Onde encontrar a colina do Windows XP

Um computador com monitor CRT exibindo o papel de parede padrão do Windows XP: uma colina verdejante sob o céu azul Momentos.

O papel de parede “Bliss” — a colina verdejante sob o céu azul A mesma colina em maio de 2016. O céu não é mais tão azul, mas a colina continua verde

Eu acho que a colina que aparece no papel do Windows XP é a colina mais vista do mundo. Em algum momento há duas décadas (!!!!!!!!) ela era a imagem de fundo de mais de um bilhão de computadores — provavelmente bem mais, porque naquela época era muito mais fácil falsificar um Windows.

Hoje ela é uma colina normal, e talvez ela sempre tenha sido. Isso porque ela não está em nenhum lugar especial. A fotografia foi tirada em 1998 pelo fotógrafo do National Geographic, Charles O’Rear, que estava indo visitar sua namorada quando passou por uma colina em Sonoma, na Califórnia. Ele parou para fotografar ela porque a grama estava muito verde depois da chuva. O resto é história.

O Atlas Obscura tem os detalhes:

O’Rear used Fujifilm’s Velvia (said to rival Kodachrome), a film often used by nature photographers, which created the image’s saturated tones. He says the image was completely untouched when he uploaded it to Corbis, a stock photo site founded by Bill Gates.

In 2000, Microsoft called to see if they could use his picture for its new operating system. O’Rear sold all the rights for an undisclosed sum—but a sum large enough that no one was willing to insure the images to be shipped. O’Rear flew to Seattle and delivered them in person.

Hoje a colina recebe a atenção de quem sabe o que ela protagonizou, mas para a maioria das pessoas que passam por ela todos os dias ela é só mais uma colina. O que é interessante, ees provavelmente viram ela várias vezes nas telas dos computadores, mas nunca pararam para ver ela quando estavam voltando do trabalho. Mas ei, ela ainda está lá.

Tudo o que eu voltei a sentir enquanto ouvia as músicas que eu esqueci

Eu enfrentei um dos piores momentos da minha vida entre 2015 até meados de 2019, vivendo com uma depressão que durou tanto tempo que eu achei que eu nunca ia conseguir sair dela. Com o tempo, ele deixou de ser uma constante na minha vida e se transformou em algo como o clima: as vezes fica calmo e bonito, as vezes fica agitado e confuso, e as vezes ele muda de uma hora para a outra.

Meu processo de recuperação foi, em parte, aceitar que eu precisava reaprender a sentir as coisas de novo, a buscar significados que eu perdi naqueles anos de novo. É uma via de mão dupla, porque eu fico feliz de reencontrar um velho sentimento ou de perceber algo ou de me inspirar com algo de novo; mas ao mesmo tempo eu percebo que esse sentimento está um pouco diferente, que existe um peso em algum lugar. É como se eu convivesse com um fantasma no canto do meu cérebro, que nem sempre quer me assombrar, mas que só por estar ali já me causa um desconforto.

Isso causou um efeito interessante aqui no Pão, que se tornou em uma espécie de documentação dessas redescobertas. Durante os anos em que eu estive doente, o blog caiu em desuso e era atualizado pouquíssimas vezes, então ele documenta muito a empolgação da época em que ele foi criado, entre 2013 e 2014, o silêncio dos anos seguintes até eu voltar a escrever em 2019. E, de 2019 pra cá, muitos desses posts são minha reação à pequenas percepções que eu tenho no meu dia a dia que em ajudaram a ficar melhor. A primeira vez que eu escrevi sobre isso foi em julho de 2019, mas vários posts desde então registram essas pequenas redescobertas do dia a dia.

A última veio nesse último fim de semana, enquanto eu fazia uma limpeza no meu computador antigo. Eu encontrei um backup das minhas playlists do serviço de streaming que eu usava antes do Spotify, o Rdio.

Captura de tela do reprodutor de músicas Rdio, exibindo a biblioteca de discos do usuário O Rdio era muito bonito.

O Rdio foi o primeiro dos streamings de música a fazer (um relativo) sucesso no Brasil, principalmente porque ele possuía um plano gratuito muito bacana, que te dava acesso a todos os recursos na versão web (você precisava pagar para usar no celular). Na época eu não tinha um smartphone, e usava o Rdio principalmente no meu primeiro trabalho, entre os anos 2011 e 2014. Foi a primeira vez que eu tive o acesso à muitas músicas sem precisar ficar baixando, e o Rdio tinha uma função de enviar dicas de música para os amigos de uma forma fácil, então eu e meus amigos ficávamos compartilhando músicas uns com os outros o dia inteiro.

Essa foi a mesma época que eu tenho algumas das minhas melhores memórias antes de adoecer. Eu era um estagiário em uma empresa bacana e recebia bem, o que me dava tempo e dinheiro — eu já tinha saído da casa dos meus pais, morava perto do trabalho e podia fazer o que bem entendesse. Eu tava saindo do ensino médio, e essa perspectiva de já ter um emprego sem nem ter se formado ainda me deu muita independência de uma hora pra outra. Eu não sabia, mas muito desse sentimento tinha sido guardado nas músicas que eu ouvia nessa época.

E muitos desses sentimentos vieram esse fim de semana, quando encontrei esse backup de playlists e músicas salvas daquela época e recuperei no meu Spotify. Discos e músicas que eu tinha esquecido completamente apareceram na minha biblioteca, e muitas memórias voltaram à tona. Memórias são bonitas, mas podem ser frias se não vêm acompanhadas de sentimentos muito específicos do momento que elas relembram. Eu armazeno muito dos meus sentimentos nas músicas que eu ouço, foi como abrir um velho baú de várias coisas que eu não sentia há muitos anos.

Se você quer dar uma olhadinha em algumas das músicas que eu acabei de redescobrir, eu tô juntando elas nessa playlist:

Isso me ajudou a perceber como eu escuto música de um jeito diferente do que naquele tempo. Por boa parte da última década, meu contato com músicas — principalmente músicas que eu não conheço — se deram por meio de playlists, geralmente criadas por algoritmos do Spotify. Isso parece que tirou muito a cara dessas músicas pra mim. Antes, músicas vinham de alguém ou de algum lugar: uma amiga me recomendou, ou eu vi em um filme que eu gostei muito, ou tocaram em uma festa e eu gostei tanto que tive que anotar o nome na palma da mão e torcer que eu não borrasse tudo quando chegasse em casa. Cada música era um achado, um momento perfeito porque traduzia o momento em som, e que deixava o momento mais perfeito por causa disso. Essas músicas então me levavam a artistas ou discos inteiros. Foi como eu conheci a minha banda favorita, por exemplo.

Tá sendo muito bacana voltar a reencontrar essas músicas, porque eu sinto que eu tô reencontrando velhos amigos depois de muito tempo. Eu tô muito diferente daquele tempo, e eu enxergo eles de um jeito muito diferente agora. Mas tem algo ali que não mudou. Falando objetivamente, são as ondas sonoras que continuam as mesmas. Mas parece que é algo mais. É como se fosse uma máquina do tempo.

Eu espero aprender essa lição, e voltar a descobrir músicas (e também filmes e livros e séries e jogos) através de pessoas e de momentos como esses que eu acabei de recuperar. De ficar curioso pelo que elas acham, e pelo que elas esperam que eu veja e escute e sinta. Eu não troco isso por nada, porque me mostra como é bom de sentir de novo, como é bom estar de volta.

O trailer da quarta temporada de Everything is Alive

Everything is Alive, meu podcast favorito, vai começar sua quarta temporada na próxima quarta-feira, dia 22 de setembro, depois de um episódio especial em maio. Aí está o trailer.

Everything is Alive é um podcast muito especial e muito bonito, em que Ian Chillag entrevista objetos do nosso dia-a-dia, como um elevador ou um espelho, uma calça jeans e sua amiga jaqueta de couro.

Quando eu apresentei esse podcast pra um amigo meu, ele me disse que é perfeito pra quem cresceu assistindo Toy story e começou a imaginar que tudo tinha uma vida secreta, e é verdade.

Os trailers dos meus filmes mais esperados nos próximos meses

Depois de um bocado de tempo, eu finalmente tô voltando a ficar empolgado com filmes de novo. Tá sendo um processo bem devagar, e bem calmo, de olhar pra algo e conseguir sentir uma certa empolgação de novo.

O sentimento em si já é empolgante por si só, e eu quero compartilhar um pouquinho com vocês. Ao invés de ficar escrevendo sobre os filmes que tão me reconectando com o carinho que eu sinto pelo cinema, eu acho que é melhor tentar deixar vocês, meus amigos que leem esse blog, empolgados pelos filmes que eu provavelmente vou forçar vocês a assistirem comigo. Achei uma solução saudável, que tal?

007 — Sem Tempo para Morrer

Honestamente, eu não me importo muito com 007 em si, mas eu sou apaixonado pela encarnação do Daniel Craig pro personagem. Eu não tenho muito saco pras versões clássicas do James Bond, mas os filmes protagonizados por Craig são divertidos, muito bem dirigidos e Craig encheu o personagem com um carisma que ele nunca teve antes. Ele finalmente é um homem intrinsicamente falho que só sabe lidar com o mundo ao redor dele com suas armas, e não o salvador da rainha da Inglaterra. E esse é o último filme de Craig no papel, dirigido pelo magnífico Cary Fukunaga (de Jane Eyre e da excelente primeira temporada de True Detective).

O filme deve ser lançado em 30 de setembro nos cinemas.

Duna

Eu amo as ficções científicas do Denis Villeneuve. Tanto A Chegada quanto Blade Runner 2049 são gigantes em escopo e em proposta, e Duna parece ser maior ainda. Vai ser um fracasso de bilheteria, vai ser magnífico, eu mal posso esperar.

O filme vai ser lançado em 21 de outubro.

A Crônica Francesa

Eu já falei aqui sobre o novo filme do Wes Anderson. Por muitos meses da pandemia no ano passado, enquanto esse filme ainda tinha a previsão de ser lançado em outubro de 2020, eu imaginei que esse seria o primeiro filme que eu veria no cinema depois de meses. Acabou não sendo — eu vi Mank em novembro de 2020 e First Cow em maio desse ano —, mas eu tenho certeza que esse é o filme que eu vou assistir numa sala de cinema. O último filme do Anderson que eu assisti no escuro, O Grande Hotel Budapeste, foi uma das melhores experiências da minha vida. A Conexão Francesa não foi tão bem recebido no Festival de Cannes esse ano, mas quem se importa? A magia dos filmes do diretor parece estar todinha nele.

O filme deve ser lançado em 18 de novembro nos cinemas.

Annette

A verdade é que eu já vi Annette, em casa. Eu não consegui esperar, e é o meu filme favorito do ano por enquanto. Mas se a MUBI for lançar esse filme nos cinemas, como fez com First Cow, eu vou estar lá. É um espetáculo que é pequeno demais pra qualquer tela, então quanto maior, melhor.

O filme vai ser lançado na MUBI em novembro. Tomara que eles lancem no cinema também!

Ataque dos Cães

O novo filme da mestre Jane Campion, diretora de O Piano e Top of the Lake, um filme e uma série perfeitos. Ataque dos Cães estreou no Festival de Veneza desse ano como o filme mais aclamado do festival, e considerado por alguns críticos como o melhor filme da diretora até aqui. Eu gostei muito do tom do teaser desse filme e me recuso a saber mais sobre o que acontece nele. Parece incrível.

O filme deve ser lançado na Netflix em 1º de dezembro.

Matrix Resurrections

O retorno da franquia mais ousada, mais influente e mais poderosa do lado de cá de Star Wars. Matrix foi revolucionário, Matrix Reloaded e Revolution pedem que o público revolucione também. Nenhuma franquia de blockbusters foi tão corajosa quanto essa foi desde a virada do século, e eu mal posso esperar pra ela voltar com Resurrections. A gente tá precisando.

O filme vai estrear nos cinemas e no HBO Max em 22 de dezembro.

Spencer

Eu amo, amo, amo Jackie, a outra biografia de Pablo Larraín sobre uma mulher sob os holofotes do mundo em um momento crítico na sua vida (qual será a próxima, Britney Spears?), e Spencer parece seguir o mesmo caminho para falar dos três dias em que a princesa Diana ficou presa com a família real em um Natal nas vésperas do final do seu casamento. O filme tá sendo descrito como “uma fábula sobre uma tragédia real”, que é a mesma forma que eu descreveria Jackie, então eu não tenho críticas. Ele também tem o melhor cartaz do ano:

Cartaz do filme

O filme ainda não têm previsão pra estrear no Brasil.

Memoria

Primeiro filme de Apichatpong Weerasethakul fora do seu país de origem, Memoria tem a excelente Tilda Swinton e o melhor trailer do ano. O som desse trailer fez meus ouvidos se abrirem de um jeito difícil de explicar.

O filme ainda não tem previsão de estreia no Brasil.

Petite Mamain

Ah, o novo filme de Céline Sciamma, a diretora do melhor filme que eu vi em anos, o magnífico Retrato de uma Jovem em Chamas. Eu nem sei o que esperar desse filme, mas parece que ela volta pro realismo francês do seu Tomboy, que é outro filme excelente. Sciamma não erra, e esse filme tá sendo alardeado como o melhor dela. Eu duvido, mas é um “eu duvido” cheio de vontade de estar errado.

O filme ainda não tem previsão de estreia no Brasil.

C’mon C’mon

De Mike Mills, mesmo diretor de Mulheres do Século 20, eu tô sentindo que esse filme — sobre um radialista entrevistando crianças sobre como elas veem o futuro — vai me fazer chorar pesado , Que nem Mulheres do Século 20 fez, e eu não trocaria um segundo sequer daquele choro.

C’mon C’mon não tem previsão de estreia no Brasil.

Lamb

Nada me tira da cabeça que o cara comeu a ovelha.

O filme ainda não tem previsão de estreia no Brasil.

O trailer de “C'mon C'mon”, novo filme de Mike Mills

Mike Mills, diretor de um dos meus filmes favoritos, tá de volta com C’mon C’mon, estrelando Joaquin Phoenix. O trailer já encheu meus olhos… parece que o diretor abraçou a minha característica favorita de Mulheres do Século 20, de transformar seus filmes em um baú de memórias, mais do que de histórias.

O filme não tem previsão de estreia no Brasil ainda, mas vai ser lançado nos EUA em novembro.

Obrigado Leo pela dica!

Wes Anderson lança um livro com as leituras que inspiraram “A Crônica Francesa”

A Crônica Francesa, o décimo filme de Wes Anderson, é sobre uma revista publicada por escritores estadunidenses na França. A revista ficcional é inspirada na revista americana New Yorker e, agora, o diretor vai lançar [um livro com os artigos que o inspiraram a escrever o filme](https://www.newyorker.com/culture/the-new-yorker-interview/how-wes-anderson-turned-the-new-yorker-into-the-french-dispatch.

Para a New Yorker, o diretor explicou o que o motivou a publicar um livro com suas inspirações em An Editor’s Burial.

Two reasons. One: our movie draws on the work and lives of specific writers. Even though it’s not an adaptation, the inspirations are specific and crucial to it. So I wanted a way to say, “Here’s where it comes from.” I want to announce what it is. This book is almost a great big footnote.

Two: it’s an excuse to do a book that I thought would be really entertaining. These are writers I love and pieces I love. A person who is interested in the movie can read Mavis Gallant’s article about the student protests of 1968 in here and discover there’s much more in it than in the movie. There’s a depth, in part because it’s much longer. It’s different, of course. Movies have their own thing. Frances McDormand’s character, Krementz, comes from Mavis Gallant, but Lillian Ross also gets mixed into that character, too — and, I think, a bit of Frances herself. I once heard her say to a very snooty French waiter, “Kindly leave me my dignity.”

Tá aí uma ideia bacana, que eu adoraria que outros diretores abraçassem: um diretor acompanhando seu filme com uma “lista de leituras”. É algo que eu faço meio que na marra (eu comecei a ler os contos de Raymond Carver depois de descobrir os filmes de Kelly Reichardt, por exemplo), mas eu ia adorar uma ajudinha na hora de expandir meus horizontes literários.

A Crônica Francesa deve ser lançado nos cinemas brasileiros em 11 de novembro.

random.earth

random.earth

Ok, esse site tirou toda a minha produtividade hoje. O random.earth é uma curadoria aleatória de imagens bonitas da Terra feitas pelos satélites do Google Earth.

Ele funciona tipo o antiguíssimo StumbleUpon: você vota numa imagem que outra pessoa recomendou, e depois o site te oferece uma imagem para recomendar.

É o tipo de experimento que une coisas que me interessam, a aleatoriedade e a cartografia, em um só link. Adoro quando descubro coisas assim.

Segunda parte - A mostra do passado retomado e da memória

Afastando-se um pouco do contexto pandêmico, os dois últimos programas da mostra latina do 32º Kinoforum trouxeram reflexões acerca do passado colonizado e expropriado da América Latina mas também novas formas de narrá-lo. 

Latinos 3 - Alegorias e Adereços

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Elegendo curtas que dialogavam com novas formas de imaginar o real, esse programa trouxe filmes que se utilizavam do híbrido entre documentário e ficção, como Caso à parte e Interferência, ambos fabulações acerca de imagens de arquivo muito bem realizados. Além disso, temos a excelente animação Tío, que se propõe a discutir tradição, violência e ruptura familiar no México.

Em se tratando de México, destaco aqui o que considero ser talvez o melhor curta-metragem da mostra latina e, por isso mesmo, merece esse espaço: A felicidade do motociclista não cabe em sua roupa, do diretor Gabriel Herrera, é, em todos os sentidos possíveis, uma bela alegoria. De forma inspiradora, temos um voice over narrando a conquista do país por um explorador colonial, enquanto vemos na tela um motociclista orgulhosamente sentado em sua moto. Utilizando imagens sem movimento de câmera, quase como retratos, o filme brinca com as conquistas do colonizador, que queria enfrentar a selva sozinha, e as coloca lado a lado com a conquista da moto. Uma metáfora elaborada e cheia de ironia, que expõe de maneira interessante o ridículo da colonização e como tal “façanha” é motivo mais de piada do que qualquer outra coisa. 

A felicidade do motociclista… é um filme para ser visto e revisto, entendido talvez como uma ótima alegoria do que é esse pedaço de américa latina que temos hoje. Com referências que remetem a Godard e talvez um pouco de Roy Andersson, com o uso do humor irônicos e os quadros muito bem organizados e pensados, é um dos melhores curtas do festival em 2021.

Latinos 4 - A persistência da memória

Sabendo que seria incapaz de não me atingir de subjetiva por um programa que trata sobre memória, já esperava ficar imersa nos curtas deste programa. Contando com somente 3 filmes, todos documentais, o programa 4 trouxe como tema central as reminiscências do passado e como ele nos afeta hoje, tanto afetivamente quanto socialmente. São filmes que lidam com a imagem da memória, em arquivo ou no instante preciso. 

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Em A montanha lembra, da diretora Delfina Carlota Vazquez, temos uma narradora enfrentando a imagem de um vulcão em atividade. Distante, no horizonte da janela da diretora no México, aquela montanha aberta e tomada de lava é uma silhueta que guarda a cidade. Mas guarda também as lembranças da constituição originária daquele povo, suas crenças e seus rituais. A diretora utiliza-se de imagens filmadas por ela mesma de forma bastante íntima, fazendo lembrar Agnès Varda em suas andanças documentais pelo mundo. Uma reflexão acerca do que fica sedimentado na terra e se torna memória e objeto das pessoas que ocupam um lugar e o tomam para si, tendo ao lado delas a fúria do vulcão que desperta em momentos cruciais de sua história. 

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Reconstruir o passado na busca de não repeti-lo é o que o diretor Julio Barrera busca em Nossos homens ausentes, ao trazer as vozes das mulheres de sua família para narração ativa da história. Deixando-se conduzir pelos cômodos do que parece a ser casa que abriga sua mãe e suas tias, Julio busca fotos, objetos e os coloca em frente a cada uma delas, absorvendo sua narrativa. Uma família, segunda uma das vozes que ouvimos, condenada a não ter homens, o que é entendido como “maldição”. A sina, nesse caso, é repetida pois a velha história que conhecemos se repete com as mulheres da família de Julio: os homens as abandonaram e as deixam sozinhas com os filhos. É nesse ponto delicado que o cineasta remexe e lambe a ferida. O que parece é que Julio quer ser outra coisa para seu filho pequeno e, para isso, ele remonta o passado dessas mulheres que o criaram e faz dele motor do que impulsiona seu futuro.

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Por fim, temos o que também considero como um dos melhores curtas desta mostra: Correspondência, das diretoras Dominga Sotomayor e Carla Simón. Iniciando como uma narração sobre as vidas de cada uma das diretora, com voice overs e colagens visuais, o curta é uma costura de momentos e reminiscências das duas, através de trocas de cartas. Situado no contexto pandêmico, somos convidados a rever o passado familiar das diretoras, que se veem nostálgicas e sensibilizadas nesse caos instaurado pela doença e pela morte. Em dado momento, temos até um vislumbre da imagem que certamente inspirou Dominga a reconstruí-la em seu excelente longa Tarde para morrer jovem. Uma constelação visual que abraça a memória e a faz protagonista, mostrando que a rememoração do passado e sua presença no que vivemos hoje foi uma constante nos primeiros momentos do isolamento social.

É curioso pensar o quanto pudemos absorver em uma semana intensa de filmes. Como disse no texto anterior, a cabeça fervilhando de ideias é excelente para trocas, para a mesa de bar, mas perde seu encanto na frieza do virtual. Evidentemente que nos acostumamos à ideia de que essa também é uma possibilidade de se debater e enriquecer o que vimos, mas sempre tenho a sensação de falta. 

De qualquer forma, para além deste pequeno lamento, acredito que a mostra latina do 32º Kinoforum trouxe um panorama interessante e abrangente do que temos de narrativa curta hoje e, querendo ou não, mostrou o que tem se pensado nesse mundo isolado e assolado pelo luto. Ainda que amargo, acontecendo à nossa frente e se fazendo presente, da maneira que for.