O que fazer depois de realizar um álbum praticamente perfeito, que redefiniria tudo o que se escuta nas pistas de dança dali em diante? O Daft Punk demorou doze anos, mas finalmente encontrou em Random Access Memories não só um verdadeiro sucessor para seu impecável Discovery, mas uma perfeita definição daquilo que o duo sempre foi.

Não ache que Random Access Memories se resume em homenagear aqueles que ajudaram, através de referências ou até mesmo através da composição, o Daft Punk a ser o que é hoje. Não é só de uma homenagem aos mestres dos anos ’70 e ’80 que RAM se forma, mas em uma ressignificação de como o Daft Punk faz sua música.

O que RAM faz é colocar o duo francês em seu lugar de direito. Se em Discovery ouvimos como o eletro chega na perfeição, e como o que eles nos indicaram ali seria amplamente copiado e repetido durante toda a década seguinte, ressonando não só no eletro mas também no funk, no rap e até mesmo no rock e no blues; o Daft Punk precisaria de Human After All para comprovar que aquele álbum era um evento, algo que não se repitiria, nem que eles quisessem (e eles tentaram, depare-se com os samples de Technologic, por exemplo). Por isso, Random Access Memories não se faz sozinho. O Daft Punk se uniria aos mestres Giorgio Moroder, Todd Edwards, Nile Rogers, Paul Williams e Chilly Gonzáles; além de unir-se aos talentosos Panda Bear, Pharell Williams (que parece estar dominando o mundo), DJ Falcon e o nunca suficiente Julian Casablancas.

Os nomes são impressionantes. Não só pioneiros e excelentes músicos, o time que se une ao Daft Punk é um apinhado selecionado de talento e inovação. Não é a toa, porém, que são chamados de colaboradores. Com o poder que o duo atingiu, sendo alvo de cópias incessantes e de “homenagens” mundo afora, o Daft Punk não está abaixo dos elementos formadores da música eletrônica. Pelo contrário, como eles conseguem comprovar com a excelente introdução “Give Life Back To Music”, a grudenta “Instant Crush”, a melancólica e grandiosa “Touch”, a dançante “Love Yourself to Dance”, o manifesto “Giorgio by Moroder”, o hit perfeito “Get Lucky” e até mesmo a auto-homenagem, com “Contact”.

Random Access Memories é um catálogo da força, da referência e do talento do Daft Punk. É um álbum não para mostrar de onde ele veio, mas onde ele chegou: ao lado de gigantes da música, os robôs entregam não só uma das músicas mais características de seu tempo, como também um álbum tão auto-ciente e suficiente. Um conjunto de habilidades tão bem formulado e tão delicioso de ouvir, que torna Random Access Memories não seu melhor ou mais importante álbum, mas aquele que finalmente nos mostra a voz dos robôs.

Se a primeira música do álbum é um hino de sua missão, ao final de “Contact” podemos constatar o quão paradoxal é que precisamos dos “robôs” da eletrônica para termos, enfim, vida na música de novo.