo.

Quem resolve os seus problemas é o Duque!?

E isso faz com que o amigo ganhe ainda mais moral na imaginação de Naziazeno, mas Duque não faz mais do que arranjar um empréstimo a partir de um penhor, logo logo Naziazeno terá de perambular novamente para pagar a nova dívida - e não o fará de outra forma senão adquirindo uma nova, mas nesse meio tempo Naziazeno volta para casa com a dignidade restaurada, o que não é o caso do ricaço, do Duque, do diretor da repartição, ou de qualquer outro personagem que tenha encontrado no caminho. Todos seguem afoitos pelos próximos lucros, cobranças e ganhos; mas eles não devem nada para ninguém.

Naziazeno, que era para todos estes rato, sonha com os ratos comendo o dinheiro do leiteiro, no momento mais brilhante do romance.

Sonha com ratos de verdade porque não consegue enxergar seus semelhantes como ratos, porque ele próprio acredita que, se existe rato entre eles, só pode ser ele - atrás de uns trocados para pagar o leiteiro. Incapaz de perceber o que se esconde por trás da benevolência de Duque que, no fundo, só resolvera o seu problema por status, do amigo que penhorou seus bens apenas para fazer de Naziazeno alguém que com ele tem dívida moral, ou do senhor da casa de penhores que só o ajudara fora de seu expediente porque os ganhos lhe pareciam devidos.

“Os Ratos” tem toda essa importância porque fala de um dia comúm na vida de um funcionário público qualquer, dentre outros tantos dias iguais a este, dentre tantos outros Naziazenos pelo Brasil desde que este se fez colônia portuguesa. Hoje, mais do que nunca, essa parcela da população representada pela personagem de Dyonélio vai vendo aos poucos os seus direitos básicos serem roídos por ratazanas de castas distantes, e ainda ouvem por aí as vozes acusando sua indignidade.

Naziazeno não pediu pra nascer, e um dia morrerá sem aviso prévio.

Enquanto esse dia não chega, ele tem de sentir-se indigno sempre que se vê incapaz de cumprir qualquer espectativa social que recaia sobre ele.

Um ano após o lançamento do romance, Dyonélio Machado recebe o prêmio Machado de Assis de dentro de uma penitenciária, como preso político. Os militares da ditadura Vargas entendiam como subversiva essa revelação trazida pelo romance, de que um dos grandes problema do Brasil é que nos ensinaram a enxergar ratos nos rostos errados.