Tarantino é um ótimo diretor. Com uma carreira enxuta, ele conseguiu definir uma marca pessoal forte, seja visual ou narrativamente. Seus filmes são belos de seu próprio jeito, sujos e prolixos. Por trás deles, porém, existem personagens cativantes que nos fazem torcer por eles, mesmo os mais amorais. A noiva vingadora de Kill Bill, por exemplo, ou a trupe de judeus enlouquecidos de Bastardos Inglórios. Tarantino trata de temas polêmicos com uma simplicidade e uma eficácia surpreendente — vide a forma honesta, engraçada e ao mesmo tempo perturbadora que ele emprega em Django Livre, seu filme anterior.

Django Livre, porém, também exibia um problema. Seu último ato mostrava claros sinais de arrasto, de masturbação constante. Ele era, afinal de contas, um exercício do próprio diretor. Uns bons quarenta minutos que poderiam ser resolvidos de uma melhor forma. Era divertido, também, então dava pra dar um desconto. Os Oito Odiados, seu novo filme que estreia amanhã nos cinemas brasileiros, não dá pra dar um desconto.

Como todo filme de Tarantino, Os Oito Odiados reúne um excelente elenco, afiadíssimo, atirando diálogos muito bem escritos em uma trama primariamente simples, mas bem amarrada. Isso é verdade nesse seu oitavo filme. Empregando as lentes Ultra Panavision 70mm, a equipe reunida por Tarantino cria imagens embasbacantes, que infelizmente não podem ser conferidas em todo seu esplendor aqui nos multiplexes brasileiros. Mesmo assim, o que vemos aqui é soberbo. Cenários grandiosos como nos bons faroestes, muito gelo e muito close. Tarantino quis ousar tanto nesse meio (a Ultra Panavision não era usada há décadas, o que só dá valor aos roadshows em que o filme está sendo exibido nos EUA), que decidiu não perder muito tempo filmando paisagens gigantescas — imagens das quais o Ultra Panavision realmente dá diferença — e decide buscar, dentro dos ambientes fechados em que a maior parte do filme se passa, verdadeiras paisagens inteiras.

Nem sempre funciona. Os Oito Odiados tem closes que parecem um tanto estranhos, enquanto outros parecem magníficos. Como a cópia que eu assisti era em DCP, podem até culpar o formato (mas, convenhamos, hoje em dia isso é desculpa). O fato é que o filme continua belíssimo, independente de onde você o assiste. Ele também é essencialmente divertido. O problema é que ele derrapa, e derrapa bastante, muito cedo.

Os Oito Odiados reúne oito personas deploráveis em uma cabana. Os caçadores de recompensa e uma mulher procurada se protegem em uma cabana contra uma nevasca, e aí inicia-se uma grande narrativa de traições e vinganças, como é de praxe no cinema de Quentin Tarantino. O problema é que, diferente de seus melhores filmes (e até mesmo dos não tão bons), aqui essa trama não segura as pontas. Os Oito Odiados pesa as suas quase três horas de duração, se perde em tentar tratar sobre alguma coisa e, mais importante, não consegue fazer você se importar com aqueles personagens — algo inédito na carreira do diretor.

O que é um tanto triste. Os Oito Odiados tinha tudo pra ser um dos melhores filmes de Tarantino, mas o diretor tenta tanto fazer tantas coisas de forma tão grandiosa, que se perde na essência. É ainda um filme divertido e com sacadas bacanas, mas lá pela metade você já pouco se importa com o rumo deles, e quer que o mundo pegue fogo de uma vez por todas, como você sabe que vai acontecer num filme tipicamente tarantinesco. É um peso na mão e um excesso de exagero que provocam a maior derrapada de Tarantino em sua carreira. Vale a pena ser visto? Vale, mas o filme também é um aviso: Tarantino está subindo a cabeça com seus trejeitos, e começou a derrapar. Se ele apostar mais alto na próxima vez, eu não duvido que ele caia.


Os Oito Odiados (The Hateful Eight). 2015. Dirigido por Quentin Tarantino. Em exibição nos cinemas em todo o país a partir de 7 de janeiro.