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Don't Hug Me, I'm Scared: O limite das criatividades

Don't Hug Me, I'm Scared: O limite das criatividades

Os artistas Rebecca Sloan e Joseph Pelling, apesar de atuarem na área de design gráfico, adoram desenvolver projetos em que possam trabalhar com várias ramificações da prática artística – principalmente se elas puderem amplificar o teor subversivo e perturbador de suas obras. Juntos, Sloan e Pelling formaram o coletivo THISISIT, e são responsáveis por uma série de vídeos no Youtube chamada Don’t Hug Me I’m Scared.

O primeiro episódio da série viralizou no ano passado, e voltou a ter mais visualizações no início deste ano. Em 2012, Don’t Hug Me I’m Scared foi exibido em vários festivais de cinema, incluindo o festival de filmes de Sundance. No vídeo somos apresentados à três personagens: dois fantoches – um amarelo descrito como tendo personalidade infantil e aparência mais humana e uma ave negra que não fala muito – e um boneco vermelho com formas humanóides cujo o cabelo cobre o rosto, deixando apenas os olhos de fora. Estão todos sentados à mesa da cozinha e parecem entediados e desinteressados. Um pequeno caderno de rascunhos aparece em cena e resolve, então, ensinar para nossos amigos um pouco sobre criatividade nos moldes de uma animada canção:

Não demora muito e já podemos perceber que as coisas podem não ser realmente o que parecem nessa história. No decorrer do vídeo, o caderno de rascunhos toma uma posição autoritária, dizendo o que é e o que não é admissível dentro do campo da criatividade, indo totalmente contra sua premissa de ensinar a ser criativo. Quando ele pede – com seu sotaque britânico – para que todos peguem gravetos para escrever o nome de uma cor criativa, cria um dos bordões que ficou mais conhecido entre aqueles que assistiram o vídeo: “green is not a criative color”. Uma sentença que ao mesmo tempo parece completamente aleatória, mas colocada ali por algum propósito – falaremos dessa possibilidade mais tarde.

Mas não para por aí. A melodia infantil logo vira uma sinfonia de instrumentos fora do tom e danças bizarras dos não-mais-fantoches que conhecíamos. Texturas estranhas tomam o lugar dos materias antes usados para criar um ambiente realista. Podemos ver um coração humano em meio à purpurina e um cérebro recheando um bolo de aniversário. A palavra “morte” vai aparecendo aos poucos sobre a cartolina rosa.

Por fim, tudo volta ao normal, e nossos amigos ouvem as últimas e sábias palavras do caderno de rascunhos, dizendo que todos devem concordar em não ser criativos novamente, mostrando seu claro aborrecimento diante do resultado da criatividade de seus aprendizes. Mas, afinal de contas, o vídeo tem algum significado por trás da atmosfera de pesadelo e psicodelia ou é apenas algo feito para chocar e espalhar a marca do coletivo pela internet?

Pois bem, quanto à isso, Joseph disse que a criação do vídeo teve como base duas problematizações: “como não ensinar algo” e “como um conceito abstrato como criatividade é idiota quando as pessoas tentam ensiná-lo com seus métodos limitados”. Além disso, comenta que o vídeo está aberto à interpretações e que todas têm, até certo ponto, sua validade.

Uma destas interpretações, que inclusive é citada no Reaction Channel, que fez um vídeo de reações ao primeiro episódio de DHIS, seria que a criatividade e o incentivo à ela, vêm sendo mascarados, tornando certas coisas aceitáveis e outras não. Como se houvesse uma moral externa ao conceito de criatividade, mas que agora se torna parte integrante dele.

Don’t Hug Me I’m Scared lançou mais um episódio neste ano, chamado TIME, tão bizarro e divertido quanto o primeiro. Além destes dois vídeos, mais quatro estão previstos até o ano que vem. O próximo deve sair agora em setembro.