As cinco melhores coisas de 2019

Eu escrevo essas listas de “melhores do ano” desde 2015 para o PCM, e muita coisa mudou nesses quatro anos por aqui. Minhas ideias sobre o que o site é e a finalidade daquilo que eu escrevo por aqui foram algumas dessas coisas. Quando a gente criou o blog, lá em 2014, ele servia como um espaço para fazermos resenhas daquilo que a gente gosta para recomendarmos uns para os outros.

Hoje, nesse final de 2019, só eu fiquei dos autores originais, e eu vejo menos finalidade em resenhar coisas. Resenhar é escrever sobre o futuro — porque você deve ler/assistir/ver algo. É sobre te dizer como gastar seu tempo com quais livros ler, quais séries maratonar, etc. Eu não sei se eu tenho esse poder, de dizer onde você deve se dedicar. Tem tanta coisa boa por aí, e certamente eu quero que mais pessoas descubram aquilo que eu gosto. Mas, também, acho que o espaço do PCM como um lugar para resenhas é cada vez menos relevante. As pessoas já sabem o que querer assistir e jogar. Eu acho mais interessante ler sobre o passado — o que aquilo que eu gostei significa, como ele me fez sentir. É menos “no que você precisa prestar atenção” e mais “o que a nossa atenção significou naquele momento”.

Um dos lugares onde esse novo tipo de reflexão mudou minha maneira de escrever é nos rankings de fim de ano. Em 2015, eu achava que ao rankear as melhores coisas daquele ano eu traçava um panorama do que havia de melhor na cultura. Hoje eu sei que a) isso é burrice, eu só sou capaz de dar atenção pra uma pequena parcela de tudo o que é feito por aí; b) que falta de humildade, Arthur; e c) é muito mais interessante pra mim, hoje, perceber o porquê de eu ter gostado de algo, mais do que tentar te vender um motivo pra gastar o seu tempo com algo.

Então aí estão as cinco coisas que eu mais gostei de ter experimentado esse ano — de álbuns de artistas que eu nunca dei bola antes até filmes de diretores que eu amo que resolveram voltar com tudo. Sem rankings, sem grandes declarações. Se você não gostar de alguma dessas, tem outras vinte e cinco dicas para você substituir com a que gostar mais.

A gente se vê na próxima quarta, com uma lista muito especial pra fechar o ano (e a década).


The Best of a Bad Situation me deixou mal. É um texto gigante sobre a nova ascenção do facismo, o colapso ambiental, e a incapacidade da sociedade de sacrificar o luxo por um futuro. Mas foi uma das coisas que mais me marcou nesse ano — um ensaio sobre o estado das coisas, um exercício em tentar relacionar a grande depressão contemporânea da sociedade com a crise financeira e com a mudança climática. Não é uma tarefa fácil, mas a carta dos editores da n+1 entrega. E ficou na minha cabeça desde então.

É daqueles textos que conseguem enxergar o mundo, capturar toda aquela complexidade dos nossos problemas sem diminuí-los à uma fórmula, e sem torná-los abstratos ao ponto de não significarem nada. É como a terceira temporada de Serial, de enxergar um panorama grande o suficiente mas sem esquecer que ele é feito pelos detalhes. The Best of a Bad Situation não vai ser fácil de ler, mas foi necessário nesse ano tão confuso e caótico, porque conseguiu identificar esse caos, me fazer entender ele melhor. Pode não ajudar em nada para resolver os problemas que ele observa tão bem, mas ao ajudar a decifrar esse emaranhado da vida contemporânea ajuda a tornar ele menos corrosivo na nossa mente, para que seja mais fácil de enxergá-lo com nossos olhos.

Aproveite e clique também:


O melhor disco: Remind me Tomorrow (Sharon van Etten)

Eu não sei escrever sobre música, então deixo aqui o texto de Cleber Facchi, do Miojo Indie, sobre o meu disco favorito desse ano:

Primeiro álbum de estúdio da cantora em cinco anos, Remind Me Tomorrow (2019, Jagjaguwar) é um registro inteiramente montado a partir dessas pequenas confissões e retalhos sentimentais. Do momento em que tem início, em I Told You Everything (“Sentada no bar, eu te contei tudo / Você disse: ‘Puta merda, você quase morreu’ / Compartilhando uma bebida, você segurou minha mão“), até alcançar a derradeira Stay (“Não quero te machucar / Não quero fugir de mim mesma / Quer que a sua estrela brilhe“), delicada homenagem à própria filha, são memórias de um passado ainda recente que embalam a poesia contemplativa, sempre precisa, de Etten, como um delicado resgate das experiências e recordações vividas pela artista.

Aproveite e escute também:

  • Homecoming: The Live Album (Beyoncé)
  • Humana (Fafá de Belém)
  • Normal Fucking Rockwell! (Lana Del Rey)
  • Watchmen (Music from the HBO Series) (Trent Reznor & Atticus Ross)
  • When I Get Home (Solange)

O melhor filme: Pássaros de Verão (Ciro Guerra e Cristina Gallego, 2018)

Vários dos meus diretores favoritos voltaram com filmes excelentes em 2019. O Karim Aïnouz trouxe A Vida Invisível, um dos filmes mais lindos que eu já vi; James Gray realizou meus sonhos com Ad Astra; Martin Scorsese faliu a Netflix com o magnífico O Irlandês (e tem o La Flor, que eu não coloquei aqui, que merece um destaque à parte um dia desses).

O melhor filme que eu vi esse ano, porém, foi uma aposta. Eu amo O Abraço da Serpente, o filme anterior do Ciro Guerra, mas não sabia se ia gostar desse épico de máfia no interior da Colômbia que também é sobre colonialismo contemporâneo, o extermínio dos povos indígenas, o poder da ancestralidade e o mistério da Terra. Pássaros de Verão cria uma tragédia shakespeareana no meio de um confronto entre famílias indígenas no coração da cultura colombiana, e identifica como as histórias que nossos ancestrais contam são muito mais parecidas com os grandes épicos do que imaginamos. É lindo (ele explode em cor (e sangue)), é gigantesco e muitíssimo emocionante, e um dos mais poderosos filmes que eu já vi.

Aproveite e veja também:

  • Ad Astra (James Gray, 2019) — indo pra Blu-ray e DVD.
  • Atlantique (Mati Diop, 2019) — na Netflix.
  • A Vida Invisível (Karim Aïnouz, 2019) — nos cinemas!
  • Em Trânsito (Christian Petzold, 2018) — no Looke, iTunes e Google Play.
  • Parasita (Bong Joon-ho, 2019) — nos cinemas!

O melhor jogo: The Touryst (Shin’en Multimedia, Nintendo Switch)

Eu joguei poucos jogos grandes em 2019. Com o Apple Arcade e os indies atacando o Nintendo Switch, eu passei muito do meu tempo nos últimos meses jogando experimentos estranhos de desenvolvedoras pequenas. Só semana passada que tive a chance de passar umas horas com o Death Stranding no PS4 da minha irmã, por exemplo.

Mesmo assim, nenhum outro jogo me ofereceu algo tão bacana como The Touryst. Longe de um pequeno indie e longe de uma super produção AAA, o jogo da Shin’en é uma daquelas raridades que aparecia no Xbox Arcade e no WiiWare das gerações passadas. É um jogo completo, mais do que um experimento de jogabilidade; que não tenta ser muito mais do que sua premissa básica. The Touryst é um jogo narrativo de exploração em que você viaja para um arquipélago de ilhas paradisíacas e descobre um segredo por lá. O que torna Touryst tão bom é a sua qualidade técnica: é uma execução impecável de um jogo em um gênero já comprovado. A Nintendo engasgou o Switch com Link’s Awakening, e o pessoal da Shin’en usou The Touryst para mostrar como se faz. É um jogo extremamente bem polido (que saudade de jogar algo que funciona desde o início?!!?!? Fazia tempo demais), charmoso e que coça aquele cafuné gostoso de um dos meus gêneros favoritos. (Site oficial)

Aproveite e jogue também:


A melhor série: Succession (segunda temporada, HBO)

Que ano pra TV, hein? Em 2017 eu ficava empolgado com quanta coisa boa tinha pra assistir na TV. Esse ano, tem tanta coisa pra assistir que é difícil não se sentir oprimido pelo número de opções, mas também tá muito fácil de achar séries fenomenais. Eu nunca achei que ia assistir algo tão… perfeito? quanto a segunda temporada de Fleabag; ou veria uma observação tão bem feita do colapso do ser humano quanto em Chernobyl; e é totalmente injusto a HBO entregar uma das melhores séries da década nas últimas semanas do ano (ei, Watchmen).

E tem Succession, o assunto do pior texto que eu escrevi no PCM esse ano. A Vulture apontou que a série é uma mistura de Rei Lear do Shakespeare com Arrested Development e talvez essa seja a melhor descrição da série, em que uma família de ultramilionários donos de uma mega-corporação ficam de picuinha uns com os outros, pro horror das milhares de pessoas que estão sujeitas ao poder delas. Essa temporada em Succession, porém, se voltou para os conflitos internos da família dos Roy mais do que sua influência no país e na sociedade que os cerca; e criou um dos melhores retratos da tragédia que é o ciclo de abuso do patriarca Logan pelos seus filhos, e como eles perpetuam esse abuso com o resto do mundo. É uma grande observação dos homens que estão no poder hoje em dia, rindo da pequenez da vida deles mas com um olho na desgraça que eles podem causar se rimos dos seus erros. (HBO GO)

Aproveite e assista também:

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