Bons filmes de ficção científica são mestres em simbologia. Blade Runner questiona a nossa busca por conhecer Deus — e a decepção que isso pode nos causar; 2001: Uma Odisséia no Espaço (talvez o filme com mais simbolos na história) é sobre a relação entre o humano e suas ferramentas (entre outras coisas, mas basicamente isso). A Chegada, novo filme do premiado diretor canadense Denis Villeneuve, não é diferente.

A Chegada começa quando doze grandes naves em forma de concha (lindas, aliás) chegam na terra e ficam lá, flutuando. Em uma delas a nossa personagem principal, a linguista Louise Banks, tem o mais complicado dos desafios: aprender uma linguagem extraterrestre que não respeita nenhum conceito lógico humano, e descobrir o que eles fazem ali.

Já pegou a ideia, né? A Chegada se passa, basicamente, na câmara de uma dessas naves, em que Louise tem algumas horas ao dia para estabelecer contato, e aprender com, os alienígenas que ficam no outro lado de uma parede branca. Um filme que basicamente aponta uma câmera pra uma parede branca e consegue criar lindas imagens com isso, inclusive, já seria excelente. Mas A Chegada não se contenta só com suas belíssimas imagens ou belíssima trilha-sonora. Como toda a ficção científica, ele está ali pra refletir, naquela situação absurda, algo nosso.

A Chegada olha nem sequer para nosso estado como sociedade, olha para o espaço entre nós. Aquilo que nos faz se comunicar — o nosso impulso por aproximação, por troca de experiência. O grande mistério de A Chegada não é o que os alienígenas querem no planeta, mas descobrir como fazer essa pergunta da maneira correta. A forma como o roteiro apresenta isso, fazendo com que o espectador aprenda, junto com Louise, expressões em uma determinada ordem específica da linguagem alienígena, é magistral. É o que nós fazemos em frações de segundo no nosso cérebro em quase todas as situações da nossa vida: como formular o que eu quero dizer na melhor maneira possível para passar exatamente o que eu quero dizer, literal e figurativamente.

Denis Villeneuve, um bom diretor que anda fazendo coisas muito boas com o passar dos anos (o muito bom Sicario: Terra de Ninguém é dele), aproveita para se esbaldar. O filme desdobra uma história simples, porém muito potente, de maneira soberba. É quase fácil ignorar alguns furos que o roteiro apresenta na sua metade. Isso porque A Chegada entende um conceito primordial: a linguagem molda a percepção de nossa realidade. Todos vivemos no mesmo mundo, mas os pedaços com os quais moldamos nossa percepção sobre ele, sobre os fatos ao nosso redor, dependem não só de como formamos palavras, mas também do que elas representam. Todos os humanos sentem saudade, por exemplo, mas só a língua portuguesa tem uma palavra para expressar tal sentimento. É esse fato deslumbrante do mundo, de como percebemos ele e de como isso afeta absolutamente tudo em nossas vidas que interessa A Chegada. E por isso ele é um grande filme.


A Chegada (Arrival, 2016) ainda está nos cinemas, corre pra ver! Ele é um dos favoritos pros prêmios técnicos do Oscar. Eu particularmente torço pra Amy Adams levar algo.