Praia de Manhattan é excelente (e sem muitas surpresas)

Fiquei surpreso quando fui conferir os arquivos do Pão com Mortadela e percebi que nunca recomendei meu livro favorito dos anos 2000, A Visita Cruel do Tempo. Escrito por Jennifer Egan, o livro (vencedor do Pullitzer de 2011) é dividido em treze capítulos, cada um contando a história de uma pessoa levemente relacionada à anterior: começamos com uma mulher na terapeuta, discutindo suas tendências cleptomaníacas; depois acompanhamos seu chefe; depois, a madrasta dos filhos desse chefe; e assim por diante. Cada capítulo de A Visita Cruel do Tempo é estruturado de uma maneira diferente (um é em primeira pessoa, outro parece um artigo científico, tem um que é uma apresentação de PowerPoint), e narra um momento específico — no final, você acompanhou dezenas de pessoas durante quarenta anos, e viu o tempo passar diante dos seus próprios olhos. É um livro absurdo de tão bom.

A Visita Cruel do Tempo é exibido, também. É uma obra-prima de uma autora completamente ciente das suas habilidades como escritora, no domínio completo de sua prosa. Como Egan ia continuar, depois de um feito tão grandioso assim?

A resposta é Praia de Manhattan (Intrínseca), um livro que troca a estrutura ambiciosa de A Visita Cruel do Tempo por um outro tipo de ambição: a de grandes clássicos do romance americano.

Em A Visita Cruel do Tempo, cada capítulo era protagonizada por um personagem diferente mas, na periferia, todos tratavam indiretamente sobre Sasha, a personagem que abre o primeiro capítulo do livro. Seja um momento de breve conexão entre ela e outro personagem, ou apenas um mergulho no passado de uma pessoa que ela gostou. Em Praia de Manhattan, porém, a protagonista é Anna, uma criança crescendo durante a Grande Depressão com seus pais e sua irmã mais nova, Lydia, que precisa da ajuda da mãe para sentar e não consegue falar. A mãe de Anna é totalmente devotada à filha caçula; já o pai, Eddie, ama Anna — mas sente repulsa de Lydia. Um dia, Eddie — que trabalha como mensageiro entre gangues na Nova York dos anos 1920 — desaparece, e as três mulheres são deixadas sozinhas para sobreviver em meio à crise e às guerras que estão para acontecer.

O livro pula para anos depois, quando Anna, já adulta, lentamente escala na hierarquia do exército até ser uma mergulhadora durante a Segunda Guerra Mundial. É quando Anna começa a se aproximar de um antigo companheiro de negócios do pai, o que começa a atingir sua vida em uma complexa situação paternal.

Diferente de A Visita Cruel do Tempo, Praia de Manhattan segure seus acontecimentos, na maioria das vezes, de uma maneira mais direta e convencional. Mas Praia… é igualmente poderoso em representar a passagem do tempo — talvez o grande personagem central de A Visita… —, e como Anna, sua mãe e seu amante encontram forças para continuar vivendo enquanto o tempo passa. Como viver sabendo que vamos envelhecer, morrer, e as pessoas que nos dedicamos durante nossa vida — quem amamos, e quem somos responsáveis por — também vão envelhecer e morrer?

É em Lydia, a irmã mais nova, que o tempo parece não agir em Praia de Manhattan, e quem Anna vê como uma luz contra a força desse tempo cruel. Lydia, é claro, envelhece e, quando encontra o mar da praia que dá título ao livro, deixa que o tempo passe por ela todo de uma vez, contra todos os anos em que ele parece ter ficado parado. É um dos momentos mais lindos já escritos por Egan, e o único momento em que ela permite que sua prosa chame atenção para si mesma, em uma espécie de poesia e monólogo de uma pessoa que viveu em silêncio, finalmente tendo a chance de amadurecer.

Já Anna, nosso veículo para contemplar a passagem do tempo em Praia de Manhattan, está sempre seguindo em frente, como uma pessoa teimosa enfrentando uma tempestade de areia no deserto. A prosa de Egan parece ser transparente quando acompanha a personagem, com uma elegância observacional que faz o leitor perceber o tempo por causa da especificidade das observações de Anna — como anda a sua amiga, como uma lembrança se esvaece na sua mente, como a memória de seu pai muda de acordo com os anos. Mas aqui, a prosa mais direta de Egan, ao contrário da complexidade de A Visita Cruel do Tempo, permite que o leitor mergulhe na mente de Anna, e não a observe de longe. Em um momento chave de Praia de Manhattan, Anna descreve mergulhar “como voar, como mágica — como se estivesse dentro de um sonho”. É como o mergulho no mar de um tempo que se dissolve na areia da praia. O acontecimento some, mas dá um frio na espinha só de lembrar que ele aconteceu.

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