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Community

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Criar uma mitologia densa em uma série de TV é difícil, principalmente no circuito norte-americano. São muitos os requisitos dados pela emissora que os criadores devem seguir, e há sempre a incerteza da continuidade, uma vez que a autorreferência que uma mitologia complexa implica geralmente diminui seu público. Quando acontece, é aplaudido de pé, como no caso de Breaking Bad, Família Soprano e, em um caso mais recente, True Detective. Mas essas séries não trabalham com o elemento mais difícil de se lidar no entretenimento: o humor.

É aí que mora a genialidade de Community, uma série de comédia que, em episódios de vinte minutos na NBC (o SBT dos EUA), conseguiu criar um universo rico em elementos fantásticos, expandindo e reutilizando-o a cada novo episódio. E tudo em função do humor — o que torna as autorreferências da série ainda mais fascinantes.

Community começou em 2009 com uma temporada morna. Os primeiros cinco ou seis episódios ainda não tinham um humor dinâmico que caracterizaria a série depois, e justamente por precisar sedimentar um território, personagens e características para que seu humor funcionasse, acabou por tornar os primeiros episódios, vendo agora, em peças menores no quadro geral. Quando engrena, porém, Community se transforma em um monstro incontrolável que não perdoa nem mesmo sua emissora ou seus espectadores: todos estão sujeitos à entrar no enorme tabuleiro de referências da série.

Apenas mais uma série de humor normal onde seus personagens acabam se transformando em um jogo de 16 bits.

Conhecemos Jeff, um advogado que teve seu diploma cassado por ser falso; Britta, uma jovem idealista que, por trás de suas ideias, não tem muita coisa; Annie, uma nerd que acabou de sair de uma clínica de reabilitação; Shirley, uma dedicada e religiosa mãe com dois (e depois três) filhos; Troy, um ex-capitão do time de futebol; Pierce, um velho que está na faculdade há uns 40 anos; e Abed, um estudante de cinema que encontra na vida os padrões que fazem ele perceber que tudo é uma série de TV. Os sete de Greendale, como eles seriam chamados na terceira temporada, não passam de um grupo de fracassados e esquisitos, que acabam criando um grupo de estudos para estudar Espanhol e que, a partir daí, descobrem que o que há de mais normal em Greendale são eles.

É Greendale a personagem principal de Community. Ao decorrer das cinco temporadas (à exceção da quarta, uma desgraça), os roteiristas da série se interessam em desvendar os deliciosos segredos da faculdade comunitária que une esses sete personagens (que, em um episódio em específico, vê como tudo estava entrelaçado para acontecer). São aulas fantásticas (escadas, idioma dos bebês, dá para fritar?), eventos únicos (ocktoberfest em agosto, concurso da milionésima descarga, festa de halloween com zumbis de verdade) e setores fascinantes (o apêndice do ar-condicionado, o misterioso trampolim) que tornam a Greendale Community College num prato cheio para situações inusitadas, onde brincadeiras de criança são assunto sério, guerras de paintball geralmente levam à morte e, bem, até mesmo portais interdimensionais se abrem.

Imagem de Community Que melhor modo que expandir um universo do que criar seis timelines diferentes?

Ao todo, Community é o cotidiano de seus sete personagens (e do Dean Pelton e do Sr. Chang) nos corredores da Greendale. Mas a série funciona por seu humor genuinamente inteligente e sua noção de que, bem, eles nunca estão em solo firme. À exceção da segunda temporada, todas as outras estavam com o pé no cancelamento, o que é uma fonte para ótimas piadas (na première da terceira, por exemplo, o reitor vêm e diz que vai ser um ano como todos os outros, só que sem dinheiro), o que transforma a série em um lugar onde o criador, Dan Harmon, não precisa ter senso do perigo. Com o apoio de uma forte fanbase, Community chegou a definir sua longevidade, quando Abed tenta defender uma série que gosta e cria uma campanha no Twitter, #SixSeasonsAndAMovie. Agora, cinco anos depois, o anúncio da sexta temporada está próximo e, dizem os rumores, um filme está sendo discutido.

Imagem de Community Metacomentários a torto e a direito? SIM!!!

É esse o poder fascinante de Community: em meio às tramas mirabolantes, à falta do senso do ridículo, de um humor preciso e autorreferenciado, e de uma liberdade fascinante de criação, que vemos um dos grandes nomes da TV se erguer. Quando Abed olha para a câmera e comenta que “haverá sim uma sexta temporada, se não houver é porque um asteróide caiu na terra e a civilização foi extinta”, ele fala a serviço do humor da cena como um todo. Mas também fala sério.

Esse é o cânone da melhor série de humor no ar atualmente: ser precisa no que quer dizer, mas não perder o charme de como dizer.

Community teve sua quinta temporada no ar essa última semana. A sexta temporada ainda não foi anunciada, mas o criador diz que é provável que aconteça. Recomendamos vê-la por inteiro (talvez pulando a quarta temporada, que é desnecessária e considerada fora do cânone). Seu humor funciona justamente porque seus fãs são dedicados em perceber todas as nuances do seu humor.