Você gosta de ler contos? Contos são excelentes formas de narrativa, grandes o suficiente para eu me prender a um personagem, pequenos o suficiente pra nos deixar com água na boca. Então, eu não gostava de ler contos. E eu aprendi a gostar deles com um romance.

A Visita Cruel do Tempo não é uma coletânea de contos, mas parece. Trata-se de um apanhado de histórias que se conectam por pequenos detalhes (o amigo de um personagem, uma data ou um local em comum) para contar a história de Sasha, a secretária de um empresário da música, que já foi muito famoso e influente, mas que hoje está decadente e lembrando do seu tempo de jovem, quando tinha uma banda com seus amigos e uma amiga que fugiu de casa para ficar com um produtor, que uma vez foi pra África com os dois filhos, um deles que se mataria anos depois, enquanto…

Bem, e aí vai. Cada capítulo do livro nos apresenta ou um personagem dessa intrincada narrativa, ou um momento diferente de um personagem que já conhecemos. Assim conhecemos a infância, juventude e meia-idade de Sasha, a juventude e idade avançada de Bennie, os momentos antes da morte de Rob, e assim por diante. Jennifer Egan narra A Visita Cruel do Tempo de maneiras tão diferentes que parece ser uma coletânea de diversos autores. Não é gratuito: as diferentes formas de contar história refletem os diferentes momentos ou os diferentes personagens que seguimos. Seja na São Francisco de 1970 ou a São Francisco de um futuro não muito distante (e um tanto doloroso), os personagens de A Visita… nos prendem uma percepção horrível: o tempo passa, e ele leva tudo.

E não é a toa que o título brasileiro leva “tempo”. É ele, afinal, o personagem principal do livro. O implacável e imperceptível tempo, que vai transformar a vida de Sasha, vai arruinar a vida de seu tio; vai trazer saudades de Rob. Ao rodear esses personagens com o mundo da música, é impossível não perceber as mudanças que a cultura pop representou nesses anos todos. Como a própria Egan fala, “é impossível evitar se tornar parte do passado”. Enquanto você se acha o mais hipster por gostar do novo Bon Iver, não se surpreenda quando as crianças de hoje surgirem com a nova moda.

Porque o tempo é cruel, não é? Não é assim que se diz?


A Visita Cruel do Tempo. Jennifer Egan, 336 páginas. Editora Intrínseca. Romance, 2012. Compre o livro ou o ebook na Livraria Cultura.