As (mais de) cem melhores coisas dos anos 2010

Quando eu e o Fillipe começamos com a ideia que resultaria no PCM, em 2012, nosso objetivo era criar um espaço onde nosso grupo de amigos podiam recomendar, uns para os outros, aquilo que gostávamos naquele momento. Das músicas que ouvíamos nas nossas reuniões na garagem da casa dos meus pais aos filmes que estávamos empolgados para assistir (teve um momento que esse filme era o Alice no País das Maravilhas do Tim Burton, essa década foi uma bagunça).

O tempo passou, e eu e meus amigos seguimos nossas vidas. Nós continuamos juntos, mas temos menos tempo do que no ensino médio para explorar os catálogos do Popcorn-Time Netflix e nos reunirmos para jogarmos o novo Smash Bros. Mas eu sempre gostei da ideia que fundou o PCM, do espírito de compartilhar aquilo que amamos, aquilo que nos faz lembrar uns dos outros ou aquilo que queremos compartilhar com quem amamos, e por isso eu o mantive até hoje. Nos últimos cinco anos o PCM virou basicamente um blog onde eu escrevo sobre o que gosto. Mesmo com as colaborações da Manu, do Raul e do Gui nesse último ano, o PCM continuava cheio de opiniões minhas sobre as coisas que eu gosto, e aquele espírito do PCM, de um grupo de vozes com gostos distintos escrevendo sobre as coisas diferentes que fazem os seus dias mais felizes acabou se perdendo.

Então, pra acabar o ano e acabar a década, eu decidi voltar à esse espírito. Eu convidei um grupo de amigos meus para me recomendarem as coisas que eles mais gostaram nesses últimos dez anos, aquilo que definiu a década deles. O resultado é uma lista diversa, cheia de boas surpresas (e algumas certezas na forma de Mad Max) que resgatam aquilo que eu amo no PCM.

A proposta foi simples: eu pedi que cada um deles me enviasse uma lista daquilo que mais gostaram nos anos 2010. Alguns me deram várias listas, outros me deram uma lista com justificativas, outros foram criando uma lista enquanto conversávamos sobre as coisas que gostávamos. Cada uma delas é única e deliciosa de ler, e acho que é o jeito certo de encerrar um ano bem produtivo pra esse blog. São 118 dicas no total (agrupando repetidas e partes de outras coisas), e eu não poderia pedir um retrato melhor da última década do que esse.


Afonso Alban

Cena de Atlanta Donald Glover e Lakeith Stanfield em Atlanta.

Séries:

  1. The Newsroom (HBO, 2012–2014)
  2. Fleabag (BBC/Prime Video, 2016–2019)
  3. Veep (HBO, 2012–2019)
  4. Atlanta (FX, 2016—)
  5. Sharp Objects (HBO, 2018)
  6. Years And Years (HBO, 2019)

Discos:

  1. Tropix (Céu, 2016)
  2. channel ORANGE (Frank Ocean, 2012)
  3. American Teen (Khalid, 2017)
  4. Beauty Behind the Madness (The Weeknd, 2015)
  5. To Pimp a Butterfly (Kendrick Lamar, 2015)
  6. 21 (Adele, 2011)
  7. The Life of Pablo (Kenye West, 2017)
  8. Lemonade (Beyoncé, 2016)

Filmes:

  1. Garota Exemplar (David Fincher, 2014)
  2. Ela (Spike Jonze, 2013)
  3. Moonlight: Sob a Luz do Luar (Barry Jenkins, 2016)
  4. Mad Max: Estrada da Fúria (George Miller, 2015)
  5. A Rede Social (David Fincher, 2010)
  6. Coringa (Todd Philips, 2019)

Emanuele Spies

Uma mulher olha para o pára-brisa do carro, coberto de neve Rooney Mara em Carol.

Os padeiros do PCM me pediram para refletir sobre a minha lista da década. Aquelas coisas que me marcaram nos últimos dez anos. Eu tenho certeza que ela é completamente enviesada nos últimos 5 anos muito mais do que os primeiros 5. Mas acredito que isso seja até natural, afinal a gente tende a lembrar com mais carinho das coisas que nos marcaram recentemente.

Filme: Carol

Então é claro que minha lista começa com Carol. Porque Carol não foi apenas o melhor filme lésbico que eu já vi, mas ele também abriu portas que eu nunca havia pensado em olhar. Esse filme me fez redescobrir o universo cultural lésbico, aquele submundo que toda adolescente vive, mas que eu, por N razões, não vivi.

Não basta ser um filme com elenco maravilhoso, pelo amor, Cate Blanchett maravilhosa beijando outra mulher, quem perderia? E essa outra mulher sendo Rooney choro-fácil-pode-ver Mara? Eu já tinha adorado o trabalho da Rooney em Os homens que não amavam as mulheres, onde Lisbeth Salander é super queer, forte, daquelas que não leva desaforo para casa, mas vê-la nesse personagem super frágil que desabrocha e virá uma mulher independente e cheia de si. Foi incrível.

Mas Carol também me marcou porque ele me fez pensar (finalmente!) que eu deveria estar perdendo muita coisa, que deveria haver tanto conteúdo lésbico por aí que eu nem sabia que existia. E foi assim que eu comecei a me aventurar em livros lesbicos em inglês; em fanfics; em audiobooks. E nunca mais parei.

Filme/Livro: Precisamos falar sobre o Kevin

Precisamos falar sobre o Kevin foi o livro mais forte e emocionante que eu já li. Daqueles que mexia com meu humor e me deixava completamente desnorteada. O filme é tão maravilhoso quanto e eles ficaram marcados na minha vida.

Livros: Trilogia Millennium

Como já mencionado: Lisbeth Salander. É tão maravilhoso quando a gente consegue se identificar com um personagem. Não que minha vida se pareça em qualquer aspecto com a de Lisbeth. Mas uma protagonista mulher, nerd, inteligente, que nao esta nem ai para a opinião alheia? Shut up and take my money. Ao ler o livro um eu nem imaginava que teria o prazer de “ver” Lisbeth com uma mulher. Isso foi apenas um enorme bônus.

Eu amei esses livros e os guardei com tanto carinho que quando me mudei de país ou carreguei comigo - e para quem os viu, sabe que são pesados.

Série: The L Word

Se Carol me despertou para o universo de livros e fanfics, The L Word me acordou para a vida. De novo eu repito a importância de se sentir representada em alguma mídia. Até então eu achava que era estranha, que eu não pertencia àquele mundo, mas eu não sabia o porquê. Quando eu passei a assistir a série, e a ver outros universos possíveis, comecei a compreender que de fato eu não pertencia onde estava, pois aquele mundo não era o meu.

The L Word, apesar de ser uma grande ficção com enormes problemas, me fez ver que nao tinha nada errado comigo, eu so nao estava no lugar certo.

Disco/Show: S&J Nossa História

Eu sempre fui fã de Sandy & Junior. Apesar de ter ido apenas em dois shows deles na vida: um quando eu tinha por volta de 5 anos e o outro quando anunciaram o fim da carreira.

Mas mesmo quando eles se separaram, S&J continuou sendo minha playlist frequente. E o dia que eu soube que eles voltariam eu sabia que faria de tudo para vê-los novamente.

Claro que a vida não é assim um parque de diversões e apesar de ter conseguido comprar os ingressos - porque, veja só, eles fizeram shows fora do Brasil -, eu não tive condições financeiras de ir até eles.

Porém, isso não diminuiu em nada o impacto desse álbum que coroa os últimos 10 anos. Quem sabe na próxima década eles se reúnam de novo?

Podcast: Mamilos

Eu já escrevi um post inteiro sobre o porquê Mamilos é incrível, e se você não leu, pode ir lá, esse post te espera.

Foi ouvindo Mamilos que eu aprendi a ouvir podcast. E é ouvindo Mamilos que eu aprendo constantemente a ser alguém melhor.

Blog: Flexões Lésbicas

O Flexões não é apenas o melhor blog lésbico brasileiro, mas também a razão pela qual eu conheci minha esposa. Então é obvio que ele figuraria nessa lista. Se você não conhece, corre lá! A Jac continua atualizando ele até hoje. O conteúdo é maravilhoso e a forma como a Jac escreve é divertida demais.

Link: Your body language may shape who you are

Existem inúmeras TED talks maravilhosas por ai. Mas nenhuma é tão poderosa, especialmente se você for mulher, quanto essa.

Tire 20 minutos do seu tempo e assista. Talvez essa conversa não vai mudar sua vida. Mas ela poderá te impulsionar a realizar varios desafios que antes pareciam distantes.

Link: A3O

Quando eu digo que Carol me abriu portas para fanfics, é de A3O (Archive Of Our Own) que eu me refiro.

Quantas horas eu já gastei lendo histórias fictícias dos meus personagens favoritos? Eu não saberia dizer. Mas garanto que eu sou a louca das histórias longas, de múltiplos capítulos e centenas de milhares de palavras. Isso de terminar em um dia não me agrada. Tenho que sofrer por dias para valer a pena.

Música/Link: Spotify: Descobertas da Semana

Spotify não é barato, mas desde que eu parei de ouvir a rádio Last.FM para descobrir novos artistas, foi com Spotify e as Descobertas da Semana que fui presenteada com músicas perfeitas, na medida pra mim.

Gosto bastante quando o algoritmo trabalha a meu favor. Você não?

App: Strava

O Strava não é o melhor app para registrar atividades físicas e eu sei que começar uma justificativa assim deve ser bem estranho, mas quero deixar as expectativas bem ajustadas.

Ele foi, no entendo, um excelente companheiro de pedais. E eu tenho certeza que só cheguei a certas marcas (como 132km em um dia) porque os desafios nele me impulsionaram a isso.

Então por esse motivo ele está na minha lista da década, pois guardarei com carinho os “troféus” que ele me proporcionou.

Jogo: Overwatch

Eu nunca fui gamer e demorei muitos anos para ter um videogame. Quando finalmente tive um, quase não terminava jogo algum porque eu não tinha paciência. Quando falavam em FIFA perto de mim, eu achava uma perda de tempo. Até jogar. FIFA foi responsável por muitas noites em claro (e por “em claro” eu me refiro a ir dormir a 1 hora da manhã) que acabei pegando mais gosto por jogar.

Foi assim que quando me falaram sobre um jogo em grupo chamado Overwatch não exitei. Eu não pensei que seria perda de tempo. Até porque ele foi me vendido como “Manu tem personagem lésbica”, logo, mesmo se fosse perda de tempo, eu compraria.

Acontece que Overwatch foi o maior vício dos meus últimos anos. Se eu estivesse em casa, eu estava jogando Overwatch. Parei de acompanhar séries, quase não via mais filmes. Eu. Só. Jogava. Fui ficando boa no jogo. Trazendo novos amigos pra jogar juntos. Até um videogame novo foi comprado, pra Luísa poder jogar comigo.

Nenhum jogo chegou a esse nível. Nenhum jogo me fez acompanhar história de personagem. Atualizações constantes. Jogar os eventos até o fim. Acompanhar o campeonato mundial! Sim, eu virei essa pessoa. Atualmente não tenho mais videogame, e de todos os jogos que acumulei nos últimos 8 anos com consoles, somente um faz falta. Overwatch.


Guilherme Bragança

Representação das ondas gravitacionais que são geradas na colisão de buracos negros Pelo que eu entendi isso é uma representação do que acontece quando dois buracos negros se chocam, mas pergunte pro Guilherme pra ter certeza.

Twin Peaks: The Return (Showtime, 2017). Eu já vou jogar aqui de primeira o mais importante. Twin Peaks: The Return, ou Twin Peaks season 3, ou Twin Peaks season 1 (pelo amor de deus Netflix ARRUMA ISSO), foi minha coisa favorita dos anos 10. Não estaria usando hipérbole se dissesse que foi o pedaço de mídia audiovisual mais incrível que degustei na vida.

Red Dead Redemption, 1 e 2 (Rockstar Games, 2010/2018). Eu não conseguiria montar um top 10 games favoritos mas certamente consigo um top 3; RDR1 estaria em segundo lugar nessa lista (o primeiro lugar seria Metal Gear Solid 2 mas ele é da década passada).

Metal Gear Solid V: The Phantom Pain (Konami, 2015). O último jogo da franquia Metal Gear (vamos fingir que Survive não existiu) deixou um gosto meio amargo na boca dos fãs quando todos os escândalos envolvendo Kojima e a Konami explodiram, porém, vendo o produto como ele é, ainda sim é um jogo fantástico.

Kingdom Hearts 3 (Square Enix, 2019). Deus do céu eu esperei 14 anos pra ver um minigame com o Ratatouille e valeu completamente a pena.

Mac Finds His Pride (It’s Always Sunny in Philadelphia 13x10, 2018). It’s Always Sunny está junto com Seinfeld entre minhas séries de comédia favoritas mas como ela é de 2005 não irei contar como algo dos anos 10, porém vou colocar o último episódio da décima terceira temporada, que saiu em 2018, na lista pois é lindo demais.

Nathan For You (Comedy Central, 2013–2017). Nathan é um cara que quer se conectar com pessoas, e para isso ele usa seu programa de TV com ideias absurdas para melhorar negócios.

Vsauce. Os anos 10 foram anos incríveis para a educação científica, e o YouTube ajudou muito nisto. Michael, do Vsauce, é um dos grandes educadores que surgiram no site e os vídeos dele nos fazem ter grandes reflexões da vida e universo com assuntos mais banais.

Kurzgesagt. Assim como Vsauce, Kurzgesagt educa de formas fantásticas mas usando desenhos lindos de patos.

Shin Godzilla (Hideaki Anno e Shinji Higuchi, 2016). Escrito e dirigido por Hidaeki Anno (o criador de Neon Genesis Evangelion), Shin Godzilla é meio que um reboot do personagem (e contando que as versões americanas nem existem).

Mad Max: Estrada da Fúria (George Miller, 2015). Esse aqui foi o filme que uniu a tribo dos cinélifos e os ~normies.

Kerbal Space Program (Squad, 2011). Kerbal é uma ótima representação do método científico, que é a tentativa e erro (muitos erros).

The Legend of Zelda: Breath of the Wild (Nintendo, 2017). Se eu não colocasse esse aqui provavelmente o Arthur iria me bater.

(Nota do editor: Sim)

Dark Souls (FromSoftware, 2011). Dark Souls não é meu jogo favorito da década mas certamente ele foi O jogo da década, ele formou o zeitgeist dos anos 10 onde jogos começaram a apresentar multiplayer mais passivo, lore com pouca exposição e um desdém pelo jogador.

Detecção de ondas gravitacionais. Essa aqui foi importante pois é minha área de estudo, ondas gravitacionais foram teorizadas por Einstein mais de 100 anos atrás e em 2019 finalmente foram detectadas. Agora astrônomos tem um novo método de observar o universo, elas foram para nós o que The Jazz Singer foi para o cinema (menos o racismo).

JoJo’s Bizarre Adventure (Netflix, 2012–2019). Homens bombados fazendo poses. Só isso mesmo.

Fallout: New Vegas (Obsidian, 2010). O terceiro lugar no meu top 3 jogos favoritos e o motivo do meu ódio pela Bethesda por estar completamente cagando para ele.

Nintendo Switch. O Switch foi o terceiro console Nintendo que tive na vida, antes dele tive um GameBoy Color e o SNES, no momento que liguei o meu pela primeira vez pensei comigo “ok, esse foi o melhor eletrônico que já comprei na vida”.

Final Fantasy XIV: A Realm Reborn (Square Enix, 2013). Esse aqui foi uma das maiores histórias de superação na indústria dos games, o jogo começou com tantos problemas de bugs e gameplay que resolveram simplesmente aniquilar o mundo todo e começar de novo em A_ Realm Reborn_. Para mim ele é o melhor MMORPG já feito então podem cancelar todos os outros (estou olhando para você, WoW Classic).

O final de Boa Noite PunPun (Inio Asano, 2013). Tem duas coisas no mundo que me fazem chorar 100% das vezes: cachorros sofrendo e o volume final de Boa Noite PunPun.


Leonardo Michelon

Um rosto no meio da escuridão da noite, em Cavalo Dinheiro Twin Peaks: O Retorno, de David Lynch.

Eu acho que a gente vive em um tempo sem esperança. Eu sou um fã desse negócio de “sinais dos tempos”, e mesmo sabendo que uma época não pode ser resumida num tema só, o que eu observo vendo essa lista é esse grande apreço pela nostalgia, já que as pessoas não tem como saber o que vem pela frente, viram pra trás. Essa ideia de que o tempo é uma repetição infinita nunca esteve tão clara, e eu acho que de fato o futuro não esta na incerteza, mas na reafirmação de coisas óbvias que muitas vezes a gente acaba esquecendo.

Obs.: a lista tá em ordem de lançamento.


Raul Fontoura

Uma gata em cima do telhado, em cena de Night in the Woods Night in the Woods, do estúdio Infinite Fall.

Fiz minha lista tentando trazer o que foi pra mim o espírito da década: o tipo de jogo, série, filme e música que conversou com os meus anseios, meus medos, minhas experiências. Entrar em um emprego, a encruzilhada de o que estudar na faculdade, sair da casa dos pais em maus termos por causa da minha bissexualidade, viver os anos do jovem baladeiro, lidar com abuso e trauma, compreender as próprias escolhas, e até reavaliar a forma como eu tomava escolhas. Essa década basicamente marcou o caminho da minha saída da “infância” para a vida adulta, de forma até bem caricata - do meu primeiro beijo até o meu primeiro divórcio, literalmente. A lista reflete um pouco dessa pessoa que eu fui nesse tempo, a pessoa que eu deixei de ser, e a pessoa que eu passei a ser pessoal, política e socialmente. Quem será que eu posso ser daqui 10 anos?

  1. The Suburbs (Arcade Fire, 2010)
  2. The Legend of Zelda: Breath of The Wild (Nintendo, 2017)
  3. Language (MNEK, 2016)
  4. The Gay and Wondrous Life of Caleb Gallo (Brian Jordan Alvarez, 2016)
  5. Crianças Lobo (Mamoru Hosoda, 2012)
  6. Atlanta (FX/Netflix, 2016)
  7. The Stanley Parable (Galactic Cafe, 2013)
  8. The Good Place (NBC/Netflix, 2016—)
  9. Que Horas Ela Volta (Anna Muylaert, 2015)
  10. Night In The Woods (Infinite Fall, 2017)

Tainara Fraga

Peggy (Elizabeth Moss) sorri enquanto cruza o corredor em Mad Men Elizabeth Moss em Mad Men.

Séries:

Episódios de série:

  • The Suitcase (4x7), Comissions and Fees (5x12), The Phantom (5x13) e Waterloo (7x7) (Mad Men)
  • Abed’s Uncontrollable Christmas (2x11) (Community)
  • The Reichenbach Fall (2x3) (Sherlock)
  • I Love You baby (5x10) e The Panic in Central Park (5x6) (Girls)
  • Episódio 4 (2x4) (Fleabag)
  • Toda quinta temporada de American Horror Story
  • The National Anthem (1x1) e White Bear (2x2) (Black Mirror)
  • Who Goes There (1x4) (True Detective)
  • Ciclo Sem Fim (2x6) (Dark)

Filmes:

Livro: O segundo sexo (Simone de Beauvoir - relançamento em 2016 pela Nova Fronteira).

Videoclipes:

Música:

Discos:

Show: David Gilmour (2015)

Jogo: The Legend of Zelda: Skyward Sword (Nintendo, 2011)

Série documental: Chef’s Table (Netflix, 2015–)

Episódio de série documental: Asma Khan (Chef’s Table)

Melhor abertura de série:


Arthur Freitas

Kentucky Route Zero, por Cardboard Computer Kentucky Route Zero, por Cardboard Computer.

Kentucky Route Zero (Cardboard Computer, 2013—). Nada nos últimos dez anos mexeu tanto comigo quanto Kentucky Route Zero, o jogo de apontar e clicar de um trio de artistas de Chicago. O projeto, que ainda não está finalizado, me acompanhou por boa parte da década através de quatro atos e três interlúdios que contam a história de Conway e Shannon, e uma trupe crescente de desajustados, esquecidos e falidos pelas cavernas do interior profundo dos Estados Unidos em meio à uma recessão econômica que parece o próprio apocalipse (e tudo indica que realmente seja). O jogo atmosférico presta homenagem à história dos videogames e às promessas da informática, enquanto olha para as tecnologias defasadas e as pessoas que se apegaram à elas. Essa é uma descrição triste para um jogo trágico, mas com momentos de beleza inabaláveis em que pessoas se unem para serem esquecidas juntas. É um sinal dos tempos que vêm, mas também um retrato perfeito do que está nos levando até eles.

Eu escrevi sobre KRZ diversas vezes no PCM nesses últimos anos: em 2014, sobre os Atos I e II; em 2015, sobre o Ato III e o interlúdio Here and there Along the Echo; em 2016, sobre o Ato IV; em 2017, sobre o interlúdio The Entertainment e em 2019 sobre o interlúdio Un Pueblo de Nada.

Cópia Fiel (Abbas Kiarostami, 2010). Esse filme mudou tudo para mim. Em 2011, quando eu fui ver ele no cinema sem ter a mínima ideia do que Cópia Fiel ou Abbas Kiarostami significavam (tava muito quente na rua e o ingresso do CCMQ naquela época era R$ 4, valia muito a pena). Eu saí da sessão sem ter nenhuma ideia do que eu tinha visto, mas uma fome insaciável de descobrir. Foi o começo do meu amor pelo cinema. Olhando hoje, eu vejo que esse filme me levou à faculdade apenas para tentar decifrá-lo, me apresentou meu diretor favorito, e se tornou meu porto seguro em dias complicados. É o filme que me trouxe até aqui, e que provavelmente vai me levar a outros lugares daqui pra frente também.

Eu escrevi sobre Cópia Fiel em 2016, quando soube da morte de Abbas Kiarostami.

The Suburbs (Arcade Fire, 2010). Em fevereiro, eu escrevi:

Eu escuto The Suburbs todo o verão desde seu lançamento, em 2010. Quando eu descobri o Arcade Fire, um pouco antes do lançamento do álbum, eu escutava Funeral e Neon Bible direto, no repeat, quase todos os dias. Foi a trilha-sonora do último ano do ensino fundamental e do meu primeiro ano do ensino médio. The Suburbs mudou tudo. Ele entendia a minha vontade de sair de casa e nunca mais voltar. Ele me acompanhou no meu primeiro emprego arrumando computadores de uma lan-house (!!). Ele soava como os meus dias de verão — gigantes, ensolarados, onde o dia durava uma eternidade de tédio, do bom e do ruim.

Dez anos depois, muita coisa mudou no mundo. É fácil um álbum sobre sentir saudade — e os perigos de sentir saudade — envelhecer com a passagem do tempo. Mas The Suburbs se transforma.

A Visita Cruel do Tempo (Jennifer Egan, 2011). Eu nunca escrevi sobre meu livro favorito aqui no PCM, então tá aí uma oportunidade pro ano que vem. Esse vencedor do Pullitzer escrito por Jennifer Egan é um livro gigante, não em extensão, mas em dimensão. Em uma narrativa que vai e vém por quarenta anos, A Visita Cruel do Tempo explora várias formas de contar sua história central através de personagens diferentes. A figura central é Sasha, a assistente de um produtor musical que já foi famoso, mas saiu de moda. Nós acompanhamos a vida de Sasha por pessoas conectadas à sua vida de alguma forma. Do seu filho que faz apresentações de slides à madrasta dos filhos de seu chefe; do seu tio que a encontrou na Itália quando ela fugiu na adolescência até seu amigo, que morreu em um acidente. A Visita Cruel do Tempo consegue capturar esse momento passageiro que é sentir o tempo passar, com uma audácia e imaginação que ficaram na minha memória como registros do próprio tempo. É uma loucura de bom.

The Leftovers (HBO, 2014–2017). A sinopse oficial da series finale de The Leftovers é “Nada é respondido. Tudo é respondido. E então acaba”. Para uma série que se preocupava em enxergar as maiores perguntas possíveis (qual o sentido de tudo, o que há depois da morte, existe uma força maior?), essa é uma sinopse capaz de gerar grandes expectativas e muita decepção, algo que é comum para o criador da série, Damon Lindelof (de Lost e da adaptação de Watchmen para a HBO). Mas, quer saber? Ela é perfeita. Não só para a finale, mas para a série inteira. Em suas três temporadas, The Leftovers criou uma experiência em que o espectador não espera por nada porque não sabe o que esperar, e fica contente com aquilo que vier. Seria fácil seguir o caminho simples, entregar qualquer coisa que viesse à cabeça dos roteiristas e deixar assim, mas The Leftovers entrega tudo, inclusive respostas. E então acaba. Foi a experiência emocional mais forte que tive nesses dez anos, uma montanha russa entre a depressão, a euforia, a íntima felicidade e, finalmente, um certo tipo de paz. The Leftovers foi a série que perguntou as maiores perguntas possíveis, e me ensinou a não me apavorar com a falta de respostas, mas aceitar que a beleza da vida é correr atrás delas até o final.

Eu escrevi sobre The Leftovers em 2015, sobre a segunda temporada, e em 2017, sobre a última.

  1. Vou contar os dois jogos como um pois não consigo escolher o melhor entre eles 

As cinco melhores coisas de 2019

Eu escrevo essas listas de “melhores do ano” desde 2015 para o PCM, e muita coisa mudou nesses quatro anos por aqui. Minhas ideias sobre o que o site é e a finalidade daquilo que eu escrevo por aqui foram algumas dessas coisas. Quando a gente criou o blog, lá em 2014, ele servia como um espaço para fazermos resenhas daquilo que a gente gosta para recomendarmos uns para os outros.

Hoje, nesse final de 2019, só eu fiquei dos autores originais, e eu vejo menos finalidade em resenhar coisas. Resenhar é escrever sobre o futuro — porque você deve ler/assistir/ver algo. É sobre te dizer como gastar seu tempo com quais livros ler, quais séries maratonar, etc. Eu não sei se eu tenho esse poder, de dizer onde você deve se dedicar. Tem tanta coisa boa por aí, e certamente eu quero que mais pessoas descubram aquilo que eu gosto. Mas, também, acho que o espaço do PCM como um lugar para resenhas é cada vez menos relevante. As pessoas já sabem o que querer assistir e jogar. Eu acho mais interessante ler sobre o passado — o que aquilo que eu gostei significa, como ele me fez sentir. É menos “no que você precisa prestar atenção” e mais “o que a nossa atenção significou naquele momento”.

Um dos lugares onde esse novo tipo de reflexão mudou minha maneira de escrever é nos rankings de fim de ano. Em 2015, eu achava que ao rankear as melhores coisas daquele ano eu traçava um panorama do que havia de melhor na cultura. Hoje eu sei que a) isso é burrice, eu só sou capaz de dar atenção pra uma pequena parcela de tudo o que é feito por aí; b) que falta de humildade, Arthur; e c) é muito mais interessante pra mim, hoje, perceber o porquê de eu ter gostado de algo, mais do que tentar te vender um motivo pra gastar o seu tempo com algo.

Então aí estão as cinco coisas que eu mais gostei de ter experimentado esse ano — de álbuns de artistas que eu nunca dei bola antes até filmes de diretores que eu amo que resolveram voltar com tudo. Sem rankings, sem grandes declarações. Se você não gostar de alguma dessas, tem outras vinte e cinco dicas para você substituir com a que gostar mais.

A gente se vê na próxima quarta, com uma lista muito especial pra fechar o ano (e a década).


The Best of a Bad Situation me deixou mal. É um texto gigante sobre a nova ascenção do facismo, o colapso ambiental, e a incapacidade da sociedade de sacrificar o luxo por um futuro. Mas foi uma das coisas que mais me marcou nesse ano — um ensaio sobre o estado das coisas, um exercício em tentar relacionar a grande depressão contemporânea da sociedade com a crise financeira e com a mudança climática. Não é uma tarefa fácil, mas a carta dos editores da n+1 entrega. E ficou na minha cabeça desde então.

É daqueles textos que conseguem enxergar o mundo, capturar toda aquela complexidade dos nossos problemas sem diminuí-los à uma fórmula, e sem torná-los abstratos ao ponto de não significarem nada. É como a terceira temporada de Serial, de enxergar um panorama grande o suficiente mas sem esquecer que ele é feito pelos detalhes. The Best of a Bad Situation não vai ser fácil de ler, mas foi necessário nesse ano tão confuso e caótico, porque conseguiu identificar esse caos, me fazer entender ele melhor. Pode não ajudar em nada para resolver os problemas que ele observa tão bem, mas ao ajudar a decifrar esse emaranhado da vida contemporânea ajuda a tornar ele menos corrosivo na nossa mente, para que seja mais fácil de enxergá-lo com nossos olhos.

Aproveite e clique também:


O melhor disco: Remind me Tomorrow (Sharon van Etten)

Eu não sei escrever sobre música, então deixo aqui o texto de Cleber Facchi, do Miojo Indie, sobre o meu disco favorito desse ano:

Primeiro álbum de estúdio da cantora em cinco anos, Remind Me Tomorrow (2019, Jagjaguwar) é um registro inteiramente montado a partir dessas pequenas confissões e retalhos sentimentais. Do momento em que tem início, em I Told You Everything (“Sentada no bar, eu te contei tudo / Você disse: ‘Puta merda, você quase morreu’ / Compartilhando uma bebida, você segurou minha mão“), até alcançar a derradeira Stay (“Não quero te machucar / Não quero fugir de mim mesma / Quer que a sua estrela brilhe“), delicada homenagem à própria filha, são memórias de um passado ainda recente que embalam a poesia contemplativa, sempre precisa, de Etten, como um delicado resgate das experiências e recordações vividas pela artista.

Aproveite e escute também:

  • Homecoming: The Live Album (Beyoncé)
  • Humana (Fafá de Belém)
  • Normal Fucking Rockwell! (Lana Del Rey)
  • Watchmen (Music from the HBO Series) (Trent Reznor & Atticus Ross)
  • When I Get Home (Solange)

O melhor filme: Pássaros de Verão (Ciro Guerra e Cristina Gallego, 2018)

Vários dos meus diretores favoritos voltaram com filmes excelentes em 2019. O Karim Aïnouz trouxe A Vida Invisível, um dos filmes mais lindos que eu já vi; James Gray realizou meus sonhos com Ad Astra; Martin Scorsese faliu a Netflix com o magnífico O Irlandês (e tem o La Flor, que eu não coloquei aqui, que merece um destaque à parte um dia desses).

O melhor filme que eu vi esse ano, porém, foi uma aposta. Eu amo O Abraço da Serpente, o filme anterior do Ciro Guerra, mas não sabia se ia gostar desse épico de máfia no interior da Colômbia que também é sobre colonialismo contemporâneo, o extermínio dos povos indígenas, o poder da ancestralidade e o mistério da Terra. Pássaros de Verão cria uma tragédia shakespeareana no meio de um confronto entre famílias indígenas no coração da cultura colombiana, e identifica como as histórias que nossos ancestrais contam são muito mais parecidas com os grandes épicos do que imaginamos. É lindo (ele explode em cor (e sangue)), é gigantesco e muitíssimo emocionante, e um dos mais poderosos filmes que eu já vi.

Aproveite e veja também:

  • Ad Astra (James Gray, 2019) — indo pra Blu-ray e DVD.
  • Atlantique (Mati Diop, 2019) — na Netflix.
  • A Vida Invisível (Karim Aïnouz, 2019) — nos cinemas!
  • Em Trânsito (Christian Petzold, 2018) — no Looke, iTunes e Google Play.
  • Parasita (Bong Joon-ho, 2019) — nos cinemas!

O melhor jogo: The Touryst (Shin’en Multimedia, Nintendo Switch)

Eu joguei poucos jogos grandes em 2019. Com o Apple Arcade e os indies atacando o Nintendo Switch, eu passei muito do meu tempo nos últimos meses jogando experimentos estranhos de desenvolvedoras pequenas. Só semana passada que tive a chance de passar umas horas com o Death Stranding no PS4 da minha irmã, por exemplo.

Mesmo assim, nenhum outro jogo me ofereceu algo tão bacana como The Touryst. Longe de um pequeno indie e longe de uma super produção AAA, o jogo da Shin’en é uma daquelas raridades que aparecia no Xbox Arcade e no WiiWare das gerações passadas. É um jogo completo, mais do que um experimento de jogabilidade; que não tenta ser muito mais do que sua premissa básica. The Touryst é um jogo narrativo de exploração em que você viaja para um arquipélago de ilhas paradisíacas e descobre um segredo por lá. O que torna Touryst tão bom é a sua qualidade técnica: é uma execução impecável de um jogo em um gênero já comprovado. A Nintendo engasgou o Switch com Link’s Awakening, e o pessoal da Shin’en usou The Touryst para mostrar como se faz. É um jogo extremamente bem polido (que saudade de jogar algo que funciona desde o início?!!?!? Fazia tempo demais), charmoso e que coça aquele cafuné gostoso de um dos meus gêneros favoritos. (Site oficial)

Aproveite e jogue também:


A melhor série: Succession (segunda temporada, HBO)

Que ano pra TV, hein? Em 2017 eu ficava empolgado com quanta coisa boa tinha pra assistir na TV. Esse ano, tem tanta coisa pra assistir que é difícil não se sentir oprimido pelo número de opções, mas também tá muito fácil de achar séries fenomenais. Eu nunca achei que ia assistir algo tão… perfeito? quanto a segunda temporada de Fleabag; ou veria uma observação tão bem feita do colapso do ser humano quanto em Chernobyl; e é totalmente injusto a HBO entregar uma das melhores séries da década nas últimas semanas do ano (ei, Watchmen).

E tem Succession, o assunto do pior texto que eu escrevi no PCM esse ano. A Vulture apontou que a série é uma mistura de Rei Lear do Shakespeare com Arrested Development e talvez essa seja a melhor descrição da série, em que uma família de ultramilionários donos de uma mega-corporação ficam de picuinha uns com os outros, pro horror das milhares de pessoas que estão sujeitas ao poder delas. Essa temporada em Succession, porém, se voltou para os conflitos internos da família dos Roy mais do que sua influência no país e na sociedade que os cerca; e criou um dos melhores retratos da tragédia que é o ciclo de abuso do patriarca Logan pelos seus filhos, e como eles perpetuam esse abuso com o resto do mundo. É uma grande observação dos homens que estão no poder hoje em dia, rindo da pequenez da vida deles mas com um olho na desgraça que eles podem causar se rimos dos seus erros. (HBO GO)

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Os dez melhores jogos no Apple Arcade

Meu lançamento favorito esse ano não foi um jogo em si, mas um serviço. O Apple Arcade é um plano de assinatura de jogos da Apple para o Mac, iOS e tvOS que chegou prometendo bem pouco — um punhado de jogos, sem microtransações e anúncios, por R$ 9,90. Diferente de outro serviço de assinatura de jogos por aí, porém, o Arcade entregou todas as suas poucas promessas com um grande truque na manga: a maioria dos jogos do serviço são muito bons, e funcionam.

Quando a App Store do iPhone abriu as portas na década passada, os primeiros jogos eram estranhos — alguns eram uma tentativa de criar experiências que deram certo no GBA em um panorama de controles totalmente diferente. Poucos jogos eram realmente bons, mas muitos eram muito interessantes, e tentavam usar o que fazia o iPhone ser único ao seu favor. De Dots a Threes a Monument Valley, eles tentavam explorar a tela de toque do iPhone, e no processo criaram uma ótima plataforma de jogos onde, com o passar dos anos, foi otimizada não para expandir aquilo que eles se aventuraram a fazer, mas para criar mais maneiras de pegar uns trocados através de microtransações e “recompensas diárias”.

O Apple Arcade proporciona um espaço para experimentação e excelência em jogos de celular, mais uma vez. Não é permitido ter anúncios ou loot boxes ou nenhum tipo de transação financeira nos jogos do serviço, então os jogos no Arcade possuem experiências sem interrupções ou “tempos de carregamento” onde você precisa esperar seis horas pra poder jogar novamente (ou pagar R$ 0,99 centavos para pular esse tempo). Sem precisar competir pelos centavos dos jogadores, esses jogos podem ir mais longe. Fazia tempo que os jogos para celulares não eram tão empolgantes.

Como todos os catálogos por aí, o Arcade tem alguns pontos mais altos do que outros, mas a média dos jogos (hoje já são mais de cem) no Arcade é realmente surpreendente. Por isso, aí vão os dez melhores jogos disponíveis hoje por lá (em ordem alfabética), para você que está afim de começar a explorar um catálogo empolgante de jogos.


Assemble With Care (ustwo Games)

Dos mesmos desenvolvedores de Monument Valley, meu jogo favorito no iPhone, Assemble With Care é um jogo de reparos. Você joga como Maria, uma restauradora. Seu trabalho é desmontar, arrumar, e montar de novo. Maria acaba conhecendo um pouco seus clientes através de seus objetos e o que eles significam para essas pessoas — porque é importante para eles consertar esses objetos, e não comprar um substituto —, enquanto revela um pouco sobre a vida da personagem. Como Monument Valley, Assemble With Care dá valor a cada toque que o jogador dá na tela do celular (ou trackpade se você jogar no Mac), respondendo a cada uma das suas ações com precisão e cuidado. É um lindo jogo, perfeito para você jogar no ônibus (cada reparo demora alguns minutos, e vem acompanhado com bonitas histórias sobre esses objetos), um pouco a cada dia.

Bleak Sword (more8bit)

É difícil de transportar jogos de ação para os celulares porque o toque em uma tela não é necessariamente o jeito mais preciso de controlar a ação de um personagem. Mas Bleak Sword encontrou uma forma perfeita — e em dobro, já que você pode optar por jogar ele com uma ou duas mãos. É um jogo de combate bem sangrento otimizado para a tela de toque (mas que é ótimo de jogar com um controle também, se você tiver) com gráficos marcantes em 8-bit. É meio empacado nas mecânicas de progressão em níveis que jogos de RPG têm, mas os melhores momentos de Bleak Sword são quase inigualáveis na tela de um celular. O combate é bom, e é intenso, e é recompensador.

INMOST (Hidden Layer)

Eu não me senti bem jogando INMOST. É um jogo de plataforma sombrio que lida com a tristeza, a morte e a depressão de forma bem direta. Mas o jogo compensa seus temas ao traduzi-los de forma tão bela no visual — um misto de jogo do SNES com um filme de terror da década de 60. É tão bonito que eu acho que é um jogo que vale a pena jogar no computador (ou na Apple TV, se você e uma das onze pessoas no planeta que tem aquela coisa). (Disponível no Nintendo Switch em breve).

Manifold Garden (William Chyr)

Desenvolvido por sete anos, Manifold Garden é descrito pelo seu desenvolvedor como uma jornada pela história das grandes descobertas da física. É bem ambicioso ele descrever seu jogo de quebra-cabeças gravitacionais assim, mas Manifold Garden é uma obra prima. É lindo de se ver, claro, mas seus controles baseados na gravidade do espaço que você está vendo na tela são impressionantes, e manipulam a maneira como você imagina que está vendo algo. (Também disponível para Windows e PlayStation 4).

Neo Cab (Fellow Traveller)

Esse pequeno jogo narrativo coloca você na pele de Nina, uma motorista de aplicativo que precisa se sair bem nas corridas com seus clientes enquanto precisa lidar com um sério problema pessoal. A jogabilidade de Neo Cab não é nada inovadora (é um jogo de escolhas de diálogo, afinal de contas), mas jogar um jogo com essa abordagem no celular têm um efeito particularmente eficaz aqui. Neo Cab termina quase que uma pequena tragédia dos tempos modernos. (Também disponível no Nintendo Switch).

Over the Alps (Stave Studios)

Eu amo jogos de “escolha sua própria aventura”, e fiquei muito feliz em descobrir que o Arcade tinha um novo jogo desses esperando por mim. Over the Alps é bem clássico: cheio de mistérios e traições e reviravoltas, e isso não é nada de novo no gênero. Só que ele faz isso tudo tão bem, e é tão bonito, e se adapta tão bem à versatilidade exigida pelos jogos no Arcade — onde você pode encerrar a jogatina a qualquer hora porque algo mais importante está acontecendo ao seu redor — que me ganhou de jeito. Ambientado na Suíça dos anos 1930, o jogo possui um valor de produção tão alto que só torna a história, já batida mas muito bem contada, em algo ainda mais bacana de experimentar.

Sayonara Wild Hearts (Simogo, Annapurna Interactive)

Provavelmente o grande jogo do lançamento do Arcade, Sayonara Wild Hears é brilhante. É um jogo de ritmo e corrida, dividido em várias faixas sobre corações partidos e amores terminados. Cada música apresenta uma nova mecânica e novos desafios, e o jogo faz o resto para tornar a experiência de você aperfeiçoar essas mecânicas em um momento único na sua jogatina. Sayonara explode em cor, em ritmo e em ação, e é um dos melhores jogos que eu joguei nesse ano. (Também disponível no PlayStation 4 e no Nintendo Switch).

Skate City (Agens)

Skate City é um jogo de simulação de skate bem simples e bem prático, com poucos controles que fazem, cada um, uma manobra diferente. Mas a simplicidade do jogo traduz muito bem em uma experiência gostosa. Você travessa as ruas de Barcelona e Los Angeles em cima de um skate enquanto decide se quer pular num corrimão ou tentar enfrentar uma escada. Você ganha pontos se acerta, ou volta um pouco para tentar de novo se erra. Não há troféus nem competições nem nada do gênero. É só uns minutos tranquilos em cima do skate por paisagens lindas. As vezes é só o que você precisa pra terminar seu dia.

Stela (SkyBox Labs)

Esse jogo de plataforma é lindo. Caramba, é lindo demais Você é Stela, que atravessa um mundo pós-apocalíptico cheio de luzes e sombras e é provavelmente a última pessoa viva. Me lembrou muito o INSIDE da Playdead, e não só pelos visuais. Tudo em Stela quer a sua morte, e você vai morrer muito até conseguir acertar um pulo ou descobrir como superar um obstáculo. Mas é sempre recompensador quando você finalmente consegue seguir em frente. Como Limbo e INSIDE, é um jogo que valoriza sua tentativa e erro apresentando uma história forte e bela, que vale a pena a frustração de perder e tentar novamente porque você acaba se importando com a personagem e esse mundo que ela está atravessando.

WHAT THE GOLF? (Triband)

Foda-se, esse é o melhor jogo do Apple Arcade. É perfeito. É engraçado pra caramba. Tá sempre surpreendendo o jogador. É tudo o que o golfe deveria ser. É uma carta de amor aos jogos e aos jogadores, e está sempre pronto pra te fazer rir e te deixar empolgado em tentar algo novo. WHAT THE GOLF? é perfeito e só ele vale a assinatura do Arcade. (Disponível em breve no Nintendo Switch também!)

As séries de meia-hora são as minhas favoritas nessa década

Talvez o formato mais prestigiado na TV essa década seja o de “séries limitadas”. A expressão parece ser uma resposta a um problema de seriados de TV como uma forma narrativa, já que eles dependem de audiência para continuarem no ar e serem “terminados” (e tem o risco de nunca terminar se fizer sucesso — Grey’s Anatomy continua vivíssima em estado de zumbi). Séries limitadas agrupam dois outros tipos de séries: as minisséries, aquelas onde existem um determinado número de episódios que contam uma história inteira, como Chernobyl; ou as antologias, onde cada temporada serve como uma minissérie, mas existe uma “coesão temática” entre tudo, como em True Detective. Já que contam com um número menor de episódios, elas conseguem ter mais dinheiro, o que atrai atores e diretores mais famosos, o que chama a atenção do público e das premiações, e assim vai.

Com o avanço do streaming, que se transformou na plataforma principal de séries para muita gente, os showrunners não precisam mais se preocupar em satisfazer um horário na grade de um canal, deixando eles mais livres para estender ou diminuir os episódios conforme a narrativa pede. Porém, dificilmente essa flexibilidade é usada pra menos. É comum episódios de séries da Netflix e do Prime Video passarem dos cinquenta minutos (um episódio de The Morning Show na Apple TV+ tem imperdoáveis 75 minutos). Mas eu tenho a impressão que o formato que mais amadureceu nessa última década está longe desses episódios extensos e caros, onde cada episódio quer ser de um tamanho de um filme mas não pode ter um fim, porque tem um episódio a seguir. A série de meia-hora, que na década passada era praticamente sinônimo para sitcom, talvez seja o formato mais interessante dessa década.

Talvez essa impressão minha seja porque, quando eu comecei a assistir séries no início dos anos 2000, as séries que tinham 30 minutos eram quase que exclusivamente comédias: Seinfeld, Friends e The Simpsons vinham em “blocos” de duas ou três séries de comédia nas quintas-feiras (primeiro na Sony, depois na Warner Channel). Muitas outras sitcoms passaram pelos anos — das melhores, como Community; às piores, como Dois homens e meio —, mas eram sempre comédias onde o arco narrativo dos seus personagens evoluíam pouco por episódio (o desenvolvimento de personagens em Seinfeld acontece mais quando a gente vê uma temporada inteira), e a situação voltava à normalidade no final para que o próximo episódio fosse independente do anterior.

Imagem de Girls: quatro amigas sentadas em um píer Girls na HBO

A HBO e a Showtime flertaram com comédias mais adultas, como Sex and the City (na HBO GO) e Weeds (na Netflix), onde as personagens tinham um arco narrativo maior e não necessariamente voltavam à “estaca zero” como as séries de comédia mais tradicionais. O arco narrativo da série era mais bem definido, o que fazia os episódios serem mais essenciais um para o outro — se é possível ver episódios de Friends soltos e ainda assim entender o que está acontecendo, Sex and the City não funciona do mesmo jeito: a evolução de Carrie e suas amigas era acompanhado semana a semana pelos anos.

Duas séries deram o próximo passo na evolução: United States of Tara (no Prime Video) e Girls (na HBO GO) foram catalogadas como comédias quando estrearam, mas o seu conteúdo surpreendeu o público, com um misto certeiro entre o drama e a comédia do cotidiano. Embora tivessem momentos de humor, ambas exploravam muito mais a incerteza de futuro dos personagens. Em Tara, uma família precisa aprender a viver com a mãe, que possui transtorno dissociativo de identidade. Embora os primeiros capítulos mostrem com humor as mudanças de comportamento da protagonista, a série logo evolui para um retrato bem triste dos traumas que os membros de uma família podem impôr uns nos outros. Já Girls, no início, parece uma Sex and the City para a geração da internet, mas acaba em uma grande exposição dos problemas geracionais de um grupo de amigas, e como o amadurecimento nem sempre significa crescimento na vida.

A partir dessas duas séries, os canais premium como HBO e Showtime começaram a usar seus blocos de meia hora para explorar mais. Como são séries mais baratas, que não envolvem nem a audiência nem os custos de produção de uma Game of Thrones ou House of Cards, essas séries possuem mais espaço para respirar e mudar o que for preciso. Na HBO nos últimos anos teve Togetherness, Looking e Insecure, séries que são corajosas e honestas sobre pessoas tentando viver suas vidas nos dias atuais. A Netflix lançou Easy, do conceituado diretor independente Joe Swanberg, onde atores enfrentam o obstáculo de ter uma carreira e uma “vida real”. A FX tem a fantástica Atlanta, com o Donald Glover; o Prime Video tem a fantástica Fleabag, que eu tenho quase certeza que é o mais perto de uma série perfeita que eu já vi. E até mesmo o Facebook Watch acertou em cheio com a belíssima Sorry for Your Loss, em que uma jovem viúva precisa se deparar com a noção do que sua vida perdeu quando seu marido morreu.

Imagem de Insecure: Issa observa uma amiga no meio de uma festa à noite Insecure na HBO

Episódios de trinta minutos são complexos de acertar não só porque tem menos tempo para desenvolver um arco narrativo, mas porque trabalham com situações menores. Essas séries precisam encontrar exatamente um ponto certeiro entre representar momentos cotidianos da vida e identificar como elas podem mudar seus personagens: de uma ida à praia em Insecure a cortar o cabelo em Looking, essas séries precisam identificar como nosso dia a dia é repleto de momentos de tristeza e de beleza em igual medida, e como é a partir deles que é possível as histórias de nossas vidas.

Essas séries são consideradas comédia não porque possuem momentos que fazem rir, mas porque são sobre pessoas normais tentando levar a vida em um mundo indiferente à elas — e como essa condição de vida nos faz perceber como somos pequenos em meio a tudo o que acontece ao nosso redor, mas também como fazemos parte desse todo. Girls, Looking e Insecure são sobre pessoas buscando seu lugar no mundo; United States of Tara, Togetherness e Sorry for Your Loss estão interessadas em como vivemos ao redor das pessoas que nos aproximamos. São pequenas investigações do mundo real que não precisam de reviravoltas mirabolantes para engajar os espectadores. O reconhecimento de ter passado, ou estar passando, por um momento incerto na vida, e de não saber se um dia esse momento vai acabar, é forte por si só.

O Last.fm (ainda) é o melhor lugar para conhecer música boa

O Spotify tem o Descobertas da Semana, o Apple Music tem o Para Você e o YouTube tem o Mix. No fundo eles são a mesma coisa: uma lista com músicas que os algoritmos desses aplicativos acham que você vai gostar, porque o algoritmo “entende” seu gosto musical, e vai te mostrar músicas semelhantes. E, na maioria das vezes, parece que ele realmente entende. Essas playlists são compostas ou por faixas muito inspiradas naquelas que você tem no repeat, ou músicas que faz muito tempo que você não ouvia. Mas eu sempre tive a impressão que essas playlists, excelentes como são, acabam mostrando como não tem nada de especial nas músicas que eu gosto. É como se dissessem “ei, você gosta dessa música? Aqui vai outras vinte iguais, pra você esquecer de pausar e ficar ouvindo o dia inteiro”.

Acho que esse é o sentimento contrário que eu tenho ao navegar pelo Last.fm, um site que “faz scrobble” de tudo o que você escuta e, através de um banco de dados mantido pela comunidade, recomenda artistas e álbuns que você possa gostar. Na prática ele funciona de um jeito semelhante às playlists do Spotify e do Apple Music. A diferença é que, ao contrário de um algoritmo de inteligência artificial que fica observando padrões e ritmos naquilo que você ouve e quando você ouve, o Last.fm usa a grande inovação da web 2.0: as tags. Qualquer usuário pode adicionar tags aos álbuns, artistas ou faixas que gosta, desde gêneros musicais até classificações bem específicas. O Last.fm então observa as tags que você “gosta” (aquelas que mais aparecem entre os artistas e faixas que você escuta), e procura por outros lugares onde elas aparecem. Por exemplo, se você ouve MPB e também gosta de Velvet Underground, tem uma boa chance do Last.fm te apresentar o India da Gal Costa.

O Last.fm é fruto daquela mesma internet que criou o Orangotag e o del.icio.us, sites que tinham o objetivo de fazer você se expressar através daquilo que você ama. O Orangotag era excelente para fãs de séries ficarem em dia com o que os seus amigos assistiam, e o del.icio.us guardava seus links favoritos. O modo como eles criavam a interação era semelhante com o que o Last.fm faz: através de tags você pode encontrar coisas que pessoas ao redor do mundo achavam parecidas. Desses três sites, o Last.fm é o único que sobrevive até hoje.

Eu acho que tem um motivo pra isso. O modo como a gente consome música mudou drasticamente no início da década passada com o Napster, o iTunes e o iPod (e o Kazaa e o Shareaza e o eMule…); e nessa última década mudou de novo com o Rdio e o Spotify e o Apple Music (e o Tidal). Nós deixamos de escutar aquilo que era disponível para nós através de lojas de discos e o que as gravadoras queriam. Depois nós podíamos escolher quais músicas nós queríamos escutar em um álbum, e tirar aquelas que nós não gostávamos. Hoje em dia, na era das playlists, nós (e os algoritmos) fazemos as coletâneas que queremos. Com o streaming a gente não têm mais as músicas que amamos, mas elas continuam disponíveis para nós. Mas não importa como a gente consumiu ou consome música, a maneira como descobrimos música boa foi através de trocas: de CDs entre amigos, entre fitas gravadas no mini-system do amigo rico, de arquivos MP3 baixados a 56 kbps ou em links do Spotify e do YouTube. “Sabe aquele álbum que você disse que gostou? Tem esse aqui que eu achei na mesma vibe”.

Algoritmos como o do Spotify, do YouTube e do Apple Music (e do Tidal, se o Tidal tem algo assim e se alguém usa ele) fazem algo parecido. Tem esse mundaréu de música parecida com aquela que você gosta, mas isso só mostra como o seu gosto é comum. É um bom choque de realidade, é verdade, mas quando você descobre sua nova música favorita não porque ela é parecida com aquela outra, e sim porque ela te fez sentir como se estivesse flutuando nas ondas musicais como aquela, é inigualável. Essa percepção efêmera do que faz você gostar de Velvet Underground e de Daft Punk é necessariamente humana. O Spotify vai recomendar a você Justice e Phoenix, porque é semelhante o suficiente pra você gostar. O Last.fm vai te recomendar Debussy porque alguém lá na Noruega encontrou algo em comum entre a new wave do David Byrne e o eletrônico do duo francês. Não faz sentido nenhum até que faz todo o sentido do mundo. Não foi assim que você se apaixonou por aquele álbum?

Praia de Manhattan é excelente (e sem muitas surpresas)

Fiquei surpreso quando fui conferir os arquivos do Pão com Mortadela e percebi que nunca recomendei meu livro favorito dos anos 2000, A Visita Cruel do Tempo. Escrito por Jennifer Egan, o livro (vencedor do Pullitzer de 2011) é dividido em treze capítulos, cada um contando a história de uma pessoa levemente relacionada à anterior: começamos com uma mulher na terapeuta, discutindo suas tendências cleptomaníacas; depois acompanhamos seu chefe; depois, a madrasta dos filhos desse chefe; e assim por diante. Cada capítulo de A Visita Cruel do Tempo é estruturado de uma maneira diferente (um é em primeira pessoa, outro parece um artigo científico, tem um que é uma apresentação de PowerPoint), e narra um momento específico — no final, você acompanhou dezenas de pessoas durante quarenta anos, e viu o tempo passar diante dos seus próprios olhos. É um livro absurdo de tão bom.

A Visita Cruel do Tempo é exibido, também. É uma obra-prima de uma autora completamente ciente das suas habilidades como escritora, no domínio completo de sua prosa. Como Egan ia continuar, depois de um feito tão grandioso assim?

A resposta é Praia de Manhattan (Intrínseca), um livro que troca a estrutura ambiciosa de A Visita Cruel do Tempo por um outro tipo de ambição: a de grandes clássicos do romance americano.

Em A Visita Cruel do Tempo, cada capítulo era protagonizada por um personagem diferente mas, na periferia, todos tratavam indiretamente sobre Sasha, a personagem que abre o primeiro capítulo do livro. Seja um momento de breve conexão entre ela e outro personagem, ou apenas um mergulho no passado de uma pessoa que ela gostou. Em Praia de Manhattan, porém, a protagonista é Anna, uma criança crescendo durante a Grande Depressão com seus pais e sua irmã mais nova, Lydia, que precisa da ajuda da mãe para sentar e não consegue falar. A mãe de Anna é totalmente devotada à filha caçula; já o pai, Eddie, ama Anna — mas sente repulsa de Lydia. Um dia, Eddie — que trabalha como mensageiro entre gangues na Nova York dos anos 1920 — desaparece, e as três mulheres são deixadas sozinhas para sobreviver em meio à crise e às guerras que estão para acontecer.

O livro pula para anos depois, quando Anna, já adulta, lentamente escala na hierarquia do exército até ser uma mergulhadora durante a Segunda Guerra Mundial. É quando Anna começa a se aproximar de um antigo companheiro de negócios do pai, o que começa a atingir sua vida em uma complexa situação paternal.

Diferente de A Visita Cruel do Tempo, Praia de Manhattan segure seus acontecimentos, na maioria das vezes, de uma maneira mais direta e convencional. Mas Praia… é igualmente poderoso em representar a passagem do tempo — talvez o grande personagem central de A Visita… —, e como Anna, sua mãe e seu amante encontram forças para continuar vivendo enquanto o tempo passa. Como viver sabendo que vamos envelhecer, morrer, e as pessoas que nos dedicamos durante nossa vida — quem amamos, e quem somos responsáveis por — também vão envelhecer e morrer?

É em Lydia, a irmã mais nova, que o tempo parece não agir em Praia de Manhattan, e quem Anna vê como uma luz contra a força desse tempo cruel. Lydia, é claro, envelhece e, quando encontra o mar da praia que dá título ao livro, deixa que o tempo passe por ela todo de uma vez, contra todos os anos em que ele parece ter ficado parado. É um dos momentos mais lindos já escritos por Egan, e o único momento em que ela permite que sua prosa chame atenção para si mesma, em uma espécie de poesia e monólogo de uma pessoa que viveu em silêncio, finalmente tendo a chance de amadurecer.

Já Anna, nosso veículo para contemplar a passagem do tempo em Praia de Manhattan, está sempre seguindo em frente, como uma pessoa teimosa enfrentando uma tempestade de areia no deserto. A prosa de Egan parece ser transparente quando acompanha a personagem, com uma elegância observacional que faz o leitor perceber o tempo por causa da especificidade das observações de Anna — como anda a sua amiga, como uma lembrança se esvaece na sua mente, como a memória de seu pai muda de acordo com os anos. Mas aqui, a prosa mais direta de Egan, ao contrário da complexidade de A Visita Cruel do Tempo, permite que o leitor mergulhe na mente de Anna, e não a observe de longe. Em um momento chave de Praia de Manhattan, Anna descreve mergulhar “como voar, como mágica — como se estivesse dentro de um sonho”. É como o mergulho no mar de um tempo que se dissolve na areia da praia. O acontecimento some, mas dá um frio na espinha só de lembrar que ele aconteceu.

“Fracasso de bilheteria” talvez seja o meu tipo de filme favorito

Na primeira metade de 2019 eu comentei com um amigo meu que eu queria muito assistir Godzilla II: Rei dos Monstros. Vários motivos me fizeram dar essa importante declaração: 1. o trailer do filme é sensacional; 2. nenhum filme do Godzilla é ruim; e 3. eu amo um fracasso de bilheteria, e Godzilla II parecia muito que ia ser bem o meu tipinho de fracasso.

Nesse último ponto, Godzilla II acabou me decepcionando. O filme não foi um fracasso absoluto de bilheteria (o que é bacana, deu dinheiro pro pessoal continuar fazendo filme do Godzilla, que nunca é ruim). Foi só um fracassinho, que fez 385 milhões de dólares para um orçamento de 200 milhões (um orçamento desses pede no mínimo 600 milhões pro filme se pagar, e mais pra ter lucro).

A matemática desses fracassos sempre me fascinou. Esses filmes custam centenas de milhões de dólares, e precisam arrecadar o triplo desse valor para recuperar o investimento. E eles são causados por uma dessas duas situações:

  1. São filmes que deveriam iniciar uma grande franquia para um estúdio, então ele é milimetricamente projetado por um comitê de produtores e entregue para um diretor. Depois, os produtores veem o filme e percebem que não está bom, e pedem pro diretor filmar mais coisa, deixando o filme ainda mais caro e, porque quer satisfazer um comitê inteiro de executivo que não tem ideia de como ir no restaurante sem gastar seis mil dólares em aperitivo, indecifrável pra audiência.
  2. São filmes que deveriam iniciar uma grande franquia para um estúdio, então os produtores encontram um diretor renomado por um “filme de arte” e entregam uma fortuna para esse diretor fazer o que ele quiser. O diretor faz, e o filme passa por “testes de exibição” que mostram que o gosto extremamente específico do diretor não conversa com uma audiência diversa. O diretor recebe mais dinheiro pra fazer o filme atrair mais gente, deixando ele mais caro mas nem um pouco mais atrativo pra audiência.

Esses filmes não são bons porque foram um fracasso, nem são um fracasso porque são bons. Alguns nem são tão bons assim, na verdade! Mas eles são fascinantes de assistir e ver como o modelo de negócio de Hollywood é uma aposta (para quase todos os estúdios com exceção da Disney, que encontrou um jeitinho bem específico de atrair o maior público possível: injetando nostalgia nos olhos das pessoas), e ela geralmente sai pela culatra. Isso aconteceu por toda a história da indústria, e alguns filmes se mostraram tão específicos sobre um diretor ou uma época que acabaram sendo apreciados com o passar do tempo, virando clássicos. Outros só provaram como Hollywood pode ter tanto medo de arriscar fazer algo diferente que gasta 300 milhões de dólares para copiar outro filme de sucesso. Tudo pode acontecer!

Aqui vão meus fracassos favoritos do cinema, dos mais bem sucedidos aos que mais perderam dinheiro:


A Grande Muralha (The Great Wall, 2016)

O prejuízo: 75 milhões de dólares

O que é: Matt Damon vai pra China ajudar a defender a Muralha de monstros gigantes.

Teorias do fracasso: A Grande Muralha é um caso incrível. A China é o segundo mercado mais importante para Hollywood em receita, depois dos Estados Unidos. Como a Universal decidiu apelar a esse público? Chamou Zhang Yimou, um dos mais renomados diretores chineses (e criador de imagens magníficas, dá uma conferida em Lanternas Vermelhas) e colocou Matt Damon no papel principal de um europeu que vai para a China e acaba defendendo a Grande Muralha de monstros. O filme tem o cuidado estético de um filme do Zhang Yimou com todo o dinheiro do mundo ao seu dispôr, mas é claramente um filme escrito por quinze pessoas que colocam tudo aquilo que eles acham que o público quer. A Grande Muralha é lindo, e é divertido. Mas atira pra tudo o que é lado com os olhos fechados. Um dos tiros foi direto no meu coração.

É ruim? Vou gostar? Quase. O filme tem seus problemas, mas nunca é chato. Se a história deixar de fazer sentido ali no meio, nem esquenta a cabeça, Zhang Yimou vai te deixar satisfeito com as batalhas belíssimas.


Blade Runner 2049 (2017)

O prejuízo: 82 milhões de dólares

O que é: Continuação de um clássico dos anos 1980 que também foi um fracasso de bilheteria. Na terceira é gol!

Teorias do fracasso: Caramba se todo blockbuster de Hollywood fosse simplesmente entregar 200 milhões de dólares para um ótimo diretor como o Denis Villeneuve (A Chegada, O Homem Duplicado) fazer a “sua interpretação sobre esse mundo”. Blade Runner 2049 é lindo, e um dos meus filmes favoritos dessa década. É também um filme de quase três horas de duração em que metade desse tempo é o Ryan Gosling confuso; a outra metade é o Harrison Ford e o Ryan Gosling confusos. É tão lindo, poético e pungente quanto o Blade Runner original. É também tão específico sobre seu diretor que é facílimo de não se alinhar com ele.

É ruim? Vou gostar? Eu não acho ruim. Inclusive acho excelente. Mas se o tom do Blade Runner original parece firula demais pra você, BR2049 é basicamente isso na segunda potência.


Speed Racer (2008)

O prejuízo: 93 milhões de dólares

O que é: As diretoras de Matrix recebem carta branca para fazer a adaptação de um anime da década de 1960.

Teorias do fracasso: As irmãs Wachowski ofereceram ao mundo sua visão singular sobre busca pela identidade e seu lugar no mundo com a trilogia Matrix, um dos maiores sucessos do cinema de ação (e três filmes excelentes). Recebendo a grana necessária, fizeram de Speed Racer um assalto aos olhos, com corridas cheias de cor que são muito mais uma homenagem à todo um tipo de animação do que qualquer outra coisa. Isso torna o filme ruim? JAMAIS. Isso faz ele ser confuso demais para ter o apelo de público de um filme que custa 120 milhões? JAMAIS.

É ruim? Vou gostar? Olha, o filme foi uma piada quando foi lançado, mas hoje em dia é considerado um dos filmes mais subestimados dos anos 2000.


Tomorrowland: Um Lugar Onde Nada É Impossível (Tomorrowland, 2015)

O prejuízo: de 95 milhões à 159 milhões de dólares, dependendo pra quem você perguntar.

O que é: diretor de renomadas animações decide fazer um live-action que coloca os temas que são subtexto nos seus filmes anteriores como peça central num filme que custa milhões e fica confuso.

Teorias do fracasso: Tomorrowland é um dos dois filmes nessa lista dirigidos por um diretor da Pixar para a Disney querendo começar uma franquia original e falhando na performance. Dirigido por Brad Bird, o filme se foca na hipótese de como seria se existisse um “mundo melhor feito por e para pessoas melhores”. Na superfície, parece uma propaganda para as ideias de Ayn Rand. Por baixo dos panos, é uma dura crítica à meritocracia e ao individualismo. Também é um filme que deveria inspirar a revitalização de uma atração dos parques da Disney. E também foi lançado perto de Os Vingadores: A Era de Ultron e Mad Max: Estrada da Fúria. Tinha muita coisa acontecendo ao mesmo tempo pra esse filme saber o que fazer.

É ruim? Vou gostar? É. Quer dizer, é de longe o pior filme do Brad Bird, que também é um dos melhores diretores americanos em atividade hoje em dia. Mas é um filme com ideias demais na cabeça e se perde frequentemente em tentar colocar elas na tela. Você vai ficar tão perdido quanto a personagem principal no meio do filme que simplesmente se perde e não sabe o que fazer. Bem realista.


A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, 2011)

O prejuízo: 101 milhões de dólares

O que é: um dos maiores diretores do cinema faz uma carta de amor ao cinema mudo em um filme que explora uma nova tecnologia cinematográfica.

Teorias do fracasso: Vou te dizer que eu não tinha ideia que Hugo tinha perdido tanto dinheiro assim. Eu sabia que era o filme mais caro do Martin Scorsese (hoje em dia não é mais, O Irlandês vai falir a Netflix sozinho), mas também é um filme família indicado à uma penca de Oscars (inclusive Filme). Por que um fracasso tão retumbante assim? Olha, eu não sei, mas provavelmente um filme família de um diretor renomado que é também um filme sobre um artista em decadência na Paris dos anos 1900 não fosse tão atrativo assim. O 3D também era um macete que nunca deu muito certo, com exceção de Avatar, então vá saber.

É ruim? Vou gostar? Não e sim! Hugo é um filme muito divertido e provavelmente o mais redondinho dessa lista. É ótimo pra ver com a família na noite de Natal, vai por mim.


Uma Dobra no Tempo (A Whinkle In Time, 2018)

O prejuízo: 131 milhões

O que é: A grande Ava DuVernay dirige a adaptação de um livro considerado inadaptável com a Oprah gigante. 10/10.

Teorias do fracasso: pra começar, eu não tenho ideia de como esse filme existe. Eu nunca li o livro original, mas Uma Dobra no Tempo é uma loucura das boas: uma menina vai procurar o pai em uma viagem interdimensional acompanhada por três “seres astrais” sendo um deles uma Oprah Winfrey gigante. Como você pode imaginar, é uma jornada bem interna de autoconhecimento da garota e seus sentimentos em relação ao seu pai, e eu imagino que muito do livro aconteça internamente. O filme traduz esses sentimentos em cor e vibrações na imagem, em uma mistura que tenta agradar a todo o mundo — uma aventura com vários desafios lógicos para as crianças e um confronto emocional mais quieto. É uma ficção científica se vestindo como fantasia para atrair o público mais jovem, e os dois lados as vezes se atrapalham. (Nada me explica o filme ter perdido mais dinheiro do que o orçamento, porém. Matemática não faz mais sentido).

É bom? Vou gostar? Eu gosto, mas eu não tenho ideia se você vai gostar ou vai achar louco demais. É bem único, isso sim (e é bom ver a Disney apostando pesado em um filme diferente demais, pra variar um pouco).


Final Fantasy (Final Fantasy: The Spirits Within, 2001).

O prejuízo: 133 milhões de dólares

O que é: a primeira animação ultra-realista em um filme.

Teorias do fracasso: Final Fantasy foi um dos filmes mais caros já feitos quando foi lançado em 2001. É uma animação adulta que parecia mais um teste tecnológico — o filme é ultra-realista a um extremo desconfortável —, e suas conexões com a franquia de jogos é subjetiva na melhor das hipóteses. Ele também tem um roteiro indecifrável. Eu não entendo nada que acontece nele. Mas caramba, se não é incrível de ver até hoje.

É bom? Vou gostar? Final Fantasy é mais curioso do que bom, mas ele é muito curioso de se assistir, porque é bem escancarado que é uma vitrine para o poder artístico da equipe de desenvolvimento da Square em criar modelos humanos. O filme, porém, falha em capturar qualquer humanidade emocional — e a distância dos jogos que o inspiraram faz ele ser uma peça de museu bem mais do que um fan service.


John Carter: Entre Dois Mundos (John Carter, 2012)

O prejuízo: entre 138 milhões e 213 milhões de dólares.

O que é: estúdio de animação em computação gráfica decide fazer sua estreia em um filme live action e descobre onde o coração dos seus filmes fica.

Teorias do fracasso: em um determinado momento durante a produção de John Carter os produtores decidiram que o filme deveria mudar o seu título original, John Carter e a Princesa de Marte, porque a palavra “Marte” ia afastar o público. Motivos desconhecidos. Mas o filme é exatamente aquele caso em que um diretor (Andrew Stanton, de Procurando Nemo e WALL-E) tinha um projeto passional em criar uma franquia inspirada em um personagem da sua infância, e sucessos suficientes na carreira pra justificar que um estúdio gastasse buzilhões de dinheiro nesse sonho. O sonho não ficou bom da primeira vez, os produtores mandaram voltar e refazer umas partes, mas perceberam que o problema tava lá no início — o que deu certo em Procurando Nemo e WALL-E foi deixá-los ainda mais pessoais que já eram, encontrar na intimidade de suas histórias algo universal. John Carter viveu num limbo onde não é nem tão específico assim, nem tão amplo o suficiente pra agradar qualquer um como o Homem-Formiga fez. Mas caramba se a Pixar não entregou os efeitos mais fantásticos desse lado de Avatar.

É ruim? Vou gostar? Não vou mentir, John Carter é ruim. Mas é um fracasso com boas intenções. É um início de franquia que tenta ser um filme bom sem engatilhar continuações. É uma pena que o filme tenha outros quinze filmes dentro dele. Mas Marte é linda, e os marcianos são um charme. John Carter é claramente um filme que tinha tudo pra dar super certo e que descarrilhou de uma hora pra outra: tem o mascote focinho, o herói meio burro, a princesa muito mais inteligente e uma comunidade de personagens inspirados. Mas Andrew Stanton ficou preocupado que isso não fosse suficiente, e colocou toda uma penca de tramas paralelas e mitologias barrocas no meio. Se John Carter tivesse dado certo, porém, a Disney poderia estar interessada em um tipo de blockbuster totalmente diferente hoje em dia. E seria fascinante ver ela apostar nesse tipo de vez em quando.

Minha dieta cultural nas últimas semanas

Oi pessoal! As últimas semanas têm sido uma loucura, e eu infelizmente tô sem tempo pra terminar os posts que eu tenho planejado pra postar no PCM. Em um mundo perfeito eu teria contribuições bacanas pra postar nas semanas que eu não consigo escrever, mas em um mundo mais perfeito ainda eu teria dinheiro pra pagar meus amigos pra escrever algo legal, então eu não fico chateado com isso (mas esse é um dos meus planos pro PCM em 2020, spoiler!).

Então, eu decidi que essa semana eu não vou forçar sair um texto ruim sobre algo que eu gosto (como eu fiz com Succession semanas atrás), eu decidi fazer um resumo do que eu gostei de ler, ver, escutar e jogar nas últimas semanas. É algo inspirado no que o Jason Kottke faz há anos no seu blog (que eu também gosto muito, então essa a primeira dica).


Eu ando lendo muito sobre Watchmen ultimamente. Não só por causa do post de duas semanas atrás, mas também porque a série é fantástica e, como The Leftovers, tá rendendo análises e ensaios excelentes.

O The Ringer publicou três textos excelentes que vão fundo nas contradições que fazem a série da HBO ser tão empolgante e rica em interpretações (algo que, vale dizer, pode implodir a série a qualquer instante):

Keith Phipps, um dos meus críticos de cinema favoritos, fez um ranking da melhor franquia do cinema: Godzilla. Todos os Godzilla são excelentes, isso é cientificamente comprovado.

Eu não sou o maior fã de BoJack Horseman, uma série que eu gosto mas falho em me envolver emocionalmente como a maioria dos meus amigos, por isso não escrevo sobre ela aqui. Mas se eu escrevesse, eu queria que fosse basicamente algo como BoJack Horseman is its own harshest critic no The Verge.

Uma das coisas que torna a discussão ao redor de Watchmen tão excelente é que a série tá lidando com fogo de uma maneira tão boa que é difícil de fazer hot takes sobre ela no Twitter, algo que cansou a mente de qualquer pessoa que entrou naquele site nas últimas semanas por causa de coisas como o embate sobre o filme do Coringa ser um perigo pra sociedade ou o fato do Martin Scorsese não gostar de filmes da Marvel, onde basicamente dois grupos de pessoas ficavam brigando em uma constante falsa-equivalência que cansava todo o mundo. Sobre isso eu li esse excelente texto do Bilge Elbiri, Okay, Fine, Let’s Talk About Marvel. É bacana observar também que os fãs desses filmes decidiram parar tudo o que faziam para defender uma corporação que detém 40% da bilheteria internacional e quatro dos cinco filmes mais vistos do ano, mas ninguém se prestou pra criticar como ela está dificultando o acesso das pessoas a filmes mais antigos, como Matt Zoller Seitz investigou em Disney Is Quietly Placing Classic Fox Movies Into Its Vault, and That’s Worrying.

Além disso, o Deadspin, um blog sobre esportes que também posta sobre cultura, política e qualquer coisa que passe pela cabeça dos autores (porque, bem, é um blog), está sendo implodido pelo seu novo chefe, mas é encorajador ver os escritores do site não terem medo de contnuar o excelente trabalho que eles sempre fizeram (o que está causando a demissão dos seus editores) em textos como This is How Things Work Now At G/O Media e The Adults In The Room. Quer ver como o jornalismo do Deadspin é bom, mesmo se você não liga para esportes? Experimente Honestly, You’re Being So Dramatic About Ellen DeGeneres Yukking It Up With A War Criminal At A Cowboys Game, afinal jornalismo esportivo não existe num vácuo.

Eu tenho uma categoria na minha lista de leituras no Pinboard chamada “alguém me socorre desse mundo” em que eu coloco textos sobre como parece que a gente tá vivendo no fim dos tempos, meu tipo favorito de literatura porque reflete minha vida. O mais novo integrante dessa seleta categoria de excelentes textos na internet é The 2010s Broke Our Sense Of Time. É provavelmente o texto que eu mais recomendo você ler de todos esses. Deixa eu pôr uma ênfase aqui pra chamar a atenção.


Séries

Além de Watchmen, que eu tô apaixonado, e de rever Gilmore Girls diariamente pra manter a minha saúde mental intacta nesse mundo, eu terminei The Deuce (HBO Go) ontem. Uma das melhores séries que eu já vi no último ano, é uma jornada pela história do início da indústria de filmes pornográficos na Nova York dos anos 70 e 80. É pesada, como as outras séries do David Simon (The Wire, Treme), mas vale cada segundo. (Não tem tanto James Franco quanto o material publicitário vende, o que é sempre bom pra saúde).

Eu também tô assistindo Forever (Prime Video), uma comédia com Maya Rudolph e Fred Armisen sobre um casal que vive uma vida bem pacata, até que tudo muda (em uma surpresa boa demais pra estragar aqui) e eles começam a questionar sua rotina e o casamento. É muito boa, e como boa parte das “comédias” nessa década, é cheia daqueles momentos silenciosos e tristes sobre o vazio da existência. Uma pena que foi cancelada. :(

Silicon Valley voltou esse domingo também! Eu ainda não vi o episódio, mas tô empolgado. É a última temporada.


Filmes

Aí vai um segredo que meus amigos da faculdade de cinema não podem saber: eu não tenho mais vontade de assistir filmes. Sério, é um problema que eu não sei como resolver. Ultimamente eu ando vendo filmes por obrigação, e puxa eu odeio isso porque eu amo ver filmes.

Mas enfim, eu vi algumas coisas que eu gostei muito nas últimas semanas. O melhor deles foi um curta que vi no MUBI, …À Valparaiso. Ele já saiu do serviço mas ei, olha quem eu achei no YouTube:

Meu amigo Leo me recomendou De Olhos Bem Fechados (HBO Go), o último filme do diretor Stanley Kubrick, um cara que eu não gosto muito (sem piada), mas esse filme é fantástico e levemente perturbador. Recomendo muito.

Eu também gostei muito de A Bolha Assassina (HBO Go), um filme de terror de 1988 que me impressionou pelos efeitos visuais e também pelas observações sociais em que uma cidade no interior dos EUA que prefere acreditar num bando de velho conservador do que jovens que viram um monstro devorando uma pessoa. Bem… preciso, pra falar a verdade.

O MUBI tá fazendo uma retrospectiva da obra de Michael Haneke, um diretor difícil de assistir não só pelos seus filmes conterem visões perturbadoras de violência e apatia humana, mas porque são formalmente crueis. Eu não gosto muito do início da carreira do diretor, e dela eu recomendo principalmente Violência Gratuita, que é um filme difícil de assistir mas quase que um resumo da ópera sobre suas preocupações da midiatização da violência. Agora, Caché é um dos melhores filmes que eu já vi, e leva tanto o método quanto os temas do diretor pra outro patamar (nesse fim de semana entra A Fita Branca, um filme que tá envelhecendo melhor do que deveria).