Existe uma grande probabilidade de que Snowden, o filme que Oliver Stone dirige sobre a revelação do sistema de vigilância global da NSA que espionou centenas de milhares de meios de comunicação de civis internacionalmente, seja uma dramatização bem menos empolgante que Citizenfour.

Não que Stone não seja capaz de criar drama e tensão (embora eu não ache ele lá muito bom nisso). O fato é que Citizenfour, o documentário de Laura Poitras que revela em primeira mão os detalhes de como foi feita a revelação de Snowden para os jornalistas e documentarista que ele escolheu a dedo, é um filme da mais alta qualidade.

Um dos fatores que mais contam a favor de Citizenfour é que ele é um estabelecedor de notícias. O que vemos na tela é o relato em primeira mão de Edward Snowden ao jornalista Glenn Greenwald e à própria Poitras. É como, a partir dali, as informações dadas por ele ganhariam as manchetes mundiais. Citizenfour é uma oportunidade única de poder assistir a história sendo escrita.

O que torna Citizenfour um grande filme, porém, é que ele não é satisfeito em apenas documentar um evento histórico em primeira mão, na primeira fila. Poitras não se restringe a filmar e captar o som. Com Citizenfour (bem como seus excelentes documentários anteriores O Juramento e My Country, My Country) ambiciona mais que ser uma das interlocutoras do maior caso de liberdade civil da história recente, e cria um thriller meticulosamente construído que sangra no cotidiano das vidas que ela usa como cobertura para a entrevista que duraria dias no quarto 1014 em Hong Kong.

Citizenfour não faz com que o perigo da situação que ele exibe — o vazamento de informações de grande valor para um dos organismos mais seguros do governo americano — se restrinja a Snowden, Poitras e Greenwald. Exibindo cabos, computadores, celulares e hashs de encriptação, Poitras torna a ameaça tão pervasiva ao espectador quanto ela acredita ser para ela. Filmando Snowden com um ar sereno, calmo e disciplinado, Citizenfour não o pinta nem como herói nem como traidor. Em um dos maiores acertos de um filme que praticamente não erra, Citizenfour exibe seu principal personagem como um homem que age pelo princípio de imaginar estar fazendo o que é correto.

Em uma bela peça de acompanhamento do também excelente A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty, de Kathryn Bigelow), Citizenfour vê o mundo com ameaças invisíveis e poucos lugares onde se sentem seguros. Por isso a força de ver Snowden, ao final do filme, em uma casa com sua parceira, ou Greenwald com seus cachorros no Rio de Janeiro; ou a diretora em sua cidade adotiva, em Berlim. Ambos não estão parados, porém, porque o filme implica que a batalha para retomar liberdades básicas ainda não acabou para eles. E, como a última cena do filme implica, não acabou para nós também.

Citizenfour pode ser assistido na HBO Go.