2016 não foi lá um bom ano no geral. Aqui com os padeiros também. Eu e a Thai tivemos um ano puxado e frustrante, e acabamos não conseguindo dar toda a nossa atenção ao nosso querido :bread:. Nós esperamos que 2017 seja melhor, e por isso vamos voltar com as dicas diárias na primeira segunda-feira do ano, dia 2 de janeiro.

Pra fechar esse ano, então, vamos pra nossa listinha dos cinco melhores do ano? Isso. Como no ano passado, o nosso top do ano aceita apenas cinco itens: um filme, um álbum, um livro, um jogo e uma série de tevê; e a gente rankeia eles pela ordem da nossa preferência. Pra entrarem na escolha, eles precisam ter sido ou a) lançados esse ano, ou b) experimentados pela primeira vez por nós esse ano. Nota do editor: já estamos prevendo mudanças nessas regras básicas no ano que vem, aguarde as novidades depois das férias. Além dos cinco selecionados, vamos colocar os correndo por fora, com outras excelentes escolhas que brilharam esse ano.

Vamos começar?

5. O melhor álbum: Lemonade.

Que Beyoncé está colocando seu plano de dominação mundial em prática, todo mundo já sabe, mas o que a gente podia não esperar é que seu próximo passo fosse algo tão grandioso e pessoal como seu novo “álbum visual”, Lemonade.

Beyoncé navega no seu álbum mais coeso nessa sua fase mais madura que começou no autointitulado de 2013, explorando diversas vertentes da história da música norte-americana na excelente “Daddy Lessons”, gritando suas agonias em “Freedom”, ou dando seu grito de guerra em “Formation”. 2016 pode ter sido o ano de eventos fatídicos por aqui, Lemonade dá uma ponta de esperança de que, em tempos agoniantes, a arte estará lá para expressar nossos medos e nossa vontade de lutar. Se a vida nos dá limões, aprendemos a fazer limonada. Se a vida dá agonia à Beyoncé, ela faz sua obra-prima.

Compre Lemonade aqui.

Também consideramos: Blackstar (David Bowie); A Moon Shaped Pool (Radiohead); You Want It Darker (Leonard Cohen); Skeleton Tree (Nick Cave & the Bad Seeds); Blood Orange (Freetown Sound).


4. O melhor jogo: Firewatch.

Poucos jogos conseguem o efeito absorvente e imediato de um conto. Primeiro, porque eles tendem a ser longos; e segundo, porque a narrativa nos jogos ainda cai no sobrenatural, na aventura e na grandiosidade. Poucos jogos buscam pequenas coisas, pequenos confrontos e pequenas jornadas. Os que fazem isso, como Gone Home e Dear Esther, são bem específicos: são jornadas de um personagem através de um ambiente, geralmente recompensados pela sua destreza na hora de descobrir objetos escondidos ou de acessar certos lugares.

Firewatch, o jogo de estréia da Campo Santo, é um desses jogos que te prendem imediatamente, e te faz absorver na pele de Henry, um homem de meia-idade que vai para o meio de um parque ambiental após uma tragédia pessoal. Lá, ele conhece Delilah, também guarda ambiental. A jornada de Firewatch é, porém, bastante simples: a história do relacionamento de duas pessoas que passaram por alguns maus bocados e decidiram se isolar no meio da mata. Quando eles percebem que alguém está ouvindo as conversas (que crescem em intimidade), eles começam a especular o que poderia ser. Firewatch não foge da realidade, como qualquer outro jogo faria: não há um plano maléfico por trás, não há uma grande trama envolvendo o estado (embora os comentários sobre a NSA estejam ali). É apenas a história de duas pessoas, imperfeitas como qualquer outras, e não de bonecos animados com alguns bugs. Se existe algum elogio melhor para um jogo, eu não saberia dizer qual é.

Compre Firewatch aqui.

Também consideramos: Kentucky Route Zero, Act IV (Cardboard Computer); The Last Guardian (Sony Computer Entertainment); Neighbor (Cardboard Computer); Inside (Playdead); Battlefield 1 (Electronic Arts); Pokémon Sun & Moon (Nintendo).


3. A melhor série: Halt & Catch Fire.

2016 foi consideravelmente mais fraco na TV do que 2015, mas três séries conseguiram aumentar ainda mais o nível nessa temporada: The Americans e Veep elevam já grandes séries a níveis impecáveis, mas Halt & Catch Fire, depois de uma segunda temporada fantástica, encontra em seus terceiro ano a força ideal.

Quando eu vejo uma grande série de TV, como The Leftovers ano passado, eu tenho a seguinte impressão: de que é a melhor coisa que a TV fez esse ano, e que caralho eu queria arrombar a tua casa e ligar tua TV nessa série pra dar mais audiência.

Deixando apra trás os ecos que a tornavam uma Mad Men sobre o Vale do Silício, Halt & Catch Fire olha para os primeiros dias da Internet para tentar compreender a sociedade que nós formamos hoje. A série captura com perfeição o medo e a excitação de um mundo conectado, o sexismo no mundo do empreendedorismo e da tecnologia e como o ramo tenta buscar nos gurus das empresas verdadeiros filósofos. Seja 1986 ou agora, não há nada mais humano do que querer mudar, querer fazer a diferença. Não há nada mais poderoso do que o medo de mudar, também.

Também consideramos: The Americans (FX); Veep (HBO); Westworld (HBO); High Maintenance (HBO); The Night Of (HBO); Insecure (HBO); Atlanta (FX); The People v. O. J. Simpson: American Crime Story (FX); BoJack Horseman (Netflix); Silicon Valley (HBO).


2. O melhor filme: Aquarius.

Não existe nada tão monumental como Aquarius no cinema esse ano. Foda-se, sinceramente, sua visão política. Quando um filme é tão bem dirigido, escrito, atuado, fotografado, sonorizado e montado como Aquarius, em que a linguagem cinematográfica tá tão plenamente na tela, presente para o espectador, é impossível negar: esse é um dos grandes filmes do cinema.

E, para todos os efeitos, Aquarius é. Eu ainda não vi Toni Erdmann, que muitos consideram o grande filme do ano, mas a magnetude que Aquarius atinge em cada cena, em cada fotograma em tela, é surpreendente. Em um filme, que viaja pela música brasileira de forma sublime, tão preocupado em registrar a memória, o nosso bem mais pessoal e mais inatingível, Kleber Mendonça Filho extrapola as qualidades do seu cinema, já apresentados em O Som Ao Redor, em um filme de força, que revela não só os percalços do brasileiro no dia-a-dia, nossa luta contra o nosso próprio preconceito, mas também contra um sistema que visou, por tanto tempo, lutar contra a igualdade. Aquarius é um manifesto, sim, mas também é um tour-de-force para Sônia Braga, que toma o filme para si e transforma Aquarius na obra-prima que é. Aquarius pode ser sobre qualquer problema do Brasil hoje em dia, mas antes de tudo, é um filme sobre Clara. E Clara, que escuta tanto Queen quanto Gilberto Gil, representa muito mais esse país que um homem que tem medo de sair na rua pra ser vaiado. Que Aquarius, em todo o seu monumento ao cinema e à memória, viva para sempre na história.

Compre Aquarius em blu-ray ou em DVD.

Também consideramos: O Abraço da Serpente (Ciro Guerra); A Bruxa (Robert Eggers); A Chegada (Denis Villeneuve); Cemitério do Esplendor (Apichatpong Weerasethakul); Looking: O Filme (Andrew Haigh).


1. O melhor do ano: O Coração é Um Caçador Solitário.

Eu li muito em 2016, pra te falar a verdade. Não foi o meu ano mais produtivo, não foi o ano em que eu me dediquei mais naquilo que eu me interesso, mas eu li. Eu li muito, eu tirei meu atraso de anos, e isso me fez bem. Ler, ainda, é o melhor remédio. E, de todos os livros que eu li, eu tive certeza na primeira página qual foi o melhor livro do ano.

O Coração é um Caçador Solitário, o livro de estréia de Carson McCullers, não é só um exemplo de perfeição. Ele é o grande romance norte-americano, o livro que define uma sociedade, que define um tempo. Em sua estrutura, que baseou livros sublimes como A Visita Cruel do Tempo (Jennifer Egan) e Catedral (Raymond Carver), McCullers explora a Grande Depressão dos EUA sem sequer mencionar ela, sem sequer mencionar data. McCullers usa de seus personagens, os mais bem escritos que eu já li até hoje, pra comentar o preconceito, a pobreza e a busca por algo melhor – e a dificuldade de aceitarmos a mudança quando buscamos por esse melhor.

Mas, sinceramente? Foda-se. O Coração é um Caçador Solitário é a grande literatura que eu li esse ano. O grande desenvolvedor de narrativas, o grande contador de histórias. Quando você atinge o estágio de Carson McCullers (que escreveria A Balada do Café Triste depois, que é simplesmente genial), conseguindo desenvolver uma época e suas personalidades tão diversas, tudo parece pequeno. O Coração é um Caçador Solitário é genial, é grandioso, é histórico, é magnífico. É o melhor livro que eu li esse ano. É o melhor livro que eu já li.

Compre O Coração é Um Caçador Solitário aqui.

Também consideramos: Enclausurado (Ian McEwan); Meia-noite e vinte (Daniel Galera); Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada (Carolina Maria de Jesus); O Tribunal da Quinta-Feira (Michel Laub).


É isso gente. Nos vemos dia 2, certo? Feliz 2017! Esperamos um bom ano por lá!