No início dos anos 1990, os videogames se salvaram da falta de criatividade com títulos Super Mario World e SimCity, que ou elevavam os padrões de qualidade com um game design perfeito, ou expandiam a compreensão do que podia ser jogado. Demoraria seis anos para que o mercado visse outra revolução, novamente com Mario, em Super Mario 64, Half-Life e o inigualável The Legend of Zelda: Ocarina of Time. Eles definiriam como os jogos 3D funcionariam e quais suas possibilidades, dariam um salto de qualidade tão grande aos jogos que seriam alcançados apenas anos depois e, graças a eles, os jogadores se perguntavam “e agora?”

Os jogos, via de regra, precisavam de grandes títulos a cada três ou quatro anos para que um novo parâmetro fosse alcançado. Até Ocarina of Time ser lançado e toda uma época subsequente a ele passou a se redefinir. Mas os anos 2000 chegaram e, com eles, os jogos que amadureceriam ainda mais essa mídia. A cada ano, um novo título traria novas tecnologias e mecânicas que possibilitariam novos tipos de interação e de narrativa, novas experiências e novas sensações. Nós escolhemos dezesseis desses títulos, que você pode conferir (por ordem de lançamento) a seguir:

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The Sims

Will Wright, o grande game designer do ocidente, já havia colocado o seu nome na história em 1987, quando SimCity se transformou em um fenômeno de vendas e criou o gênero de simulação. Seria com seu jogo seguinte, porém, o pequeno simulador de pessoas The Sims, que ele encontraria um sucesso ainda inigualável (a franquia é recordista de vendas nos computadores) e enxergaria algo que ninguém ainda havia percebido: criar seus próprios personagens importava. Mais que isso, nenhum jogo traria a personalidade do jogador com tanta importância quanto The Sims trouxe, com um charme e um humor deliciosos. Suas continuações (estamos na quarta geração, agora) até tentaram, mas nenhum jogo ainda atingiu o charme, e a ousadia, daqueles pequenos seres do primeiro The Sims.

The Sims. 2000. Electronic Arts, Maxis. Windows.

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Halo: Combat Evolved

Quando Half-Life foi lançado, o PC se consagrou como a plataforma definitiva para jogos de primeira pessoa. Demorou três anos para a inovação chegar aos consoles, mas chegou destruindo a concorrência. Halo: Combat Evolved apresentou Master Chief e Cortana ao mundo, em uma narrativa rica em disputas políticas e guerras interplanetárias. Mais importante, Halo apresentou um esquema de controles que finalmente amadureceriam o problemático gênero do tiro em primeira pessoa para o gamepad — um lugar do qual o gênero jamais sairia desde então.

Halo: Combat Evolved. 2001. Microsoft Game Studios, Bungie. Xbox.

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Metroid Prime

Samus Aran não aparecia em um título próprio em oito anos, mas seu retorno reformularia não só a imagem da personagem, como de toda a Nintendo, que sofria nas mãos do GameCube. Metroid Prime não salvou o videogame roxo da extinção, mas mostrou ao mundo uma maturidade narrativa e um desenvolvimento de personagem ainda inéditos nos videogames — incrivelmente, tratando-se de um remake. Metroid Prime também elevaria o que seria exigido visual e sonoramente de seus sucessores, algo que os consoles só conseguiriam quatro anos depois.

Metroid Prime. 2002. Nintendo, Retro Studios. GameCube.

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Half-Life 2

O terceiro FPS dessa lista? Calma. De todos os dezesseis títulos, nenhum ofereceu uma revolução tão grande quanto Half-Life 2. Vindo seis anos após o título original, o jogo da Valve apresentaria ao mundo não só a maior loja online (a Steam) e um dos melhores motores gráficos (a Source). Half-Life 2 redefiniria tudo o que esperávamos de um jogo, amadureceria a interpretação de atores (Alyx Vance ainda é a melhor personagem dos videogames) e colocaria a Valve em um patamar técnico muito superior a qualquer outra desenvolvedora. Half-Life 2 simplesmente restabeleceu os jogos como uma mídia sensorial nova, amadureceu as possibilidades narrativas dos videogames e nos deixou boquiabertos com o que vimos e ouvimos. Se Half-Life 3 realmente existir, ele possuirá o maior dos legados a honrar.

Half-Life 2. 2004. Valve. Windows, Mac, Linux.

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Shadow of the Colossus

O Andarilho e seu cavalo, Agro, apresentariam ao PlayStation 2 seu mais marcante e atípico título. Shadow of the Colossus traria uma nova abordagem aos consoles ao se focar não na narrativa, mas na experiência com seu personagem. A proximidade e intimidade que você cria com o jovem errante que deve enfrentar monstros colossais tentando reaver a alma de sua amada é o que mais importa a Shadow of the Colossus, e desse relacionamento resulta uma das mais lindas obras dos videogames, em um jogo que importa muito menos a ação principal (derrotar as verdadeiras montanhas ambulantes que são os colossi) e mais os momentos em que você acompanha seu personagem, andando livre pelas amplas e silenciosas terras proibidas das quais vocês dois não sairão os mesmos.

Shadow of the Colossus. 2005. Sony Computer Entertainment, Team Ico. PlayStation 2.

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Call of Duty 4: Modern Warfare

Modern Warfare pode não ter redefinido o gênero e elevado o nível de qualidade como Half-Life 2 fez antes. Mas Modern Warfare se tornaria o padrão a ser seguido nos modos multiplayer por todos os jogos de tiro em primeira pessoa. Iniciando uma febre pela guerra que perdura até hoje, Call of Duty 4 foi o título que revigorou o combate multiplayer em primeira pessoa, retirando-o da Segunda Guerra e trazendo para os dias de hoje. Com mais importância e urgência, Modern Warfare finalmente trouxe uma narrativa decente à franquia (é, até hoje, a melhor delas). Mas disso pouco importa. Seria esse jogo que definiria como o combate multiplayer funcionaria dali em diante, sendo extensamente copiado não só pelas suas continuações, mas também pela concorrência (Battlefield 3, a resposta, só viria em 2011).

Call of Duty 4: Modern Warfare. 2007. Activision, Infinity Ward. Windows, Xbox 360, PlayStation 3.

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Super Smash Bros. Brawl

O combate desenfreado de Melee daria lugar a um universo de conteúdos e uma extensa lista de personagens em Super Smash Bros. Brawl, o melhor jogo de luta de sua geração. Com a mesma dinâmica simples e rápida dos seus títulos anteriores (bata desenfreadamente até empurrar seus oponentes para fora do estádio), Brawl definiria o que hoje consideramos comum em franquias ricas em conteúdo: as surpresas escondidas e o material possível. Absolutamente tudo que a Nintendo já colocou em um jogo está em Brawl, desde os simples joguinhos do Game & Watch até o cartunesco (e excelente) Wind Waker. Super Smash Bros. Brawl não era apenas perigosamente divertido, ele era uma verdadeira aula de história dos videogames. E um “obrigado” da Nintendo a todos os seus jogadores. Com um legado invejável, sobrou espaço até mesmo para os concorrentes. Sonic e Solid Snake foram gratas surpresas — e protagonistas de embates que demoraram para serem travados.

Super Smash Bros. Brawl. 2008. Nintendo, Sora Ltd., Game Arts. Wii.

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Metal Gear Solid 4: Guns of the Patriots

O adeus ao Solid Snake é difícil e tortuoso. Mas vale cada segundo. Metal Gear Solid 4: Guns of the Patriots encerra a história de Solid Snake estabelecendo novos padrões de qualidade para narrativas de videogame. Nunca antes na história dessa mídia, o desenvolvimento de personagens e a concatenação de eventos foi tão importante como na série Metal Gear. Mas em Guns of the Patriots nós somos recompensados com um verdadeiro tour-de-force de um querido personagem que finalmente vê que está na sua hora. Metal Gear Solid 4 pode não ser revolucionário nas mecânicas como Sons of Liberty e The Phantom Pain são, mas nenhum outro jogo até então conseguiu exprimir uma importância narrativa como Guns of the Patriots, uma das grandes histórias dos videogames.

Metal Gear Solid 4: Guns of the Patriots. 2008. Konami, Kojima Productions. PlayStation 4.

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Super Mario Galaxy 2

Como superar o jogo plataforma 3D definitivo? Quando Super Mario Galaxy fora lançado, três anos antes, muitos achavam que aquele tinha sido o ápice da Nintendo EAD em ideias para alcançar a primazia de Super Mario 64. Com Super Mario Galaxy 2, porém, o estúdio não só elevaria conseguiria alcançar e superar seus sucessores, como alçar voo para novas possibilidades. Super Mario Galaxy 2 foi o grande jogo de sua geração não só pela criatividade e pela comprovação de que Mario ainda estava em forma. Mais que isso, Galaxy 2 defendeu a proposta da Nintendo em explorar algo além de botões com um híbrido de controles clássicos e um pouco de movimento em uma das experiências mais ergonômicas já alcançadas, além de responder a todos que, com uma história simples, mas inventividade e capricho ainda conseguiam fazer um grande jogo. Super Mario Galaxy 2 é o melhor título da Nintendo desde Ocarina of Time, e um grande exemplo do poder da empresa de reestabelecer os padrões do game design (e é divertido pra caramba).

Super Mario Galaxy 2. 2010. Nintendo, Nintendo EAD Tokyo. Wii.

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Portal 2

“Pense com portais”. Após anos, a Valve apresentou finalmente o sucessor de seu aclamado Portal. Mais que isso, porém, após quase uma década a empresa encontrou um caminho para o qual seguir após ter redefinido tudo com Half-Life 2. Portal 2 conta a história da Aperture Science, mas também narra seus últimos dias como rato de laboratório por lá. Portal 2 comprova o poder da Source como motor gráfico, entregando uns dos cenários mais bonitos da geração, além de conseguir produzir um humor em níveis ainda inéditos no videogame. Portal 2 é uma aula de como elaborar a tensão, a comédia e a ação em um jogo de pouco mais de doze horas — e ainda contar a história de uma das mais queridas vilãs dos videogames. Mas, mais importante, de como a Valve consegue desenvolver seus protagonistas de meros comandos do jogador a seres complexos e interessantes — algo que só eles conseguem com tamanho sucesso.

Portal 2. 2011. Valve. Windows, Mac, Linux, PlayStation 3, Xbox 360.

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The Elder Scrolls V: Skyrim

Skyrim não criou o mundo aberto nos videogames, mas definiu como esse mundo responderia ao jogador a partir de então. Com um dos cenários mais inebriantes e complexos da história dos jogos, o mundo de Skyrim responde as ações do jogador à altura. Em um verdadeiro épico, o quinto título da série Elder Scrolls finalmente alcançou a primazia de transformar as ações de um personagem em eventos importantes à narrativa. Sem classes de personagens, o jogador finalmente pode evoluir como bem entender, crescer junto com o seu próprio conhecimento do mundo que o cerca. Finalmente, esse mundo importa, e se transforma em uma entidade tão importante quanto a do protagonista. Em um jogo que tudo é grande, se sentir importante em The Elder Scrolls V não é uma virtude, é uma conquista.

The Elder Scrolls V: Skyrim. 2011. Bathesda. Windows, PlayStation 3, Xbox 360.

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Majora’s Mask e Wind Waker tentaram fugir da sombra de Ocarina of Time, seu predecessor, indo para caminhos distintos. Majora’s Mask é um conto de terror, Wind Waker se passa em um grande oceano. Quando The Legend of Zelda finalmente teve coragem de retornar à Hyrule, a sombra do gigante dos jogos ainda pairava. Twilight Princess, embora excelente, era diminuto demais. Precisou de Skyward Sword, cinco anos depois, para que Zelda voltasse a forma consagrada. E conseguiu. Sem o estilo visual obscuro de Ocarina e Twilight Princess, Skyward Sword seguia um conceito visual próprio. Mais importante, porém, apresentou o esquema de controles definitivo para a franquia. Sem a utilização pesada dos sensores de movimento, a Nintendo optou pelo uso intuitivo do Wii Remote, e mostrou ao mundo como um jogo de combate poderia ser feito sem ser baseado no cansaço. É o jogo que responde a existência do Wii. Skyward Sword levaria, também, a empresa para um amadurecimento narrativo até então não alcançado, com uma história finalmente importante e questionadora. Skyward Sword pode não ser definitivo como Ocarina of Time, mas é um título que se orgulha de seu passado, e entrega excelentes opções para o futuro.

The Legend of Zelda: Skyward Sword. 2011. Nintendo. Wii.

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Journey

Se Shadow of the Colossus aproximaria o jogador ao seu personagem como nunca antes, em Journey essa aproximação atinge seu ápice. Em um dos jogos mais lindos já feitos, assumimos o papel de um andarilho em um deserto sem fim. Journey, porém, é uma jornada pessoal em alguns momentos, compartilhada em outros. Com uma interação simples entre jogadores, mas importante, a experiência de Journey é singular e inesquecível, mesmo que curta. Atingir o alto de uma montanha é recompensador, mas a viagem até ela é transformadora — não só pro misterioso andarilho que controlamos, mas para nós também. Journey é uma experiência simples, porém inesquecível, e exemplifica a importância dos videogames como mídia. Em nenhuma outra forma, nossa empatia por um personagem seria tão grande, e nossa resposta por sua jornada, tão profunda.

Journey. 2012. Sony Computer Entertainment, thatgamecompany. PlayStation 3.

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The Last Of Us

Para cada coisa errada que The Last of Us faz, ele entrega dois momentos magníficos. Se em determinados momentos é questionável o fato do título ser um jogo — uma vez que ele pareceria muito mais eficaz como um filme, dado a excelência de suas cenas de corte —, em outros a companhia de Ellie e Joel nos faz sentir saudades de tais personagens, de tão bem desenvolvidos e de quão forte é o laço que criamos com eles, graças à excelente jogabilidade. The Last Of Us talvez até funcionasse melhor como um filme, sim, mas suas comparações com o cinema são explicáveis. A mais bem realizada “experiência cinemática” nos videogames, o jogo da Naughty Dog é um dos melhores ensaios da condição humana dos últimos cinco anos, conseguindo explorar relacionamentos interpessoais como nenhum outro jogo até então fez, e se em alguns momentos o combate atrapalha o andamento da narrativa, eles servem muito mais para criar um laço dos dois personagens com uma terceira entidade. Essa, um tanto intrometida ali no meio, é o jogador.

The Last of Us. 2013. Sony Computer Entertainment, Naughty Dog. PlayStation 4.

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Grand Theft Auto V

O grande blockbuster dos jogos, Grand Theft Auto V é grandioso desde seu primeiro trailer, que impressionou todo o mundo com explosões, personagens aos montes e dois trens se chocando frente-a-frente. Mas é muito mais do que espetáculo que se faz o maior e melhor título da série. Grand Theft Auto V é o amadurecimento dos jogos de mundo aberto, finalmente conseguindo explorar uma narrativa rica e coesa sem que o jogador pareça estar interferindo no seu ritmo. Com GTA V, a Rockstar mira o céu, e o atinge. Unindo a grandiosidade narrativa do título anterior e o parque de diversões de San Andreas, Grand Theft Auto V nos faz redescobrir a liberdade dos videogames em um mundo tão imersivo que chega a nos confundir. Tem seus problemas morais? Tem, mas nenhum jogo é tão imenso e inebriante como Grand Theft Auto V.

Grand Theft Auto V. 2013. Rockstar. PlayStation 3, Xbox 360.

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Kentucky Route Zero

O mais importante jogo de nosso tempo. Se precisasse definir Kentucky Route Zero, seria assim. Foi necessário mais de três décadas para que o videogame pudesse se questionar sobre suas possibilidades estéticas, narrativas e sensoriais. E todo o universo que cerca Kentucky Route Zero, incluindo seus cinco capítulos e quatro interlúdios, faz exatamente isso. Buscando inspirações no teatro antigo e moderno, no cinema, na literatura, na música e nos próprios jogos — de tabuleiro, baseados em texto, musicais e até os de telefone —, Kentucky Route Zero é um experimento ainda não concluído, mas já histórico, sobre como os jogos definem seus próprios jogadores, além de oferecer observações importantes e pungentes sobre a condição humana, o nosso estado social e para onde estamos indo. Por vezes, Kentucky Route Zero parece um jogo de terror, mas isso só porque ele parece muito mais com a realidade do que poderíamos esperar.

Kentucky Route Zero. 2013—. Cardboard Computer. Windows, Mac, Linux.