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A melancolia anunciada de Cicero

A melancolia anunciada de Cicero

Uma gaveta esquecida dentro do armário, uma prateleira de bagunças qualquer ou uma caixa velha de sentimentos esquecidos. Um álbum de recordações amargas, uma coleção de saudade. É assim que eu descrevo a música do carioca Cícero. Uma melancolia organizada em versos. E como são lindas essas poesias cheias de vazio alheio.

Cícero lançou o seu primeiro álbum, Canções de apartamento, em 2011, as canções, como sugere o título do trabalho, foram todas gravadas no apartamento do cantor. O disco que foi posto pelo cantor para download gratuito na sua página no Facebook teve uma repercussão imensa.

A construção do álbum é impecável, escutar Canções de apartamento é como estar lá, em total isolamento dentro de um apartamento cheio de saudade. As referências musicais e literárias do cantor são apresentadas o tempo todo na construção no trabalho (ate mesmo na capa do disco).

O álbum é composto por 10 canções, as letras são todas muito sólidas, poéticas e muito pessoais. Faixa a faixa nós vamos sendo conduzidos a uma série de sentimentos, alguns um pouco confusos, mas todos muito breves. Nos quase 36 minutos do disco, somos convidados, não só para entrar no seu apartamento, mas também na sua vida, nas suas memórias e angustias.

A última música do álbum, Ponto cego, anuncia com alegria a chegada da sexta-feira “Mas quem se importa? É sexta-feira amor!”. Dois anos depois Cícero lança o seu segundo trabalho, o álbum Sábado, dando continuidade ao primeiro.

Os tantos fãs conquistados com o primeiro trabalho, que aguardaram com uma ansiedade imensa o segundo álbum, provaram de uma certa dose de decepção, não o suficiente pra deixar de gostar, mas como a maioria diz o álbum Sábado tá mais pra um domingo, daqueles bem chatos. Talvez sim, talvez não. O disco apresenta canções mais abstratas e uma grande diferença em termos estéticos, mas em nenhum momento deixa de ser bom.

O fato é que, ao contrário do Canções de apartamento, Sábado não tem nenhum breve momento de felicidade. Talvez esse tenha sido o maior incomodo das pessoas, mas quem disse que sábado precisa ser um dia feliz pra todo mundo? O que pra uns é um domingo, pras outros pode ser uma segunda, uma quarta, ou qualquer outro dia, porque afinal de contas todo mundo tem um dia meio “Sábado”.

Se o primeiro álbum nos coloca em um apartamento solitário, com uma xícara de café cheio de lembranças em uma tarde de chuva, o segundo é como um porre de whisky em uma noite de sábado tentando esquecer de tudo. Cada um deles com a sua beleza particular, mas ambos são trabalhos lindos.

Cícero é um tipo de cantor pra se ouvir com alma e, quem sabe, até tirar a tal da solidão pra dançar.